4 Simulert fremtidig personellflyt
4.3 Scenario 2: Tilsettingsstopp 2017–2019
A noção de contexto que respalda esta pesquisa ultrapassa a ideia dicotômica de interioridade e exterioridade. Adotamos a ideia plural de contextos que dependem, para serem construídos, da inter-relação entre situações comunicativas sociais e da situação dos interlocutores, considerando seus conhecimentos compartilhados, suas intenções, propósitos e objetivos. De acordo com Koch (2003), os interlocutores podem desenvolver estratégias para o processamento eficaz do texto e para a seleção apropriada do contexto. Van Dijk (2012) segue na mesma
direção, ao postular que os contextos são amplamente planejados, ou seja, não são construídos a partir do zero, no momento da interação.
Acreditamos, assim, que toda situação de produção escrita requer que o produtor considere os dados do contexto para atender à proposta da redação. Em outras palavras, é necessário conhecer previamente e planejar prospectivamente as propriedades da situação comunicativa, saber com quem e onde vai se comunicar e com que objetivos. De acordo com van Dijk (2012), os contextos consistem em esquemas de categorias compartilhadas, convencionais e dotadas de uma base cultural. Assim, a bagagem sociocognitiva do produtor também permite que ele elabore estratégias para produzir sentidos.
Sabemos que contexto e interação estão estreitamente relacionados às possibilidades de produzir sentidos. A atividade linguística, de acordo com Koch e Cunha-Lima (2011, p.283), “é algo que se faz com os outros, conjuntamente”. A interação constitui-se, assim, como “lugar e modo de funcionamento da linguagem em relação à maneira como o sentido é construído nas atividades textual- discursivas” (MORATO, 2011, p.339). Ter em mente o seu interlocutor, suas características e a posição que ocupa na interação, permite ao produtor levantar hipóteses e projeções, planejar o texto, determinar estratégias.
Atestamos, desse modo, que os contextos e a especificidade da interação entre os participantes interferem nas escolhas do produtor tendo em vista seu desejo de atender a uma proposta de produção escrita. Quanto mais o produtor tiver conhecimento e mantiver presente em sua mente os aspectos dos diversos contextos e as especificidades da interação com seu interlocutor, além da mútua influência que sofrem e exercem texto, contexto e sujeitos em interação, mais chances ele terá de adequar a sua ação para atender às expectativas da situação de produção escrita.
O contexto mais amplo
Como pontuamos anteriormente, a redação de vestibular é um gênero que circula em uma esfera educacional, institucional e pública. Definimos a esfera pública para esse gênero em contraposição à ideia de esfera privada, no sentido de que ele não circula no âmbito das relações pessoais ou do cotidiano familiar. No entanto, não figura como pública no sentido da reprodução e do alcance midiático,
pois a redação de vestibular está restrita ao âmbito da universidade, sendo vedada, inclusive, a exposição do nome do candidato na mídia.
Nesse sentido, a redação de vestibular está inserida no âmbito das avaliações institucionais, as quais ocorrem anualmente, em algumas instituições mais de uma vez por ano, e são voltadas para a seleção de candidatos que almejam continuar seus estudos no ensino superior.
Essa prática social recorrente de produção escrita estabelece a interação entre o candidato (aluno egresso da educação básica) e a banca avaliadora (professor-avaliador). Essa prática se dá há mais de três décadas, constituindo-se a redação de vestibular como uma ação social tipificada que, por sua recorrência, a torna reconhecível, além de se constituir como objeto de ensino e de aprendizagem da escrita, sobretudo nos três anos finais da escolarização básica e nos cursinhos preparatórios para vestibular.
Configura-se, assim, o contexto mais amplo, dado a priori, dessa prática social, em que estão implicados os aspectos socioculturais e históricos que influenciam o contexto mais imediato, isto é, a situação autêntica de produção escrita.
Desse modo, a assunção da redação de vestibular como um gênero e sua inserção nesse campo social também determinam seus propósitos (funções, intenções e interesses), além de evidenciar a posição, os poderes, os deveres, os valores e os habitus49 dos indivíduos que nele atuam.
