ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa DINÂMIA’CET-ISCTE
Resumo
O projecto do Mosteiro de Santa Maria do Mar (Sassoeiros) foi realizado, a partir de 1958, pelos arquitectos Nuno Teotónio Pereira (1922-2016), Nuno Portas (n.1934), Pedro Vieira de Almeida (1933-2011) e com a colaboração do paisagista Júlio Moreira (n. 1930), para a congregação religiosa das Irmãs Beneditinas da Rainha dos Apóstolos. Partindo da vasta documentação relativa ao projecto, existente no Arquivo do Forte de Sacavém, avança-se para a análise das diferentes fases do projecto, com o objectivo de revelar a narrativa do processo, enquanto co-relação entre a equipa de arquitectos e a congregação cliente. O diálogo de Nuno Teotónio Pereira com as irmãs beneditinas, resultou num programa arquitectónico funcional de excepção, que parte do estudo prévio elaborado como um “guião” (1958-1959) para a elaboração do projecto. Numa segunda fase, Nuno Portas e Pedro Vieira de Almeida concretizaram o desenho da forma do edifício, como se fosse a “realização de um filme” (1960-1962). Inserido no contexto do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (1954-69), o Mosteiro de Santa Maria do Mar é um mosteiro moderno que atesta o espírito de diálogo entre a congregação religiosa e o atelier de Nuno Teotónio Pereira, num processo de arquitectura participada ao qual atribuímos valor patrimonial.
Palavras chave
Mosteiro de Santa Maria do Mar, Beneditinas da Rainha dos Apóstolos, Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Pedro Vieira de Almeida
1 Estudo desenvolvido no âmbito da Vertente Teórica de Projecto Final de Arquitectura, entregue como
requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Arquitectura, sob a orientação da Professora Doutora Paula André: CASANOVA, Hugo - Mosteiro de Santa Maria do Mar: processo (em) aberto [Em linha]. Lisboa: ISCTE-IUL, 2019. Dissertação de mestrado. Disponível na Internet:
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Introdução
Partindo da vasta documentação existente no Arquivo do Forte de Sacavém, relativa ao projecto do Mosteiro de Santa Maria do Mar (Sassoeiros), realizado a partir de 1958, pelos arquitectos Nuno Teotónio Pereira (1922-2016), Nuno Portas (n.1934), Pedro Vieira de Almeida (1933-2011) e com a colaboração do paisagista Júlio Moreira (n. 1930), para a congregação religiosa das Irmãs Beneditinas da Rainha dos Apóstolos (Beneditinas Missionárias), avança-se para a leitura da relação entre cliente e arquitecto e para a análise das diferentes fases do projecto, com o objectivo de revelar a narrativa do processo do projecto.
Por processo entende-se o caminho que conduziu à concretização de uma pequeníssima parte do projecto original (c.1962-1968), ampliada posteriormente (c.1978-1981) por Nuno Teotónio Pereira. A partir da obra construída, de um conjunto de entrevistas (realizadas a Nuno Portas, Júlio Moreira e Pedro Botelho, que veio a ser colega dos arquitectos que trabalharam no projecto) e da documentação existente no arquivo do Forte de Sacavém (correspondência, esquemas, esquissos, desenho técnico, memórias descritivas, cadernos de encargos, fotografias de maquete e de obra), consideramos ser possível descortinar e revelar o projecto como um processo.
