As quatro classes estáveis distribuídas pelo software ALCESTE estão apresentadas no dendograma da Figura 29. Por meio da análise visual dessa figura é possível verificar a classificação hierárquica descendente das classes. A distribuição das classes nessa configuração esquemática está baseada na proximidade lexical dos discursos contidos no interior de cada uma delas. Os discursos que possuem um contexto lexical semelhante estão agrupados no interior de uma mesma classe, formando um contexto que é específico dessa classe.
O contexto de cada classe, por sua vez, determina a sua proximidade ou o seu afastamento em relação à outra classe. Assim, quanto mais distante está uma classe em relação à outra, na representação gráfica da Figura 29, maior também é distância contextual das mesmas. Da mesma maneira, a proximidade gráfica reproduz tanto a proximidade contextual entre duas classes, como também a possibilidade do contexto dessas classes se complementarem, para formar um contexto dotado de significados mais amplos.
A partir das considerações gerais sobre a distribuição gráfica da Figura 29, é possível fazer o primeiro aprofundamento, em direção à análise de cada uma das classes separadamente. Os valores percentuais, contidos dentro dos círculos que representam graficamente as classes, fornecem as informações sobre distribuição relativa de UCE entre as mesmas.
Figura 29 - Classificação hierárquica descendente das classes.
Do total das 551 UCE encontradas, 288 estão alocadas na Classe 4, quantitativo esse que representa 52,27% e demonstra que a mesma se caracteriza como a maior de todas as classes. O segundo maior agrupamento contextual foi distribuído à Classe 1, na qual estão reunidas 123 UCE, as quais representam 22,32% do total. Nas demais classes foram alocadas um número menor de UCE, sendo que na Classe 2 estão agrupadas 88 UCE, que corresponde a 15,97% do total. A Classe 3 se distingue das demais por ser a menor classe, na qual foram agrupadas 52 UCE, as quais equivalem a 9,44% do total.
O agrupamento dos discursos em quatro classes distintas, estáveis e homogêneas, representadas na Figura 29, possibilita verificar que as classes 2 e 4 são representadas graficamente próximas uma da outra, pelo fato de que as mesmas contém um conjunto de palavras formadoras de contextos que se aproximam e que se complementam. Do mesmo modo, as classes 1 e 3 são adjacentes entre si, por reunirem léxicos que tratam de contextos próximos e complementares.
Embora cada uma das classes contenha contextos lexicais diferentes, sendo os mesmos específicos de cada classe, o conjunto representado pelas classes (2 e 4) e (1 e 3) formam subgrupos contextuais distintos com significado próprio. As palavras, léxicos ou vocábulos (aqui utilizados como sinônimos) mais recorrentes no texto analisado, estão relacionados na Figura 30 e distribuídos na ordem decrescente do qui-quadrado (X2), dentro das respectivas
classes. De acordo como Dancey e Reidy (2006) o X2 é uma medida estatística que possibilita determinar se há ou não um relacionamento ou uma associação entre variáveis categóricas.
Figura 30 - Dendograma das classes identificadas e palavras com maior “qui quadrado”.
No presente estudo, essas variáveis correspondem, de um lado, pelas palavras presentes no texto analisado e, de outro, pelas classes de discurso. Assim, quanto mais próximo da borda superior de cada uma das classes representadas na Figura 30, encontra-se o vocábulo mais elevado é valor encontrado para o seu X2 e, dessa maneira, maior é a sua associação com a respectiva classe de discurso.
De acordo com Nascimento e Menandro (2006), uma das características inovadoras do ACESTE® é justamente a classificação de palavras em ordem crescente do X², dividindo-as em classes distintas. Faz-se um estudo detalhado das palavras características de cada uma das classes, permitindo nomeá-las de acordo com a temática e/ou o contexto em que as mesmas são apresentadas nos fragmentos de texto. Assim, por meio da análise das palavras, do valor encontrado para o X2 de cada uma, assim como o contexto no qual elas foram empregadas pelos sujeitos no texto original, foi possível estabelecer uma nomenclatura específica para cada uma das classes.
As palavras pertencentes exclusivamente à Classe 4 estão relacionadas ao contexto social, a partir do qual os sujeitos expressam a necessidade de valorização da profissão docente. Dessa maneira, a esta classe de discurso foi dada a nomenclatura de Valorização. A Classe 2 contém palavras pautadas nas carências e necessidades, sobretudo estruturais, para o desempenho da atividade docente, sendo então nomeada de: Estrutura. As palavras agrupadas na Classe 3 estão relacionadas com o planejamento e a execução dos métodos de ensino, na qual os sujeitos consideram a inter-relação entre teoria e prática, sendo então nomeada de Método. A Classe 1 reúne os léxicos inerentes às condições pelas quais se desenvolvem as práticas docentes, a partir das interações entre os professores e os alunos, no ambiente de sala de aula, sendo então a nomenclatura estabelecida para essa classe: Práticas Docentes.
