É importante trabalharmos essa cidade imaginária a partir do momento em que a mesma revela-se, em determinados momentos, muito real pois tem limites, atividades, agentes e habitantes. Como base, tomemos Luzzardi232 que aponta a existência de uma “cidade do imaginário” do século XXI, cujos limites diferem da cidade real e cuja centralidade é representada pela Praça Coronel Pedro Osório e seu entorno.233 Suas fronteiras são menores que
229 ROLNIK, Raquel. O que é cidade? São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 11-29. Cf. também ROLNIK, R. História Urbana: História na cidade? In: FERNANDES, A.; GOMES, M. A. F (orgs.). Cidade e História: modernização das cidades brasileiras nos séculos XIX e XX. Salvador: UFBA, 1992. p. 27-29. Dissertação de Mestrado; PECHMAN, R. M. (org.). Olhares sobre a cidade. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994. p. 3-8.
230 MONTEIRO, Charles. Cidade e culturas urbanas: as diferentes narrativas sobre a cidade. Inédito, s. p.
231 Sobre o imaginário da cidade, ver: PESAVENTO, Sandra J. O imaginário da cidade: visões literárias do urbano. 2.ed. Porto Alegre: UFRGS, 2002.
232 LUZZARDI, Henrique M. Desenhando Satolep: A construção da identidade visual de Pelotas no início do Século XXI. Porto Alegre: 2007. Dissertação de Mestrado.
233 LUZZARDI, Henrique M. Desenhando Satolep: a construção da identidade visual de Pelotas no início do Século XXI. Porto Alegre: 2007. p. 5. Dissertação de Mestrado.
119 as da aglomeração urbana e resumem-se à área central de Pelotas. As outras memórias que aparecem em seu trabalho são memórias individuais, portanto mais localizadas e peculiares, dos bairros nos quais os entrevistados nasceram e moraram, fora dos limites daquela cidade do imaginário para onde todos os relatos convergem. Aqui, existem vários palacetes representantes da salga e há, sem dúvida, o predomínio do universo visual identificado com o período do apogeu econômico do município e de seus efeitos (entre 1860 e 1920).
Mesmo sem mencionar uma rua ou uma construção específica, as referências às “construções antigas” ou ao “conjunto arquitetônico” não deixam dúvidas de que a cidade referida é o quadrilátero composto pelo primeiro e segundo loteamentos, acrescidos da região do porto. Isto é, a presença dos prédios mais antigos – carregados do simbolismo da gênese do povoamento – na memória dos cidadãos demonstra como aquela época foi importante para a cidade. E depois, com relação à zona do porto, salientam-se construções fabris de grande porte, ruas pavimentadas, praças e o próprio cais do porto, símbolos da modernização de que tanto tratamos. As poucas referências que se estendem incluem a região da “baixada” ou “várzea”, a Avenida Duque de Caxias (eixo principal do bairro Fragata, crescimento no sentido oeste) e o antigo Bairro da Luz (expandido no sentido norte, entre as avenidas Bento Gonçalves e Dom Joaquim, hoje incorporado à área central). Luzzardi acrescenta mais dois eixos: as avenidas Domingos de Almeida (antiga Estrada de Cima) e Fernando Osório (antiga Estrada das Três Vendas).
Vê-se que a pequena área não foi claramente abordada nas representações da cidade pelos participantes da pesquisa. As referências que se aproximaram do local enumeraram o Porto – com todo o significado de um local desenvolvido a partir das trocas comerciais, do transporte (entrada e saída) de produtos e da instalação de inúmeras indústrias – e as primitivas estradas – que originaram e estruturaram todos os espaços posteriores. Sendo assim, pode-se dizer que, a partir da representação principal da cidade por seus habitantes houve um amadurecimento da cultura de preservação do patrimônio histórico e arquitetônico. Possivelmente a ausência das margens do Canal São Gonçalo nessas representações esteja ligada aos processos de desvalorização pelos quais a mesma vem passando ao longo desses séculos.
