No conjunto da obra calviniana, procuramos situar as motivações e a concepção estrutural que possibilitaram a criação de Se um viajante na perscrutação das relações que esse romance estabelece com o projeto maior da poética de Calvino, voltado para a leitura e a escritura, de forma a evidenciar uma tendência fortemente marcada pela metanarrativa, como veremos em seu percurso de leitor e escritor.
O processo metanarrativo sobre a escritura e a leitura presentes em Se um viajante nos leva a contextualizar as experiências do autor; de maneira que não poderíamos deixar à margem o Calvino leitor e seus primeiros amores e modelos latentes. Não se trata de perseguir um trajeto detalhado da biografia do leitor Italo Calvino, mas de apontar como, desde muito cedo, a sua predileção e leitura de determinados autores repercutiram de forma decisiva em seu trabalho criativo. Para tanto, focalizamos essa questão em alguns dos variados perfis de leitores que de alguma forma serão marcantes em sua obra.
No livro de Gian Carlo Ferretti,37 especificamente no tópico Os primeiros amores e
modelos retornantes, encontramos uma lista bastante completa dos perfis de leitores: o
Calvino leitor particular, Calvino leitor ensaísta e resenhista, Calvino leitor editor, o leitor ideal de Calvino, o leitor Einaudi que Calvino ajudou a formar, a imagem que o Calvino editor quer dar ao leitor do Calvino autor, o leitor como objeto de reflexão, os personagens leitores na obra de Calvino, entre outros. Não é possível encontrar, segundo Ferreti, outro autor do século XX, na qual a aventura do leitor, definição quase inevitável, tenha se constituindo uma coisa tão fixa, de tão extensa rede de experiências variadas e de recíprocas relações, da qual o crítico dá um mapa parcial, e do qual trataremos de maneira panorâmica os perfis elencados.
As experiências de vida do autor com a leitura e a escrita estão canalizadas na criação literária num movimento dinâmico de refrações, como podemos observar logo no início da vida do Calvino leitor, cujas duas importantes recordações se integram mutuamente:
O Gordon Pym, da fase romântica de E. A Poe foi uma das primeiras leituras que exigiu uma dedicação total em minha infância. Um tio meu era assinante dos Volumes Verdes, [...]; entre os títulos dourados e alinhados na prateleira, escolhi
Gordon Pym – experiência entre as mais excitantes de minha vida. Emoção física,
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porque certas páginas me davam medo real, e emoção poética como mensagem de um destino. (FERRETI, 1997, p.9.)38
As primeiras leituras vão se constituir em primeiros amores que retornam como modelos, principalmente na passagem da infância para a puberdade. A leitura de Edgar A. Poe vai ser vivenciada como emoção física, muito próxima à experiência da percepção das sensações concretas e sensíveis. Não é raro encontrar leitores-personagens que rememoram essas primeiras experiências, provocando neles uma descoberta que será marcada pela via do prazer das sensações, incitadas pelas imagens e pela estrutura lúdica dos jogos combinatórios de seus romances.