Figura 1 - BELO, Duarte – Um arquivo como uma cidade. Cidade Infinita (8/11/2016) [Em Linha]. Viseu: s.n. [Consult.: 08/11/2019]. Disponível na Internet: <URL: https://cidadeinfinita.blogspot.com/>
O processo do projecto do novo mosteiro de Sassoeiros constitui-se como uma co- relação entre a equipa arquitectos e a congregação cliente. O cerne deste processo durou cerca de dez anos (1958-1968) nos quais trabalharam Nuno Portas e Pedro Vieira de Almeida, liderados por Nuno Teotónio Pereira, que estabeleceu um diálogo frutífero com a congregação cliente. Esse diálogo é visível no programa funcional, que é como um “guião” apresentado em dois estudos prévios (1958-1959), menos presente no desenho da forma do edifício, elaborado numa segunda fase, como se fosse a “realização do filme” (1960-1962). Ao avançar para essa segunda fase do projecto,
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Nuno Teotónio Pereira passou parte do controlo da linguagem arquitectónica para as mãos de Nuno Portas e Pedro Vieira de Almeida. No entanto, assumiu o projecto, com os seus méritos e as suas consequências1F
2
, entre as quais a necessidade da interrupção da obra e da sua finalização precária, para a qual veio a elaborar um novo projecto.
Para o presente estudo tomamos de empréstimo a ideia do arquitecto e fotógrafo Duarte Belo (n.1968) de que “um arquivo é uma cidade, construída sem argamassa nem tijolos”2F
3
, já que resume o modo como os arquivos nos abrem a oportunidade de visitar edifícios que não existem, e de sermos conduzidos pelas anotações e reflexões dos arquitectos, especialmente na correspondência trocada entre Nuno Teotónio Pereira e a Congregação das Irmãs Beneditinas.
Processo de Projecto (do “guião” à “realização do filme” produzido por Nuno Teotónio Pereira)
Antecedentes
A Congregação Beneditina da Rainha dos Apóstolos foi fundada no ano de 19213F
4 , em Loppem, Bruges (Bélgica), onde as monjas começaram a construir o mosteiro de Nossa Senhora de Betânia como casa mãe, segundo projecto neo-românico (1924 e 19574F
5 ) do arquitecto Joseph Viérin (1872-1949). Em 1935, a congregação pretendeu estender-se a Portugal motivada pela necessidade de apoio à missão em Angola. Após alguma incerteza decidiu-se pela construção de um Mosteiro em Roriz, numa quinta pertencente à Abadia de Singeverga5 F
6
de monges beneditinos. Para a construção desse mosteiro foi chamado o arquitecto Raul Lino (1879-1974), recomendado pelos monges de Singeverga, por ser considerado “o melhor arquitecto do país”6 F
7
. Raul Lino elaborou o projecto do Mosteiro de Roriz ao mesmo tempo que um projecto para a Abadia de Singeverga. Os dois projectos7F
8
apresentavam o aparelho de pedra nos seus alçados e desenho de carácter medievalizante, que em Singeverga tinha referências neo-românicas e em Roriz, neo-góticas. O projecto da Abadia de Singeverga não teve seguimento, mas o do Mosteiro de Roriz foi parcialmente construído. A sua configuração final apresenta apenas dois dos lados do quadrilátero que o formava, terminados em 19398F
9 e em 19559F 10 .
2 Carta à Comunidade de Santa Maria do Mar (18/04/1978). Acessível em DGPC/Arquivo do Forte de
Sacavém (SIPA), Espólio de Nuno Teotónio Pereira [PT NTP TXT 00185]
3
Apresentação do número seis da Revista Património por Duarte Belo (6/11/2019)
4 ROCCA, G. - Benedittine della Regina degli Apostoli. In PELLICCIA, Guerrino, dir., ROCCA,
Giancarlo, dir. - Dizionário degli istituti di perfezione. Roma: Ed. Paoline, 1974-2003. Vol.I. p. 1278
5 AGENTSCHAP ONROEREND ERFGOED 2016 - Viérin, Joseph [Em Linha]. Bruxelas: Agentschap
Onroerend Erfgoed. [Consult. 08.02.2019]. Disponível na Internet: <URL:https://id.eritage.net/persons/5855 >
