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Second Decadal Symposium Proposal

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Em condições distintas, Arlt voltaria a viajar em 1933, agora pelo litoral argentino. A viagem tem um caráter marcadamente distinto da anterior, realizada em primeira classe, visto que o autor decide fazer parte da tripulação de um navio. Desse modo, Arlt enfatiza a importância da experiência do viageiro, norteada pelo desejo de conhecer o novo (ou aquilo de que ninguém fala), pela experimentação, seguida pela conversão do vivido em texto. Arlt lançaria mão desse expediente novamente alguns anos depois, em sua viagem à Espanha, quando sai para a pesca junto com os pescadores do norte espanhol, ou quando se mistura aos ciganos para conseguir retratá- los em seus relatos.

Desse modo, a bordo do navio Rodolfo Aebi, Arlt percorre o litoral argentino como um tripulante mais, movendo seu lugar de enunciação para um local que não coincide tanto com o do turista moderno quanto com o do mero cronista que descreve a partir do que apenas vê (SAÍTTA, 2013:231). É desse ponto de vista quase mimético que Arlt envia suas notas passando por diversas cidades em direção ao Chaco argentino,

16 Espérenme que llegaré en aeroplano, 21/05/1930; Diario del que va a viajar en aeroplano, 30/05/1930; ¡Es lindo viajar en hidroavión!, 01/06/1930.

relatando paisagens, cidades, pessoas e as atividades náuticas com que tomava contato. No ano seguinte, o escritor terá um novo destino a explorar, dessa vez ao sul. É enviado à Patagônia argentina, onde se defrontará pela primeira vez com paisagens praticamente intocadas pelo homem, bem distintas de seus cenários habituais, superpovoados e caóticos. Essa mudança, como observa Saítta (2008: 188), “pone en cuestión la posibilidad de traducir lo visual”, levando Arlt a buscar novas imagens e estratégias narrativas para contornar a situação imposta. Tal “impossibilidade de tradução” se manifestaria novamente em outras ocasiões de deslocamento, inclusive na viagem à Espanha, ao deparar-se com temas como El Escorial, onde se constata uma abrupta ruptura em relação aos textos madrilenhos anteriores, como aponta Cimadevilla (2013:12).

2.6 “Me voy a España”

O ano de 1935 pode ser considerado fundamental para definir os caminhos literários que percorreria Arlt. Àquela altura, já havia publicado seu último romance, El

amor brujo, em 1932, bem como estreara no mesmo ano sua primeira peça teatral,

Trescientos millones. Também havia publicado seu primeiro volume de contos, El

Jorobadito (1933). É nesse contexto que recebe a notícia de que fará sua maior, mais duradoura e mais esperada viagem: embarcará para a Europa em fevereiro, devendo percorrer toda a Espanha. Tal notícia, como assinala Borré (2000: 76), representava uma distinção e vantagens econômicas, visto que seu salário seria aumentado, mas também a obrigação de manter o interesse dos leitores em sua coluna. A viagem, ademais, está em plena sintonia com as práticas jornalísticas do seu tempo: como observa Saítta (2008: 194), Arlt viaja porque sua escrita lhe possibilita isso. Trata-se de um profissional assalariado que apresentará seu trabalho através do suporte jornalístico, contrastando com os antigos relatos de viagens produzidos sem método e ao acaso por viajantes ocasionais. No que toca a sua obra, a viagem poderia proporcionar um leque de opções para Arlt: contatos com escritores e outros artistas, oportunidades de publicações em jornais locais, de difusão de suas peças teatrais em terras espanholas17.

17 Arlt, de fato, busca alguma inserção na cena local, ao menos no âmbito do teatro. El Heraldo de

Madrid, em 10 de janeiro de 1936, página 9, publicou entrevista com o dramaturgo Jacinto Grau (que seria personagem de duas Aguafuertes madrileñas), acenando com a possibilidade de estreia da peça de Arlt “El déspota Saverio” (sic) no Cine Teatro Club, sob sua presidência. Anteriormente, o mesmo jornal já havia publicado uma nota acerca da estadia de Arlt na Espanha, e o articulista José Alfredo

É com todas essas possibilidades que Arlt, acompanhado de sua máquina de escrever e de uma Kodak globe-trotter disponibilizada pelo jornal, embarca no navio

Santo Tomé em fevereiro. Após uma passagem pelas ilhas Canárias, chega a Cádiz, a partir de onde inicia seu périplo espanhol. Na Espanha, escreveria cerca de duzentas

aguafuertes, em séries temáticas relativas às regiões visitadas (as denominadas

Españolas – que em realidade referem-se à região de Andaluzia –, seguidas das

Gallegas, Asturianas, Vascas e Madrileñas, além das Africanas, referentes a uma breve incursão no Marrocos) no decorrer de cerca de quatorze meses.

