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referente é apresentado no discurso. A informatividade11 é tratada a partir da classificação semântica e da codificação de referentes no discurso, considerando que tanto o texto quanto o contexto situacional constituem caminhos de acesso à identificação dos referentes.

Embora a noção de referência seja um conceito de difícil formulação, por envolver questões de denominação de ordem psicológica e social, muitos linguistas têm-se utilizado para classificar a informatividade dos sintagmas nominais na produção discursiva. A noção de referência é apresentada na condição de estabelecer uma relação entre expressão linguística e o que ela representa no mundo ou no universo discursivo. A referência é “a relação existente entre uma expressão e aquilo que esta designa ou representa em ocasiões particulares de sua enunciação”, (LYONS, 1981, p.147). A referência tem a propriedade de ser uma relação dependente do enunciado – uma propriedade historicamente situada, não aplicada, portanto, a palavras isoladas. A categorização dos objetos ou dos eventos não depende apenas da percepção, mas também da interpretação e do desenvolvimento cognitivo dos envolvidos no ato de interação.

O modelo12 de Prince, formulado em torno da informação que o falante supõe ser “familiar”, conhecida ou que pode ser inferida pelo ouvinte na interação, prevê além da tipologia de informação nova, evocada e inferível, diferentes graus de acesso à informação, a qual é codificada pelos referentes, representados pelos sintagmas nominais (SN).

11 A noção informação dada/nova recebe diferentes rótulos (velho-novo, conhecido-novo, pressuposição- foco) e tem sido utilizada para explicar fenômenos tanto no nível da sentença como Dativo, Pronominalização, Deslocamento à direita e à esquerda, Inversão, Sujeitos sentenciais; quanto no nível do discurso, como Topicalização e Foco.

Para Prince (1981), um referente ou uma entidade será informação nova (brand

new) quando um referente é introduzido pela primeira vez no discurso (como no exemplo13

11). Referentes novos podem ser de dois tipos: quando o referente é completamente novo é chamado novo-em-folha (brand news) porque aparece pela primeira vez e não estava implicado, nem implícito no contexto discursivo. Se já está na mente do ouvinte que pode presumir uma entidade correspondente, é chamado disponível (unused). Geralmente, representado por ser um referente único, o SN denota uma entidade única ou perfeitamente identificável num dado contexto. São exemplos de referentes disponíveis termos como a

lua, o sol, sábado ou o paisagista Burle Marx (como no exemplo 12).

(11) A cada dia que passa a televi-|são se torna mais poderosa como instrumento de comunicação de | massa. (Corpus PHPB/PE).

(12) Em entrevista concedida à im-|prensa de Porto Alegre, | Burle Marx chamou atenção para | a necessidade que há de ser con- | servada a flora brasileira [...](Corpus PHPB/PE).

Os referentes novos podem vir ancorados através de uma conexão explícita com outras entidades já mencionadas, como é mostrado no exemplo (13), em que o referente democracia racial é novo, mas é ancorado num referente conhecido, que é o Brasil.

(13) Numa democracia racial como | o Brasil, somente maculada por | ocorrências marginais que não in- | fluem no todo, a sensibilidade na- | cional encontra-se ferida com um | fato ocorrido no navio liberiano | “Sea Treacer”, um barco mercan- | te, em Fortaleza, Ceará. (Corpus PHPB/PE).

Um referente pode ser ainda evocado textualmente, se já tiver ocorrido no texto, percebido no exemplo (13) ou situacionalmente evocado se estiver disponível na situação de fala como os próprios participantes do discurso, conforme o trecho (14):

(13) A cada dia que passa a televi-| são se torna mais poderosa como instrumento de comunicação de | massa. Foi a partir dela que o pro- | fessor Marshall Meluhan, um ca- |nadense que se converteu no papa | da nova ciência, chegou à conclu-| são de que as comunicações moder- | nas propiciam o estabelecimento de | uma aldeia global. (Corpus PHPB/PE).