6 Histoire des Moniales Bénédictines de la Reine des Apôtres: Des Anées Laborieuses 1930-1945.
Rixensart: Editions du Centre «Le Chemin», 2006. Tomo IV. p. 79;
7
Histoire des Moniales Bénédictines de la Reine des Apôtres: Des Anées Laborieuses 1930-1945. Rixensart: Editions du Centre «Le Chemin», 2006. Tomo IV. p. 79; Raul Lino nasceu em Lisboa em 1879. In ALMEIDA, P. V. e FERNANDES, J. M. - História da Arte em Portugal: A arquitectura
moderna. Lisboa: Publicações Alfa, 1993. Vol. 14. p. 81
8
Acessíveis em Col. Espólio Raul Lino [RL 384] | FCG – Biblioteca de Arte e Arquivos e Col. Espólio Raul Lino [RL 387] | FCG – Biblioteca de Arte e Arquivos
9 Família Beneditina Portuguesa. Roriz: Edições Ora et Labora, 2018, p. 10 10 Família Beneditina Portuguesa. Roriz: Edições Ora et Labora, 2018, p. 24
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Figura 2 - Mosteiro de Betânia, Arq. Joseph Viérin, 1924. In Histoire des Moniales Bénédictines de la Reine des Apôtres: Benedictines et Apôtres. Rixensart: Editions du Centre «Le Chemin», 2006. Tomo III Figura 3 - Mosteiro de Notre Dame de Béthanie, primeira fase.Postal Ilustrado
Figura 4 - Mosteiro de Notre Dame de Béthanie, primeira fase e igreja. Postal Ilustrado Figura 5 - Mosteiro de Notre Dame de Béthanie na sua versão final. Postal Ilustrado
Figura 6 - Alçado Poente para o Colégio das Missões Beneditinas (Mosteiro de Singeverga), Raul Lino. In Col. Espólio Raul Lino [RLDA 384.4] | FCG – Biblioteca de Arte e Arquivo
Figura 7 - Planta para o Colégio das Missões Beneditinas (Mosteiro de Singeverga), Raul Lino. In Col. Espólio Raul Lino [RLDA 384.14] | FCG – Biblioteca de Arte e Arquivo
Figura 8 - Alçado para o Colégio das Beneditinas-Missionárias, Raul Lino. In Col. Espólio Raul Lino [RLDA 384] | FCG – Biblioteca de Arte e Arquivo
Figura 9 - Planta para o Colégio das Beneditinas-Missionárias, Raul Lino. In Col. Espólio Raul Lino [RLDA 384.27] | FCG – Biblioteca de Arte e Arquivo
Figura 10 - 1ª Pedra do Mosteiro de Roriz, Raul Lino. Col. Espólio Raul Lino [RLDA 387.31] Figura 11 - Fotografia da Primeira Pedra na parede exterior do mosteiro. Fotografia: Hugo Casanova Figura 12 - Inauguração do Mosteiro de Roriz em construção. Acessível no Arquivo do Mosteiro de Roriz Figuras 13 e 14 - Evolução do Mosteiro de Roriz. Postais Ilustrados
Figuras 15-17 - Mosteiro de Roriz. Fotografia: Hugo Casanova, Novembro de 2019
Figura 18 - Vista aérea do mosteiro de Roriz. In Google Earth [Em Linha]. [s.l.]:[s.n.] [consult. 2019]. Disponível na Internet: <URL: https://maps.google.com/>.
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Estudos Prévios - 1958-59 (o “guião”)
Em 1957, a congregação pretendeu instalar um grupo de irmãs perto capital de Portugal10 F
11
. As monjas escolheram o terreno de uma antiga quinta em Sassoeiros (Cascais), procurando o isolamento numa zona rural próprio da vida monástica. Para a elaboração do projecto do novo mosteiro de Sassoeiros, em 1958, a congregação recorreu ao arquitecto Nuno Teotónio Pereira, que nesse momento se empenhava na luta por uma nova arquitectura religiosa no âmbito do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR - 1954-69)11 F
12
, e já era reconhecido pelo projecto da Igreja de Águas, em Penamacor (1949-1957)12F
13 .
