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Comunidade não é um conceito plenamente elaborado e fechado, pelo contrário, “apresenta-se como dimensão temporal/espacial da cidadania na era da globalização,

portanto, espaços relacionais de objetivação da sociedade democrática” (Sawaia, 1996, p. 51). Na perspectiva das redes sociais, a comunidade se configura como um espaço relacional, envolvendo tanto o ambiente físico no qual o adolescente está inserido no seu dia-a-dia, ou seja, sua vizinhança, o bairro e outros espaços de congregação, bem como as formas e locais de materialização da cultura contemporânea. Nesse sentido, os espaços comuns de convivência, incluindo a rua onde mora, a praça e outros espaços do bairro e da cidade onde reside, podem compor a delimitação de comunidade. Outra dimensão da comunidade seria o pertencimento a grupos e congregações de diversas naturezas, que compartilhem credos, crenças, atividades e ações comuns. Na comunidade, o adolescente percebe como é seu acesso a instituições e serviços disponíveis, os quais formam uma rede material e imaterial, envolvendo os bens de consumo compartilhados e cobiçados pela sua comunidade imediata ou mais ampla.

Fatores de risco

• Exclusão e estigmatização do adolescente nas relações comunitárias:

“Onde moro sou visto como marginal” (item 52);

• Ausência de vínculos comunitários: “Na minha comunidade, as pessoas não se importam umas com as outras” (item 19);

• Ausência ou escassez de oportunidades de lazer saudáveis para o jovem:

“Na minha comunidade há poucas opções de lazer para o jovem” (item 79), “Nas

opções de lazer que existem na minha comunidade há presença de drogas” (item 45) • Oferta de drogas sem controle e apelo ao consumo de drogas na

comunidade: “A comunidade não se preocupa com a venda de álcool/tabaco para

adolescentes” (item 33), “Nos locais que freqüento na minha comunidade, há incentivo para o uso de drogas” (item 44), “Sinto-me influenciado a usar drogas nos lugares que freqüento na comunidade” (item 34).

• Presença de tráfico na comunidade: “Existem traficantes perto de onde eu moro” (item 38), “Na minha comunidade a droga é vendida/repassada por crianças ou adolescentes” (item 55).

• Presença de violência na comunidade: “Na minha comunidade há gangues” (item 57).

Fatores de proteção:

• Protagonismo juvenil na comunidade: “Participo de atividades que ajudam minha comunidade” (item 23), “Na minha comunidade há oportunidades para o jovem se expressar e se organizar” (item 59);

• Oportunidades de lazer saudável na comunidade: “Na minha comunidade há boas opções de lazer para o jovem” (item 53), “Encontro opções de lazer sem drogas em locais da minha comunidade” (item 63);

• Controle da oferta de drogas e trabalho com a demanda na comunidade:

“Na comunidade existe um bom controle da venda de drogas ilegais” (item 80), “Na

“Existe controle da venda de álcool e tabaco para adolescentes na comunidade” (item

61), “Na minha comunidade há palestras e informações sobre drogas” (item 64); • Inclusão na rede de assistência e saúde: “Quando preciso, posso contar com serviços de saúde na minha comunidade” (item 42), “Participo de projetos sociais ou de incentivo ao esporte para o jovem” (item 43);

Sobre a vida em comunidade, Nasciutti (1996, p. 102) afirma que “implica em

instituir-se em organizações”; assim, as instituições representam pequenas sociedades, com regras, exigências e delimitação de papéis a serem desempenhados, sendo que de um lado se encontra essa dimensão coletiva e, do outro, as necessidades e desejos individuais. Dessa forma, a autora situa as instituições como “espaço socialmente organizado, onde se dão as

articulações entre os diferentes elementos sociais (econômicos, ideológicos, sociais e políticos) e os elementos psicológicos”. Dentro de um pensamento dialético, a comunidade seria um espaço de exclusão e inclusão social, onde toda exclusão supõe uma inclusão, mesmo que seja uma “inclusão perversa” (Sawaia, 1999). Sendo assim, ao falar de ‘comunidade’ e adolescência é preciso que se situe o contexto e as especificidades das relações que nele se estabelecem.

Kliman (2003, p. 70) discute o conceito de classe social como sendo um

“relacionamento que permeia toda a experiência social e psicológica”. A noção de classe para a autora é baseada em critérios econômicos, de status social ou outras formas de poder, como as relações de trabalho. Dessa maneira, a posição da classe e seus significados estende- se além do lar ou da família, abrangendo o bairro, a rede de relacionamentos e as economias locais, nacionais e globais, que juntas moldam dilemas e possibilidades para os indivíduos e famílias. A autora defende que a negligência à classe promove atenção seletiva aos fracassos dos indivíduos ou das próprias famílias e uma desatenção seletiva aos fatores sociais repressores, o que decorre em isolamento, vergonha, estigma e imobilização de quem muitas vezes é culpabilizado ou responsabilizado.