A situação de avaliação institucional, na qual se insere o gênero, determina também um propósito específico do produtor/candidato, aspirante à universidade, que consiste em comprovar sua competência no uso da linguagem verbal para atender as determinações do gênero, o que envolve seus conhecimentos prévios, não só linguísticos, mas também de mundo e textual.
Dessa perspectiva, o gênero redação de vestibular, por sua função e intenção, tem como propósito estabelecer um diálogo com o outro. O produtor, ao estabelecer um posicionamento frente ao tema determinado e desenvolver a argumentação para sustentá-lo, precisa levar em conta o seu interlocutor, o que determina a importância de se considerar a posição, os papéis e os valores dos sujeitos dessa interação.
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49 De acordo com Rojo e Barbosa (2015), entre as maneiras de agir em uma esfera ou campo, que
A interação entre os interlocutores
Nesse contexto, temos de um lado, o professor-avaliador, leitor proficiente, que avalia, seleciona e classifica; de outro, o candidato-produtor, ainda não proficiente, que se submete à avaliação, à seleção e à classificação e que está imbuído do desejo de ser aprovado.
Configura-se, assim, um contexto intersubjetivo atualizado na interação que ocorre entre o candidato ao exame de vestibular, estudante egresso da educação básica, e o professor-avaliador, profissional docente que compõe a banca avaliadora do exame, ambos situados sociocultural e historicamente em um contexto mais amplo.
Cabe ao professor-avaliador, leitor proficiente, identificar, por meio da redação, em que medida o candidato-produtor do texto, ainda não proficiente, engaja-se no assunto discutido, posicionando-se frente ao tema, além disso, o professor-avaliador deve seguir as pistas de sentido oferecidas pelo produtor para que possa interagir de maneira colaborativa, de modo a validar que o texto atende à proposta.
Cabe ao candidato-produtor construir um texto que atenda às determinações do gênero quanto ao posicionamento frente ao tema. Para tanto, deve fazer as projeções sobre o interlocutor para realizar as escolhas adequadas e oferecer as pistas de sentido necessárias e suficientes, de modo a comprovar ao interlocutor, o professor-avaliador, o atendimento à proposta pela explicitação da posição assumida, e alcançar o propósito de ser bem avaliado e, consequentemente, de estar capacitado a ingressar no ensino superior.
No caso da situação de produção de redações em exames de vestibular, temos claro que a interação entre os interlocutores não se estabelece de forma direta e próxima, como ocorre na sala de aula, na relação entre professor e aluno. Consideramos que a interação estabelecida no exame de vestibular está situada em um contexto institucional de avaliação, como já observamos, o que confere um distanciamento entre os participantes da interlocução.
Atestamos, assim, que os sujeitos envolvidos nessa interação ocupam posições hierárquicas em níveis diferentes: de um lado o candidato, produtor ainda não proficiente; de outro, o professor-avaliador, leitor proficiente. Esses sujeitos não se conhecem e não têm proximidade. Entendemos que essa dinâmica hierárquica, exerce influência, sobretudo, no produtor que, ciente de sua condição de avaliado,
procura atender às expectativas da proposta de redação, considerando seu interlocutor, para alcançar o propósito de ser aprovado.
Destacamos, ainda, que a posição e os papéis que os interlocutores assumem nessa interação, por serem mais fortemente marcados hierarquicamente, não funcionam como um fator facilitador para o produtor do texto, pois não se delineia, de antemão, a interação colaborativa do leitor, por ser ele um professor- avaliador. Assim sendo, para proceder às suas escolhas, o produtor conta apenas com pressuposições sobre o perfil desse leitor proficiente, seus conhecimentos, suas crenças, julgamentos, ideologias e sobre suas expectativas e grau de exigência como professor-avaliador.
Essa caracterização da interação, somada a um contexto de avaliação institucional da qual depende o ingresso na universidade, pode tolher a autonomia do produtor de expor, no texto, o seu real posicionamento frente ao tema. Além disso, pode influenciar nas escolhas do produtor ao recorrer a sua bagagem sociocultural e a seus conhecimentos textuais e linguísticos para expressar tal posicionamento. Dessa forma, o produtor pode tornar-se mais propenso a atender às expectativas do exame e do seu interlocutor (nesse caso baseado em pressuposições) do que defender uma posição pessoal e colocar-se de forma mais autônoma, arriscando não ser compreendido ou aceito. Ademais, podemos pressupor a insegurança advinda do fato de ser um produtor ainda não proficiente, que não tem a garantia da credibilidade de seu leitor.
