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Screening examination

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Background and Organization

6. Screening examination

┌A ti jovem amigo,1

PRIMEIRA PARTE

┌Amigo!

A estrada é larga e segura

porque foi construída apenas pela experiência dos homens. Não percas mais os teus passos

pela areia movediça e estéril…2

1 [omisso em A]

87

I3

Na quietude morna da noite, Coimbra adormecia.4┌Lâmpadas tristes expeliam

o bafo de clarões moles que magoavam a espessura do nevoeiro parado. Eléctricos gemiam na arrancada da subida, fendendo o torpor que enlanguescia o ar. Música recolhida ondeava pelo céu.5

- Hum! Não aliso tanto o cabelo...6 Pareço mais magro. Diabo de colarinho... Eh, pá!7 Vê lá estas calças que tal...8 Parece que me ficam largas... 9

Rodrigues, sem levantar os olhos ┌dos sapatos10 que limpava, esclareceu:

- A calça, propriamente a calça, não está mal. A largueza... ┌(deixa ver a tua escova...)11┌a largueza é das tuas pernas,12 das flautas...

Rui ┌sentia-se vazio, achatado,13 quando lhe diziam que estava magro. E para arrasar o Rodrigues, aquele ┌grandão14 sem estética, arregaçou logo as calças:

- Mas que história!15 ┌Então não terei umas pernas bem feitas, hem?16 Olha

para aqui.

- Dá cá a tua escova...17

Rodrigues não olhava. Já tinha visto. As pernas eram ┌uns espetos peludos, com saliências de músculos medrosos.18┌Ossos, ossos19 e pêlo.

3 [A] [fol.1] Primeira Parte

4 [A] Na flacidez morna da noite, <ador>/Coi\mbra <começava a dormir.> [↑ adormecia.] [D] Na

quietude <morna> da noite, Coimbra adormecia.

5 [omisso em A] [D] Lâmpadas tristes <expeliam o bafo de clarões moles que magoavam a espessura> [↑

abriam o seu halo] <d>/n\o nevoeiro parado. Eléctricos gemiam na arrancada da subida, <fendendo o torpor que enlanguescia o ar.> [← e uma] <M>/m\úsica recolhida ondeava pelo céu.

6 [A] - <amh>/Hum!\ Não aliso tanto o cabelo. 7 [A] Eh pá!

8 [A] est<a>/as\ calç<a>/as\ que tal... 9 [A] <estão> [↓ ficam] largas… 10 [A] do sapato

11 [A] deixa ver a tua escova.<.>/...\

12 [A] <.A>/… a\ largueza é das [↑ tuas] pernas,

13 [A] senti<u>/a\-se <mole,> [↑ <*vexado>/vencido,\] achatado, [D] <vazio,> 14 [D] grand<ão>[← alhão]

15 [A] – Mas que gaita! [D] <- Mas que história!> [-]

16 [A] <Olh> Então não te<n>/r\ei umas pernas bem feitas *amh? 17 [A] - Dá cá a tua escôva. [D] <…>/.\

18 [A] uns espetos peludos com saliências [↑ de músculo] raquític<as>/o\. [D] [↑ apenas] uns espetos

peludos [.] <com saliências de músculos medrosos.>

- A escova?

E Rui, segurando a calça, exibindo a canela, disse que a escova estava debaixo da cama. Desalentado, largou as pernas e pensou nos braços. ┌Músculos razoáveis.20 (Que pena não ser um Tarzan, amplo, grande, bem modelado! Poderia então falar de alto, de poleiro, gozar os fracos, ┌ser amado sem receio de que os outros21 troçassem dele ou lhe roubassem ┌a dama sonhada.22 Mas o destino fora cruel e entretivera-se, numa hora de borracheira, a espetar-lhe os ┌ossos uns nos outros e a atirá-lo depois, assim mesmo, magro, pernudo, ao mundo fútil)...23

- Mas que tal esta planta, hem?24┌Hoje, filhinho, se não estivesse preso, era vê-

las cair como tordos.25┌Mas trinta escudos26 por um baile é puxado que se ┌farta!27 E a mãe, a sr.ª Joana, tinha poucos trinta escudos para mandar ao filho Rui, que

andava, em Coimbra, a estudar para doutor.28 ┌Era talvez por isso que ela trazia

quase29 sempre os olhos tristes pelo ┌chão. Onde havia pedras e tojos... 30

Rui mirava-se e remirava-se ┌naquela31 doce certeza de que o smoking emprestado lhe apagava a nudez ┌repelente.32 Mas queria que o Rodrigues, o seu amigo íntimo, o Rodrigues galhofeiro, garantisse sério: ┌«estás um mimo!»33 Mas Rodrigues disse apenas:

- Dá cá um cigarro.

