Um sistema de mercado é integrado quando os preços das várias regiões pertencentes ao mercado são determinados de maneira interdependente (FAMINON e BENSON, 1940), ou seja, um sistema de mercado será espacialmente integrado quando os preços praticados em cada um dos mercados responderem não apenas às ofertas e demandas locais, mas às ofertas e demandas de todos eles. A integração espacial de mercados refere-se ao grau de co- movimentação dos preços em diferentes locais, tendo em vista a correlação entre os preços.
O conceito de mercados integrados deriva da proposição da "Lei do Preço Único", que postula que bens idênticos obedeçam à regra de perfeita arbitragem, ou seja, são vendidos a um preço equivalente nos diferentes mercados, independente da moeda na qual é fixado (no caso do mercado internacional), após terem sido descontados os custos de transferência (custo de transferir o produto entre regiões). O mecanismo de arbitragem garantirá que os preços de bens idênticos em mercados espacialmente distintos sejam homogêneos. As diferenças de tais preços em mercados espacialmente distintos se devem aos custos de transferência.
Dessa forma, se os mercados espacialmente distintos forem eficientes, o mecanismo de arbitragem funcionará; caso contrário, esses mercados não serão eficientes. A "Lei do Preço Único" é uma relação que se cumpre no longo prazo, sem excluir a possibilidade de desajustes de preço no curto prazo (COSTA e FERREIRA, 2000).
O conhecimento do grau de integração de um mercado tem sido usado em uma variedade de questões econômicas (FACKLER, 1996). Alguns economistas, que estudam organização industrial, têm se interessado pela definição de mercado (a extensão do mercado), com vistas em determinar se firmas particulares estão sujeitas à competição efetiva, particularmente aquelas que possuem algum grau de poder no mercado local. Economistas têm se interessado, também, pelo grau de eficiência e integração econômica das regiões
que são economicamente eficientes e integradas, questionando se o mercado movimenta commodities em direção a usuários de mais alto valor e se é capaz de absorver grandes choques (colheitas abundantes ou escassas, equilíbrio nos preços internacionais) sem grandes problemas, entre outras. Outro ponto estudado por economistas que utilizam a análise de preços espaciais na organização de mercados é se diferentes regiões exibem relacionamentos dominante/satélite (padrão) e como os preços se ajustam, dinamicamente, a choques econômicos.
Segundo FACKLER (1996), apesar da ampla variedade de questões que se podem estudar pela análise espacial de mercado, o conjunto dos métodos empíricos é razoavelmente limitado. Grande parte dos métodos utilizados na análise de mercados espaciais utiliza séries de preços, por serem estes mais prontamente disponíveis e seguros. Tipicamente, séries temporais de preços em diferentes localidades são analisadas pela análise de correlação ou por alguma forma de vetor de análise temporal. FACKLER (1996) discutiu diversas abordagens econométricas possíveis para analisar o mercado espacial.
BARRETT e LI (1999), ao citarem Barrett (1996), Li (1997), McNew e Fackler (1997) e Fackler e Goodwin (2000), criticaram os métodos de análise de mercado – coeficiente de correlação bivariado, teste de causalidade de Granger, método de Ravallion e outros modelos de correção de erros, testes de co- integração, os quais utilizam suposições problemáticas, a saber: (i) Séries de preços sem negócio comum, os quais podem levar a uma correlação espúria, devido ao fato de as séries serem influenciadas por diversos fatores, como inflação, crescimento populacional, sazonalidade da produção, terceiro parceiro de negócio; (ii) Custos de transação aditivos e estacionários, isto é, a função custo de transação reduz-se a uma função de custos de transporte; (iii) Negócios contínuos e unidirecionais. Além disso, nenhum dos métodos existentes faz uso de dados sob fluxo de negócios.
Nesse contexto, BARRETT e LI (1999) propuseram uma nova metodologia de análise de mercado baseada na estimação de máxima verossimilhança (maximum likelihood estimation) de um modelo de distribuição,
no qual são incorporados dados de preço, custo de transferência e fluxo de negócios. Tal modelo permite diferenciar integração de mercado de equilíbrio de mercado competitivo. O modelo gera estimativas de freqüência de regimes alternativos, combinações que fornecem medidas úteis, intuitivas, de negociabilidade de mercado, de equilíbrio de mercado competitivo, de integração perfeita, de equilíbrio segmentado e de desequilíbrio segmentado. BARRETT e LI (1999) aplicaram tal método no comércio de farinha de soja, em economias à beira do Pacífico.
Na mesma linha de trabalho de BARRET e LI (1999), GONZÁLEZ- RIVERA e HELFAND (2000) analisaram a extensão, o padrão e o grau de integração do mercado brasileiro de arroz, num sistema multivariado com restrições de co-integração. A determinação da extensão do mercado foi feita por meio da identificação das localidades que estivessem ligadas por negócios e, portanto, onde os preços compartilhassem a mesma informação de longo prazo. Segundo GONZÁLEZ-RIVERA e HELFAND (2000), para que um mercado seja chamado de integrado é necessário que um conjunto de localidades compartilhe a mesma commodity negociada3 e a mesma informação de longo prazo4. Considerando uma estrutura de co-integração, a condição de compartilhar a mesma informação de longo prazo equivale a requerer a existência de somente um fator, que é comum a todas as séries de preços. Verificaram, também, o padrão de integração do mercado, o qual se caracteriza pela interdependência, que é analisada por um modelo de Vetor de Correção de Erros (VEC), do qual se extrai o componente permanente dos preços. A metodologia proposta por GONZALO e GRANGER (1995) foi utilizada na estimação do fator de integração (fator comum). Por fim, verificaram o grau de integração do mercado, determinado pelo tempo de reação para que cada uma das relações de equilíbrio de longo prazo absorva um choque em todo o sistema. Considerando o mercado determinado no estudo da extensão, buscaram, pelo grau de integração, oferecer
3 O termo “a mesma commodity negociada” significa o mesmo produto. No caso do café, que possui duas espécies – arábica e conillon –, significa o produto café, independente de suas espécies.
4 O termo “a mesma informação de longo prazo” significa compartilhar o mesmo fator comum. No caso deste estudo, significa compartilhar o mesmo fator comum com relação aos preços de café de cada Unidade da Federação utilizada.
uma classificação de todas as localidades, da menos integrada para a mais integrada. GONZÁLEZ-RIVERA e HELFAND (2000) definiram o grau de integração entre localidades que pertencem ao mesmo mercado como o tempo de reação para remover o desequilíbrio. Também criticaram os modelos bivariados, ao afirmarem que estes não são adequados para capturar a complexa dinâmica espacial de ajustamento de preços num mercado integrado de multilocalidades.
Da mesma forma, BARRETT (2001) criticou os métodos usados para investigar integração e eficiência em mercados internacionais. Segundo ele, a integração é melhor refletida pelos indicadores de fluxo básico de negociabilidade, enquanto eficiência está relacionada com noções de preços básicos de equilíbrio de mercado. A insuficiência de dados é uma séria restrição, visto que os testes empíricos, que confiam em preços justos, não podem separar o teste de hipótese da eficiência de mercado de testes de especificação de modelos sustentados em suposições fortes. Assim, se a eficiência de mercado se mantiver, poderá haver considerável sobra de ineficiência social, devido a barreiras de negócios e custos excessivos de comércio. Para melhor abordagem da integração espacial de mercados, levando em conta dados de fluxo e negócios e outros, BARRETT (2001) sugeriu novas metodologias, como modelos de co-integração limiar (threshold cointegration) e modelos de regimes alternativos (switching regime models).