Como mencionado anteriormente, o dendograma da Figura 30 demonstra a existência de dois subgrupos ou blocos independentes, que incorporam as Classes 2 e 4 e as Classes 1 e 3 respectivamente. Verifica-se uma maior relação lexical entre as Classes pertencentes a cada um dos dois grupos, assim como a menor relação entre as classes pertencentes a grupos distintos. O contexto do primeiro bloco associa condições interacionais entre professores e alunos, ocorridas em sala de aula, com os conteúdos e os métodos de ensino, sendo então denominado de “Processo Ensino/Aprendizagem”. O segundo bloco agrupa questões relacionadas à carência de estruturas necessárias ao suporte das atividades docentes, associadas ao contexto de desvalorização social da profissão, recebendo a denominação de: “Necessidades Docentes”.
A pergunta utilizada como questão aberta, na ferramenta de coleta de dados, possuía um caráter genérico, cuja finalidade inicial era proporcionar um estímulo aos sujeitos pesquisados, para que se posicionassem espontaneamente, a partir de uma ampla possibilidade de respostas. Por meio desse questionamento se buscou criar condições favoráveis, que permitissem aos licenciandos exporem seus conhecimentos, opiniões, crenças e valores sobre o objeto de interesse do presente estudo.
A ampla possibilidade de respostas permitiu o estabelecimento da primeira condição necessária para a emergência das RS: a dispersão da informação (MOSCOVICI, 2012). A partir dessa condição inicial, os sujeitos necessitaram direcionar suas atenções para certos aspectos específicos do amplo contexto, na tentativa de formularem respostas coerentes, ficando estabelecida a segunda condição: a focalização. A necessidade de realizar a focalização de deve ao fato de que “[...] o conhecimento humano é uma forma de representação que nunca captura plenamente a totalidade do objeto” (JOVCHELOVICH, 2011, p. 76).
Ao focalizar em aspectos específicos do objeto, a complexidade do mesmo é reduzida, acarretando na sua simplificação e criando as possibilidades para o surgimento da terceira condição: a pressão à inferência. Dessa maneira, os licenciandos são pressionados a fazer inferências sobre o objeto “professor”, uma vez que esse objeto possui significativa relevância na vida desses sujeitos. A relevância do objeto “ser professor” se trata de uma construção histórica e social, por meio da qual os sujeitos construíram (e continuam incessantemente a reconstruí-lo) simbolicamente, ao longo dos processos denominados de socialização secundária (BERGER e LUCKMANN, 2011).
Tais processos ocorreram, inicialmente, durante os vários anos de escolarização, nos quais os sujeitos tiveram inúmeras possibilidades de entrar em contato com esse objeto, o qual permeia praticamente todas as relações em sala de aula. A partir da opção em cursar uma licenciatura, esse objeto deixa de ser algo externo ao sujeito, passando a compor o seu “Eu”, ou seja, a fazer parte da sua constituição enquanto sujeito, a constituir uma das muitas possíveis identidades sociais que necessitam uma constante (re)construção (HALL, 2006).
As inferências sobre o objeto em questão materializaram-se na forma dos textos produzidos pelos sujeitos, em resposta ao questionamento que lhes fora feito por meio da questão aberta, contida na ferramenta de coleta de dados. Tais textos foram submetidos ao tratamento estatístico, que resultou nas quatro classes distintas de discurso, apresentadas nas Figuras 29 e 30.
Cada classe contém diferentes agrupamentos simbólicos, os quais correspondem às diferentes focalizações e inferências produzidas pelos sujeitos, sobre o objeto pesquisado, possibilitando o estudo dos processos representacionais. O estudo dos processos formadores das representações sociais se procede a seguir, a partir da análise do conteúdo lexical de cada uma das classes de discurso. Para a análise de conteúdo, considerou-se inicialmente a separação lexical dos discursos em dois blocos distintos: o primeiro composto pelas Classes 2 e 4 e o segundo composto pelas Classes 1 e 3.
A partir da análise do conteúdo lexical do primeiro bloco, inicia-se a análise da Classe 4, que trata das necessidades de valorização docente e, na sequencia, da Classe 2 que contém elementos inerentes às necessidades estruturais para o desempenho do ofício docente. O conteúdo do segundo bloco é analisado e, sequencialmente se procede à análise de conteúdos da Classe 3, que trata dos métodos de ensino, e da Classe 1, que possui elementos lexicais inerentes à prática docente.