Por outro lado, essa delimitação da cidade imaginária pelos cidadãos pelotenses traduz a instauração e concretização do discurso que foi construído ao longo dos últimos dois séculos. Esse discurso é o que viemos tratando durante o trabalho e engloba o estabelecimento do
120 processo de modernidade em cima de uma cidade criada totalmente à base das charqueadas. As ligações e aproximações entre o núcleo urbano e a periferia (trata-se aqui da área próxima aos arroios) mais uma vez não se estabelece. O entorno, que há algum tempo faz parte do aglomerado urbano e que também possui exemplares de patrimônio, com profundo interesse histórico, econômico e cultural, novamente não é lembrado.
Em contrapartida, os cursos d’água são mencionados, especialmente nas memórias de infância: o hábito de nadar no São Gonçalo, costume que hoje não se pratica mais; e os desvios do leito dos arroios, cujo desenho original mal se pode ver. Nota-se que as poucas referências à área são por lembranças de infância, como nadar nos arroios que remetem a hábitos de lazer. No geral, ficou a memória de uma cidade interessante, de porte médio com ares de cidade pequena, porém suja, lembrando um aspecto bastante citado: o descaso com o espaço público. Pelotas sofre, há muito tempo, como visto, com a falta de continuidade de planejamento urbano e a carência de investimentos em infra-estrutura, inclusive com a perda de qualidade daquilo que já existe.
Parte desse imaginário se deve ao fato de que, com o crescimento da indústria do turismo e a competição cada vez mais ferrenha entre as cidades, Estados e países por investimentos, os locais passam a ser encarados como possuidores de uma imagem institucional, de uma identidade visual, que de forma análoga à iniciativa privada, precisa comunicar atributos e se diferenciar da concorrência para alcançar seus objetivos.234 Porém, esses lugares são de uso coletivo sem uma propriedade definida, palco de uma série de manifestações culturais e de representações simbólicas.
Essas representações simbólicas são oferecidas através da relação com pontos de percepções culturais do espaço geográfico que complementam essa apreciação do imaginário. Para concluirmos a análise da área das margens do Canal São Gonçalo, e entendermos como a mesma apresenta-se hoje, é necessário examinar alguns pontos de referência construídos ao longo desse processo e que somente agora poderemos apreendê-los.235 As vias principais,236 na pequena
234 Ibidem, op. cit. p. 11.
235 Kevin Lynch, em A imagem da cidade, estabelece, dentro do capítulo “A imagem da cidade e seus elementos” os aspectos elementares que a formam, em várias categorias, sempre com ênfase ao subjetivo e ao valor humano. Destaca cinco delas que se tornam importantes por serem passíveis de receber determinado(s) significado(s), positivo(s) ou negativo(s): vias, limites, bairros, pontos nodais e marcos. Ver: LYNCH, K. A imagem da cidade e
seus elementos. In: ______. A Imagem da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1982.
236 As vias são trajetos públicos pelos quais há a locomoção dos indivíduos, seja em caráter ocasional, seja em freqüência diária. Na imagem da cidade, e do Centro Urbano, são os elementos majoritários, sempre presentes.
121 área em estudo, continuam sendo as antigas estradas, mesmo que muitas delas apresentem-se ainda sem pavimentação. Um fato positivo é que permaneceram as ligações, desde a época das charqueadas, porém, há de se considerar que as estradas circundantes passaram pelo mesmo processo de desvalorização da área. Hoje, elegeríamos a Estrada do Engenho como sendo a via de maior peso simbólico do local, por ligar dois exemplares arquitetônicos de interesse histórico – e estes ao centro – e por proporcionar ainda condições de uso.
Os limites237 da área estão estabelecidos pelos cursos d’água como o Canal São Gonçalo ao leste e o Arroio Pepino ao sul que se apresentam como grandes balizadores, fato que acompanhamos ao longo de toda trajetória. O limite norte é estabelecido mais pelo conjunto de construções que propriamente pela Avenida Cidade do Rio Grande, que se encontra interrompida em vários trechos. O estabelecimento de limites visuais indica e reafirma a peculiaridade da área em relação ao restante da cidade. Essas particularidades da área permitem que a mesma seja imageticamente definida como um bairro238 segregado visualmente pela Rua Dr. Mário Meneguetti, principal rua do loteamento do mesmo nome. A divisão de fato daquelas terras em bairros ainda não está oficialmente estipulada pela Prefeitura Municipal.