A classe nos diz muito das possibilidades de consumo do adolescente, o qual é constantemente apelado para se apropriar de objetos diversos, tais como roupas, músicas, revistas, bares, espaços virtuais etc. Nesse sentido, a imagem do adolescente ideal é daquele que melhor consome e propõe consumo. Sendo assim, poderíamos pensar o lugar da droga na comunidade como um objeto de consumo e identificação do adolescente com grupos, ideais e congregações sociais. Portanto, o adolescente, em suas tentativas de individuação e pertencimento, escolheria alguns objetos de consumo conforme as possibilidades predestinadas a ele, ideologicamente, dentre eles a droga. Lima (2001) aponta que na sociedade capitalista os produtos de consumo são reificados e tomados de uma essência que é

retirada do humano e tornada, em si, objetivo da busca da felicidade humana, sendo central o consumo de mercadorias para o alcance do máximo de prazer, sendo que a expressão do dependente de drogas se configura também nesse sentido.

No âmbito comunitário, Carreteiro (1999) propõe pensar sobre a importância das afiliações (que ocorreriam por meio do trabalho e da proteção social) e do “projeto e vida” como eixos da inclusão:

“O indivíduo que vive em meios sociais desfavorecidos sofre ao longo

de sua vida um acúmulo de desafiliações sociais (habitação, educação, trabalho), estando à margem destas grandes dimensões institucionais e convivendo com uma sensação de inutilidade e, portanto, de sofrimento psíquico e social”. (Carreteiro, 1999, p. 92).

Sobre acessibilidade a serviços de promoção e atenção à saúde na comunidade, foi elaborado o seguinte fator de proteção: inclusão na rede de saúde e assistência: “Quando preciso, posso contar com serviços de saúde na minha comunidade” (item 42); “Participo de projetos sociais ou de incentivo ao esporte para o jovem” (item 43).

No caso de comunidades pobres, podemos pensar de que forma os adolescentes excluídos, nesses níveis, passam a ser incluídos? Em quais sistemas de pertencimento e inclusão social há espaço para esses adolescentes? Essa situação pode ser considerada como uma forma de violência em relação ao exercício da cidadania, ficando esses adolescentes expostos a inúmeros fatores de risco, dentre eles o envolvimento com o contexto da drogadição. Nesse sentido, Penso, Sudbrack & cols. (2004) afirmam que:

“pode-se atribuir a essa situação, os níveis crescentes de violências

sofridas por essas comunidades, causada pelo enfraquecimento do Estado, no seu papel de assegurar o bem estar de seus membros e o cumprimento das leis, é respondida com mais violência por parte desta população” (p.77).

Dentro do tema relativo ao pertencimento e inclusão social, foram elaborados os seguintes fatores de risco: exclusão e estigmatização do adolescente nas relações comunitárias: “Onde moro sou visto como marginal” (item 52); ausência de vínculos comunitários: “Na minha comunidade, as pessoas não se importam umas com as outras” (item 19). Essa dimensão procura avaliar a presença de afetividade nos vínculos do adolescente dentro das relações comunitárias e a forma como sua identidade é construída nessas relações. No âmbito da proteção, foi incluído o fator referente ao protagonismo juvenil na comunidade: “Participo de atividades que ajudam minha comunidade” (item 23); “Na minha comunidade há oportunidades para o jovem se expressar e se organizar” (item 59).

Outro tema se refere ao lazer na comunidade, sendo que espaços de troca, de participação social e de lazer que agreguem valores culturais e contribuam para o senso de comunidade se configuram como fatores de proteção. No instrumento foi elaborado o fator de proteção se referindo às oportunidades de lazer saudável na comunidade: “Na minha comunidade há boas

opções de lazer para o jovem” (item 53); “Encontro opções de lazer sem drogas em locais da minha comunidade” (item 63).

Sobre a influência e apelo social para o uso de drogas nos ambientes da comunidade, na rua, nos espaços públicos e locais de lazer para o jovem, foi incluído o seguinte fator de risco:

Ausência ou escassez de oportunidades de lazer saudáveis para o jovem, expresso em “Na

minha comunidade há poucas opções de lazer para o jovem” (item 79); “Nas opções de lazer que existem na minha comunidade há presença de drogas” (item 45).

