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3. RESULTS AND DISCUSSION

3.4 Seasonal variation

3.4.3 Seasonal variation in Ruppia species (paper II)

Neste contexto, uma das maiores dificuldades tem passado pela transferência de práticas de gestão editorial e comercial do suporte clássico para a novel entidade binária. Na maior parte dos casos a mudança revela-se desajustada, acusando rumos indefinidos, elaboração de produtos ausentes de características multimédia e lógicas publicitárias que procuram vender a nova plataforma como se da antiga se tratasse, ou pior, ignorando as suas possibilidades.

Analisemos, separadamente, estas dificuldades, iniciando o enfoque no modo como às empresas se lançam novos desafios e na forma como as redacções se estruturaram para o trabalho digital. O olhar amplo de Manuel Castells constata que “A Internet está a transformar a prática empresarial na sua relação com os fornecedores e os clientes, na sua gestão, no seu processo de produção, na sua cooperação com outras empresas, no seu funcionamento e na valorização das acções nos mercados financeiros” (2004:87). E tudo isto acontece, diz o autor, porque a net se constitui como a “base tecnológica da forma organizacional que caracteriza a Era da Informação: a rede” (2004:15). Castells vai mais longe ao defender o conceito de “empresa-rede” (2002), o modo organizacional que faz da ligação entre os vários parceiros de negócio, a forma eficaz de cooperação e de projecto empresarial. Este

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conceito será retomado no decorrer desta trabalho (Capítulo VI) aquando da reflexão sobre o modo de funcionamento da RTP e da RTVE.

As questões comerciais que envolvem os aspectos publicitários resultam da convergência desejável e crescente entre a televisão e a internet, e vice-versa, traduzindo-se no aparecimento de novas modalidades, fruto de adaptação de cada um dos suportes ou da junção/combinação de ambos. “Spots publicitários. Anúncios tradicionales para la televisión o para internet. Banners. Diseño de publicidade en los sítios Web. Pop up Banners. Son los banners vinculados a determinados contenidos que aparecen en una ventana cuando se entra en ellos. Logos. Presentación de logótipos de clientes com un enlace directo a sus webs. ProductPlacement. Es la colocación de marcas de productos en las animaciones” (2004:220) são alguns dos exemplos referidos por Cebrián Herreros.

Mas a realidade revela circunstâncias desajustadas e que traduzem práticas altamente lesivas para a esfera empresarial, pois como referem Salaverría e Negredo “incluso en esas compañias periodísticas que han superado la fase de competencia interna entre departamentos comerciales, pervive todavía la descoordinación entre los respectivos departamentos editoriales. Y, se mire por donde se mire, no parece conveniente mantener una doble personalidad entre el público. Si se mantienen distintas líneas editoriales e, incluso, diferentes umbrales de calidad en el medio impreso y en el digital, es muy probable que al final salga perjudicada toda la marca. La coordinación editorial favorece la identificación del medio con su lector de papel, anque debe asumirse con reservas, porque la audiencia de internet es más heterogénea desde el punto de vista ideológico” (2008:161).

Se ao nível da cúpula organizacional se registam alterações, também nas lógicas internas da redacção, as mudanças são vistas através de diferentes óculos apreciativos. Hélder Bastos (2000) assinala algumas crispações no interior das empresas jornalísticas – “A transferência de jornalistas de redacções tradicionais para redacções online não foi encarada de modo completamente pacífico no interior das empresas jornalísticas, quer sob o ponto de vista meramente organizativo, quer sob a vertente da prática jornalística. Alguns jornalistas da imprensa veem os seus colegas online com uma mistura de suspeição (“Eles vão tornar-me obsoleto?”), ressentimento

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(“Eles vão descer os nossos padrões jornalísticos e gastar o dinheiro do nosso departamento de notícias?) e desdém (“O que eles estão a fazer é tecnologia, não jornalismo”) (2000:135). A leitura de Bastos aponta para algumas questões fundamentais: a estafada guerra entre novos e velhos modelos de trabalho, as querelas concorrenciais dentro da própria empresa e o despeito de alguns profissionais sobre o jornalismo electrónico. Destas e doutras questiúnculas se vai fazendo a “integração” das renovadas abordagens digitais, com a certeza de que, com raras excepções, não existem casos absolutamente pacíficos de sã convivência empresarial e editorial.

As dificuldades de natureza comercial, no que à evolução da Internet diz respeito, radicam num pressuposto original: a rede nasce comprometida com a gratuitidade. Tim Berners Lee, o investigador que inventou a tecnologia World Wide Web, ofereceu ao mundo a descoberta que haveria de transformar radicalmente todas as áreas da vida social, política, económica, financeira, etc., etc., etc. O seu aparecimento confunde-se com a generosidade de uma dádiva, sendo que a estrondosa adesão do público muito se deveu ao interesse imediato nos serviços e conteúdos disponibilizados gratuitamente, tendo-se traduzido numa rápida, crescente e eficaz fidelização de utilizadores.

