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As duas últimas perguntas do questionário tiveram o objetivo de conhecer como as participantes nomearam e perceberam a própria história tendo como estímulo o título do livro “Mas ele diz que me ama”. As respostas apresentadas pelas participantes estão descritas nos Quadro 5.6 e Quadro 5.7 e estão divididas de acordo com os Grupos GSC e GSF.

A pergunta apresentada no questionário para que as mulheres nomeassem a sua vivência foi a seguinte: “A Roz resumiu a história dela com o título: „Mas ele diz que me ama...‟. Qual seria o título da sua história?”. As respostas são apresentadas no quadro abaixo (Quadro 5.6):

Quadro 5.6: Título das próprias histórias pelas participantes

Grupo Saindo do Cativeiro

2. Saindo do cativeiro.

3. O desprezo de um homem.

4. Eu nunca fui feliz com ele

5. “Teu silêncio e tua frieza me deixam em dúvidas do que sentes por mim”

6. O homem que diz me amar me dirigiu a palavra nesses termos...

7. A decepção de uma sonhadora.

8. Mas suas atitudes não condizem

9. Apesar dos pesares, eu o amo tanto!

10. Eu não conhecia o amor próprio...

Grupo Um Dia Serei Feliz

11. Mas ele diz não consigo viver sem você

12. Deus é fiel 13. Um dia serei feliz

14. A insistência dele foi em vão

15. Dê-me mais uma chance, a última!

16. Amor e ódio

17. Por que se chama de amor se traz tantas dúvidas, medos e inseguranças. Será mesmo amor?

18. Ele não me ama

19. “Ele merece uma chance pra mudar”

Constatamos algumas características em comum nos títulos apresentados pelas mulheres. A ambigüidade de sentimentos; percepção da realidade (violência na relação ou de que algo não vai bem na relação); e a expectativa de uma nova vida após a separação foram as categorias de títulos mencionados pelas participantes.

Diversos títulos indicaram a ambigüidade de sentimentos presentes no relacionamento conjugal. O paradoxo entre o amor e a violência é o fator que deixa a mulher totalmente confusa sobre o vínculo com o parceiro. Essa característica foi apresentada pelas mulheres dos dois grupos, de acordo com os seguintes trechos: “teu silêncio e tua frieza me deixam em dúvidas do que sentes por mim”; “o homem que diz me amar me dirigiu a palavra nesses termos...”; “apesar dos pesares, eu o amo tanto!”; “mas suas atitudes não condizem”; “amor e ódio”; “por que se chama de amor se traz tantas dúvidas, medos e inseguranças. Será mesmo amor?”.

A ambiguidade favorece a reafirmação do relacionamento e gera para a vítima a impressão de que o casal tem que continuar junto de qualquer forma, mesmo com a ocorrência da violência. Os seguintes trechos reafirmam essa percepção: “você é a mulher da minha vida”; “mas ele diz que não

consigo viver sem você”. Essa reafirmação mostra uma ilusão de que a violência não tem solução e como se não tivesse como interrompê-la (Walker, 1979).

Esses paradoxos do afeto revelam que o homem que agride sua parceira não é violento o tempo todo, como preconiza o mito social. É justamente por isso que as mulheres ficam confusas quanto a continuar ou não com o parceiro que às vezes é bom, e às vezes a agride. A relação dos cônjuges vai muito além da violência, existe afeto, agressão, amor, ódio, respeito, desprezo, confiança, medo, etc. (Safiotti, 1999; Ferreira & cols, 2009). Os parceiros podem ser brincalhões, amorosos, atenciosos, sensíveis, excitantes e afetuosos em diversos momentos, mas também são coercitivos e agressivos em outros, conforme descrito no ciclo de violência de Walker (1979).

Outra característica que se destaca nos títulos apresentados pelas participantes é a percepção da

realidade violenta da relação, de que algo não vai bem com o parceiro, com ela ou no casal. Essa

característica também esteve presente nos dois grupos de mulheres, apesar de ter maior incidência no GSC, evidenciada em quatro citações: “o desprezo de um homem”, “eu nunca fui feliz com ele”, “a decepção de uma sonhadora”, “eu não conhecia o amor próprio”. No GSF teve duas ocorrências: “a insistência dele foi em vão”, “ele não me ama”.

Três mulheres do GSF apresentaram títulos opostos à constatação da realidade violenta, justamente por ter a esperança de mudança do parceiro ou de melhoria da relação. Ao nomear a história como “dê-me mais uma chance, a última”, “Deus é fiel” e “ele merece uma chance para mudar” as mulheres estão apostando que o agressor vai cessar a violência. Duas afirmam que é a ultima oportunidade, que já atingiu o limite de confiança. O título “Deus é fiel” pode parecer vago, mas com o relato verbal da participante fica clara a sua intenção: “Deus é fiel! Eu creio muito, tenho fé em Deus, que vai melhorar ainda, eu te garanto”. Os trechos abaixo mostram como os títulos atribuídos pelas mulheres às suas histórias podem gerar uma reflexão sobre a violência conjugal. Tanto no sentido de que foi uma perda de tempo ou de que é possível uma superação do casal:

Eu diria assim, realmente eu vejo uma perda de tempo, porque os momentos da vida da gente é muito importante (...) a gente tem que viver alguma história, e tem histórias boas, e as vezes as ruim. E eu me coloco assim, a minha não foi boa, foi a ruim.

Eu me doei por 5 anos. Tudo que eu falei pra ele, tudo que a gente passou junto, eu acho que isso não foi perda de tempo (...) a gente já brigou demais, discutiu demais, e hoje a gente vê que não vale a pena brigar, não vale a pena ficar xingando um ao outro, eu acho que foi mais uma conquista dos dois.

