Fonte: Pesquisa de campo abril de 2009
Quando perguntados sobre projetos que eles tinham vontade de desenvolver foram citados:
• Apoio ao projeto iniciado pela professora Onilda que envolve “literatura e meio ambiente”
À primeira vista, a manifestação dos professores da escola de Bom Jantar estava direcionada para o fortalecimento das parcerias com as organizações, caberia a nós aguardarmos a próxima atividade para comprovarmos tal tendência. As propostas de projetos sugeridas pela escola foram registradas para serem debatidas futuramente entre os parceiros
Na terça feira, dia 14 de abril retornei à escola de Sambaíba para avançarmos no planejamento da visita à Gruta do Curral de Pedras e repassar à diretoria o que havíamos debatido no dia anterior com os professores da escola. Nesse dia a diretoria se encontrava na escola e quando apresentei os pontos que haviam sido debatidos na reunião do dia anterior percebi certo tom de reprovação por parte da diretora que chegou a nos acusar de atropelar suas decisões. Em face desta situação busquei amenizar dizendo que as coisas ainda não estavam definidas e que aqueles pontos representavam encaminhamentos que deveriam passar pela diretoria para serem confirmados. Percebi que a diretora modificou por capricho o horário, aspectos do transporte dos estudantes e mais alguns poucos pontos do que decidimos na reunião passada. No entanto, ela não quis participar da visita muito menos opinar sobre a dinâmica de desenvolvimento da visita de campo. Esse fato deixou claro pra mim a centralização das decisões na escola. Nenhum professor se manifestou com relação à diretora. Ela realmente parece ser a “dona da bola”. E isso eu também precisava saber.
3.4.1 Minas em Destaque
Como decidido na reunião com a diretora, a visita à gruta ficou marcada para as 14:30 horas. Em função da falta de transporte para a escola neste horário fui obrigado a pegar um ônibus às 8:00 horas da manhã para estar lá às 9:00 horas. Estive, durante todo o tempo que antecedeu a visita, na escola. Embora a maioria dos professores não se reprimisse com a minha presença pude perceber que a diretora e algumas professoras não se sentiam muito à vontade. A meu ver, eles pareciam cobrados de alguma coisa. A princípio pensei ser reflexo das cobranças feitas pela Superintendência de Ensino que historicamente tem sido representada como uma organização que fiscaliza e cobra alguma postura da escola, mas isso não parecia ser o único motivo do incomodo.
inquietação. Perguntei sobre o Conselho Escolar e por quem ele é formado. Foi aí que eu comecei a entender uma das causas de porque pessoas de fora eram vistas de forma ameaçadora por um grupo de professores e pela diretoria.
O Conselho Escolar é formado por sete membros sendo três representantes de pais, dois professores, a especialista em educação e mais a diretora, a qual é presidente do conselho. A diretora me passou uma lista com os nomes dos membros. O tema também não era dos mais agradáveis, busquei não intensificar o clima tenso direcionando a conversa mais para a importância do conselho de forma geral e deixei de lado o debate sobre sua formação e legitimidade. Aquele momento, definitivamente não era o melhor para aprofundar em tais pontos.
Procurei me aproximar dos professores tornando o clima mais descontraído debatendo assuntos do cotidiano escolar. Após o almoço, o ambiente parecia mais agradável e quando chegou a hora da visita estávamos bem mais entrosados e descontraídos. Entramos no ônibus e partimos rumo à Gruta do Curral de Pedras, onde Seu Ari nos esperava.