E cantou, com o seu violão, que ia resistindo heroicamente, nos tempos sólidos,

a todas as provações:34

Ó meu amor, minha vida...

20 [A] <Bons músculos.> [↑ Músculos razoáveis.]

21 [A] se<m>/r\ amado, sem receio de que <ou> [↑ os] outros 22 [D] a <dama sonhada> [← amada]

23 [A] ossos <nos>/uns\ <ou>/n\os outros e [↑ a] deitá-lo depois, assim mesmo, magro[,] <e> pernudo,

a[o] <<mundo> /mundo\> [↑ mundo] fútil...) [D] <fútil> [→ infame)]…

24 [A] – Mas que tal esta planta, h<ai>/e\m? [D] – Mas <que tal> [← vê-me] esta planta <,>/.\ <hem?> 25 [A] Hoje filhinho, é vê-las cair como tordos. [D] Hoje, <filhinho,> [→ menino,] se não estivesse [←

já] prêso,

26 [A] Mas 30$00 27 [A] farta

28 [A] 30$00 para mandar ao [↑ seu] filho Rui que andava [, ↑ em Coimbra,] a estudar para Doutor. [D]

andava<,> em Coimbra<,>

29 [D] <Era> <t>/T\alvez por isso <que> ela trazia qu<á>/a\s<i>/e\

30 [A] chão <, o>/. O\nde havia pedras e tojos... [D] <Onde havia pedras e tojos...> 31 [D] <naquela> [↑ na]

32 [A] <cadav>/repel\ente. 33 [A] "estás um primor".

89 ┌Rui abriu35 o maço de tabaco. (Comprara até tabaco.36 Para quê? Se ele nem

tinha o vício de fumar...) Mas logo ┌remocou:37

- Compra tabaco, menino, compra tabaco, que eu não tenho dinheiro para te

sustentar...

Rodrigues ergueu-se de um repelão:

Dinheiro?! Tu falas em dinheiro? Tu? o chique, o homem que compra cigarros feitos, que veste smoking, camisa pau?...

Mas o Rui não achou graça nenhuma àquele esforço humorístico do Rodrigues. E bramiu:

- Ora vai-te quilhar! Que diabo! Tu não sabes que é por causa da rapariga que vou ao baile?

- Ah! 38

Uns segundos de silêncio religioso. Rui39 continua em monólogo:

- ... tem um vestido de soirée... quer mostrá-lo, se não rebenta. E eu que pague

as favas...40

- Mas ouve lá uma ┌coisa!41 (Rodrigues agora ┌falava42 a sério. Já ┌espetara43 mesmo o ar com aquele dedo enorme que abria fontes de verdade ┌qual vara de

35 [A] Rui <<, desconte>/abriu\> 36 [A] tabaco[.] <feito>

37 [A] resmoncou: [D] <remocou:> [↓ refilou:]

38 [A] [fol.2] <_ Compra tabaco, menino, compra tabaco, que eu não <estou para> tenho dinheiro para te

sustentar...

<->/Ro\drigues acendia pachorrentamente <o> <o> Paris.

- ... dinheiro... <Dinheiro> An?... Dinheiro?... Disseste [↑ tu?] <dinheiro?> [↑ (Bocejo)] É boa... (pausa) Com que então não tens dinheiro?... Tem uma certa laracha... Ninguém ... havia... de... dizer...: smoking, cigarros feitos, bailes...

- <Ó pá> [↑ Ó pá] Mas [↑ para] <que prazer tens tu em estares> [↑ que é que [↑ tu] hás-de estar [↑< tu>] sempre] <sempre> a xatear-me?... 2<tu> <n>/N\ão sabes que eu vou ao baile por causa da

rapariga? 1Que raio!>

- Compra tabaco, menino, compra tabaco, que eu não <estou> [↑ tenho dinheiro] para te sustentar...

Rodrigues ergueu-se de um repelão:

- Dinheiro?! Tu falas em dinheiro? Tu[,] <?> o chic, o homem que compra cigarros feitos, que veste smoking, camisa pau?...