Figura 18 – Terreno já delimitado com contorno aproximadamente trapezoidal em carta de 1843-1846. In
COMISSSÃO PARA OS TRABALHOS DE TRIANGULAÇÃO GERAL E LEVANTAMENTO DA CARTA COROGRÁFICA DO REINO - Carta dos Arredores de Lisboa, Folha 2 (Oeiras- Cascais) [Documento Icónico]. s.l., s.n., 1843-1846. Escala: 1:10 000 In BOIÇA, Joaquim – Cartografia de Oeiras. Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras, 2003. p. 78
Figura 19 - Fotografia aérea do terreno de forma aproximadamente trapezoidal antes da construção do mosteiro (1958) rodeado de quintas sem construções. Imagem manipulada a partir de ortofoto. In OEIRAS, Câmara Municipal - Geo Portal Municipio de Oeiras [Em Linha]. Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras. [consult. 31.01.2019]. Disponível em WWW: <URL: http://geoportal.cm-oeiras.pt/ver/mapas> Figura 20 - Igreja de Águas, Penamacor (1949-1957), Arq. Nuno Teotónio Pereira. In PORTAS, Nuno – Arquitectura Religiosa Moderna em Portugal. Arquitectura. nº 60, (Outubro de 1957). p. 20-34
Em Junho de 1958, Nuno Teotónio Pereira dispôs-se a fazer o ante-projecto sem cobrar mais do que as despesas do atelier13 F
14
. Para começar o trabalho, o arquitecto pediu às irmãs a “planta do terreno e o programa com a descrição das necessidades, enumeração das peças e compartimentos necessários, na respectiva lotação ou dimensões aproximadas e nas ligações entre si”, solicitando também às irmãs “documentação sobre mosteiros antigos ou modernos”14 F
15
para melhor informar o seu projecto. Com essas
11 8/ Setembro “Memória da Fundação começada em Lisboa em 1957” In Família … p. 24
12 CUNHA, João Alves da - O MRAR e os anos de ouro na arquitectura religiosa em Portugal no século
XX: a acção do movimento de renovação da arte religiosa nas décadas de 1950 e 1960 [Em linha]. Lisboa: Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, 2014. Tese de Doutoramento. Disponível na Internet <URL: http://hdl.handle.net/10400.5/8099>;
13 PORTAS, Nuno – Arquitectura Religiosa Moderna em Portugal. Arquitectura. nº 60, (Outubro de
1957). p. 20-34
14
Carta à Ir. Maria Alberto (09/06/1958). Acessível em DGPC/Arquivo do Forte de Sacavém (SIPA), Espólio de Nuno Teotónio Pereira [PT NTP TXT 00172]
15 Carta à Ir. Maria Alberto (09/06/1958). Acessível em DGPC/Arquivo do Forte de Sacavém (SIPA),
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indicações, apenas cinco dias depois, as irmãs ou o arquitecto dactilografaram um programa provisório15 F
16
. Quanto a referências arquitectónicas, em Setembro, as irmãs enviaram a Nuno Teotónio Pereira uma lista de edifícios beneditinos16F
17
que o arquitecto poderia visitar, e que incluía, sobretudo, arquitectura historicista.