A leitura da infância, ligada ainda à experiência concreta e sensível, retorna em sua obra, procurando oferecer um tipo particular de emoções como aquelas que vêm das imagens de suas primeiras leituras. Para o autor italiano, a cada novo livro que lemos é como olho que aberto modifica a visão dos outros olhos ou livros-olhos que tínhamos antes:
O primeiro verdadeiro prazer da leitura de um livro experimentei um pouco mais tarde: tinha entre doze ou treze anos e foi com Kipling, o primeiro e (especialmente) o segundo livro della Giungla. Não me lembro se me chegou através de uma biblioteca escolar ou se o ganhei de presente. Desde então, eu sempre buscava os livros com o desejo de ver se repetia aquele prazer experimentado com a leitura de Kipling.[Manuscrito não publicado, Álbum, p. 43) (FERRETI, 1999, p. 10). 39
A respeito do romance A trilha dos ninhos de aranha, Calvino reafirma que:
[...] na nova ideia de literatura que eu ansiava fazer reviviam todos os universos literários que haviam me enfeitiçado desde o tempo da infância... (CALVINO, 2004, p. 17)
Kim é lógico,quando analisa com os comissários a situação dos destacamentos, mas quando raciocina caminhando pelas trilhas, as coisas tornam a ser misteriosas e mágicas, a vida dos homens cheia de milagres. Ainda temos a cabeça cheia de
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Texto original: Il Gordon Pym di Poe della “Romantica” è stata uma delle prime letture impegnative totali,
della mia fanciullezza. Un mio zio era abbonato ai volumi verdi [...]; tra i titoli dorati allineati nello scaffale scelsi Gordon Pyn e fu un´esperienza tra le più emozionanti della mia vita: emozione fisica, perchè certe pagine mi fecero letteralmente paura ed emozione poetica, come richiamo d´un destino. A literatura italiana sobre
resistência, 1981, p. 1733-4. 39
Il primo vero piacere della lettura d´um vero libro lo provai abbastanza tardi: avevo già dodici o tredici anni,
e fu con Kipling, il primo e (soprattutto) il secondo libro della Giungla. Non ricordo se ci arrivai attraverso una biblioteca scolastica o perchè lo ebbi in regalo. Da allora in poi avevo qualosa da cercare nei libri: vedere se si ripeteva quel piacere dellla lettura provato con Kiplin.
milagres e magias, pensa Kim. De vez em quando lhe parece que está andando num mundo de símbolos, como o pequeno Kim no meio da Índia, no livro de Kipling, tantas vezes lido quando garoto. (CALVINO, 2004, p. 143)
Em Se um viajante, o prazer experimentado na juventude reaparece no relato do personagem editor Cavaldagna:
Essa noite sonhei que estava em minha cidade, no galinheiro de minha casa, procurava alguma coisa ali, no cesto em que as galinhas botam ovos, e o que encontro? Um livro, um dos livros que li quando era jovem, uma edição popular, as páginas rotas, as gravuras em preto e branco que eu colori com giz de cera... Acredita? Quando moço, eu me escondia no galinheiro para ler. (CALVINO, 1999, p. 101).
Na fala do editor, encontramos uma formulação implícita daquilo que se constituirá um dos traços do variado desenho do seu ideal de leitor. A literatura como emoção e a leitura como prazer inexaurível, ou seja, a descoberta de um livro e a contínua procura de outros, uma experiência que pode parecer irrepetível ou, ao contrário, repetir-se infinitamente.
Nas leituras da infância e da juventude, revela-se uma lista dos escritores amados e dos modelos literários que o autor vai descobrindo: de Pinocchio às Confessioni di um
italiano ad America, de Kafka. Lista que vai se enriquecendo no decorrer dos anos e décadas
com outras descobertas do Calvino ensaísta, resenhista e editor. Entre os nomes que retornam, estão os de Ariosto, Stevenson, Dickens, Conrad, Stendhal, Tostoi, Flaubert, Dostoiévski, Balzac e Hemingway. Nomes que se alternam com aqueles ligados ao seu trabalho de resenhista, como alguns expoentes do neorrealismo – Micheli, Rangoni, Taddei Terra.
É no encontro com Cesare Pavese que Calvino de fato compreende e desenvolve muito de suas experiências como leitor. Pavese formou, com Verga e Vittorini, uma espécie de triângulo do qual Calvino partira para a suas mais diversas experiências de um neorrealismo intenso, na acepção mais forte e livre, como observa Ferretti. Amigo e mestre, Pavese tornou-se um modelo marcadamente reconhecido no aprendizado literário de Italo: ao escrever uma crítica sobre o Sentiero dei nidi di ragno, publicado em 1947, o mestre demonstrou ser um leitor qualificado, capaz de compreender imediatamente o projeto de Calvino expresso naquele romance. Além disso, é o trabalhador incansável que ensina com maestria o ofício editorial ao amigo. Não obstante, a influência pavesiana, com o passar do tempo, não tardará a ser revista em novas construções de modelos e projetos do trabalho crítico de Calvino: manifestará frente à obra e ao magistério do mestre um progressivo
distanciamento, interpretando na morte do intelectual e escritor o limite cronológico de um estágio, cuja“Resistência fez crer que era possível uma literatura como épica, carregada de uma energia a um só tempo racional e vital, social e existencial, coletiva e autobiográfica. Aquela espécie de tensão mítica que anima as obras de Pavese e Vittorini é o fruto mais precioso e irrepetível desse clima [...]”. (CALVINO, 2006, p.63).