Mas Rui não ach<ando>/ou\ graça ne<m>/nh\uma àquêle esfôrço humorístico do Rodrigues. E bramiu:

- Quilha-te! Que diabo! Tu não sabes que é por causa da rapariga que eu vou ao baile? - Ah!

[D] <- Ora> <v>/V\ai<-te quilhar> [→ bardamerda]! <Que diabo!¿> Tu <não> [→ bem] sabes que é por causa da rapariga que vou ao baile<?>/!\

39 [A] um minuto de [↑ silêncio] religioso[.] <de> Rui

40 [A] tem <fatos caros...> [↑ [um] vestid<os>/o\ de soirée...] quere exibi<r-se...>/i-lo,\ <Vaidades!> <<E

eu> [↑ O pior] é [↑ ter eu] <que tenho> de pagar as favas...> [↑ se <se>não rebenta! E eu que pague as favas.] [D] quer<e> […] que <pague as favas> [→ me lixe]…

41 [A] coisa. 42 [A] fal<ou>/av\a

Moisés)44 Tu não vês que a ┌cachopa45 ┌te não serve?46 ┌Não vês que aquilo não é para falinhas doces, que é só o que tu sabes dizer?47 ┌Não vês que o que ela quer é um homem teso!48┌E, que diabo, tu bem sabes o que para aí se diz da rapariga...49

- És um asno!

Rodrigues não discutiu. Mas Rui, de si para ┌consigo, ia remoendo50 a opinião do amigo: ┌«tu bem sabes51 o que para aí se diz...» Na verdade, ┌Amélia tinha qualquer coisa de mulher de aço flexível. Áspera. Soberba. E bela.52 No dia em que a ┌beijara pela primeira vez... 53 ┌Oh! o beijo! A fúria dos lábios esborrachando-se!54 ┌Mas ela voltou tão depressa à serenidade macia dos sonhos repousados!55

De resto,56 Rui talvez não casasse... Que diabo!57 Lá porque a namorava...

Mas ele não queria convencer-se disso. ┌E, com um esforço desesperado da imaginação,58 ┌esbatia59 sempre os contornos ┌duros do amor60 que ┌adivinhava61 em Amélia.

Enfim, fosse como fosse, Rui ia dançar com ela.62 E dançar com ela era senti-la

perto de ┌si,63 era ver-lhe de perto ┌aqueles olhos mais negros que as noites64 ┌sem estrelas... (Poesia!)65 Quando a olhava ┌nos olhos, no negrume dos olhos vivos e

43 [A] espet<ou>/ara\

44 [A] <como a> [como] vara de Moisés) [D] <¿> 45 [D] <cachopa> [→ rapariga]

46 [A] não te serve? [D] <¿>

47 [A] <Aquilo> [↑ Não vês que aquilo] não é <tipa de> [↑ para] falinhas doces, que <o>/é\ [↑ só] o que

tu sabes dizer?

48 [A] <Quere> [↑ Não vês que o que ela quere é] um homem? [D] quer<e>

49 [A] E, que diabo, tu ... 2sabes 1bem o que para aì <se diz> <[↑ corre]> [↓ se diz] da rapariga... [D]

<rapariga> [→ sujeita]

50 [A] consigo ia moendo 51 [A] "Tu sabes bem

52 [A] <a>/A\mélia tinha um tic de mulher <f>/d\e aço flexível. Áspera. Soberba. E bela. [D] Amélia

tinha <qualquer coisa de mulher de aço flexìvel.> [→ no curveado do corpo uma sinalização para a cama.] Áspera. Soberba. E bela. [← naturalmente]

53 [A] beijara <...>/p\ela primeira vez...

54 [omisso A] [D] <o> [→ que] beijo! A fúria dos lábios <esborrachando-se!> [← dos dois!]

55 [A] Mas ela voltou t<am>/ão\ depressa à serenidade macia dos sonhos <de algodão!...> [brandos...]

[D] [...] <à>/ao\ <serenidade> maci<a>/o\ dos sonhos[!] <repousados!>

56 [A] De resto 57 [A] Diacho!

58 [omisso em A] [D] E<,> com um esforço desesperado da imaginação<,> 59 [A] E esbatia

60 [D] <duros> do amor [↓ duro] 61 [A] ele adivinhava

62 [A] Uma realidade: Rui ia dansar com ela. [D] <Enfim,> [↓ Mas] 63 [A] si era

64 [A] aqueles olhos mais negros que a noite... [D] <aquêles> [↑ os seus] olhos <mais> negros [.] <que

91

fundos...66 (┌Estupidez!67 Que importavam os ┌olhos?68 Que importava a negrura dos olhos?... A verdade é que ele andava a fazer ┌figura69 de parvo! Toda gente dizia coisas da ┌rapariga, e ele70 «com cara de ┌anjinho», todo suave, todo melífluo... ┌«Não vês que o que ela quer é um homem?» Porque nasceria Rui tão débil, tão enfezado?)71

72- Não vou ao baile!

Rodrigues cantarolava escovando as calças:

Ó minha esguia andorinha...

- Estás ouvindo? (Ouvia lá agora). Não vou ao baile!

- Mas... quê? Não vais ao baile? (Bocejo) Não vais então ao baile? Acho bem...

...toma lá, faz o teu ninho na minha capa velhinha.73

Rui calara-se um momento. Que pena o Rodrigues ser ┌assim...74 Não se importar com as dores dos ┌outros...75 Sempre ┌satisfeito...76 Que pena! ┌Se ele tivesse outro feitio, seriam mais amigos! Haviam de comunicar um com o outro, haviam de contar-se mutuamente os desgostos!... Assim...77

Rui, para lhe chamar a atenção, tem de falar como quem fala só para si:78 ┌-... esses boatos! Não me ajeito com isto! Não tenho feitio... (mas que feitio?)79

66 [A] <assim> nos olhos, na negrura dos olhos vivos e fundos... 67 [A] <Larachas!> [↑ <Parvoices!>] [Estupidez!]

68 [A] olhos?... [D] olhos? <...> 69 [A] uma figura

70 [A] rapariga e el<a>/e\ ] <«>cara de anjinho <»> todo suave, todo melífluo...) 71 [omisso em A]

72 [A] [fol.3]

73 [A] <Rodrigues cantarolava esfregando os sapatos:

ó minha esguia andorinha…

- Não ouves? (Ouvia lá agora...) Não vou ao baile!

... toma lá faze o teu ninho>

- mas... quê? <(>/N\ão vais ao baile? (bocejo) Não vais então ao baile? É <um>/o\ diabo, é o diabo... …na minha capa velhinha.

74 [D] assim <...>/.\ 75 [D] outros <...>/.\ 76 [D] satisfeito <...>/.\

77 [A] [↑ Se ele tivesse outro feitio] <S>/s\eriam <tam>/mais\ amigos <,>/!\ [↑ Haviam de comunicar um

com o outro, haviam de contar][-se], mutuamente] <contariam> os desgostos <dum ao outro>!... Que pena! [D] [...] desgostos!<...> Assim...

Sinto-me80 mal, caramba! E depois, ainda por cima, esta coisa de fazer figura

com smoking alheio... 81 - É grave...

Rui sentiu-se de pedra. Para que tentar mais? ┌Negra vida!82 Ainda se ele conseguisse ser outro. Outro!83 Mudar! (Mudar...) Felizes os que nascem talhados como convém! Que o mudar é ┌tão difícil!84

Rodrigues acorda. Pesado e sério:

- ┌Mas... de facto estás disposto a não ir ao baile? Porquê? Sim, porquê? ┌Não sabes dançar? (Rui dançava mal). Envergonhas-te Esta é de primeira ordem! E fui eu pôr o relógio no prego? Hem? Porque diabo não disseste então que não querias ir? Sim, porque não dizias?

Rodrigues já não ria. De testa engelhada, caía sobre o amigo com fragor e com domínio. Rui temia-o, porque Rodrigues, naquele aparente não-te-rales que o punha por cima de tudo, tinha o sentido justo de equilíbrio na vida. Ele perguntara: «porque não disseste então que não querias ir?» Para Rodrigues, o smoking emprestado os ditos acerca de Amélia, não tinham nada que ver com o baile. E, achatado sob o peso das palavras do Rodrigues grande, de pernas entroncadas e opiniões sólidas, Rui gemeu e recomeçou, em silêncio, os trabalhos da ornamentação.85

79 [A] -... esses boatos! Não me ajeito <a> [↑ com] isto! Não tenho feitio! <([↑feitio] <<P>/p\ara> [de]

quê?)> [↑ (Mas que feitio?)]

80 [A] <*Devia não> Sinto-me

81 [A] depois ainda por cima <f> esta coisa de fazer figura com <o>/os\ smoking[s] dos outros... 82 [A] <Mas Rodrigues> Negra vida!

83 [A] Ainda se ele conseguisse, ser outro<,>/.\ <o>/O\utro! 84 [A] tam difícil!...

85 [A] [fol.4] <baile? porquê? Sim porquê? Envergonhas-te? É boa! Não sabes dansar? E fui eu pôr o

relógio no prego? einh? E foste tu pedir 40$00 emprestados ao Faustino... Para quê? Dize lá para quê? Rodrigues engelhava a testa. Rui amornava, <e> enrodilhando as pernas para se sentar na cama torta.

- Bem. Põe lá a couraça [↑ ... <ou> [↑ quere dizer] o laço...] ou o que é que te falta, rematou Rodrigues. A "couraça" era a camisa de pau, a camisa engomada.

Rui recomeçou a tarefa do embelezamento. - Mas tu...

"Que foi?" preguntaram os olhos fundos de Rui.

- Vestiste o [↑ meu] smoking <antes da camisa> [↑ em vez do teu]. - Ando bêbedo.>

<Truz! Truz! Batem à porta do quarto.>

- Mas... de facto estás disposto a não ir ao baile? Porquê? Sim, porquê? 2 Envergonhas-te? <É boa!> 1Não sabes dansar? [↓ (Rui dansava mal)] <É boa!> [↑ esta é de primeira ordem!] E fui eu pôr o relógio

no prego? einh? Porque diabo não dizias <log> então que não querias ir? <Ora a história!> Sim, porque não dizias?

Rodrigues engelhava a testa <,>/.\ Rui amornava, enrodilhando as pernas para se sentar na cama torta. Era o acordo. Rodrigues rematou:

93 ┌Justamente nessa altura alguém bateu à porta. Rodrigues lembrou-se, por

instinto, da patroa e da conta, a conta atrasada que punha sempre, na alma de Rui, uma tristeza nevoenta.86

87- Abre lá isto!

Rui, com um oh! na boca e nos olhos, mirou o Rodrigues.

- É o Ferraz!

Era, era o Ferraz, colega de Rui. O Ferraz que emprestara ao Rui 100$00 e que vinha reaver o dinheiro para ir também ao baile. Rodrigues parou o golpe:

- Ouve!

- Ó menino, não tenho nada que ouvir; eu preciso da massa: já ta emprestei há... - Mau! Ouve lá primeiro, e deixa-te de armar em pravo! Tu precisas de ir ao baile, não é?

- Pois claro. - E não tens bago?

Claro que não tinha. Ele era rico (o pai tinha «muito caroço»), mas derretera a mesada ao king e ao burro.

- Pois eu arranjo-te entrada à borla. Tu esperas à porta, aí pela meia-noite, e não se fala mais nisso.

Ferraz era redondo e fofo. Duvidou ainda das palavras do Rodrigues, mas acabou por se mostrar convencido. E saiu. Para escanhoar a barba e enfardelar-se como cumpria. Rui...

- Vamos a isto. Deixa-te de mirar o astro.88

A "couraça" era a camisa de pau, a camisa engomada. Rui recomeçou a adornar-se.

- Mas tu...

"Que foi" preguntaram os olhos fundos de Rui.

- ... vestiste o meu smoking em vez do teu. É que vestiste, mesmo! - Ando bêbedo.

Truz! Truz! Batem à porta do quarto.

[D] E, <achatado> [← esmagado]

86 [A] - A patrôa! Aí vem a patrôa e a conta, a conta e a patrôa. Mete-te na cama... vá; assim mesmo

como estás.

Truz! Truz!

Rodrigues ia já resmoneando que o dinheiro não viera ainda... o rapaz, o Rui, o doutor Rui estava doente... enfim [(¿ mas que tinha que ver a doença com...)] [D] <uma> [← um negrume de] tristeza[.] <nevoenta.>

87 [A] [fol. 5] 88 [A] - Oh!...

Entreolharam-se.

<- Vai já, vai já!> [↑ - Lá vai! <Lá vai!]>

Mas Rui não se despegou do peitoril da janela, mãos nos bolsos, costas viradas

para o Rodrigues e o credor Ferraz. Sentia-se triste.

Sobre o frescor áspero do vale tenro caía o sopro da maldição que ia mirrando as flores e secando o riso claro dos ribeiros. Ondas túmidas desenrolavam-se pelos campos, aos gorgolões. E foi o fim. Depois o sol ergueu-se e olhou a desolação do areal. Lá longe, a linha ténue do horizonte falava de uma tristeza branda que alastrava molemente.