Figura 21 - Carta à Ir. Maria Alberto (09/06/1958) acessível no Arquivo Pessoal do Arquitecto Nuno Teotónio Pereira, Forte de Sacavém, SIPA [PT NTP TXT 00172]
Figura 22 - Programa Dactilografado, redigido por Nuno Teotónio Pereira ou enviado pelas irmãs (14/06/1958) acessível no Arquivo Pessoal do Arquitecto Nuno Teotónio Pereira, Forte de Sacavém, SIPA [PT NTP TXT 00176]
Figura 23 - Carta da Ir. Maria Alberto (18/09/1958) acessível no Arquivo Pessoal do Arquitecto Nuno Teotónio Pereira, Forte de Sacavém, SIPA [PT NTP TXT 00172]
Figura 24 - Estudo Prévio I (8/2/1959) acessível no Arquivo Pessoal do Arquitecto Nuno Teotónio Pereira, Forte de Sacavém, SIPA [PT NTP TXT 00175]]
Nuno Teotónio Pereira elaborou a primeira fase de trabalho com a consultoria do engenheiro agrónomo e paisagista Júlio Moreira. Esta fase preparatória corporizou-se
16
DGPC/Arquivo do Forte de Sacavém (SIPA), Espólio de Nuno Teotónio Pereira, SIPA [PT NTP TXT 00176];
17 Carta da Ir. Maria Alberto (18/09/1958). Acessível em DGPC/Arquivo do Forte de Sacavém (SIPA),
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no Estudo Prévio I, resultado de uma primeira troca de impressões17 F
18
e no Estudo Prévio II, que corrigia o anterior e sintetizava o programa e a proposta18 F
19
. No Forte de Sacavém, encontram-se os apontamentos e os esquemas desenhados por Nuno Teotónio Pereira para esta fase, com base em informação recolhida numa série de reuniões com as irmãs entre 1958 e 1959. Destas anotações apreendemos a informação necessária à organização do espaço, à definição das linhas gerais da intervenção a realizar e à concepção de um programa. São abordadas a privacidade e a abertura dos espaços, as ligações entre eles, as acções que se desenrolam em cada um, a liturgia, a rotina da congregação, as questões programáticas do seu carisma e as questões da paisagem e da envolvente.
Da área total do terreno (cerca de 5 hectares19 F
20
) apenas 6%20 F
21
seria ocupada por construção, por isso Nuno Teotónio Pereira considerou que a organização do solo era um aspecto “fundamental”, a planear por um “técnico da especialidade”, de forma interdependente do projecto dos edifícios21 F
22
. O Engenheiro Júlio Moreira elaborou um estudo, logo na primeira fase, onde propunha compartimentar o terreno para proteger as culturas, plantar uma “cortina” arbórea e arbustiva para defesa contra o vento Norte e também um conjunto de sebes. Sugeria ainda que as culturas hortícolas, frutícolas e agrícolas representassem o necessário para a alimentação de cerca de 40 pessoas, sem descurar o arranjo do terreno numa “solução harmónica”22 F
23 .
Figura 25 - Esboço de arranjo de terreno em Sassoeiros, Júlio Moreira, s.d. Acessível em DGPC/Arquivo do Forte de Sacavém (SIPA), Espólio de Nuno Teotónio Pereira [PT NTP TXT 00174]
Figura 26 - Planta Geral - Estudo Prévio II. Acessível no Arquivo Técnico de Urbanismo da Câmara Municipal de Cascais [Caixa nº 3851]
18 Estudo Prévio I - Notas explicativas de Nuno Teotónio Pereira (arquitecto) (09/02/1959) e Júlio
Moreira (Eng. Agrónomo) (07/02/1959). Acessível em DGPC/Arquivo do Forte de Sacavém (SIPA), Espólio de Nuno Teotónio Pereira [PT NTP TXT 00713]
19 Memória descritiva do Estudo Prévio II (23/9/1959). Acessível no Arquivo Técnico de Urbanismo da
Câmara Municipal de Cascais [Caixa nº 3851]
20 Estudo Prévio I … [PT NTP TXT 00713] 21
Memória descritiva do Estudo Prévio II … [Caixa nº 3851]
22 Apontamentos de Nuno Teotónio Pereira (31/01/1959). Acessível em DGPC/Arquivo do Forte de
Sacavém (SIPA), Espólio de Nuno Teotónio Pereira [PT NTP TXT 00175]
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Os desenhos de conjunto, elaborados por Nuno Teotónio Pereira, incorporaram o desenho de paisagem23 F
24
feito por Júlio Moreira. Nestes desenhos, eram definidos dois sentidos de abertura ao exterior, que revelam a dicotomia da actividade deste mosteiro. No quadrante Poente-Norte ficava a ligação à povoação, traduzindo a abertura da vida religiosa ao contacto com o mundo, através da prestação de vários serviços à comunidade24 F
