4.2 Advanced Distributed Learning (ADL) Initiative
4.2.2 SCORM requirements
A construção do perfil do bailarino Enoch buscou-se alternar o foco narrativo. É claro que se colocou as falas e um pouco da história que ele contou. Porém, poucos arquivos foram encontrados na internet. O maior registro que se teve sobre a vida de Enoch foi através do documentário intitulado Vozes da Dança, que é um projeto de pesquisa de história da dança, com a finalidade de reunir relatos de pessoas que testemunharam e contribuíram para as configurações da dança paraibana ao longo das décadas de 1970 e 1980. Este projeto é um desdobramento da linha de pesquisa Dança: história, discursos e práticas, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Corpo Cênico -- NEPCênico, vinculado ao Departamento de Artes Cênicas -- DECEN, da Universidade Federal da Paraíba – UFPB, e está disponível no YouTube . Os outros conteúdos, como entrevistas e matérias de jornais relatavam de modo superficial a vida do bailarino, talvez pelo fato dele ter passado a maior parte de sua carreira fora do Brasil. O que mais aparecia na internet em relação ao artista era a abertura de inscrições para as aulas no Studio de dança ou referente aos espetáculos de ballet que ele realiza todo o ano com seus alunos.
Nosso encontro foi realizado no dia 12 de fevereiro de 2016 em sua residência, local também do Studio de Ballet José Enoch. O bailarino mostrou ser uma pessoa muito discreta, tentando expor de maneira desconexa e não cronológica alguns fatos da sua vida. Senti dificuldade de compreendê-lo e ou tentar se aprofundar na sua história, primeiramente pela falta de conteúdo disponível sobre a sua trajetória artística, segundo pela sua postura durante a entrevista. Enoch me passou um pequeno livro, que falava um pouco sobre sua vida e que foi distribuído durante o festival de dança realizado pelo Studio, no Natal de 2015. Esse livreto contribuiu para obter algumas informações e até mesmo verificar fotografias antigas conforme as imagens abaixo.
Imagem 9 - Livrinho contando a história do bailarino
Imagem 10 - Livrinho contando a história do bailarino
O perfil foi escrito principalmente através da minha observação sobre os objetos da sua casa, sobre a atitude e a personalidade do entrevistado. Questiono-me: Até que
ponto seria um texto autobiográfico? Até que ponto o repórter pode emergir na narrativa? Qual o foco narrativo quando o personagem principal ―não se mostra‖?
O narrador é essencial na composição da narrativa literária e jornalística, pois é ele quem conduz a história. A perspectiva do narrador em relação aos fatos é conceituada como foco narrativo. Medina (1990) esclarece que também pode ser conceituado como Ponto de Vista, sendo este mais adequado à literatura e o foco narrativo ao jornalismo. O foco pode se manifestar sob três possibilidades: o narrador faz parte da narrativa como personagem (primeira pessoa); ou ele tem uma visão de fora do acontecimento (terceira pessoa) ; ou escrita na segunda pessoa, esta, porém, sendo mais rara.
A narrativa em terceira pessoa, em que, convencionalmente, o autor permanece invisível, se subdivide na classificação de Alfredo Leme Coelho de Carvalho em: 1) Onisciência neutra externa, em que o narrador descreve dados externos às personagens e dá a aparência de não-participante. 2) Onisciência externa interpretativa: o narrador sabe de tudo que está se passando e comenta os acontecimentos. 3) Onisciência neutra plena, quando o autor penetra na intimidade dos sentimentos tanto quanto narra a ação externa, mas permanece como se não fizesse parte desse mundo, distanciado. 4) Onisciência interpretativa, que pressupõe participação e comentários tanto no nível externo quanto no nível interno das personagens. 5) Onisciência imediata: sem comentários elaborados dos pensamentos do narrador tomam a aparência e virem à tona no momento. Quanto à narração em primeira pessoa, as variáveis propostas pelo mesmo autor são as seguintes: 1) Narrador observador, distanciado. 2) Narrador protagonista, que se funde na ação dos personagens. 3) Foco narrativo mutante – ocorre uma mutação, sem pedir licença, de , por exemplo, um narrador observador em primeira pessoa, para um narrador oniciente de terceira pessoa. 4) Narrador que interfere em registros casuais que podem assumir tons de objetividade, interpretação, impressionismo ou ―infidelidade‖ (mentira deliberada, pois não há autor que mente?). 5) Aperceptivo, o que Alfredo L. C. de Carvalho conceitua como o narrador que faz referência ao ato de narrar, que assume uma postura metalinguística. Quanto à narrativa em segunda pessoa, o autor indica que se trata de um foco narrativo raro. (MEDINA, 1990, p. 71-72)
Na construção do perfil do bailarino José Enoch, como também nos outros textos, tentou-se alternar o foco narrativo. Nessa narrativa senti dificuldade de conseguir informações do personagem, tanto através da sua fala como por meio do processo investigativo.
Uso padrão é, sem dúvida, o ponto de vista onisciente neutro externo, o que pretende narrar ou descrever ―com objetividade‖ os fatos e transcrever as declarações das fontes de informação levantadas pela pauta em questão. [...] Da mesma forma, ao lidar com o perfil humanizado, o próprio conteúdo do entrevistado exige uma pesquisa
de expressão, uma opção pelo ponto de vista mais eficiente. (MEDINA, 1990, p. 73)
Mesmo que o foco narrativo seja em primeira pessoa a história não deve ser focada no autor e sim no personagem ou no assunto a ser abordado. Essa subjetividade mostra também algo de autobiográfico e apresenta características que são marcantes no Jornalismo Literário, principalmente tendo a reportagem escrita como forma de romance literário. Tom Wolfe no livro Radical Chique – O novo jornalismo esclarece a importância de ousar e alternar o foco narrativo de modo que a reportagem possa dar esse tom romanceado.
Gostava da ideia de começar uma história deixando o leitor, via narrador, falar com os personagens, intimidá-los, insultá-los, provocá- los com ironia ou condescendência, ou seja lá o que for. [...] Escrevia sobre mim em terceira pessoa, geralmente como um espectador perplexo ou alguém que estava no caminho, o que acontecia com frequência. Uma vez, até comecei a história sobre um vício para o qual tinha certa tendência, roupas feitas sob medida, como se outra pessoa fosse o narrador intimidante... tratando a mim com petulância. (WOLFE, 2005, p. 31)