3. RESULTATS I DISCUSSIÓ
3.3. Seccions censals
Introdução
O presente estudo pauta-se pela análise de pesquisas em geo- grafia urbana que tiveram como base analítica o método regressivo- progressivo de Henri Lefèbvre. Cabe ressaltar que o levantamento dessas contribuições teórico-metodológias teve como universo de pesquisa as teses e dissertações defendidas no Programa de Pós- Graduação em Geografia, da Unesp de Rio Claro (SP).
O quadro de enfoque teórico-metodológico na área de geografia urbana tem se tornado nos últimos anos bastante diversificado, isso porque a realidade urbana brasileira e mundial tem se apresentado cada vez mais complexa e a compreensão dos diversos problemas dependem de enfoques, muitas vezes, diferenciados e inovadores.
Nesse sentido, um dos caminhos teóricos que têm se apresentado para entender o urbano hoje passa pela contribuição de Henri Lefèb- vre, que busca na complexidade da vida cotidiana a explicação para a sociedade urbana. Ao observar o cotidiano, Lefèbvre nos remete a uma reflexão bastante profunda da sociedade urbana, levando-nos
ao entendimento do espaço como produto e condição das relações sociais de produção.
Além disso, Lefèbvre (1973) retoma a questão da re-produção, e, de modo aprofundado, contribui para o entendimento da reali- dade socioespacial. Para ele, o processo da re-produção é bastante complexo, pois desloca, modifica e amplia as contradições, masca- rando os reais conflitos da realidade. O processo de re-produção é, portanto, o grande fio condutor na análise da realidade sob o prisma lefebvriano. O autor apresenta como grande desafio uma perspectiva de abordagem que ultrapassa a descrição dos processos parciais, exigindo uma análise aprofundada das relações sociais de produção. Com esse percurso reflexivo desmistifica o entendimento de que a reprodução das relações capitalistas é um processo natural, ou seja, ele não analisa somente o modo de produção, mas vai além, colocando que o ponto focal da análise deve ser o entendimento da reprodução das relações de produção, pois é por meio dela que o capitalismo continua e continuará influente e dominador.
O cotidiano, nos três volumes da Critique de la vie quotidienne (Lefèbvre, 1958, v.I; 1961, v.II; 1981, v.III), foi uma categoria de análise amplamente trabalhada por Lefèbvre e entendido como elo e explicação de diversos aspectos da realidade. É, portanto, na obra desse autor, que os geógrafos têm buscado, em seus estudos, o sentido da interpretação do cotidiano urbano.
Martins (2000, p.57), ao trabalhar com essa interpretação do cotidiano, coloca que “É que no pequeno mundo de todos os dias está também o tempo e o lugar da eficácia das vontades individuais, daquilo que faz a força da sociedade civil, dos movimentos sociais”. Ter o cotidiano como categoria de análisesignifica se deter tam- bém no miúdo, no elementar, considerando na vida banal o mo- mento do extraordinário, do possível. Para Lefèbvre, as respostas de mudança estão nesses momentos, que são a grande essência de seu método. A partir do cotidiano não generalizamos o domínio do mundial no lugar, pois necessariamente estaremos considerando o viver (que está no plano social) e o vivido (que está no plano pessoal) e encontrando nessas relações mútuas a identificação dos indivíduos
com sua história, que é local. Por tudo isso, o cotidiano não pode ser um modelo universal, ele depende do lugar e de suas especificida- des. “Se a vida de todo dia se tornou o refúgio dos céticos, tornou-se igualmente o ponto de referência das novas esperanças da socieda- de. O novo herói da vida é o homem comum imerso no cotidiano” (Martins, 2000, p.57).
Segundo Lefèbvre (1981), o cotidiano é, de um lado, modalidade de organização empírica da vida humana e, de outro, um conjunto de representações que mascaram essa organização, sua contingência e seus riscos. Sua abordagem não é uma tarefa fácil, pois muitas vezes a realidade que a vida cotidiana nos passa é de muitos duplos: inconsistência e solidez; fragilidade e coesão; seriedade e futilidade; drama profundo e máscara de comédia sobre a vida.Lefèbvre procura nos mostrar os caminhos para a crítica da vida cotidiana, a qual ele classifica como uma metafilosofia do cotidiano, e que determinam as regras fundamentais de seu pensamento.
Para a realização da análise proposta neste texto é preciso apresen- tar o método lefebvriano, que prevê três momentos de investigação: o descritivo, o analítico-regressivo e o histórico-genético. Esse método foi proposto por Henry Lefèbvre como uma alternativa aos estudos de sociologia rural, mas pela sua riqueza, mostrou-se adaptável para diversas áreas das ciências sociais, e está formulado em seu livro De lo rural a lo urbano (Lefèbvre, 1978).
O primeiro momento do método – o descritivo – se dá pela obser- vação do objeto de estudo, com diversas técnicas que possam ajudar na descrição.
José de Souza Martins (1996, p.21) organizou o livro Henri Lefèb- vre e o retorno a dialética e nos alerta que nesse momento descritivo do método: “A complexidade horizontal da vida social pode e deve ser reconhecida na descrição do visível. Cabe ao pesquisador recons- tituir, a partir de um olhar teoricamente informado, a diversidade das relações sociais, identificando e descrevendo o que vê”.