25
. Como em Sassoeiros não existia igreja, a igreja do mosteiro deveria servir a população25 F
26
, compondo este primeiro sentido de abertura. A Nascente-Sul, junto às “dependências do mosteiro propriamente dito”, desenhava-se um “espaço recolhido do mundo profano, mas amplamente aberto à natureza”. Haveria jardins, hortas e pomares, para criar um ambiente propício ao silêncio, oração e trabalho26F
27 . Para a organização do programa no espaço, Nuno Teotónio Pereira registou detalhadamente o “horário provável” do mosteiro, em particular das orações,27F
28 e salientou alguns pontos do programa: a separação entre a clausura e o espaço acessível a visitantes, a complexidade de circulações resultante dessa separação e a grande importância da hospedaria e das actividades exteriores28 F
29
. A diferença de funções entre as várias áreas poderia ser expressa exteriormente separando-as em vários volumes: os blocos “hospedaria” e “igreja e clausura” como dominantes e os restantes mais baixos29F
30 . Nos seus apontamentos o arquitecto estudou dois modos para resolver a expressão, a organização e a construção dos volumes. O primeiro modo propunha o mosteiro como “uma construção estática, acabada, completa, fechada e envolvente” que poderia ser alcançada fazendo “um plano tão completo quanto possível” para construir faseadamente, de modo que as primeiras construções não parecessem um edifício inacabado. O segundo modo apresentava o mosteiro como uma construção “dinâmica em crescimento contínuo”. O projecto deveria permitir a possibilidade de ampliações “mesmo para além do plano total”30F
31
. Em complemento, Teotónio Pereira desenhou nos seus apontamentos o “esquema tradicional de crescimento” que tinha sido usado na construção do Mosteiro de Roriz, com uma legenda onde explica que segundo este sistema os serviços ficam instalados demasiado tempo em espaços provisórios inadequados.
Por isso, o arquitecto decidiu que no novo mosteiro, se deveriam construir primeiro as áreas essenciais, ao centro, ficando “susceptíveis de construção por fases e ampliações futuras”, apenas a hospedaria e a residência, nos extremos do edifício, e os serviços anexos exteriores, em edifícios independentes3 1F
32 .
Na fase inicial do projecto Nuno Teotónio Pereira planeava utilizar no mosteiro um sistema construtivo misto, em alvenaria da região com caiação nas construções baixas e em betão armado e tijolo nas construções altas. Como exemplo mencionava a casa da
24 MOREIRA, Júlio - Esboço de arranjo de terreno em Sassoeiros. s.d. Acessível em DGPC/Arquivo
do Forte de Sacavém (SIPA), Espólio de Nuno Teotónio Pereira [PT NTP TXT 00174]
25
Estudo Prévio I … [PT NTP TXT 00713]
26
Memória descritiva do Estudo Prévio II … [Caixa nº 3851]
27 Estudo Prévio I … [PT NTP TXT 00713]
28 Apontamentos de Nuno Teotónio Pereira (20/02/1959). Acessível em DGPC/Arquivo do Forte de
Sacavém (SIPA), Espólio de Nuno Teotónio Pereira [PT NTP TXT 00175]
29
Estudo Prévio I … [PT NTP TXT 00713]
30 Estudo Prévio I … [PT NTP TXT 00713]
31 Apontamentos de Nuno Teotónio Pereira (31/01/1959) … [PT NTP TXT 00175] 32 Estudo Prévio I … [PT NTP TXT 00713]
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Praia das Maçãs que Nuno Portas tinha acabado de projectar no atelier32F
33
(1957 - 1959)33F
34
, com alvenaria de pedra e lintéis de betão à vista. A referência a esta obra mostra, tal como refere Pedro Botelho, que “os projectos eram uma espécie de experiências únicas, mas que se encadeavam umas nas outras e havia uns procedimentos, umas maneiras, uns pensamentos, que iam evoluindo”34 F
35
. Nas fases seguintes do projecto o sistema construtivo evoluiu, mas, das propostas iniciais de Teotónio Pereira, manteve-se a omnilite (aglomerado de aparas de madeira com cimento), também utilizada na Casa da Praia das Maçãs, como material de revestimento para os tectos, que resolve problemas acústicos “sem sacrifício da rudeza e da austeridade”, enquanto que “os outros absorventes dão demasiado conforto”35F
36
, para um espaço monástico.
