A área pesquisa de Sistemas de Informação encontra-se consolidada. Em grande parte, esta área de pesquisa tem caráter positivista, baseada numa visão racional/técnica do mundo em que se insere o objeto de pesquisa (PARÉ, 2004). Chen e Hirschein (2004) identificaram que 84% das pesquisas na área eram de natureza positivista.
Porém, uma crescente produção de pesquisa de caráter interpretativista tem sido realizada. Dentro dessa abordagem interpretativista, uma das linhas de pesquisa é a Teoria Ator-Rede (ANT). Walsham e Sahay (1999) apresentaram quadro de utilização da ANT na pesquisa em Sistemas de Informação e cenários futuros para esse uso. Tatnall e Gilding (1999) defenderam a inclusão da ANT na tradição de pesquisa qualitativa no campo de sistemas de informação. Stanforth sugeriu a ANT
35 como um “framework para entender o processo de implementação de governo eletrônico em países em desenvolvimento” (Stanforth, 2006, p. 35). Esses trabalhos reforçam a propriedade do uso da ANT face ao objetivo da pesquisa: objetivo deste entender a contribuição do sistema Projudi para o processo de informatização do Poder Judiciário brasileiro.
Diversos estudos têm levado a teoria à pratica, utilizando a ANT em pesquisas na área de Sistemas de Informação, desde o final da década de 1990 (Walsham, 1997; Ciborra e Hanseth, 1998; Underwood, 1999). Rubinoff (2003 e 2005) realizou estudos de gênero na Internet utilizando essa teoria. Guesser (2004) e Wall (2008) utilizaram a ANT para analisar a adoção e o desenvolvimento de software livre. Underwood (1999) e Gasson (2006) utilizaram essa mesma teoria para analisar o projeto de sistemas de informação. Santos (2005) aplicou a ANT à estratégia de uso da Internet em bancos. Stanforth (2006), Heeks e Stanforth (2007), Barbosa (2008) e Hardy e Williams (2008) analisaram políticas e práticas de governo eletrônico. Macadar e Reinhard (2005), Azevedo (2008), Andrade e Urqhart (2010) e Teles e Joia (2010) estudaram questões de inclusão digital com uso da ANT. Ramos (2009) utilizou a ANT para analisar a política pública de informática no Brasil. Adachi (2011) estudou o papel do CGI.br no desenvolvimento da Internet brasileira. Por fim, cabe citar ainda Wastell, Kawalek e Newman (2003), Abrahall, Cecez-Kecmanovic e Kautz (2007) e Tatnall (2009) que analisaram especificamente a adoção de sistemas de informação.
Conforme já dito na Introdução, a opção pela ANT se insere no contexto de uma linha de pesquisa existente no âmbito da instituição de ensino em que o autor busca obter o grau de Doutor e à qual o mesmo se filia. Se a decisão de estudar processo eletrônico antecede o ingresso no programa de doutorado, a escolha da ANT é fruto da vivência no programa, quando o autor tomou conhecimento da teoria e de diversos trabalhos que a utilizam como metodologia. Além disso, o foco no Projudi pode ser visto como conseqüência da opção pela adoção da ANT, via uma série de escolhas que se entrelaçam e fazem, porque não dizê-lo, parte de uma rede.
36 Assim, tanto quanto o autor escolheu a teoria, a teoria escolheu o autor. E não há que se falar em uma avaliação simplória que compare as teorias concorrentes em busca da mais adequada a se estudar o fenômeno. Tal comparação haveria de pressupor um pleno conhecimento e entendimento do fenômeno, além de perfeito domínio das teorias, para que se pudesse testar a melhor adequação. Contudo, o desconhecimento, ou melhor, o conhecimento limitado do fenômeno do Projudi é o que impele o pesquisador a se aprofundar no tema, em busca de mais conhecimento e, porque não, respostas.
Justificando a adoção da ANT, soma-se a isso a existência de uma longa tradição de seu uso na pesquisa sobre Sistemas de Informação – incluindo a implantação e uso de sistemas de informação propriamente dita, como é o caso do Projudi. Contudo, a despeito de toda a aplicação da ANT em estudos em Sistemas de Informação, há que se justificar sua utilidade, concretamente, para o objetivo da pesquisa. Nesse sentido, devemos lembrar que a implantação de processo eletrônico no Brasil é um caso específico de uma ferramenta de governo eletrônico no contexto de um pais em desenvolvimento14. Por isso, seu estudo não pode ser centrado nos aspectos
tecnológicos da ferramenta, mas sim focar na interação dos atores durante sua implantação, conforme Ciborra (2005):
A trajetória de governo eletrônico em países em desenvolvimento não pode ser identifica e entendida olhando somente para os aspectos tecnológicos, a dinâmica da administração publica de forma isolada ou para o desenvolvimento como uma questão à parte. Ao contrário, ela precisa ser “reconstruida”, de baixo para cima, observando a interação entre os diversos atores na iniciativa de automação15 (CIBORRA, 2005, pg. 271, tradução do autor).
14 Ainda que seja redundante o argumento, há que se escolher que controvérsias abordar ao
apresentar uma tese. Há sérias críticas ao enquadramento do Brasil na categoria de país em desenvolvimento. Porém, as classificações mais difundidas o colocam como tal, sendo aqui aceita esta categorização.
15
“The trajectory of e-government in developing countries cannot be identified and understood by looking at the technological features only, or the dynamics of the local public administration in isolation, or development as a separate issue. Rather, it needs to be
37 Para o mesmo autor, reconstruir trajetórias de baixo para cima, observando a interação entre os atores requer:
Nossa análise do fenômeno das iniciativas de governo eletrônico para os países menos desenvolvidos economicamente precisa, então, considerar as táticas específicas dos atores em um quadro geopolítico, maior, capaz de oferecer novas interpretações para seus projetos, iniciativas e ações concretas16 (CIBORRA, 2005, pg. 271,
tradução do autor).
Assim, parece justificada a adoção da ANT no contexto da presente pesquisa, que examina iniciativa de governo eletrônico (Projudi), em pais em desenvolvimento (Brasil), a fim de contextualizar atores e suas estratégias de forma a permitir a interpretação dos fatos.