• No results found

Second pathway, convergent synthesis strategy

3. Results and discussion

3.2. Second pathway, convergent synthesis strategy

Nessa seção, serão expostos diferentes esquemas que tentam explicar como se configura o processo que gera conceitos mais gramaticalizados. Os esquemas são elaborados conforme a característica que o pesquisador deseja destacar no processo. Heine et al. (1991, p.98) apresentam alguns modelos que ilustram, de diferentes pontos de vista, as alterações semânticas pelas quais passa um item em gramaticalização.

Uma das primeiras e mais comuns interpretações de gramaticalização é a que concebe a mudança como a perda de traços semânticos. O esquema que representa essa concepção é o “Modelo de bleaching” (Figura 3), cujo principal mecanismo atua como um dispositivo de filtragem que descarta todo o conteúdo lexical de uma unidade e absorve apenas o seu conteúdo gramatical.

conteúdo

conteúdo conteúdo abstrato abstrato

lexical

FIGURA 3: “Modelo de bleaching”

(Heine et al. 1991b, p.109)

Compartilham dessa concepção lingüistas como Lehmann (1995) e Bybee e Pagliuca (1985 apud HEINE et al., 1991b, p.109), que compreendem o desenvolvimento de significados lexicais em direção a significados gramaticais como um “processo de generalização ou enfraquecimento do conteúdo semântico”, pelo qual “significados são esvaziados de suas especificidades”.

significado lexical estrutura estrutura topológica topológica significado do domínio alvo

Por outro lado, há abordagens que enfatizam que a gramaticalização envolve não apenas perda, mas também ganho. Traugott e Sweetser contribuíram decisivamente para essa compreensão mais construtiva do processo. Sweetser (1988, p. 402, apud HEINE et al., 1991b, p.110) argumenta que a perda do significado lexical de uma entidade em gramaticalização é compensada pelo acréscimo do significado característico do novo domínio conceitual, isto é, o sentido do domínio alvo é adicionado ao significado original da palavra. O modelo da “perda e ganho” de Sweetser é ilustrado na Figura 4, que mostra que, na transição de um domínio fonte para um domínio alvo, existe um componente não-afetado pela mudança: (p.110)

Domínio I Domínio II FIGURA 4: “Modelo da perda e ganho” (Sweetser, 1988)

(Heine et al. 1991b, p.110)

Um terceiro modelo que busca representar o processo de gramaticalização é referido como o “Modelo da sobreposição” (Figura 5), segundo o qual existe uma etapa intermediária na transição de um conceito fonte para um conceito alvo, em que ambos os significados coexistem lado a lado, promovendo a ambigüidade semântica (Coates, 1983, apud HEINE et

CONCEITO CONCEITO ANTERIOR POSTERIOR

FIGURA 5: “Modelo da sobreposição”

(Heine et al. 1991b, p.111)

De acordo com Heine et al. (1991b, p.112), esses esquemas representam a mudança como a passagem de um significado para outro. No entanto, de um outro ponto de vista, a gramaticalização não envolve a transição de significados entre duas unidades distintas, mas sim uma modificação da categoria existente, ou seja, um processo de extensão dentro de uma mesma entidade. A Figura 6 demonstra como esse processo é concebido:

categoria prototípica essência nova essência

FIGURA 6:“Modelo de extensão prototípica”

(Heine et al. 1991b, p.112)

Heine et al. (1991b, p.112) declaram que esse esboço é baseado na concepção de Givón (1989) sobre como as categorias prototípicas são modificadas ou estendidas por meio

extensão

da analogia ou metáfora. Essa representação, todavia, não é direcionada à análise da gramaticalização.

Para os pesquisadores, cada um desses modelos abrange um aspecto do processo. A saber, ao longo do processo de gramaticalização, existe perda, como enfatiza o “modelo de

bleaching”, sendo que a unidade gramatical resultante é empobrecida de significados lexicais. Entretanto, há também ganhos, pois novas interpretações do item surgem em diferentes contextos. Além disso, na passagem de um domínio a outro, existe um estágio de sobreposição antes que o significado original seja descartado. Por fim, segundo Heine et al., o processo envolve uma extensão prototípica de um mesmo conceito, no lugar de uma transição de um conceito pra outro.

Tendo em vista essas considerações, os lingüistas buscam elaborar a sua própria estrutura representativa do processo. De certo modo, a perspectiva adotada pelos autores incorpora todas as observações realçadas nos modelos anteriores.

Conforme Heine et al. (1991, p.102-3), no processo de gramaticalização existe o que eles denominam de “macroestrutura” e “microestrutura”. A macroestrutura, que é principalmente de natureza psicológica, diz respeito às relações entre os domínios cognitivos, operadas por meio da similaridade metafórica ou analogia. A microestrutura é baseada na pragmática e relaciona-se, essencialmente, à manipulação conceitual, pela qual as implicaturas conversacionais são convencionalizadas em novos sentidos focais. O Quadro 9 resume essas características:

Macroestrutura Microestrutura

Domínios conceituais “Similaridade”, “analogia”

Transferência entre os domínios conceituais Metáfora

Contexto

Implicaturas conversacionais

Reinterpretação induzida pelo contexto Metonímia

QUADRO 9: Macroestrutura e Microestrutura em Gramaticalização

Heine et al. (1991b, p.99) citam o exemplo da gramaticalização do substantivo vi “criança” no sufixo -ví, do Ewe, que possui o significado “jovem”, quando unido a nomes que denotam animais domésticos ou outros tipos de animais, e o significado “pequeno”, quando adicionado a denotações mais gerais de animais, por exemplo:

nyi “vaca” nyi-ví “bezerro, vaca jovem”

lã “animal” lã-ví “espécie de animal pequeno”

Em termos pragmáticos, pode-se dizer que o substantivo nyi-ví tem como significado estável e focal “jovem”, mas licencia uma sobreposição pragmática do contexto, propiciando a implicatura conceitual “tamanho pequeno”. Essa inferência torna-se convencionalizada quando acompanhada de substantivos do tipo lã “animal”, e origina um novo sentido focal para a unidade (HEINE et al., 1991b, p.101).

Essa configuração, que ressalta tanto a transferência conceitual entre diferentes domínios cognitivos como a reinterpretação induzida pelo contexto, é ilustrada na Figura 7:

X xa A ab B bc C

Domínio I Domínio II

reinterpretação induzida pelo contexto transferência metafórica

(maiúsculas = sentido focal; minúsculas = sentido não-focal) FIGURA 7: “Modelo metafórico-metonímico”