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Da mesma forma como tive acesso à série de Harry Potter, conheci Desventuras em série, de Lemony Snicket — acidentalmente. Tive acesso ao primeiro volume através de um sobrinho de 10 anos no início de 2005. A quarta capa trazia a seguinte mensagem:

Caro Leitor,

Sinto muito dizer que o livro que você tem nas mãos é bastante desagradável. Conta a infeliz história de três crianças muito sem sorte. Apesar de encantadores e inteligentes, os irmãos Baudelaire levam uma vida esmagada por aflições e infortúnios. Logo no primeiro capítulo as crianças estão na praia e recebem uma trágica notícia. A infelicidade segue os seus passos, como se eles fossem ímãs que atraíssem desgraças. Neste pequeno volume, os três jovens têm que lidar com um repulsivo vilão dominado pela cobiça, com roupas que pinicam o corpo, um incêndio calamitoso, um plano para roubar a fortuna deles e mingau frio servido como café da manhã.

É meu triste dever pôr no papel essas histórias lamentáveis. Mas não há nada que o impeça de largar o livro imediatamente e sair para outra leitura sobre coisas alegres, se é isso que você prefere.

Respeitosamente, Lemony Snicket 154

A inusitada apresentação do narrador lembra o tom que aparece em La vida de Lazzarilo de Tormes y de sus fortunas y adversidades, texto anônimo cujos primeiros registros escritos datam de 1554, e marco na narrativa picaresca que fornecerá muitos elementos aos contos infantis. Além da apresentação, a escolha de “Baudelaire” pareceu-me indicador de uma brincadeira com um determinado tipo de leitor, impressão que se acentuou

ao ler o nome do tutor das crianças — o Sr. Poe. Todos os livros da série são dedicados a uma amada morta. No primeiro tem-se “Para Beatrice — querida, adorada, morta”. As epígrafes variam de forma jocosa e as constantes menções ao fato de ela estar morta me lembraram a famosa Beatriz de Dante.

Desventuras em série, embora escrita em língua inglesa, sai do universo mágico proposto por Diana Wynne Jones, J.K.Rowling, Tolkien, Lloyd Alexander e apresenta alguns aspectos singulares em relação ao aspecto formal da maioria das obras em circulação. A coleção entrou no circuito inglês em 1999, quando o primeiro volume veio a público pela editora HarperCollins. No Brasil, os três primeiros volumes chegaram em 2001, o quarto e o quinto em 2002, o sexto e o sétimo em 2003. Uma maior repercussão no ambiente virtual se deve à associação dos volumes nono e décimo ao filme, todos lançados em 2004. Os volumes décimo primeiro e décimo segundo chegaram às livrarias em 2005 e 2006, respectivamente.

Embora não haja mágicas na série, os leitores fazem comparações entre o universo potteriano e o de Desventuras em série e estabelecem as diferenças entre a escrita de um e de outro. Sem conhecer a terminologia teórica, as observações do leitor, de certa forma, se remetem a uma peculiaridade elogiada do texto de J. K. Rowling que é o fato dele ser mais visual, em que a ação acontece de forma ininterrupta, já que a autora privilegia o mostrar (showing – predomínio do estilo direto) ao narrar (telling) ou sumarizar. O comentário, a respeito do aspecto mencionado, pode ser verificado no trecho de um fórum:

Harry Potter e Desventuras são duas obras muito distintas, enquanto Desventuras em

série tenta ser o mais sombrio, irônico e dramático possível, possui uma narração excelente, porém o autor é incapaz de construir diálogos interessantes e não desenvolve muito bem as personagens. E nem sempre as crianças são tão inteligentes quanto parecem ser. O contrário acontece em Harry Potter, onde a autora desenvolve de forma excepcional as personagens dando lhes humanidade o que faz com que nos identifiquemos com aqueles personagens surreais (sic) mas ao mesmo tempo tão reais,

porém não é tão boa narradora, compensando sua fraqueza em diálogos muito interessantes e ótima estória.155