Nota-se, nesse caso, a ausência de pontos nodais239 que detenham a participação de sujeitos e que funcionem com valor estratégico de reter um fluxo dentro do espaço. O que podemos chamar de nós são os cruzamentos localizados às margens da área e que a liga aos demais bairros. Nesse sentido, os mesmos não têm ação interna que possa gerar algum benefício ao bairro. Em compensação, ao considerar-se a cidade como um todo, nota-se que o centro funciona como um grande ponto nodal, para onde as coisas (vias, pessoas, transações comerciais) convergem. Os marcos240 da área, que devem servir no estabelecimento de identidades, são os
237 Os limites são elementos que delimitam a área de determinada região urbana, caracterizando-se, nas imagens citadinas, como vias laterais que quebram uma continuidade de determinadas configurações. Dão enfoque à organização da área considerada, contornando-a totalmente.
238 Os bairros são áreas, locais ou regiões caracterizados por ter uma extensão territorial considerável dentro da cidade na qual se insere, com características peculiares e conhecidas. Servindo como referência para o seu deslocamento interno ou externo, os bairros variam em seu tamanho de imagem para imagem, sempre de acordo com as considerações aos elementos principais, mesmo havendo a delimitação oficial estabelecida pela Prefeitura Municipal.
239 Os pontos nodais, também conhecidos como nós, são elementos de grande valor estratégico, nos quais há a participação intensa dos sujeitos no cotidiano. Indo desde cruzamentos, até locais específicos, abrangem as concentrações urbanas para vários fins, e podem se configurar como vias e interligarem-se ao bairro ou centro. 240 Os marcos são referências externas, nas quais os indivíduos se baseiam para sua localização. Podem estar tanto distantes, observáveis em várias perspectivas, quanto locais, com visualização e acesso restritos.
122 dois prédios abordados no quarto capítulo que, por serem avistados de longe, anunciam um local ocupado e estruturado pelas indústrias.
Portanto, considerando-se essas abordagens podemos tomar algumas reflexões. Parece- nos óbvio que, à medida que realizamos tal análise na cidade como um todo as referências se modificam e os marcos e pontos nodais, principalmente, apresentam-se de outra forma. Vieira241 evidencia o que é o “Centro Histórico” sobre a sua geografia e história que, de tão marcantes e de tão famosas, acabam por imprimir toda uma visão que abrange esse território, no qual os elementos considerados mais importantes são aqueles que contam a história de opulência e cultura de Pelotas, de apogeu e riqueza das charqueadas e dos charqueadores. Nesse viés ideológico, as posições mais bonitas e positivas são sempre enfatizadas na análise dos mapas construídos, estando os mais cruéis (como a escravidão e a marginalização atual das áreas periféricas ou distantes do “Centro Histórico”) renegados a um segundo plano. Entre outras idéias apresentadas, Vieira deixa explícito que o centro urbano de Pelotas, ao menos na imagem subjetiva que dele tem, é dinâmico, com uma história própria e peculiar em relação aos demais espaços geográficos de outras cidades. É uma referência importante para que a análise sobre a área central seja efetivada, teórica ou praticamente.
Entretanto, não se pode desconsiderar tais elementos como indicativos da área especificamente bem como da sua relação com o restante do município.242 Como os elementos de enfoque podem interagir e se apresentar de modo diferente de indivíduo para indivíduo, os sentimentos e razões podem ser tanto aceitos quanto rejeitados pelos sujeitos.
Dentro dessa trama de representações também não se pode deixar de lado a singularidade de alguns edifícios que foram construídos com o passar dos anos e modificados de acordo com as estruturas (técnicas, espaciais, sociais) vigentes em cada processo econômico. O próximo capítulo aborda dois importantes complexos fabris que presenciaram e foram obras de tais transformações.