Com base nos aspectos apresentados, podemos atestar que os contextos podem ser planejados e não são construídos a partir do zero, no momento da interação. O conhecimento da esfera de atividade, educacional e institucional, do propósito e das características do gênero redação de vestibular, bem como do perfil do leitor, o professor-avaliador, concorrem para o planejamento prévio do produtor, que visa tanto ao atendimento da proposta quanto à validação do leitor, tendo em vista a sua aprovação.
O contexto imediato
Outrossim, consideramos que a comanda do exame e o texto de referência, apresentados neste capítulo, na seção 4.2, disponibilizados pela instituição ao candidato produtor do texto, configuram o contexto imediato, importante e balizador. Tanto a comanda como o texto de referência desempenham o papel de estabelecer
determinações e trazer informações das quais o produtor lança mão para elaborar a redação e servem de parâmetros para a avaliação pelo professor-avaliador.
Vale destacar, ainda, que o artigo de opinião é um componente do contexto mais imediato, pois serve ao candidato como exemplo de proposta de argumentação, como repertório de informações e como fonte de possíveis valorações emitidas por um produtor proficiente que assume determinado posicionamento frente ao tema.
O artigo Cyberanonimato, como já exposto, traz duas possibilidades de posicionamento frente ao anonimato na internet e dialoga com o leitor no sentido de mostrar-lhe a complexidade do tema e a necessidade de reflexão e debate por parte da sociedade. Nesse sentido, o texto de referência escolhido pela instituição contribui para que o produtor defina um posicionamento frente ao tema, ou seja, trata-se de um fator facilitador. Da mesma forma, o artigo constitui-se como referência para o interlocutor, professor-avaliador, que, de posse das informações e da orientação argumentativa do artigo de opinião, pode utilizar os argumentos e as exemplificações nele expressos como âncoras para realizar as inferências propostas pelo produtor da redação.
Destacamos que as orientações da comanda para a produção do texto e os critérios de avaliação pertencem ao contexto imediato. Tais orientações são: clareza e coesão (construção da coesão e da coerência), ponto de vista (defesa de um posicionamento frente ao tema), texto do tipo dissertativo-argumentativo (gênero redação de vestibular), desenvolvimento de argumentos (orientação argumentativa) e emprego da norma culta (aspectos linguísticos, registro formal da língua, domínio das regras da gramática normativa).
A comanda evidencia que o produtor do texto sabe, de antemão, que deve dissertar sobre um tema e explicitar seu posicionamento frente a ele no texto, além de desenvolver argumentos para defender sua tomada de posição. A orientação pontua, ainda, que o candidato deve utilizar a norma culta e construir um texto com clareza, coesão e coerência, critérios pelos quais seu texto será avaliado. Dessa forma, o produtor pode planejar e desenvolver estratégias para o processamento eficaz do texto e para a escolha apropriada de dados dos contextos, imediato e mais amplo.
Assim, cabe ao produtor do texto, de posse das determinações do gênero e dos dados de contextos, fazer as projeções e hipóteses sobre o seu interlocutor, de
modo a planejar seu texto e deixar as pistas de sentido para atender a proposta, explicitando seu posicionamento frente ao tema e levando em consideração que ele é um leitor proficiente, que cumpre o papel de avaliador. Cabe ao interlocutor, o professor-avaliador, seguir as pistas de sentido deixadas pelo produtor e usar seus conhecimentos para realizar as inferências necessárias, de modo a atender a expectativa do produtor de que vai identificar no texto o seu posicionamento frente ao tema e validá-lo.
Para que essa dinâmica ocorra, concorrem tanto os dados do contexto mais amplo, a esfera de atividade em que se insere a prática comunicativa, os aspectos socioculturais e históricos condicionantes, e os papéis que desempenham aí os sujeitos da interação, quanto os dados do contexto imediato, o qual se constitui na situação real de produção escrita, que envolve o texto de referência, o artigo de opinião Cyberanonimato, a comanda do exame para a realização da redação e as determinações do gênero, que apresentamos na próxima seção.