Foi então que o grito se levantou, vincando o ar, e se crisparam as mãos afiladas de unhas compridas. Porque todo o mundo acudiu em roldão, berrando a vida que fervilhava em terras ignoradas.

Rui! Se ele fosse rico, se ele tivesse bens, poder, oh! poder, domínio, força! Ter o poder de amassar o mundo na sua mão frenética. Esmagá-lo! Esmagar toda a gente, toda! Mas não; ele havia de andar eternamente dobrado! Sem dinheiro! Hoje, para Rui, a falta de dinheiro era a única tristeza sentida. Se fosse rico! Mas ele nascera pobre. Caramba, pobre! A vida era dura, dura! E Rui tinha o direito de poder gozar também, gozar, gozar a vida em toda a amplitude, gozar, possuir, viver como tantos outros... Fora o pai, fora a mãe que o tinham parido pobre, para andar ali aos pontapés de um Ferraz

- O[´] Ferraz!...

E o Ferraz <informou-se> [↑ delicado] informou-se logo da doença do Rui.

- Estás de facto pálido... Come-lhe, bebe-lhe bem<.>/;\ <Q>/q\ue tu afinal bebes-lhe que nem um alarve. Olha: não bebas; o vinho talvez te faça mal. Mas...

[(] Cravou os olhos no pescoço de Rui.[)] - ... de colarinhos à <"beef"> [↑ bife]...

Rui aconchegou a roupa atarantado. Depois volveu um olhar imbecil a Rodrigues, que auxiliou. -... vê tu que o tipo queria ir ao baile.

[(]Achara a ponta perdida.[)] - ... doente como está. Qual baile? ... P'ra a cama. E meti-o na cama <de colarinhos>. [<- Não tiraste ainda os colarinhos?>] [↑ Mas lá os colarinhos... Pois tu não tiraste os colarinhos!]

- ... e de smoking.

- Anh? Sim, quere dizer... [↑ talvez...] de smoking, <isso... isso... e até... não sei... mas creio que até está de sapatos> [↑ é boa! Mas com quê, de smoking? É de primeirìssima ordem! Então tu <dormes>/dormes\ de smoking? É boa? Esta é boa! <Ah! Ah!>]

[fol.6] Foi um desastre. Rui fulminou-o. Saltou da cama, nevado de pêlo dos cobertores. - De sapatos, de smoking, do diabo! Que é que tu queres afinal, vá dize lá[,] o que queres? - Está têso o homem! Einh? Que queres? Isto é o bonito... Que hei-de querer? O bago que te emprestei há quatro meses... os cem paus...

- Os cem<...?> [↑ paus?] Mas tu julgas que sou algum pelintra? Eu pago, <filho.> [↑ menino, <não te aflijas, que diabo!>] Eu não preciso do teu dinheiro para nada. [↑ Não te aflijas que eu pago...] Eu... o Rodrigues... <enfim eu tenho,> eu hei-de arranjar...

Rodrigues remendou:

- Amanhã, ou antes, depois de amanhã, quere dizer<,>[...] <isto é...> - Fico a apitar, é o caso.

- Dentro de quatro dias garanto-te que tens a massa.

95

qualquer.89 ┌(Lixem-se aquele pai, aquela mãe!90 ┌Se não podem, que arreiem!91 Já um telegrama: ┌dinheiro!92 Não digo mais nada. Ou uma carta. ┌Espera;93 uma carta: ando para aqui feito farrapo sem um tostão. Assim mesmo: um farrapo. E ┌escreveu).94

- Tens95 um sêlo?

Rodrigues, com um sorriso vagaroso, mergulhou a mão pachorrenta nas

profundezas da algibeira e sacou o porta-moedas.96

- Um... dois.... oito de meio tostão. No correio nunca há meios-tostões. 97┌Se te servem...

- Claro que servem...98

Pouco depois saíram afogados nos sobretudos que a morrinha polvilhava.99

E a carta, com os selos formando um mapa, caiu fúnebre no marco do correio.

O baile estava frouxo. Não ┌admirava,100 porque ┌eram onze horas e a gente chique101 só por volta da meia-noite ┌se dignava aparecer.102

Rui chegou a censurar Rodrigues:

- Para que diabo a gente veio tão cedo? Andas sempre com umas pressas...