Figura 27 - Apontamentos de Nuno Teotónio Pereira para o Estudo Prévio I (31 Jan 1959) acessíveis no Arquivo Pessoal do Arquitecto Nuno Teotónio Pereira, Forte de Sacavém, SIPA [PT NTP TXT 00175] Figura 28 - “Esquema tradicional de crescimento” adaptado de Apontamentos de Nuno Teotónio Pereira para o Estudo Prévio I (31 Jan 1959) acessíveis no Arquivo Pessoal do Arquitecto Nuno Teotónio Pereira, Forte de Sacavém, SIPA [PT NTP TXT 00175]]; esquema da 1ª fase do mosteiro de Roriz adaptado de Col. Espólio Raul Lino [RLDA 384] | FCG – Biblioteca de Arte e Arquivo
Figura 29 - Casa na Praia das Maçãs In PEREIRA, Nuno Teotónio, PORTAS, Nuno - Habitação na Praia das Maçãs (1957-59) (sítio do Alto da Salada). Arquitectura. nº 79, (Julho de 1963). p. 11-14
A atenção à tradição monástica esteve presente desde o início do projecto, manifestando-se em elementos como a cultura dos solos e os claustros, que Nuno Teotónio Pereira propunha que ficassem “à margem do trânsito corrente”, devendo um claustro ser reservado às procissões diárias e à meditação, e outro ao recreio36F
37 .
33 Entrevista ao Arq. Pedro Botelho realizada por Hugo Casanova (24/10/2018)
34 PEREIRA, Nuno Teotónio, PORTAS, Nuno - Habitação na Praia das Maçãs (1957-59) (sítio do Alto
da Salada). Arquitectura. nº 79, (Julho de 1963). p. 11-14
35 Entrevista ao Arq. Pedro Botelho realizada por Hugo Casanova (11/10/2018) 36 Apontamentos de Nuno Teotónio Pereira (31/01/1959) … [PT NTP TXT 00175] 37 Apontamentos de Nuno Teotónio Pereira (31/01/1959) … [PT NTP TXT 00175]
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No entanto, a referência central à tradição monástica, reside num conjunto de “constantes” que o arquitecto identifica na arquitectura monástica beneditina, e que vêm a acompanhar todo o projecto a partir daí: a importância volumétrica da igreja, uma acentuada monumentalidade e mesmo grandeza de dimensões, um volume fortemente concentrado e bem hierarquizado, estático e acabado, sem qualquer nota de espontaneidade ou improvisação, e uma harmoniosa integração na paisagem, traduzindo um amplo contacto com a natureza37 F
38 .
Para concluir o trabalho exploratório inicial, Nuno Teotónio Pereira traduziu os seus apontamentos em texto e em desenhos muito simples usando formas rectangulares. Assim estabeleceu, mas ainda sem forma concreta, as bases do projecto de um complexo monástico beneditino no século XX, em consonância com as constantes da tradição. Segundo a leitura do arquitecto Pedro Botelho, neste trabalho a importância de