A expectativa de poder construir uma nova vida foi apresentada por duas participantes, uma de cada grupo. Ao escolherem como títulos “saindo do cativeiro” e “um dia serei feliz” elas afirmam o desejo de continuar suas vidas sem a violência. A primeira está separada do parceiro e espera reconstruir a sua história sem ele. A segunda continua morando com o cônjuge, o que pode significar a esperança de mudança dentro da relação ou com a sua separação.

A pergunta 8 do instrumento teve o seguinte comando: “Inspirada em sua história, complete a frase/título do livro: “Mas ele diz que me ama...”. O intuito foi de, mais uma vez, facilitar a nomeação e a percepção da conjugalidade como violenta. As respostas estão descritas a seguir (Quadro 5.7):

Quadro 5.7: Percepção da própria história a partir do título do livro

Grupo Saindo do Cativeiro

1. Mas todo mundo que ama não bate, não é amor, e os que dizem ama e mata, isso não é amor.

2. Ele não ama nem a si mesmo

3. E continua errando

4. Ele nunca me diz que me ama, nunca falou, é sempre caladão.

5. E me engana, ele tem cara de pau. Falar não é fazer, fala que ama e não ama e às vezes ama

sem falar.

6. Eu continuo dizendo que não ama.

7. E por que as agressões?

8. Mas as atitudes dele não condizem

9. E por que me trai? Isso não é amor!

10. Não quero nem saber, eu vou me amar mais

Grupo Um Dia Serei Feliz

11. Porque não faz nada para mudar

12. Mas não se esforça para amar

13. Mas ele quer me matar

14. Mas não demonstra

15. Mas não como antes. Não como eu o amo

16. Mas me faz sofrer

17. Mas que amor é esse que traz tantas questões e tantas dúvidas

18. Mas não me merece

19. E que nunca ninguém me ama mais do que ele (perda de tempo!)

A continuidade do título do livro criada pelas participantes mostrou que todas as mulheres começaram a ter consciência de que há algo errado em sua relação conjugal. Os conteúdos revelaram que elas questionaram o paradoxo entre o amor que o parceiro afirma sentir e a violência que ele

pratica. O exercício de dar continuidade ao título deixou claro que elas se posicionaram contra a existência dessa contradição. O mal estar gerado pela contradição é expresso no relato a seguir:

...e me engana, ele tem cara de pau. Por que eu tenho esse tipo de sentimentos? A gente tem que tentar analisar com os psicólogos [risos]. [...] tudo aquilo que ele fala não tem qualidade, só quantidade da palavra: te amo, te amo, te amo! Mas sem a qualidade, a gente não quer quantidade, mas sim a qualidade do homem.

Além das denúncias dos paradoxos do afeto algumas participantes foram capazes de assumir a inexistência do afeto. No GSC, três mulheres afirmaram que não existe amor na relação: “ele nunca me diz que me ama, nunca falou”; “ele não ama nem a si mesmo”; e “eu continuo dizendo que ele não ama”. Uma participante afirma não depender do sentimento dele para reconstruir a sua vida – ela já se encontra separada do parceiro e mostrou estar no caminho de resgatar a sua auto-estima: “não quero nem saber, eu vou me amar mais”.

Uma participante do GSF afirmou, ao criar a continuidade do título do livro, o extremo paradoxo entre amor e violência: “Mas ele diz que me ama... mas ele quer me matar”. Ela indica claramente ter consciência da possibilidade do relacionamento conjugal chegar a um fim trágico: a morte de um dos cônjuges, certamente a dela – o que reafirma a tendência de ocorrer o femicídio (Francisquetti, 2000; Krug & cols., 2002; Day & cols., 2003). Outra participante afirma o desgaste da relação e compara o sentimento de amor entre eles: “mas não como antes. Não como eu o amo”. Uma mulher mostra o sentimento de posse do agressor: “e que nunca ninguém me ama mais do que ele”. Podemos inferir que esse parceiro a vê como um objeto, cujo valor está em ser amado por ele. Ela não é percebida como um ser humano com o qual se estabelece uma troca afetiva (Dantas-Beger & Giffin, 2005).

As respostas às duas ultimas questões do instrumento – que envolveu criar um título para a sua própria história e completar o título criado pela autora/personagem – serviram como indicadores de que as participantes conseguiram nomear e perceber a sua própria história como violenta.

A leitura do livro e o preenchimento do questionário associados à reflexão grupal constituíram uma forma de intervenção eficaz. A análise da estratégia aponta que ela foi capaz de ajudar as participantes a quebrarem o silêncio e o segredo em torno da violência vivida. Essa capacidade de nomeação pode ser o primeiro passo para que essas mulheres possam reagir e se libertarem do aprisionamento e do assujeitamento gerado pela dinâmica conjugal violenta.

Essa proposta de intervenção teve o mérito de favorecer o empoderamento das mulheres participantes. Muitas delas saíram de uma posição marcada pela passividade, conformismo e culpa. Deixaram para trás o silêncio e o segredo que constituíam até então os principais recursos usados para reagir à violência e garantir a sua sobrevivência (Pondaag, 2003; Diniz & Pondaag, 2004). A leitura do livro, associada ao preenchimento do questionário e à reflexão grupal, gerou a possibilidade de identificar e nomear anestesias, ou seja, provocou uma ruptura definitiva com a tendência da mulher de minimizar, de justificar e até negar a sua experiência. A história de Roz teve o poder de ecoar e re- significar a história de outras mulheres vítimas de violência.