Calvino explicita o distanciamento da perspectiva pavesiana não apenas como autor, mas também como editor de si mesmo, ao apresentar essa fase aos seus leitores como um dos seus momentos de passagem, do qual vai se diferenciar toda sua obra posterior. Há também, no fim dos anos de 1940, um encontro de estreita convergência entre o Calvino autor, o Calvino leitor e as atividades de ensaísta e jornalista no seu trabalho editorial desenvolvido na Einaudi. A sua função de editor apresenta-se como uma solução para um problema que Calvino sempre se colocara, que era encontrar um trabalho que pudesse aliar o prático ao criativo, que já desenvolvia com as atividades ligadas à literatura; e isso acontecerá ao ocupar o posto de editor.
As temáticas que passeiam na obra Se um viajante resultam da confluência de suas leituras, mas também das influências de suas equipes de trabalhos e de experiências acumuladas pelas diversas funções assumidas na Editora. Calvino produziu, no ofício editorial, resenhas, prefácios, traduções, editoriais, organização de coletâneas, que favoreceram um conhecimento preciso do cliente e destinatário, um forte sentido de produto e um amor constante pelo objeto livro, quase conatural com sua inventividade. Caso exemplar é o livro Fábulas Italianas, nascido de uma necessidade editorial, mas que resultou para Calvino num programa de trabalho original e inteligente, sempre guiado em função do leitor.
Segundo Ferreti, pode-se observar que em todos os aparatos dos anos de 1950 aos anos de 1980, Calvino editor de si mesmo vinha acentuando essa complexidade, em sintonia, por exemplo, com o interesse pelos modelos matemáticos e lógicos formais, pela semiologia estrutural e pelos jogos combinatórios, de modo a direcionar a sua contemporânea produção literária.
Sobre a tendência à progressiva consolidação de um público sempre mais culto, exigente, determinado nas escolhas, em relação ao vasto público ocasional, mutável e influenciável pelo universo multimídia, Calvino faz a seguinte distinção, no quadro de uma complexa continuidade:
Creio que posso dizer que consegui levar comigo ao menos uma parte de meu público, mesmo escrevendo sempre coisas novas [...]. Meus livros não pertencem à categoria dos best-sellers, que vendem dezenas de milhares de exemplares assim que saem e que no ano seguinte já estão esquecidos. Minha satisfação é ver meus livros reimpressos todos os anos, alguns com uma tiragem de dez, quinze mil exemplares a cada vez. (CALVINO apud FERRETI, 2006, p. 245).
Essas questões transformam-se em conteúdo no centro da arquitetônica de Se um
viajante. O autor aprofunda o que já havia realizado em outras obras ao apresentar perfis de
personagens leitores e escritores, acrescentando agora os espaços pelos quais ocorrem a produção e a recepção dos livros numa metalinguagem jamais vista em obras anteriores. Por isso, a necessidade dessa retomada, não linear, com a vivência do Calvino prefaciador e ensaísta, tendo em vista o que ele próprio adverte, em um discurso já em 1964, sobre a relação comunicante entre os seus prefácios e romances.
Em Se um viajante, no capítulo 8 da moldura, encontramos a metanarrativa problematizada pelo autor criador Silas Flannery, que se apresenta como um autor atormentado, em crise diante da folha em branco, ao mesmo tempo em que polemiza com o escritor produtivo, que escreve para as demandas do mercado, produzindo incessantemente enredos para satisfazer um público habituado a textos de prazer.
No livro Assunto encerrado, no texto Diálogo de dois escritores em crise, Calvino debate com outro escritor, Carlo Cassola, sobre a crise do escritor e os caminhos da literatura. A retomada paródica dessa discussão aparece em Se um viajante, colocando o discurso da crise da escritura em polêmica, operando com a metanarrativa como procedimento do qual decorre uma dinâmica reinterpretação da crise da escritura e mundo.
