Como hipótese 3, postulamos que os idosos diagnosticados com DA apresentariam desempenho prejudicado em ambas as narrativas, porém com mais dificuldades nos relatos de notícias, apresentando nestes menor número de referentes, de cadeias referenciais e de retomadas e maior número de pronomes ambíguos e/ou sem referentes e de palavras com sentido vago. Por outro lado, nas narrativas com apoio de sequência de figuras, esperava-se maior número de dêiticos. Além disso, postulamos ainda que o emprego das referências pelos idosos diagnosticados com DA seria mais inadequado nos relatos de notícias.
De acordo com os dados apontados anteriormente, podemos afirmar que a hipótese 3 foi parcialmente corroborada, tendo em vista que os participantes diagnosticados com DA, de modo geral, demonstraram mais dificuldades na produção de relato de notícia do que na narrativa com apoio visual de sequência de figuras, embora nesta também tenham apresentado vários problemas (com exceção de um participante, cujo desempenho será analisado na seção 3.5.2) .
Ambas as narrativas produzidas pelos idosos diagnosticados com DA apresentaram alguns aspectos semelhantes, como reduzido número de elipses e de pronomes ambíguos e/ou sem referentes. Destacamos que seus textos foram muito curtos, com pouca progressão referencial, o que pode ter contribuído para esses dados.
Em relação ao relato de notícia, os participantes diagnosticados com DA apresentaram inúmeras dificuldades. Dois deles se recusaram a narrar um fato, alegando não saber, não lembrar de nada que pudesse ser relatado. Chamamos a atenção ao fato de essa tarefa (relato de notícia) solicitava dos participantes um episódio recente e sabe-se que as informações novas são de difícil memorização e
recuperação (lembrança) para indivíduos acometidos pela DA, pois a perda da memória recente é um dos principais sintomas da doença, que afeta j á em seu início o hipocampo (responsável pelo armazenamento de informações novas).
Nas narrativas a partir de imagens, observamos a tendência dos participantes diagnosticados com DA em apenas descreverem cenas isoladas, sem perceber a continuidade da trama nas diferentes cenas. Esses dados podem ser justificados pela dificuldade que idosos diagnosticados com DA têm em fazer abstrações e inferências a partir do material pictório (SKA; DUONG, 2005), o que pode ser consequência de problemas executivos, os quais estão envolvidos no processo de selecionar, relacionar e organizar as informações de acordo com um plano específico (ASH et al., 2007; SKA; DUONG, 2005; EHRLICH; OBLER; CLARK, 1997). Além disso, podem indicar a dificuldade desses idosos em organizarem um contexto cronológico para a sequência da história, o que também pode estar relacionado a suas dificuldades de localização temporal.
Por outro lado, um dos participantes diagnosticado com DA, na tarefa linguística 2 – narrativa com apoio visual de sequência de figuras – apresentou uma narrativa completa, com todos os elementos de sua estrutura e sem um único uso inadequado de elementos da referenciação. Salientamos, no entanto, que esse participante foi um dos que não conseguiu relatar a notícia. Com isso, percebemos a sua capacidade em usar as pistas fornecidas pelas figuras, para a organização de seu texto, enquanto a tarefa sem pista foi de difícil realização.
Quanto aos dêiticos, percebemos que o tipo de estímulo influencia o seu uso. Nos relatos de notícias, observamos a dificuldade de idosos com DA no emprego de dêiticos espaciais cujo conhecimento não era compartilhado entre os interlocutores e a incapacidade desses participantes em especificá-los. Nas narrativas a partir de imagens, embora tenham apresentado número maior de dêiticos, nenhuma dessas
referências comprometeu o sentido do enunciado transmitido, uma vez que o conhecimento era compartilhado entre participante e examinador.
A utilização de dêiticos baseia-se em uma série de processos cognitivos determinados pelas exigências e propriedades do contexto de comunicação (MARCH; WALES; PATTISON, 2009). Assim, sugerimos que o estímulo imagético propicia o maior emprego de dêiticos demonstrativos. Já o relato de notícia exige maior especificação das informações, o que foi difícil aos participantes com DA.
Diante desses dados, assumimos, portanto, a hipótese de que o tipo de estímulo, relato livre de notícia e narrativa com apoio visual de sequência de figuras, interfere no desempenho dos idosos diagnosticados com DA. Embora em ambas as modalidades esses idosos apresentem dificuldades, nos relatos de notícias elas são mais evidentes. As figuras apresentam a sequência a ser seguida e os idosos se apóiam nela para produzir o conteúdo-alvo, mesmo que muitas vezes este apareça desconectado, apenas a descrição das imagens. Já os relatos de notícias exigem que os participantes organizem tanto o contexto local quanto global, o que se torna uma tarefa muito difícil, provavelmente, devido a diversos déficits presentes na DA, tais como dificuldade de localizar-se no tempo e no espaço para elaborar um contexto, além de déficits na memória semântica e episódica, necessárias para armazenamento de uma nova informação. Esses dados sugerem que o relato de notícia pode ser um bom instrumento no auxílio da diferenciação entre pessoas sadias e pessoas acometidas pela DA.
3.5 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS DA REFERENCIAÇÃO EM NARRATIVAS ORAIS NA DOENÇA DE ALZHEIMER RELACIONADOS AO GRUPO CONTROLE
Neste subcapítulo apresentamos a comparação do desempenho no processo de referenciação no relato livre de notícia e na narrativa com apoio visual de sequência de figuras entre idosos diagnosticados com provável DA e idosos sadios, ambos os grupos com baixa escolaridade.
3.5.1 Dados do desempenho de idosos sadios com baixa escolaridade e idosos