Esta seção apresenta os resultados da aplicação do modelo AGRIPEC em uma propriedade leiteira. Em primeiro lugar, é apresentado o contexto de produção definido para a referida propriedade rural. Em segundo lugar, são apresentados os sistemas de alimentação (alimentos volumosos), as máquinas e equipamentos utilizados nesses sistemas, a mão de obra empregada, os custos totais das máquinas e equipamentos, os custos com insumos (inputs), e os custos totais de produção. A seguir, são apresentados os sistemas de criação (Atelier) definidos no contexto. Para tanto, apresenta-se as benfeitorias e os equipamentos com seus respectivos custos, a mão de obra utilizada e seu custo em cada sistema, os custos com insumos, os custos totais e os resultados econômicos. Na sequência, são analisadas as estimativas das emissões de metano por fermentação entérica e por manejo de dejetos, bem como, as emissões de óxido nitroso. Por último, são apresentadas as considerações finais.
7.5.1 Contexto: propriedade do Sr. Francisco Bordignon – Marau/RS
A propriedade se localiza no município de Marau, situado ao Norte do Rio Grande do Sul. O município de Marau faz parte da chamada Região da Produção. Como o próprio nome sugere a região é conhecida pela sua importância histórica na produção agropecuária, em especial, a produção de grãos. Quanto aos aspectos ambientais, a região apresenta um clima com características subtropicais, em geral, com temperaturas médias anuais inferiores às ocorridas na demais regiões do estado. Quanto à hidrografia, a elevação do relevo para Coxilha Geral (Coxilha Grande do Albardão) do estado e pelo seu dorso, que constitui o divisor de águas das importantes bacias hidrográficas do Uruguai e do Jacuí, faz com que arroios, sangas e rios da região tomem a direção dessas. Já, quanto aos solos, estes apresentam uma declividade geral do oriente para o ocidente, sendo a região atravessada no mesmo sentido por uma elevação que forma sucessivas coxilhas e chapadões, com a tendência à declividade, a qual, diminui à medida que toma a direção para o oeste. Ao sul, verifica-se a presença de jazidas de basalto e, ao norte, de águas termais e minerais. Em
196 região é propícia à produção de culturas temporárias, o que a torna importante produtora de grãos do estado.
A propriedade pesquisada apresenta as seguintes atividades produtivas ligadas à agropecuária: pecuária de leite, avicultura e produção de grãos. A área total de propriedade disponível à produção é de 52,2 hectares, sendo 27,2 hectares de terras próprias e 25 hectares de terra arrendada. A produção agrícola é dividida em culturas de inverno e de verão. A produção de verão de alimentos volumosos se caracteriza pela produção de milho para silagem cuja área destinada é de 6,5 hectares e pela produção de sorgo consorciado com milheto em uma área de 5 hectares.
Tabela 14 - Área de terra destinada à produção agropecuária da propriedade do Sr. Francisco Bordignon – Marau/RS.
Tipo de produção Especificação Área (ha)
Volumosos Milho Silagem Sorgo + milheto Azevém + aveia 6,5 5 25 Grãos Soja Milho 40 10
Outros Pastagem nativa 2
Fonte: Dados de pesquisa, 2007.
A produção de inverno de volumosos é composta, exclusivamente pelo consórcio de azevém com aveia. Além disto, existe um potreiro de, aproximadamente, 2 hectares próximo à sala de ordenha (Tabela 14).
Em relação à produção de grãos para a venda, a mesma está concentrada na produção de soja com uma área de 40 hectares. Além da soja, são cultivados 10 hectares de milho para auto-consumo na propriedade, principalmente para a produção de “milho- úmido” que é fornecido ao gado. Ambas, são culturas de verão e, segundo depoimento do proprietário, a baixa escala de produção de soja obtida dado às características fundiárias da propriedade (pequena propriedade) e, o consequente baixo retorno financeiro, induziram o mesmo a diversificar a produção. Neste contexto, foi introduzida a pecuária de leite que permite entradas financeiras mensais e garante a sustentabilidade econômica da propriedade.
No contexto da pecuária de corte gaúcha, as principais motivações que levam os produtores gaúchos a ingressar na atividade pecuária estão relacionadas à tradição, satisfação e por considerar a pecuária como uma atividade segura (MIGUEL et. al. 2006).
