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SAYINGS OF SUFFRAGE WEEK

In document OPINIONS OF WOMEN ON (sider 84-89)

No recorte a seguir, outra imprecisão ajuda a construir o sentido de urgência para a proposta, apresentando a crise do setor fonográfico como uma situação muito grave:

A partir de 2004, a situação parece estabilizar-se um pouco, mas já num patamar bastante crítico.

Como foi citado anteriormente, o intervalo estatístico destacado compreende, de um lado, o melhor ano em volume de vendas para as empresas do setor (1997) e, de outro, o ano em que esse volume chegou ao patamar mínimo. A comparação realizada nesses termos apresenta uma queda bastante brusca, o que aumenta o apelo para a solução do problema. O problema aqui está em aceitar os dados sem criticá-los. Tal postura, se levada ao extremo, colocaria em questionamento a legitimidade e os interesses envolvidos nessa proposta de alteração constitucional. Não é possível analisar para além do que o texto apresenta, mas faz parte da análise deste trabalho perceber os silêncios. Dessa forma, o recorte estatístico, da forma como foi apresentado, pode ser considerado como uma tentativa para evidenciar uma informação e silenciar outra, de modo a defender o discurso que favorece as empresas do setor fonográfico. Alguns números foram apresentados como provas irrefutáveis, sem mencionar que foram cuidadosamente retidos do contexto outras informações, pois se optou por enquadrar um período estatístico que poderia sugerir uma crise sem precedentes, que alcançou um “patamar bastante crítico”.

Observando mais detidamente esse ponto, pode-se, provavelmente, entender que a informação não foi criada por Otávio Leite, mas copiada de dados recebidos dos representantes do setor. Essa percepção torna essencial incluir na análise não somente a posição-sujeito do redator, como um deputado, mas também sua relação com as empresas do setor. Haveria indícios de uma atuação para além do debate político, que visava privilegiar os interesses de empresas/setores específicos? Ou a atuação do deputado como defensor do modelo de negócios se deve por tomar como seu o discurso da indústria fonográfica?

Há algumas implicações em tomar o discurso como já-dito: ao analisar a questão com maior atenção e cuidado, o posicionamento do deputado se confunde entre um defensor setorial e um defensor de um discurso. Nos dois casos, sua ação é a mesma: entender como desnecessário o estabelecimento de contrapontos para o debate em questão. Não se espera neutralidade ou imparcialidade no discurso de um deputado, afinal faz parte de sua função defender os interesses de quem ele representa, contudo, se pensarmos na situação ideal, ele não é representante de um setor da economia, mas de pessoas do Estado que o elegeu para propor, interrogar e apreciar alterações nas leis, de forma que o máximo de informações seja colhido e a decisão beneficie o coletivo. Retomando o argumento do início do parágrafo, tanto a situação de defensor de setor da economia quanto de defensor

de um discurso já-dito têm como ponto inicial ignorar as outras possibilidades de argumentação ou considerar desnecessária a ampliação do debate.

Os números poderiam apresentar diversos cenários, mas apenas um deles foi escolhido: os mesmos dados poderiam denunciar uma crise sem precedentes, ou o esgotamento de um modelo de negócios ou, ainda, que o final dos 1990 foi atípico para o setor, que agora retoma seus patamares históricos. Percebe-se que, mesmo sem alterar o intervalo estatístico, três versões sobre os dados poderiam ser proferidas. No texto da PEC da Música, optou-se por apresentar a situação do setor fonográfico como uma crise sem precedentes, que exigia ações também grandiosas. Contudo, entre as opções apresentadas, era possível chegar à conclusão de que os números de 1997 estavam fora do padrão de crescimento da indústria. Essa opção seria atraente para outro grupo, talvez contrário aos interesses da indústria fonográfica, mas sofreria com o mesmo enviesamento que a opção anterior, ou seja, essa percepção só poderia ser adotada se desconsiderassem o contexto histórico com o qual o dado se relaciona, isto é, se fosse desconsiderado que, no período, houve mudança de moeda e um plano econômico, que elevaram demasiadamente o otimismo da população, o que explica, de certa forma, a rápida evolução dos números desse mercado.

Não se tratam, então, de dados comprováveis e irrefutáveis, mas de construções discursivas que utilizam os dados disponíveis e conduzem a interpretação para que interesses sejam defendidos. Basta ao enunciador evidenciar o que lhe interessa e silenciar sobre outros pontos, o que sugere a retomada das perguntas iniciais desta seção: o legislador se apresenta como defensor de um setor ou como defensor de um discurso que entendeu como indiscutível? Essa não é uma pergunta trivial, visto que ela está relacionada ao poder da construção da memória discursiva, fazendo do discurso defendido a única opção para o sujeito que está diante do debate, um tipo de poder que faz os sujeitos ignorarem a existência de opções mais destacadas em relação ao discurso em vigência, e que gera confusão entre a ação de um sujeito pessoalmente interessado no resultado, e outro, plenamente convencido que aquela possibilidade é única.

Devido à falta de informações detalhadas e pertinentes, não é possível inferir acerca da relação do deputado com as empresas do setor. Contudo, pela observação, é possível notar que essa relação se fundamentou numa apropriação de dados, sem o devido

questionamento, exigência mínima da tramitação de uma proposta de emenda à Constituição Federal. Além da certeza sobre o interesse do deputado, interessa refletir sobre como as situações podem se confundir com essa reflexão. Apesar de questionar a situação, não se pretendeu sugerir a ilegitimidade do deputado como propositor da PEC. A ideia aqui foi apresentar as implicações de se ter um discurso indiscutível diante de um debate político, que envolve mudanças dessa magnitude.

In document OPINIONS OF WOMEN ON (sider 84-89)