Em Pereira (2003, p. 219), encontramos o seguinte relato de um adolescentes em conflito com a lei sobre os fatores de risco que podemos encontrar na comunidade, relacionados à disponibilidade de drogas lícitas e ilícitas na comunidade: “Só pega a droga, compra e vai

embora. Com álcool é do mesmo jeito. Só que o álcool é mais fácil, porque tem em todo lugar, a maconha não”.

Como fator de risco pode-se identificar a oferta de drogas sem controle e apelo ao

consumo de drogas na comunidade: “A comunidade não se preocupa com a venda de álcool/

tabaco para adolescentes” (item 33); “Nos locais que freqüento na minha comunidade, há incentivo para o uso de drogas” (item 44); “Sinto-me influenciado a usar drogas nos lugares que freqüento na comunidade” (item 34). Em Pereira (2003, p. 198-199), encontram-se alguns relatos de adolescentes que justificam a inclusão dos fatores de risco para o envolvimento com drogas, acima descritos: “Se você não bebe e eu te chamo, às vezes você vai. É a influência”; Ficar na

rua. Todos fumam e se você ficar na rua vão te oferecer. Os amigos vão te oferecer”.

Sudbrack (2003) aponta que o consumo de drogas por jovens é iniciado cada vez mais cedo, quando também passam a receber fortes influências dos valores do tráfico, por meio da cultura da violência e da lógica do combate, na rotina da comunidade. Sobre os contextos de exclusão social, onde a rede de distribuição da droga se configura como um mercado promissor, Carreteiro (2001) aponta que a não criação de serviços nos campos da saúde, da educação e da

infra-estrutura urbana, além de um aumento no sistema e na força de repressão da polícia para os segmentos mais pobres, ignorados pelo Estado, repercutem na percepção desses segmentos sobre a falta de reconhecimento e abandono. Nesses territórios esquecidos pela cidadania, o tráfico de drogas ganha amplitude significativa. Sendo assim, foi incluído um fator de risco relacionado à

presença de tráfico na comunidade: “Existem traficantes perto de onde eu moro” (item 38); “Na

minha comunidade a droga é vendida/ repassada por crianças ou adolescentes” (item 55).

Esses fatores de risco procuram dimensionar o que Zaluar e Leal (2001) explicitaram como “o que provoca violência no bairro” (p. 13), ou seja, as atrações e influências que as quadrilhas de tráfico e as galeras exercem sobre os jovens na direção da violência e tráfico, uma vez que os adolescentes ainda não possuem “autonomia moral” (p. 13). Ainda sobre a presença de gangues e falta de opção de lazer e acesso à cultura na comunidade, foi incluído um fator de risco para o envolvimento com drogas referente à presença de violência na comunidade: “Na minha comunidade há gangues.” (item 57).

Sobre a proteção oferecida à comunidade, destacamos a dimensão do controle da oferta e da demanda, no âmbito da prevenção ao envolvimento com drogas na adolescência, acrescentando um fator de proteção referente ao controle da oferta de drogas e ações de prevenção sobre a

demanda na comunidade: “Na comunidade existe um bom controle da venda de drogas ilegais”

(item 80); “Na minha comunidade há ações de prevenção ao envolvimento com drogas” (item 48).

“Existe controle da venda de álcool e tabaco para adolescentes na comunidade” (item 61). “Na

minha comunidade há palestras e informações sobre drogas” (item 64). Em relação ao trabalho de prevenção na comunidade, não procurou-se identificar, nos itens, as instituições que poderiam ser responsáveis, tais como: postos de saúde, escola, associações e organizações não governamentais, instituições públicas, privadas ou religiosas. No entanto, entende-se que todas elas podem contribuir para tal aspecto protetivo. Albertani e cols., (2006) discutem a prevenção na comunidade como um dos eixos dentro das ações conjuntas para promoção de saúde, sendo que a comunidade se constitui

como espaço de pertença dos adolescentes e de outros atores sociais, tais como: líderes religiosos, comunitários e grupos de jovens.

Destaca-se a relação entre religião e uso de droga, apontada pelo estudo realizado por Dalgalarrondo, Soldera, Corrêa Filho & Silva (2004), que evidenciou uma forte associação entre o menor uso de drogas entre adolescentes e a presença de uma educação religiosa na infância, assim como o pertencimento a religiões que condenam o uso de drogas. Os autores discutem que a adesão a uma denominação religiosa e o envolvimento com padrões de religiosidade implica na adesão de um conjunto de valores, símbolos, comportamentos e práticas sociais, dentre eles a aceitação ou recusa ao uso de álcool e outras drogas. Esse fator de proteção não foi contemplado no questionário e sobre ele serão realizadas algumas sugestões no próximo item deste capítulo.