4. CHAPTER: EFFECTS OF LANDLESSNESS ON BATWA
4.5 Institutional contributions to solving problems of landlessness among Batwa in
4.5.3 Economic Contributions
Pensar a metodologia empregada nessa pesquisa significou refletir sobre o que pretendia alcançar com os usos e comportamentos do corpo na escola, além de um inventário dos movimentos ali realizados. Concordo com Le Breton (2006) quando nos alerta que em
propostas de estudos sociológicos e posteriores análises sobre o corpo, é fundamental que sejam desconstruídas as impressões que carregamos sobre esse objeto e que se encontram arraigadas por representações ocidentalizadas, pois só dessa forma nos será permitido um entendimento melhor sobre aquilo que queremos compreender. (LE BRETON, 2006, p.13).
Entendo que o autor quis dizer ser necessário ao pesquisador ter um olhar livre de vícios e estereótipos e, dentro do possível, ser imparcial sobre o seu objeto de estudo, no caso a corporeidade das mulheres educandas da EJA, com o intuito de se desvencilhar de modelos que a economia europeia e, sobretudo, a americana construíram após a 2ª Guerra Mundial, os quais atingiram, hoje, o estatuto a ser seguido e consumido. Ou seja, é fundamental que, sem se deixar “contaminar” por essa estandardização; ao ir para campo, o pesquisador deva ser capaz de ter um olhar que permita uma compreensão mais próxima do real significado do corpo.
Mesmo procurando dizer que não se deixavam afetar por tal estereótipo de corpo, ou até mesmo por não terem consciência de se submeterem a tais modelos, as educandas entrevistadas deixaram escapar que, também, estão submetidas a eles. Ana disse que
Eu é... Só tenho vontade de emagrecer, igual eu tô fazendo o possível pra isso. Mas eu não tenho vontade de ser ninguém não. Eu quero só ser eu mesma. [Já tendo sido magra] Já. Magrinha, magrinha. Foi depois que eu tive essa última menininha minha eu fui e engordei. Tomando anticoncepcional e acabei engordando. Mas eu creio que vou emagrecer, já comecei a perder uns quilinhos. Eu sei que eu vou emagrecer.
Em meu olhar, Camila não aparentava possuir comportamento diferente de Ana, entretanto não admitiu isso. Segundo ela,
Ah, eu me vejo bem, apesar que eu tô um pouquinho gordinha, né! Mas, que eu não era gordinha, mas fiquei gordinha, né! Fazer o que? Então, meu corpo pra mim tá de bom tamanho. O dia que eu falar que o meu corpo não está bem pra mim aí eu tenho que tomar algumas atitudes.
Ao buscar compreender e interpretar a corporeidade das mulheres adultas nas interações em uma sala da EJA, e como ela emergia no cotidiano escolar, busquei, nessa investigação, mais do que quantificar uma ocorrência, ou analisá-la a partir de sua frequência. De outra forma, o propósito foi o de qualificar os fatos do dia a dia, partindo do
pressuposto de que as pessoas agem em função de suas crenças, percepções, sentimentos e valores e que seu comportamento tem sempre um sentido, um significado que não se dá a conhecer de modo imediato, precisando ser desvelado. (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNADJER, 2004, p.131).
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Dessa forma, o desenho e as estratégias metodológicas propostas delinearam-se nos marcos da pesquisa qualitativa, com a preocupação de se compreender as intenções e o significado dos atos humanos, na situação específica aqui já apontada. Estou certo que o grau de subjetividade e o simbolismo compõem a opinião dos sujeitos sobre determinado tema e que esta opinião está calcada na compreensão das relações e das atividades humanas. Isto é diferente de agrupar fenômenos e conceitos/categorias de forma genérica, a partir de observações, experimentações e pela descoberta de leis que ordenam o social. Portanto, optei por realizar uma abordagem que permitisse uma aproximação fundamental e de intimidade entre o sujeito e o objeto, uma vez que ambos são da mesma natureza, com o rigor científico necessário a uma pesquisa de doutoramento. (MINAYO; SANCHES, 1993. p.244).
Faço, assim, a opção pelo uso de metodologias investigativas (Bodgan, Gumes, Schon, Marli André, Schulman, Tardiff) que, por sua diversidade e flexibilidade, não admitem regras precisas, aplicáveis a uma ampla gama de casos, já que a sensibilidade e o olhar do pesquisador são elementos importantes na análise dos dados da pesquisa, que surgem da vivência dos atores em ambientes de ação e de intervenção social. Assim,
por trabalhar em nível de intensidade das relações sociais (para se utilizar uma expressão kantiana), a abordagem qualitativa só pode ser empregada para a compreensão de fenômenos específicos e delimitáveis mais pelo seu grau de complexidade interna do que pela sua expressão quantitativa. (MINAYO; SANCHES, 1993).
Nesse cenário, concordo com a existência de três características nos estudos qualitativos: uma visão holística, onde a compreensão do objeto pesquisado só é possível a partir da compreensão das relações que ocorrem entre os sujeitos em um determinando contexto; uma abordagem indutiva, onde o pesquisador transita mais livremente pelo campo, deixando que as informações necessárias para sua pesquisa emerjam no processo de imersão no campo; e uma investigação naturalística, em que o pesquisador interfere minimamente no ambiente de observação. (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNADJER, 2004, p.131).
