62 bebendo uísque porque diz ele que estava sofrendo muito, por causa da separação nossa, que eu não queria mais ele, e naquele dia eu não queria mais ele mesmo, já fazia uns dois meses que a gente estava largado. Dá pra fazer uma lista do que ele promete e não cumpre nenhum, “tá bom, vou te dar a ultima chance” eu sempre falo isso que é a última chance, mas nunca é a última, “me dá mais uma chance que você vai ver, não vai se arrepender”, “então tá bom”, conversamos tudo e viemos embora e aí nisso a gente tinha que ficar escondido porque minha mãe não queria mais (GISELE, p. 26).
Mais uma vez o ciclo se reiniciava. Gisele tem faltado aos estudos, as crianças têm faltado à creche, ela se afastou novamente das amigas e dos programas que faziam juntas, tem ficado na casa de Elton durante o dia e à noite volta para a casa de sua mãe. Quando retomamos este cotidiano a fim de refletir sobre esse processo, suas perdas e conquistas, Gisele verbalizou: “Ruim com ele, pior sem ele, né dona?!”
Só que eu não me arrependo de ter meus filhos sabe, é que é difícil, né. Porque mesmo eu estando com ele, eu estou sozinha, estou com ele, mas continuo sozinha, mas fazer o que, estamos aí. (GISELE, p. 27).
63 Patrícia
64 Patrícia, menina doce e dedicada, mulher sonhadora. Filha de pais separados, Patrícia nasceu e foi criada no Jardim Gonzaga junto com seus oito irmãos, três deles apenas por parte de pai. Mora com a mãe, dois irmãos mais novos, duas irmãs mais velhas e um sobrinho, filho de uma das irmãs. Sua casa é uma típica moradia das periferias urbanas: um quarto para todos dormirem, uma sala, a cozinha e um banheiro. Tudo sempre arrumadinho, limpo e organizado, tarefa esta apenas das meninas. Os meninos têm a vida mais solta, sem obrigações dentro e fora de casa, fato este que mobilizava e deixava Patrícia bastante irritada.
Cresceu nesta casa, em um local central do Jd. Gonzaga. Na rua em que mora, existem muitas bocas30, e todos os donos das bocas cresceram com ela. Por este
motivo, Patrícia circula pela rua livremente, tem respeito pelos meninos (jovens envolvidos, ou não, com o comércio ilegal de drogas), e é respeitada. É a amiga, confidente, conselheira, sempre esteve presente na vida desses garotos, e por esta razão é protegida e, por muitas vezes, cerceada.
Conheci Patrícia logo nos primeiros anos da minha participação na equipe do Metuia/UFSCar nas atividades que fazíamos na escola estadual em que ela estudava. Patrícia tinha gosto pelo estudo, gostava de matemática e se destacava nesta matéria. Sempre foi uma jovem sorridente, participativa e carinhosa. Durante os anos da minha graduação e depois, como terapeuta ocupacional, pude acompanhar Patrícia em seu desenvolvimento, amadurecimento, conquistas, desistências e decepções.
No momento da pesquisa, Patrícia já tinha terminado o ensino médio, e estava trabalhando em uma empresa de fastfood da cidade. Começou a trabalhar nesta empresa logo após sua formatura. Não pôde escolher prestar o vestibular, pois era consenso na família que “esse negócio de estudar não dá em nada. Tem que ir trabalhar e pronto!” Patrícia teve suas expectativas frustradas, tinha o sonho de cursar Engenharia de Produção. Diferenciava-se das suas amigas e das outras meninas da comunidade, que sonham em ter filhos e casar. Sem ter como argumentar com a família, Patrícia desistiu temporariamente de perseguir o seu sonho.
65 Para além da argumentação familiar, Patrícia não encontrou meios nem incentivo no sistema público educacional. A escola na qual ela finalizou seus estudos é caracterizada fortemente pela inabilidade dos educadores no que tange especificamente ao manejo com esta população, pelo comércio ilegal de drogas e os altos índices de evasão escolar. Na contramão desses índices, Patrícia terminou o ensino médio, mas foi impossibilitada de persistir no sonho do ingresso em uma universidade.
Depois de um ano trabalhando na empresa de fastfood, de segunda a segunda, em ritmo alucinante, Patrícia começou a pensar novamente em voltar a estudar. Na época, o Projeto Metuia realizava uma Oficina de Atividades, no Centro da Juventude Elaine Viviani, denominada Espaço do Estudante e tinha como proposta dinamizar o aprendizado, por meio de atividades lúdicas, proporcionando auxílio na compreensão de temáticas e disciplinas. Os jovens frequentavam o espaço no período inverso ao escolar e traziam diferentes demandas.
Patrícia, ou Pat, como costumava chamá-la, começou a frequentar as Oficinas e demonstrar interesse em retomar os estudos, a fim de prestar o vestibular. Organizamos nossa equipe em grupo de estudos e fizemos um cronograma com exercícios e teorias. Pat estava radiante, levava livros para casa, fazia os exercícios, trazia dúvidas, e durante quase todo o semestre estas cenas se repetiram. Chegou o momento das inscrições para o vestibular e Pat nos procurou, dizendo que não teria dinheiro para poder pagar a inscrição, que não conseguiria tirar de seu salário, pois a família não sabia de seus esforços, e não poderia comprometer a renda, já que era a única que estava trabalhando remuneradamente em sua casa.
Em conjunto com Pat, iniciamos uma batalha para conseguir a isenção da taxa de inscrição, mas a quantidade de dados, de documentos e de comprovantes31 era
tarefa impossível para ser realizada, mesmo contando com a ajuda de toda a equipe do Metuia/UFSCar. Devido à falta de documentação, o pedido foi negado, e partimos então para articulações com o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente de São Carlos
31 A título de exemplificação, Patrícia morava numa comunidade que foi originada a partir de