Não se trata, portanto, da descrição pura e simples dos fatos, pois isso fatalmente nos levaria a uma análise parcial do fenômeno. Essa descrição, que é a primeira fase do método, deve se apoiar, sobretudo,
em uma teoria crítica da vida cotidiana, nessa fase do trabalho: “o tempo de cada relação social ainda não está identificado. O pesqui- sador procede mais como um etnógrafo” (ibidem).
O segundo momento é o analítico-regressivo, que prevê a análise da realidade descrita, sem fechá-la totalmente, isto é, deverão ser consideradas as contradições e as possibilidades. Nessa fase do mé- todo, nos diz Martins (ibidem, p.21):
a realidade é analisada, decomposta. É quando o pesquisador deve fazer um esforço para datá-la exatamente. Cada relação social tem sua idade e sua data, cada elemento da cultura material e espiritual também tem a sua data. O que no primeiro momento parecia si- multâneo e contemporâneo é descoberto agora como remanescente de época específica. De modo que no vivido se faz de fato a com- binação prática de coisas, relações e concepções que de fato não são contemporâneas.
O terceiro momento previsto pelo método é o histórico-genético, fase também conhecida como regressiva-progressiva, onde reen- contramos o presente já descrito, retomando as modificações que a estrutura nos apresenta. Trata-se do momento em que buscaremos a gênese das formações dessas estruturas, apontando um marco geral de transformação sem perder o processo de conjunto. Segundo Le- fèbvre (1978), é imprescindível nesse método considerar a interação das estruturas, a influência das estruturas recentes sobre as estruturas antigas subordinadas ou integradas às primeiras.
Martins (ibidem, p.22), ao trabalhar com este método, esclarece- nos que:
Nesse momento regressivo-progressivo é possível descobrir que as contradições sociais são históricas e não se reduzem a con- frontos de interesses entre diferentes categorias sociais. Ao contrá- rio na concepção lefebvriana de contradição, os desencontros são também desencontros de tempos e, portanto, de possibilidades. Na descoberta da gênese contraditória de relações e concepções
que persistem está a descoberta de contradições não resolvidas, de alternativas não consumadas, necessidades insuficientemente atendidas, virtualidade não realizadas. Na gênese dessas contra- dições está de fato a gestação de virtualidades e possibilidades que ainda não se cumpriram.
É preciso, entretanto, antever que, embora as concepções da vida, das mudanças e da história sejam apoiadas em extensões de tempo, não significa que devam ser identificadas a partir da ideia de suces- sões de etapas históricas, ou seja, recuperam-se, por esse método de investigação, as temporalidades desencontradas e coexistentes.
Nessa fase final do método, deve-se apresentar uma análise geral das modificações apontadas, sob a luz da teoria da reprodução das relações de produção. É preciso nesse momento retomar o marco de mudança já identificado reencontrando o presente. É também im- portante apontar as contradições emergentes, traçando as reflexões finais sobre o problema estudado.
Tanto na procura, como na análise do “marco” de mudança, devemos estar atentos, pois é a partir do momento histórico em que a reprodução das relações sociais de produção ganha outro sentido que a mundialidade do espaço consegue se manifestar.
Lefèbvre acredita que o presente não esclarece o real, por isso ele faz a regressão, procurando encontrar o marco da mudança. Esse percurso demonstrado pelo autor requer um esforço de reflexão que tem como pano de fundo o método dialético de investigação, pois nos faz enxergar que por trás de toda a coerência que o modo de produção capitalista tenta passar há um processo rico em contradi- ção se desenvolvendo. “É dessa tensão que nasce a possibilidade da práxis revolucionária. Práxis que se funda no resgate e na unificação política dos resíduos – concepções e relações residuais que não foram capturadas pelo poder, que permaneceram nos subterrâneos da vida social, virtualidades bloqueadas” (Martins, 1996, p.23):
Trata-se de reconhecer onde estão o antigo, o novo, o diferente, pois é a relação dialética desses três movimentos que mantém a
reprodutibilidade do sistema. O novo aparece, muitas vezes, como tendência, uma novidade que contém diferentes tempos históricos, mas que ao ser investigado pode nos oferecer os elementos para uma análise que contribua para desvendar a essência da transformação da realidade, descrita no início do trabalho. (Ortigoza, 2001, p.22) Ao fazer o levantamento das teses e dissertações defendidas no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Unesp de Rio Claro (SP) na área de geografia urbana e que utilizaram a teoria lefebvriana aplicando o método regressivo-progressivo em suas análises, depa- ramos com um total de sete pesquisas desenvolvidas com o mesmo enfoque, sendo três teses (Ortigoza, 2001; Vieira, 2002; Costa, 2003) e quatro dissertações (Silva, 2003; Godoy, 2005; Carmo, 2006; Mak, 2007). Neste texto, embora o foco mais detalhado sejam as análises da teses, citaremos também os resumos de apresentação de cada uma das dissertações, para que o leitor tenha oportunidade de observar de forma mais global as possibilidades de abordagem na geografia urbana do referido método.