Então, ao me encontrar a alguns dias, disse-me ele:
− Estou em crise. E eu retorqui:
− Não diga! Você também!
Não porque eu seja cruel a ponto de me alegrar com o sofrimento alheio; mas porque, para um escritor, a situação de crise, quando uma determinada relação com o mundo sobre a qual ele construiu seu trabalho se revela inadequada e é necessário encontrar outra relação, outra maneira de considerar as pessoas, a realidade das coisas, a lógicas das histórias humanas, essa é a única situação a dar frutos, a permitir tocar alguma coisa verdadeira, a permitir escrever precisamente aquilo que
os homens necessitam ler, mesmo que não percebam ter essa necessidade. (CALVINO, 2006, p.80).
Inseridos nos romances, verdadeiros ensaios de poéticas, são muito semelhantes ao programa de Machado de Assis em seus contos teorias como o conto A teoria do medalhão, espécie de paradigma que orienta a criação de um elenco de personagens medalhões que transita pela obra machadiana, dando coesão à concepção filosófica sobre a alma exterior do homem. Da mesma maneira, Calvino tece, na diversidade de estilos, uma fina sintonia entre plano narrativo e plano discursivo autorreflexivo no interior da obra.
Na Coletânea Centopagine, Calvino reúne, entre 1971 a 1983, aquilo que melhor expressa suas tensões, interesses e práticas. Nessa coletânea tem naturalmente muito do Calvino editor de si mesmo. Trabalho que prossegue em perfeita sintonia com toda uma série de escritos autodefinidores, declarações de poética, balanços programáticos, delineando assim uma lúcida estratégia, pronta a dar de si uma precisa imagem ao leitor. O escritor buscou constantemente resolver, elucidar ou recompor as contradições e as descontinuidades de sua produção narrativa, seguindo um desenvolvimento sequencial, coerente, equilibrado e harmonioso. Isso explica porque o seu trabalho apresenta-se sempre inovador no interior de uma reafirmada continuidade; declara-se versátil, com interesses em várias direções, mas com tratos comuns a cada uma de suas provas.
Nos juízos editorias realizados por Calvino, o editor pensa sempre aquele que pode ser o leitor deste ou daquele livro ou texto, atribuindo, por exemplo, nas várias fases uma densidade sempre diversa da sua discriminante preferida: o divertido-tedioso, o do prazer- fático, o romance que prende interiormente, o romance voltado para o exterior, o romance legível e o romance complexo, quase impeditivo de compreensão.
Os discursos sobre Calvino editor de si mesmo, sobre leitores de Calvino e sobre leitores dos livros de outros autores resguardam também e, obviamente, os leitores Einaudi que ele e outros autores e consulentes einaudianos contribuíram para formar com a suas produções pessoais e com os trabalhos editoriais. Citando Giancarlo Roscioni, Ferreti assinala que os métodos de trabalho da redação Einaudi nos anos de juventude de Calvino predispunham naturalmente ao desenvolvimento de interesses interdisciplinares e enciclopédicos. Todos, então, se ocupavam de tudo. Pavese, por exemplo, tanto seguia a tradução e edição de um livro de História ou de Ciências quanto o do último romance.
Calvino fala de um ambiente caracterizado pela preponderância do histórico e do filosófico sobre o literário. Entre os escritores havia uma contínua discussão entre sustentadores de diversas tendências políticas e ideológicas. No Catálogo Einaudi 1956, escreve que a arena da narrativa literária contemporânea, embora as edições Einaudi tenham entrado tarde, constituíram-se depois a espinha óssea – depois de ter criado um público – com a produção cultural, ensaística etc.
Nos intelectuais que operam nesse contexto de experiência, prefiguram-se algumas características fundamentais dos leitores einaudianos: leitor culto, mas não especializado, aberto a interesses multíplices, às leituras literárias e não literárias. É então para esse leitor que se volta Calvino, apresentando em 1976 A Biblioteca Einaudi Giovani, esclarecendo que os historiadores estão ao lado de narradores, podem ser lidos como narradores − Heródoto, Tácito, Gibbon, Gregorivius. Por outro lado, cada narrador é histórico do seu tempo, seja ele Radiguet ou Pasolini, Poe ou Kafka.