Com relação à produção comercial de frangos de corte, essa é realizada, por meio de contrato de integração com a indústria avícola (Figura 8). Os sistemas integrados vinculam o produtor à agroindústria processadora através de contratos que variam conforme o tipo de integração.
Figura 8 - Placa indicativa do sistema de produção avícola integrada da propriedade. Fonte: Primária, 2007.
Nesse processo, o produtor se responsabiliza pela criação do frango e pelo fornecimento de equipamentos e instalações; por sua vez, a agroindústria, no caso a Agroindústria Perdigão, situa-se tanto a montante da produção primária, pelo fornecimento de insumos (rações e medicamentos) e pela prestação de assistência técnica, como a jusante, processando a matéria-prima.
198 7.5.2 Sistemas de alimentação (volumosos)
Essa seção apresenta os sistemas de alimentação da propriedade. Em primeiro lugar, são apresentados os tipos de sistema de produção de alimentos volumosos. A seguir, são dados os tipos de máquinas e equipamentos e seus custos de produção. Na sequência, é descrito o tipo de mão de obra da propriedade e seu custo. Após, são apresentados os resultados dos cálculos dos custos totais de máquinas e equipamentos, os custos com insumos e os custos totais de produção para cada sistema de alimentação.
A Tabela 15 apresenta os Sistemas de Alimentação de gado leiteiro da propriedade. A estratégia de alimentação adotada demonstra haver uma relativa intensificação do processo produtivo, haja vista, a silagem de milho produzida no verão e distribuída ao longo do ano, principalmente, para as vacas em lactação, além da complementação alimentar com concentrados. Assim, são utilizados 6,5 hectares para a produção de milho com uma produtividade de 74.000 kg de silagem/ha, o que proporciona uma produção total de silagem de 481.000 kg. Observa-se haver uma sucessão de culturas em que, no inverno, são cultivados, em consórcio, cinco hectares de azevém e aveia e, no verão, a área é coberta com o consórcio de sorgo e milheto. Além disto, são destinados vinte e cinco hectares para a produção de azevém e aveia no inverno, os quais serão sucedidos, no verão, pela produção de soja, sorgo ou milho no contexto do sistema de plantio direto na palha. Além disto, existe, próximo ao curral e da sala de ordenha, uma área de dois hectares com pasto nativo.No entanto, a distribuição das terras pode mudar conforme condições de mercado, o clima, as necessidades do produtor, a disponibilidade de mão de obra e condições de crédito.
Tabela 15 - Sistemas de alimentação de gado leiteiro da Propriedade do Sr. Francisco Bordignon localizada em Marau/Rio Grande do Sul/ Brasil.
Sistema de alimentação Biomassa anterior Tipo Duração (meses) Área (ha) Produtividade (kg/ha) Produção (kg) Silagem de
milho azevem+aveia silagem 4 6,5 74 000 481 000
Consórcio
Sorgo+Milheto azevem+aveia pastagem 4 5 10 000,00 50 000 Consórcio
Azevem+Aveia Soja+sorgo+milho pastagem 6 25 3000 75 000
Potreiro nativo Potreiro nativo 2 -
Área total sistema de alimentação
38,50 Fonte: Primária, 2007.
Segundo o proprietário, o preço do hectare da terra é de R$ 12.000,00. Considerando- se um preço pago pelo arrendamento da terra de dez sacos de soja por hectare, observa-se o alto custo de oportunidade da terra de R$ 12.012,00 para a área destinada ao sistema de alimentação, ou, R$ 312,00/ha. Tal fato, pode estar induzindo à intensificação do sistema de produção leiteira da propriedade como estratégia de sua viabilidade e sustentabilidade econômica, pois somente através de um sistema produtivo com alta produtividade, é possível cobrir tal custo de oportunidade.
A figura 9 apresenta uma visão parcial do rebanho leiteiro no momento em que o mesmo está localizado no piquete da propriedade. Ao fundo, observa-se a área destinada à lavoura aproximando-se fortemente da pequena mata ciliar situada ao longo do curso de água. O uso intensivo da terra é uma característica da região, o que pode causar problemas ambientais tais como, redução da mata nativa.
Figura 9 - Visão parcial do rebanho localizado na área destinada ao “piquete” da propriedade. Fonte: Primária, 2007.