Seu projeto de viagem fora estabelecido previamente, e, como aponta Juaréz (2008: 65), guarda similitudes com aquele traçado para a ida ao Rio de Janeiro: a perspectiva de conhecer através da experiência, de se aprofundar na “cor local” e apresentar o desconhecido para seus leitores, em detrimento do modo “antigo” de se relatar viagens, fundado em exotismo e pontos turísticos, exposto pelo autor anteriormente18, são ideias que permanecem em voga. É desse modo que Arlt procura participar de eventos como a Semana Santa em Sevilha, ou se lançar ao mar com pescadores de sardinhas, ou visitar as minas de carvão em Oviedo. No entanto, como observa Saítta (2008: 195), algo não estava previsto em seu processo de criação: a Espanha encontrava-se agitada politicamente naquele momento, e esse era o assunto do dia em todos os lugares por onde anda o escritor. Arlt observa que tal componente não poderia ser desprezado em seus relatos, e o aspecto político o acompanha em paralelo por toda a viagem, atingindo seu clímax justamente em Madri, onde o escritor chega em vésperas de eleição, e suas notas adquirem, por vezes, o tom dos correspondentes internacionais.

Juárez (2008: 64) observa que a viagem à Espanha e Marrocos marca uma mudança acentuada na literatura de Arlt, que buscava um novo estilo e uma nova forma de representação espacial e narrativa. Nesse sentido, pode-se dizer que o percurso real, de vivência de novos mundos e perspectivas caminhou em paralelo com o percurso metafórico de assentamento de novos procedimentos literários. Como aponta a mesma autora (2008: 91), ao contrário do que se pode observar nos romances de Arlt, nesta série de aguafuertes o que se representa é “un paisaje onírico, universo alucinatorio y de ensueño infantil, que roza la orden de lo maravilloso”. Tal cenário, oposto ao de sua

Lloriente aventa a possibilidade de estreia de peça inédita intitulada La cabeza cortada (El Heraldo de

Madrid, 20 de abril de 1935, p. 7).

terra natal, reflete o fascínio do viageiro, ao mesmo tempo em que expõe o antagonismo que se gera entre a Espanha como lugar ideal e a Argentina, lugar do caos. Saítta corrobora essa ideia: “el viaje a Europa repercute en el modo en que Arlt concibe el porqué de su escritura y su función como cronista de viajes” (2008: 216). Esse processo ocorre pela exposição a uma nova realidade, que, por sua vez, está também em convulsão e transformação.

Cabe observar que, ainda que o quadro apontado pareça próximo da idealização pura e simples, Arlt não salta por sobre questões que vê e o incomodam. A situação de pobreza que assola a Espanha naquele momento não é omitida, bem como o sentimento de revolta contida que observa nos operários em Oviedo, ou mesmo os acontecimentos cada vez mais graves que se apresentam ao longo de sua estada em Madri. Desse modo, seus relatos mantêm um olhar de admiração, ainda que não omitam pontos negativos observados, buscando reflexões e sensações acerca de ambos, o que gera relatos de viagem mais multifacetados que o habitual, transitando entre o relato viageiro típico, a crônica de costumes e os relatos ficcionalizados, e flertando com o conto e relatos jornalísticos de correspondentes internacionais.

Ademais, é digno de nota que, apesar de defender o conhecimento através da experiência sem mediação, em detrimento do conhecimento meramente livresco, ou da mera descrição de cartões postais, em alguns momentos Arlt acaba retomando algumas das fórmulas rechaçadas, como, por exemplo, ao visitar Toledo e demonstrar seu fascínio por El Greco, ou durante sua visita ao Palácio Real em Madri. Como aponta Juaréz (2008: 66), essas formas de representação, ainda que minoritárias, convivem com aquelas construídas a partir da experiência e do olhar em torno do periférico.

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