Na perspectiva de Calvino, a história pode ser narrada, e a narração historicizada e as dimensões científicas e filosóficas da cultura fazem fronteira com a literatura e são constantemente referidas, parodiadas, citadas. O leitor, portanto, deve estar atento, porque dele se espera que não saia dessa leitura do mesmo modo que entrou, e do autor espera-se que possa apresentar projetos direcionados pela expectativa de avançar junto com o leitor.
Ferreti relembra as respostas de Calvino a um questionário de 1959, nas quais ele contrapõe o leitor „capturado‟ pela „narrativa convincente‟ do romance tradicional ao leitor participativo, cooperante e crítico do romance do século XX. Se compararmos a passagem do romance do século XIX, que "havia tomado para si as funções de muitos gêneros literários", ao romance do século XX, que se distribui em tantas obras rigorosamente unidimensionais, ao romance contemporâneo que movimenta as atenções em infinitas direções ao mesmo tempo, podem-se observar as possibilidades de leituras sobre planos múltiplos que se cruzam.
Calvino expressa, portanto, a possibilidade de leitura sobre planos múltiplos como característica de todos os grandes romances de todas as épocas, inclusive, daqueles que nosso hábito de leitura nos faz crer que lemos como qualquer coisa de estavelmente unitário e unidimensional. É na leitura que se encontra a efetivação verdadeira da escritura, em outras palavras, não é apenas a forma que garante a unidimensionalidade ou multiplicidade de planos de leitura de um romance, mas a capacidade mesma de o leitor portar as chaves necessárias para a abertura interpretativa desses grandes romances. No ensaio intitulado Para quem se
escreve? (A prateleira hipotética), Calvino (2006) reafirma a importância da experiência
leitora: “Um livro é escrito para que possa ser posto ao lado de outros livros, para que entre numa prateleira hipotética e, ao entrar nela, de alguma forma a modifique [...]”. (CALVINO, 2006, p.190).
Complementando suas indagações, Calvino lança outra pergunta Por que ler os
clássicos, onde situa para si e para seus leitores os amplos significados do termo clássico, na
medida em que apresenta a sua prateleira, não apenas hipotética, mas a partir da qual constrói a multiplicidade de suas raízes de leitor, que reverbera profundamente em sua obra crítica e poética. Nesse livro, a exemplo daquilo que fez em Seis propostas para o próximo milênio, Calvino realiza um aprofundado estudo de grandes mestres da literatura num arco onde se cruzam as diacronias e sincronias da criação literária: “Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido ou amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.” (CALVINO, 1993, p.10)
A transitividade dessa preocupação ultrapassa os níveis do leitor real e implícito, são constantes e antigas as presenças de personagens leitores e escritores, mesmo em contexto tão hostis à leitura como, por exemplo, o personagem Zena, do seu primeiro livro A trilha dos
ninhos de aranha (2004) um dos homens da brigada da guerra partigiana:
Às vezes, de noite, Zena, o Comprido, de alcunha Boné-de-Madeira, diz para Pin se calar um pouco, porque encontrou um trecho bonito do livro e quer lê-lo em voz alta. Zena, o Comprido, de alcunha Boné-de-Madeira, passa dias inteiros sem deixar a casinhola, deitado no feno moído, lendo um livrão intitulado Superpolicial, à luz de uma lamparina. É capaz de levar seu livro até nas ações, e de continuar lendo, apoiando o livro no pente da metralhadora, enquanto espera que os alemães cheguem. (CALVINO, 2004, p. 106-107)
Agora está lendo em voz alta com sua monótona cadência genovesa: histórias de homens que desaparecem em misteriosos bairros chineses. O Esperto gosta de ouvir ler e manda que os outros fiquem em silêncio: em toda a sua vida nunca teve paciência para ler um livro, mas certa vez, quando estava na prisão, passou horas e horas ouvindo um velho detento ler em voz alta O Conde de Monte Cristo, e disso