89 [A] <Rui chorava.

- Ah! Ah! Ah! Chora filho que a maré vai boa.>

[Mas Rui sentia-se triste, triste. Vinha-lhe de longe uma quási saüdade branda que o cercava de <vazio> [↑ solidão]... Triste vida! Se ele f<o>/ô\sse rico, se ele tivesse bens, pode<res>/r\ Ah! poder<!>/,\ domìnio, fôrça! [↑ Ter o] <P>/p\oder [de] enrodilhar o mundo na sua mão frenética. Esmagá-lo! Esmagar tôda a gente, tôda! [↑ Mas não;] <E>/e\le havia de andar eternamente dobrado! Sem dinheiro! <†>/Hoje\ para Rui a falta de dinheiro era o pior mal que <lhe> o podia atingir. Se fôsse rico! Ele nascera pobre! <E na fúria que o sacode a> Caramba, pobre! A vida era dura, dura! [↑ E] <E>/e\le <<havia de > [↑ devia] poder> [↑ tinha o direito a poder] gozar, <ter,> [↑ também gozar, gozar a vida em tôda a amplitude, gozar] possuir, viver como tantos<.> [↑ outros...] Fôra o pai, fôra a mãi que o [↑ tinham] gera<ra>/do\ pobre, para andar ali aos pontapés d<o>/um\ Ferrás<:> qualquer:] [Nota: acrescento no verso, referido a

este local pela ordem Volte.] [D] <áspero> do vale <tenro> […] <mirrando> [← secando] […]

<secando> o riso <claro> […] <túmidas> […] <e olhou> [→ por sobre] […] <Lá> <l>/L\onge […]

<Foi> <e>/E\ntão <que> o grito <se> levantou[↑-se], vincando o ar <,e>/e\ 2as mãos 1se crisparam

<afiladas de unhas compridas.> […] <P>/p\orque […] <berrando> [← clamando] […] rico<,>/.\ <s>/S\e 90 [A] [(]Lixem-se<!> <Aquele pai,> [↑ aquele pai] aquela mãi!

91 [omisso A] 92 [A] dinheiro. 93 [A] Espera: 94 [A] escreveu.[)] 95 [A] [ fol.7] - Tens 96 [omisso A]

97 [A] [↑ - Deixa ver: um, dois...] <-O>/o\ito de meio tostão. No correio nunca há meios tostões. 98 [omisso A]

99 [A] <À>/N\essa noite <com> <uma>/de\ [↑ <com uma>/com uma\] chuva miudinha, os dois saíram. 100 [A] admirava porque

101 [A] eram apenas II horas e a massa <"chic"> [↑ chique] 102 [A] <vinha a público.> [↑ se dignava <mostrar> aparecer.]

- Está caladinho, menino, está caladinho... Vai comendo uns bolos, vai comendo... Mas cala-te.

Um bando de meninas entrava no salão. Claridades frouxas poisavam, de leve, na vaporosidade ondeante dos vestidos que se alongavam. Cinturinhas débeis. As ponteiras pequeninas dos sapatos ocultos punham no andar das meninas uma delicadeza subtil. Amélia vinha no grupo. Trazia o rosto, os gestos, o todo transfigurado, num disfarce de névoa esparsa e diáfana. Rui olhou-a encantado e sentiu-a, como nunca, longe de si. Porque Amélia já não era aquela rapariga áspera, de flexibilidade de mola de aço. Tudo nela amortecia em brandura líquida. Anjo. E foi um tremor de arrepios que lhe eriçaram a pele, quando, num sorriso medroso, ele lhe perguntou:

- Estás boa?

E desafogado, satisfeito, voltou logo, a correr, num susto, para o pé do Rodrigues, que inquiriu:

- Então? Já viste a senhora?

Lá de longe e lá do alto Rodrigues adejava sobre o luxo das sedas roçagantes e a frescura das meninas pintadas.

Ó pá, tu também por aqui? Era o Vaz, o Vaz «dos futebóis».

- Porquê? Estás admirado? Achas-me sem planta para bailes finos, não?

Mas o grupo refazia-se em breve. O Fernando das literaturas, o Justino, o fofo Justino, e o António Cruz das elegâncias. Todos num luxo...

- Ó Cruz, tu vens um mimo! (O Rodrigues).

O Cruz preferia que lhe não falassem assim... E que lhe não chamassem Cruz,

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