Havia optado, inicialmente, por realizar, para a investigação aqui proposta, uma pesquisa etnográfica. Isto porque a etnografia14 é uma metodologia utilizada em consonância com as necessidades do pesquisador, visto que a utilização dos procedimentos e técnicas em seu desenvolvimento “não segue padrões rígidos ou pré-
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É possível encontrar outras nomenclaturas para designar a etnografia, tais como, pesquisa social, observação participante, pesquisa interpretativa, pesquisa analítica, pesquisa hermenêutica.
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determinados, mas sim, o senso que o etnógrafo desenvolve a partir do trabalho de campo no contexto social da pesquisa”. (MATTOS, 2001).
Uma pesquisa etnográfica demanda a observação direta a fim de compreender as formas “costumeiras de viver de um grupo particular de pessoas: um grupo de pessoas associadas de alguma maneira, uma unidade social representativa para estudo, seja ela formada por poucos ou muitos elementos”. (MATTOS, 2001).
Ao deparar com determinadas situações no decorrer da investigação, algumas abordagens, técnicas e instrumentos precisaram ser construídos, com o intuito de atender ao cenário que surgiu para mim, enquanto pesquisador. Isso significa que a utilização da observação remeteu, diretamente, aos problemas trazidos na proposta e aos questionamentos formulados na pesquisa.
Para isso, é que estudos relativos à etnografia apontam para a imersão do pesquisador no campo por um período de
um a dois anos, preferencialmente. Este período se faz necessário para que o/a pesquisador/ra possa entender e validar o significado das ações dos/as participantes, de forma que este seja o mais representativo possível do significado que as próprias pessoas pesquisadas dariam a mesma ação, evento ou situação interpretada. (MATTOS, 2001).
Diante da impossibilidade de me afastar do meu trabalho na PBH, visto que as licenças com vencimento, para fins de aprimoramento profissional foram suspensas há um tempo, houve uma mudança nas minhas intenções iniciais. Havia pensado, primeiramente, em permanecer por, pelo menos, um ano letivo no campo de observação. Mas o tempo disponível foi menor, em função de ter que permanecer exercendo as minhas obrigações no trabalho, durante a realização do Doutorado.
Assim, tentando preservar o cerne da proposta pensada inicialmente, utilizei-me de uma metodologia próxima a da etnografia, que denominei de pesquisa com sensibilidade etnográfica. Quero dizer que tenho consciência que não realizei a etnografia dentro de padrões próprios dessa metodologia, apenas mantive algumas de suas características, realizando uma investigação com cunho etnográfico. Uwe (2004, p.159) avalia que toda observação é considerada uma estratégia mais geral da etnografia, onde “a observação e a participação entrelaçam-se a outros procedimentos, atrai maior atenção”. Assim é que cumpri determinados procedimentos inerentes a etnografia.
Mesmo a imersão em campo tendo ocorrido com um período inferior a um ano, pensados inicialmente, o período de sua realização foi suficiente para eu ter a percepção de alguns padrões de comportamento dos sujeitos da pesquisa, através do
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acompanhamento da rotina dentro da sala de aula, no período de um semestre, e me rendeu os resultados aqui apresentados.
Na perspectiva de investigação das manifestações corporais e da construção de um inventário dessas ações, encontrei, na convivência com os sujeitos, formas de comportamentos deliberadas, o que exigiu algumas análises para compreender as razões e o significado das escolhas efetuadas pelos sujeitos. Quero ressaltar que não houve, a princípio, a intenção de realizar uma microanálise das situações surgidas em sala de aula, mas essa foi uma possibilidade que não foi descartada, o que foi útil em alguns momentos, já que em uma “microanálise etnográfica existe uma preocupação com o interesse dos atores sociais na escolha de uma determinada forma de comportamento e qual o significado desta escolha” (MATTOS, 2001).
Destaco, ainda, que, na convivência com os sujeitos da pesquisa, foi possível estudar as interações entre eles na sala de aula e a forma como construíam o ambiente para que as manifestações corporais ocorressem. É claro que aconteceram interações na sala de aula, além do imediatismo do encontro, já que nesse espaço existem interesses para a construção e/ou manutenção do ambiente. Assim, as relações de gênero, a diversidade cultural e as diferenças sociais, também, estiveram na mira do pesquisador, com o intuito de entender se estas situações e os modos de agir das educandas influenciavam ou modificavam a turma na sala de aula, interferindo nos processos individuais de mobilização para a aprendizagem, apresentadas no item a seguir.
Chamo a atenção para o fato de que a cultura do lugar era um fato importante de ser compreendido, já que ela servia de pano de fundo para as interações no grupo e interferia no contexto da sala de aula. Existia, então, um holos a ser desvendado e (re)conhecido, já que ele era fator de interferência nas partes que o compunham, da mesma forma que o contrário acontecia.
É importante ressaltar, ainda, que existe uma dificuldade em se falar sobre o outro, pois, de certa forma, ao falarmos de suas especificidades, estamos, ao mesmo tempo invadindo o seu universo. Essa é uma ironia dos estudos que consideram os princípios etnográficos, a fim de estabelecer um significado para a interação daquele que é investigado, sem excluí-lo, sem agir como opressor, descrevendo, a partir de um olhar, que não é o dele próprio. O máximo que se consegue é chegar próximo da ação real, pois, mais do que isso, só o sujeito pode fazer.
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