A WWW nasce assim de uma forma alegadamente descomprometida com as questões financeiras, afirmando um modo quase romântico e altruísta de estar em sociedade, traduzindo-se na liberdade de, entre outras coisas, ocupar espaço virtual, publicar conteúdos, captar utilizadores. Embora esta tenha sido uma das características iniciais da web, colidiu, no entanto, com o modo convencional de fazer negócio, sendo que esta componente de acessibilidade esboroou-se aquando do crescimento e maturidade (!) da própria rede.

Do ponto de vista comercial, as inúmeras alterações de suporte passam a condicionar a perspectiva de quem trabalha em publicidade. A natureza da “página” e da panóplia de suportes de comunicação (fixa e móvel) são geradoras de novas interpretações, de novos dispositivos, de novos produtos. Constitui-se como angariadora de sedutores segmentos de mercado, procurando a sustentabilidade financeira dos projectos e, preferencialmente, a rentabilização dos lucros alcançados.

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Não sendo um objecto central deste estudo, não podemos deixar de referir que a dimensão comercial é das que mais dificuldades tem manifestado em assumir-se, tendo em conta, por um lado, o produto que tem em mãos e, por outro, em fazer vingar o novo conceito de comunicação a clientes publicitários. Francisco Rui Cádima defende a necessidade de serem desenvolvidos “(…)modelos de negócio realistas e pugnar por mais funcionalidades, mais flexibilidade dos sistemas interactivos alargando e reforçando necessidades existentes ou previamente identificadas através de estudos específicos”(2006b:155). Também aqui, a massa crítica acusa deficiências, num claro prejuízo para as empresas jornalísticas com expressão online.

A questão da sustentabilidade económica constitui uma das mais importantes dificuldades a ultrapassar nesta travessia digital. De facto, as condicionantes económicas cruzam-se com as condicionantes de natureza tecnológica. Os investimentos técnicos e humanos, apesar de substancialmente reduzidos quando comparados com os formatos lineares, correspondem a sérios obstáculos a uma implementação do modelo digital. Apostar online é ter a noção de que a dimensão tecnológica, traduzida em hardware e software de especialidade, largura de banda e velocidade de acesso à informação, bem como o domínio sobre os vários formatos em diálogo, reveste-se de uma importância capital, sob pena de inoperância ou ineficácia de um determinado serviço.

Os projectos surgidos no mercado resultam de dois percursos bem diferenciados que podemos sintetizar do seguinte modo: (1) são fruto da bifurcação de anteriores projectos tradicionais (jornal, rádio, televisão) constituindo-se como a sua presença online; (2) ou da criação de raiz de empresas de jornalismo exclusivamente electrónicas. Como se torna evidente, é substancialmente diferente estar alicerçado num grupo que protege, incentiva e financia uma nova abordagem empresarial ou procurar vingar, de forma mais ou menos isolada, um projecto de natureza editorial.

Directa e indirectamente, a capacidade de munir adequadamente uma redacção encontra entraves económicos, e por consequência técnicos, sempre presentes quando se trata de investir em novas áreas de negócio. Ora, face ao investimento, é inquestionável que o capital em jogo implique o seu retorno, num prazo temporal devidamente definido. Face às particularidades do suporte, e tendo

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em conta a ambiência comercial, grandes e pequenos investidores encontram na internet, uma possibilidade de negócio, um investimento material e humano, uma oportunidade para ampliar o capital financeiro. A prática também tem mostrado que a presença na net se reveste de retornos imateriais, por vezes dificilmente mensuráveis: prestígio, look de modernidade, afirmação de novas tecnologias e de novas linguagens, tentativas de novas relações comerciais. É sabido que as dot.com têm sofrido sérios reveses, que as apostas empresariais vacilam entre o êxito estrondoso, de um Youtube, ou de vergonhosos fracassos já que não existem sucessos por antecipação.

Nesta área, como em todas as que envolvem investimentos financeiros, exige- se rentabilidade, sustentabilidade e durabilidade financeira. O mercado ainda está longe de abraçar todas as presenças editoriais na Internet, não garantindo condições de segurança e sobrevivência. O intervalo entre 1995-2005, correspondente à primeira década de jornalismo português online, fica marcado por ter sido um “período turbulento”, tendo contabilizado “perdas financeiras e qualitativas, desvios estratégicos e retrocessos em actividades centrais, distanciamento das tradicionais fontes de receitas (anunciantes), sugerindo a necessidade de reconfiguração da identidade da empresa jornalística para superar tais impasses” (Bertocchi, 2006:172). No entanto, o breve mas ciclópico percurso da rede tem mostrado que este é, teoricamente, um palco de forte componente de negócio, explorando áreas emergentes no campo do marketing e da publicidade. No entanto, e até à data, constata-se a ausência de um modelo de negócio devidamente estruturado, consistente e sólido que permita vingar confortavelmente muitos dos projectos jornalísticos16. Pese embora as estratégias cada vez mais apuradas para introduzir,

acompanhar, avaliar, redefinir e obter resultados expressivos, ainda se torna extremamente complexo antecipar ganhos e efeitos positivos de campanhas online.

16 Em Produción periodística yu nuevas tecnologias – Estrategias de la prensa ante la convergência

mediática, Pedro Antonio Rojo Villada (2003) explora o que denomina de “novos modelos comerciais para a imprensa” sugerindo abordagens consentâneas com os novos media.

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