A análise do participante é bastante pertinente, revelando o grande trunfo da série Desventuras em série, em que o narrador-personagem se mantém próximo o suficiente, para questionar a construção do texto, trabalho metalingüístico feito tanto no nível da fabulação quanto no da palavra propriamente dita, como se percebe no trecho:

A infelicidade deles começou certo dia na Praia do Sal. Os três Baudelaire filhos moravam com seus pais numa enorme mansão no centro de uma cidade muito movimentada e muito poluída, e vez por outra os pais permitiam que pegassem sozinhos um bonde um tanto precário — a palavra precário, que vocês provavelmente conhecem, está sendo usada aqui com o sentido de “inseguro” – até a praia, a fim de passarem o dia como se estivessem em férias, contanto que voltassem antes da hora do jantar. Nessa manhã de que estamos falando, o dia se mostrava cinzento e nublado, o que não importava nem um pouco aos jovens Baudelaire.

[...] Não adianta tentar transmitir como foi duro para os sentimentos de Violet, Klaus e Sunny o período que se seguiu em sua vida. Se alguma vez vocês perderam uma pessoa que tinha grande importância para vocês, então sabem como é que nos sentimos nessas horas, e, se nunca perderam, não dá nem para imaginar (SNICKET, 2001, v.1, p. 10 e 18).

Ao contrário do distanciamento da terceira pessoa que se tem em J. K. Rowling, o leitor de Desventuras em série é convocado continuamente a participar ou abandonar a leitura das trágicas aventuras dos órfãos. Lemony Snicket, narrador-personagem, conta a história como se estivesse conversando, dando esclarecimentos sobre coisas, expressões e vocábulos, alcançando resultados que não se ajustariam a apenas uma proposta pedagógica, como se vê nos trechos:

Foram ao supermercado e compraram alho, que é um bulbo vegetal de gosto muito ativo; enchovas, que são peixinhos bem salgados; alcaparras, botões florais que dão em pequenos arbustos e têm um sabor maravilhoso, e tomates, que na verdade são frutos, e não legumes como a maioria das pessoas imagina.

155 Disponível em <http://www.cinemaemcena.com.br/crit_editor_filme.asp?cod=2257 crítico Paulo Vilaça> acesso em 21 de janeiro de 2005. O participante do fórum, Saulo, critica a posição do crítico. Comentário original: Séries distintas: DECEPÇÃO - Homesick Alien - 21/1/2005 - [email protected]

[...] é muito útil, quando se é jovem, saber a diferença entre “literal” e “figurado”. Se alguma coisa acontece no sentido literal, acontece de verdade; se acontece no sentido figurado, dá a impressão de estar acontecendo. Se você está literalmente pulando de alegria, por exemplo, quer dizer que você está dando saltos no ar porque se sente muito feliz. Se você está pulando de alegria figuradamente, o que isso quer dizer é que você se sente tão feliz que poderia pular de alegria, mas está poupando sua energia para outros fins (SNICKET, 2001, v.1, p. 44 e 66).

Tal modo de apresentar os fatos, sob uma forma instigante, pode proporcionar a ilustração do jovem leitor, mas mostrando que as palavras têm um potencial de entretenimento e, nesse sentido, o autor estabelece uma nova ordem nas brincadeiras com a linguagem. Não se trata de reproduzir os jogos de Lewis Carroll. O texto se configura ludicamente, ao explorar a contínua conversação entre narrador e leitor, questionando a compreensão do texto ou a própria forma de recepção de cada acontecimento e eventuais reações do leitor.

Nesse sentido, a breve análise dessa série, demonstra que, embora ela se insira no que se convenciona chamar de resíduo de mercado, por se introduzir na circulação dos bens culturais em relação com a série de J. K. Rowling, vê-se que, no espaço virtual, ela ganha seu próprio espaço de discussão, o que reafirma o que tenho colocado sobre a Internet como um espaço democrático e passível de ser explorado pelo público infanto-juvenil de forma cada vez mais produtiva, uma vez que a peculiaridade narrativa não necessitou de um porta-voz crítico oficial para se tornar objeto de análise.