As más condições das estradas exigiram que descêssemos do ônibus e terminássemos de chegar até o local da gruta a pé. Caminhamos cerca de 300 metros e chegamos a um terreno cercado com árvores altas. Seu Ari comentou que aquela área não estava sendo usada há 5 anos o que justificava o nível de preservação que a área se encontrava e dava evidências da rápida recuperação da vegetação do cerrado. Como Seu Tião não poderia estar presente no horário que ficou definido para fazermos a visita, seu filho Daniel, estudante do segundo grau da escola, se dispôs a estar comentando sobre a história do lugar. Entramos por uma trilha na mata e até então tudo corria bem. Chegamos ao local e era um pequeno despenhadeiro com pedras formando uma escada que dava acesso à entrada da gruta. Nesse momento, ficou evidente que faltou planejamento por parte dos professores antes da realização da atividade. Os estudantes se misturaram e se dispersaram muito no local, de forma que ficou difícil mantê-los concentrados no objetivo da visita, fato que foi confirmado quando o professor Emerson tentou fazer seus comentários sobre a vegetação e a formação geológica do lugar e foi impedido pelo barulho causado pela euforia dos estudantes. Temendo que o mesmo ocorresse durante a fala de seu Ari e Daniel, nos reunimos rapidamente e definimos que algumas turmas voltariam para a estrada enquanto os dois moradores do lugar falariam aos grupos que permanecessem. Parecia ser a atividade mais sensata no momento, uma
vez que, estávamos com 70 estudantes no local, e tornava-se perigoso a permanência de um grupo numeroso próximo às pedras.
Foi o que aconteceu, dividimos os estudantes em dois grupos ficando no local apenas os estudantes das turmas mais avançadas. Seu Ari, morador há 41 anos da comunidade de curral de pedras, começou a contar as estórias do lugar: segundo ele o dono do terreno, Seu Rosário, havia lhe dito que não tinha informação de quem destruiu o curral de pedras que dá nome à localidade e que fora construído pelos indígenas que habitaram a região, mas Joaquim Quente, marido de Dona Rosa, Pai de Ney, afirmou que fora mandado dos vizinhos, o finado Manassés, o Renato e a mulher dele, os dois falecidos, para fazer caieiras14. Isso aconteceu a mais de 40 anos e para tanto veio um moço do Barreiro – comunidade próxima – chamado Flaviano e começou, junto com os visinhos, a fazer as caieiras com as pedras do curral. Fizeram uma, duas, na terceira ou quarta caieira eles acharam uma miniatura da caveira de um boi gruzerá, muito bonita e que parecia ser de ouro ou prata. Quando eles foram almoçar na casa de Seu Manassés, o fazendeiro pelejou para comprar a caveira encontrada por Flaviano, fazendo a ele diversas ofertas pela venda do achado. Segundo conta os antigos, antes da retirada desta caveira acontecia de uma tocha de fogo sair da gruta e sobrevoar o terreno indo em direção ao riacho, mas que depois da retirada da caveira não se viu mais a tocha de fogo. Segundo Seu Ari, os povos das comunidades vizinhas costumam falar: “lá no morro do Seu Manassés tem um ouro...” mas que ninguém sabe se realmente existe ouro dentro da gruta. Essa história parece ser uma fusão das lendas da “Mãe do Ouro” e “As Minas de Prata de Robério Dias” relatadas por estudiosos como Saul Martins (1964) e Diogo Vasconcelos (1974). Seu Ari acredita que o curral não deveria ter sido destruído por se tratar de uma memória da comunidade, mas argumenta que naquele tempo o estudo das coisas era diferente, não se valorizava essas histórias e que hoje parece que as pessoas estão procurando ver mais as coisas bonitas do mundo, como a mata que já havia sido destruída e que se refez.
Os professores perguntaram se havia dentro da gruta algum vestígio da civilização indígena que habitara a região. Seu Ari respondeu que panelas ou espécies de vasilhames nunca foram encontrados mas Daniel afirmou que com boa iluminação é possível ver marcas deixadas nas pedras dentro da gruta, em forma de desenho e pinturas mas que em alguns lugares são ainda inexplorados. Seu Ari complementou
dizendo que não se tem notícia da tal caveirinha encontrada com Flaviano. Pode ser que ele tenha vendido ou que ainda se encontre com ele.