3. I MPACTS OF THE P OLICY T RANSITION
3.4. Scale, Ownership and Environmental Impacts
Ao longo da história das civilizações humana, é possível verificar que os agrupamentos sociais reúnem modos próprios de alimentação, representado uma viva expressão das relações sociais em seu conjunto. Todavia, as revoluções e o desenvolvimento histórico global, uma vez criados hábitos, costumes e crenças
alimentares, têm a força de modificar a alimentação humana (não sendo a recíproca verdadeira). O fim do nomadismo8 não foi consequência da colheita regular de trigo,
antes pelo contrário, decorreu de condições opostas a ela, motivando o desenvolvimento de técnicas de cultivo desse cereal e, por conseguinte – além da novidade do sedentarismo – trouxe adaptações nos modos de armazenamento, preparo e consumo(GRAMSCI, 1978).
Na realidade contemporânea – construída como tal mediante relações sociais ao longo da história (BERGER; LUCKMANN, 2009)– o desenvolvimento tecnológico da agricultura (fortemente vinculada ao gênero masculino) afastou do comum dos homens em sociedade a primitiva função caçadora. Nesse contexto, o “trabalho” passou então a ser a forma primária de sustento alimentar, mantendo-se, entretanto, o deslocamento regular entre a habitação e o “local de caça” (MORRIS, 2010).
A despeito da exploração desmedida do meio ambiente e da falta de legitimidade social do mercado livre, o modo de produção capitalista expandiu de tal ordem que seu tamanho, ao determinar e expor iniquidades sociais em saúde, passou a ser ameaça à sua própria perspectiva de reprodução. Contexto análogo ao verificado na primeira fase da revolução industrial, momento em que as péssimas condições e a jornada exaustiva de trabalho deram causa a muito sofrimento e a inúmeras mortes (GALLO, 2012), ameaçando o segmento do modelo e motivando ajustes no modo de exploração do labor humano.
Sabe-se que, além do sedentarismo, a convergência de práticas agropecuárias contemporâneas (baseadas no extenso uso de insumos químicos) com mudanças de hábitos alimentares urbanos (pautadas na globalização do consumo de alimentos impróprios à sadia qualidade de vida) tem favorecido um aumento, sem precedentes, na incidência de doenças crônico-degenerativas (várias das quais associadas à nutrição), como revelam indicadores epidemiológicos já nos anos 1990 (VALENTE, 2002). Naquela década, conforme lembra Vasconcelos, se configurou uma forte tendência à massificação dos hábitos e práticas alimentares em escala planetária, reproduzindo padrões dietéticos ocidentais notabilizados por serem
8 Na Pré História, comunidades humanas inteiras movimentavam-se em busca de espaços onde encontrassem alimentos e outras condições materiais essenciais à vida, os nômades, demorando-se pouco em cada lugar. Acredita-se que o desenvolvimento da agricultura foi determinante para fixação do homem em um dado território.
ricos em gorduras (sobretudo as saturadas) e açúcar (principalmente a sacarose) e pobres, dentre outros nutrientes, em vitaminas e sais minerais.
O modelo de produção pautado no monocultivo irrigado de frutas para o mercado externo induz e impõe mudanças sensíveis no espaço territorial e na vida humana, uma vez que afeta severamente a saúde do trabalhador rural, vitimado por precárias condições de trabalho em razão da absurda exposição a agrotóxicos nos campos de plantios (PESSOA; RIGOTTO, 2012). Além disso, faz-se necessário produzir novas tecnologias em substituição aos clássicos sistemas agrícolas, impostos pelo poder hegemônico (PORTO; SOARES, 2012).
Na realidade, a economia contemporânea, norteada pela força de grandes conglomerados financeiros, também especula artificialmente com o comércio de alimentos, ao negociá-los na forma de commodities agrícolas em bolsa de
mercadorias e futuros. Nesse ambiente financeiro, cuja circulação e transferência de
valores ocorrem em tempo real, os alimentos são cotados conforme os preços a eles atribuídos em função da dinâmica do mercado. Nessa lógica, a dicotomia entre a produção de comida para seres humanos ou a geração de combustíveis para máquinas é reduzida a uma questão de preço, sendo a inflação de alimentos que limita o aporte de nutrientes às famílias mais empobrecidas (RICARDO; CLARO, 2012)mero efeito das tensões presentes no mercado.
O mercado de alimentos, em franca expansão na atualidade, revela-se indiferente aos efeitos nefastos dos produtos que negocia sobre a saúde humana, quer pela ingestão elevada de calorias ou de componentes sabidamente prejudiciais, uma vez que seu foco é o aumento do consumo. Não por acaso, portanto, assiste-se o aumento da prevalência, incidência e intensidade dos problemas nutricionais em todo o mundo, tornando a questão alimentar/nutricional um permanente e crescente desafio no âmbito da saúde coletiva.
O incremento do consumo de alimentos processados, altamente calóricos, pobres em nutrientes, impregnados de agrotóxicos e aditivos de efeitos duvidosos ou francamente nocivos, dá a dimensão do viés de insegurança alimentar/nutricional da movimentação econômica baseada no aumento do consumo. Tal movimento se apoia no crédito fácil e incentivo fiscal, a pretexto de promover o crescimento
sustentado do mercado e, nesse passo, gerar mais emprego e renda. O caos da mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras, o sedentarismo e os estilos de vida não saudáveis levando à obesidade e a outros males nutricionais, também podem ser apontados com resultantes dessa linha oblíqua do consumo desmedido.
Quanto a esse modelo, vale lembrar que nos anos 2007 e 2008, os Estados Unidos protagonizaram uma crise de dimensões globais, notabilizada pela instabilidade da economia nacional (maior do planeta), fortemente baseada no consumo. À época, o mundo foi surpreendido por uma perda dramática da credibilidade do sistema financeiro norte, decorrente da especulação associada à inadimplência no setor imobiliário, crise esta com efeitos que ainda se multiplicam. Nesse cenário, caiu a oferta de crédito ao consumidor, e, por conseguinte, o poder de consumo das famílias. A solução encontrada envolveu a edição de medidas econômicas para recuperar o consumo, como também o saneamento de bancos para recuperação do crédito (BUENO, 2008).
No que concerne ao Brasil, ao analisar a possibilidade de existência de uma “bolha” no mercado imobiliário nacional, economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) revelam que a insistência do governo em aquecer ainda mais o (já aquecido) mercado imobiliário (para citar apenas uma esfera do mercado), sabendo-se que a maioria dos contratos de financiamento habitacional no país é indexada por juros pós-fixados, só tende a piorar o quadro já vulnerável às oscilações das taxas de juros (BRASIL, 2012c). No mesmo estudo, os autores sustentam que as atuais políticas fiscal e monetária do país são inflacionárias, tendentes a elevar o custo de vida, dificultando ainda mais o acesso econômico aos bens, dentre eles, os alimentos. Esses, uma vez demarcados como mercadorias (commodities), cabe lembrar, têm produção, oferta e preço variáveis em função de especulações de toda ordem no mercado financeiro internacional, movimentadas no mundo do agronegócio (agrobusiness).