• No results found

Nos Três Ensaios da Edição Standard – edição que estamos utilizando para este estudo, tanto no inglês quanto no português – Strachey publica uma nota com algumas considerações acerca da obra. Ele diz que esta versão possui um diferencial em relação às publicações prévias, tanto alemãs quanto inglesas. Ele afirma que, embora seja baseada na sexta edição alemã de 1925, a última a ser publicada enquanto Freud ainda era vivo, ela indica, com as respectivas datas, todas as alterações substanciais introduzidas na obra, desde a sua primeira edição. Tais mudanças são indicadas em notas de rodapé, e ele acrescenta que: “Isso permitirá ao leitor ter uma noção mais clara de como eram estes ensaios em sua forma original” (1905/1996, p.120, grifo nosso).

O editor usa o termo original para se referir à primeira versão publicada dos Três Ensaios. No entanto, diante do que foi pontuado por ele próprio nos comentários acima, percebe-se que a noção de uma originalidade da obra provavelmente não era levada em conta mesmo pelo próprio Freud, que, durante os anos posteriores à primeira publicação, manteve- se relendo, reavaliando, desconstruindo a própria obra, e inserindo as modificações que julgava necessárias.

Pelo que podemos perceber acerca de Freud, enquanto autor, ele se permitia tal liberdade, de desdizer, redizer, ou reconsiderar suas ideias, pois ele não parecia tomar seus textos como acabados. Ele inclusive levava em consideração as interlocuções com seus pares, as cartas trocadas, e incluía essas mudanças em edições posteriores de seus livros. Talvez pela abertura do próprio Freud em reavaliar seus escritos, ainda em vida, ele permitiu que tantos

autores, a partir dele, e até hoje (mais de 100 anos depois) continuassem lendo, relendo e desconstruindo sua obra.

Mais adiante em sua nota, Strachey aponta o seguinte: “Entretanto, a despeito dos acréscimos consideráveis feitos ao livro após sua publicação original, sua essência já estava presente em 1905, sendo mesmo possível rastrear-lhe as origens até datas ainda mais remotas” (1905/1996, p.121, grifos nossos). Podemos perceber novamente que o editor, ao tecer essas considerações, trabalha com as noções de uma originalidade da obra, ou de algo (nesse caso, uma teoria) que já estava “lá”, em essência, pronta em Freud, e que foi passada para o papel. Ele fala em publicação original e em essência, como se houvesse algo de principal e primeiro, que já estava ali, somente esperando ser expresso.

Fica implícito que ao falar em essência, o editor quis dizer que o que ele considera essencial, ou mais importante, já estava lá. No entanto, o próprio Freud não parece trabalhar com essa noção de essência, ou essencial, já que se mantém constantemente conversando, seja com pares (como Fliess), seja com um interlocutor “imaginário”, ou o próprio leitor, de acordo com o que ele espera que suas palavras despertem no leitor, já que sua obra é permeada de referências à pessoa que a lê.

Acreditamos que essas notas de rodapé que mostram os acréscimos, ou parágrafos retirados, são importantes não exatamente para ter uma “noção mais clara de como eram estes ensaios em sua forma original” (Ibid, p. 120), mas sim para acompanhar o processo de construção da teoria e as releituras e reavaliações feitas pelo próprio Freud em relação às suas conjecturas.

Há um erro – não se pode precisar se é de tradução ou de digitação – na versão brasileira da Edição Standard. Na nota de Strachey, em português, lê-se: “Desde os primórdios tinha havido uma suspeita de que os fatores casuais da histeria remontavam à infância [...]” (Ibid, pág. 122, grifo nosso). De acordo com a versão inglesa, no lugar da palavra casuais, encontramos causative, que deveria ter sido traduzido como causador, ou causal. Pela semelhança gráfica entre as palavras causais e casuais, entendemos que pode se tratar de erro de digitação. No entanto, tal palavra no contexto da frase, mesmo que por engano, pode confundir o leitor. Quando se lê sobre “fatores casuais”, pode-se interpretar como se o autor estivesse falando de fatores que dependem do acaso, que são ocasionais, ou fortuitos, enquanto no texto em inglês ele fala sobre fatores que causam, que acarretam a histeria.

Outro trecho da nota de Strachey evidencia a noção com a qual o editor apresenta a obra de Freud ao leitor, ou seja, de que havia algo (uma ideia, uma teoria) pronto e que Freud “descobriu”, ou “revelou” em seus escritos. Analisemos o trecho a seguir:

Foi somente no verão de 1897 que Freud se viu forçado a abandonar sua teoria da sedução. Anunciou esse acontecimento em sua carta a Fliess de 21 de setembro (Carta 69), e sua descoberta quase simultânea do complexo de Édipo, feita em sua auto-análise (Cartas 70 e 71, de 3 e 15 de outubro), levou inevitavelmente ao reconhecimento de que as moções sexuais atuavam normalmente nas crianças de mais tenra idade, sem nenhuma necessidade de estimulação externa. Com essa descoberta, a teoria sexual de Freud estava realmente completa (1905/1996, p. 122, grifos nossos).

Strachey diz que Freud se viu forçado a abandonar sua teoria da sedução. A ideia de se sentir forçado remete a alguma coisa que vem de fora, que faz força. Pela frase acima, cria- se a noção de que algo aconteceu e forçou esta mudança de curso na teoria. Adiante, ele fala na descoberta do complexo de Édipo, novamente como se o complexo de Édipo fosse algo já formulado, pronto para ser desvendado, e que Freud foi quem o fez. Juntando os termos ser forçado a e descobrir, infere-se que o Complexo de Édipo, tomado como algo concreto, uma entidade, sempre esteve “aí” e, a partir do momento que Freud o descobriu, ele – o Complexo – forçou Freud a abandonar sua teoria.

Sabemos que Freud construiu o conceito do complexo de Édipo a partir de observações, escutas clínicas e de sua autoanálise e que, como subsídio para melhor ilustrar sua teoria, utilizou o mito de Édipo, de Sófocles. Ou seja, ele nem descobriu, nem foi forçado a nada. Ele observou, escutou, releu, conversou, reconsiderou, pensou e, assim, foi construindo, desconstruindo e reconstruindo sua teoria. No final do parágrafo, Strachey diz que, com essa descoberta, a teoria sexual de Freud estava realmente completa. Diante desta afirmativa, podemos questionar: completa para quem? Alguma teoria é realmente completa, ou intocável, pronta? Para Freud, não parecia ser este o caso.

Como o próprio Strachey aponta no início de sua nota: “[...] no decorrer de edições sucessivas num período de vinte anos, eles [os Três Ensaios] foram submetidos por seu autor a mais modificações e acréscimos do que qualquer outro de seus escritos, salvo, talvez, pela própria Interpretação dos Sonhos” (1905/1996, p. 120). Ou seja, se os Três Ensaios – que é a obra em que Freud desenvolve mais extensamente sua teoria da sexualidade – é onde aparecem mais modificações, fica evidente que Freud nunca considerou sua teoria sobre a

sexualidade como completa. Ademais, o próprio autor fala explicitamente sobre isso no prefácio à terceira edição, como veremos adiante.