(14) “Estive ai, nesta pobrissi- | ma semana de bom cinema. Vi, | em Afogados o “Corresponden- | te Estrangeiro de Hitchcock e | o “Adoravel Vagabundo” de Ca- | pra que, francamente, não achei | tão adoravel... Infelizmente, | não pude esperar pela doce “Te- | resa”: senti muito por isso... | Olhei o DIARIO e lembrei-me | | de você: não me foi possivel, en- | tretanto, tentar encontra-lo.” (Corpus PHPB/PE).

Um referente denomina-se inferível quando o SN contém uma informação deduzida, possível, verossímil e presumida via processo de inferência a partir de outras informações mencionadas no contexto discursivo imediato. As entidades inferíveis podem ser evocadas, como nos exemplos (15 e 16). Os referentes inferíveis geralmente são codificados com um artigo definido:

(15) Se George Stephenson | não houvesse inventado | o trem de ferro; se não | existisse a locomotiva para | tracionar o comboio ferro- | viário, quem transportaria | as safras até o consumi- | dor? Os sistemas ferro-aé- | reo-

hidroviarios não tra-| riam solução completa | em termos de transporte | e

escoamento de safras | se cada um não estivesse | em conexão com os ou- | tros. (Corpus PHPB/PE).

(16) Com um atendimento diário que os- | cila entre 350 e 360 pacientes, o

Hospital | da Restauração está assegurando um re- | corde como unidade

hospitalar de emer- | gência no Recife. (Corpus PHPB/PE).

O referente codificado como os sistemas ferro-aéreo-hidroviarios é inferível porque foram mencionados os referentes o trem e locomotiva, os quais fazem parte do sistema de transporte de cargas. No exemplo (16), o informante toma como um consenso que pacientes estão localizados no hospital e apresenta o referente como inferível.

A forma de uma expressão de referência está associada ao princípio da marcação e à sua função como tópico ou foco na organização textual (VAN VALIN e LAPOLLA, 1997). Quando um referente adquire o status de tema ou tópico central, na produção discursiva, dependendo do grau de previsibilidade, pode ser apresentado de forma escalar14 por uma anáfora zero, um pronome, um SN definido ou um SN indefinido. Segundo Givón (1979), essas formas contribuem como estratégias para manter a continuidade do tópico no discurso. Assim, a alta frequência de sujeito elíptico em textos configura o caso mais alto numa escala de estratégias para manutenção do tópico no discurso, enquanto que SNs indefinidos são formas menos ocorrentes para manter o tópico discursivo. A figura 2, baseada nos trabalhos de Givón (1984), Levinson (1987), Gundel, Hedburg e Zacharski (1993), Ariel (1990) e Lambrecht (1994), sumariza os vários recursos disponíveis nas línguas para codificar a informatividade de um referente nominal a partir do conhecimento compartilhado entre os interlocutores bem como a escala de estratégias para manutenção do tópico no discurso.

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Figura 2 – Codificação dos referentes e possíveis termos funcionais

Markedness of occurrence as focus

Zero Clitic/bound Pronoun Pronoun DefiniteNP Indefinite NP pronoun [ - stress] [ +stress]

Markedness of occurrence as topic

Fonte: Van Valin e LaPolla (1997, p. 205)

A importância do status informacional do SN e sua maneira de codificação (anáfora, pronomes, sintagmas nominais definidos e indefinidos) para esta pesquisa, está, sobretudo, na confirmação da hipótese de que, dependendo do grau de informatividade, os SNs na função de sujeito influenciam a frequência de uso da ordem VS. Acredito, portanto, que a ordem VS não define um ponto de partida linguístico que coincide com o ponto de vista, ou seja, não dispõe de um sujeito que é ao mesmo tempo o tópico. Pelo contrário, a inversão configura, no plano discursivo, o tema periférico do texto. As estruturas VS, as quais Givón (1979) reconhece como estratégias de descontinuidade, são, na verdade, uma frase- comentário que possibilita mudança de tópico. Elas introduzem, geralmente, alguma informação nova que dificilmente será anafórica.

Sendo a ordenação VS, a priori, considerada em sua função de introduzir informação nova e de figurar cenário secundário, não central na construção dos textos, é relevante, portanto, discutir, na próxima seção deste capítulo, a noção de plano discursivo: