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3.2. San Rafael Swell at Tidwell Draw

As escolas salesianas se destacaram por sua dedicação ao ensino profissional, particularmente à aprendizagem industrial. Segundo Cunha (2000) não obstante os salesianos tivessem em comum com os jesuítas a preocupação com a conversão dos índios, diferenciavam destes no tocante aos destinatários preferenciais da educação escolar. Os jesuítas se especializaram na formação de intelectuais, mediante ensino secundário e superior, enquanto os salesianos atuaram no ensino secundário e no ensino profissional, para os trabalhadores manuais.

Apresentaremos alguns antecedentes da pedagogia lassalista, que ajudarão no entendimento do alcance desse tipo de ensino profissional. A partir do século XVII, foram organizadas, na Europa, congregações religiosas especialmente dedicadas em manter casas para o recolhimento de menores pobres, aos quais se ensinavam ofícios artesanais e manufatureiros. Dentre estas iniciativas, destacamos a de João Batista de La Salle, que fundou uma série de escolas paroquiais gratuítas para crianças pobres.

La Salle ficou reconhecido pelo imenso trabalho realizado na França, tanto no ensino secundário como no profissional dispensado aos menores pobres, abrigando-os em casa assistenciais mantidas por doações voluntárias. [...] “Sua origem aristocrática permitiu-lhe reunir subvenções de senhoras ricas e piedosas para a manutenção das escolas nas quais introduziu importantes inovações pedagógicas, até mesmo o ensino vernáculo e o ensino coletivo”. (CUNHA, 2000, p.48)

Destinou-se, também, esse ensino aos operários com menos de 20 anos, os quais o recebiam aos domingos, já que ficavam durante toda a semana nas fábricas. Mais adiante, em 1705, a citada congregação, denominou-se Irmãos das Escolas Cristãs, que funcionou em regime de internato.

[...] Esse internato ganhou notoriedade adicional pela eficiência com que conseguiu transformar jovens de comportamento rebelde em piedosos e ordeiros adultos, num departamento especialmente destinado a esse fim. O prestígio conseguido por esse departamento levou certas autoridades a solicitarem aos irmãos que passassem a aceitar jovens delinquentes condenados à prisão [...] (CUNHA, 2000, p.49).

Nos internatos, esses jovens recebiam o ensino secundário e aprendiam um ofício frequentando oficinas de aprendizagens manufatureiras e artesanais, recebendo uma disciplina enfocada no trabalho.

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Seguindo esse modelo de ensino, na Itália, a pedagogia salesiana tornou-se notória por intermédio de seu fundador, o padre João Bosco12 (1815-1888); segundo Cunha (2000),

[...] Bosco deu expressão pedagógica ainda mais completa à educação profissional das crianças das classes trabalhadoras. Além do mais, a proximidade do vaticano e as relações de Bosco com a alta burocracia eclesiástica propiciaram a expansão dos salesianos por vários países, ainda durante a vida do seu fundador (CUNHA, 2000, p.49).

Diante desse cenário, Bosco se propôs a procurar melhorar as condições de vida dos trabalhadores, pois concebia a miséria como uma situação que deveria ser combatida. “A atuação de Bosco se deu no início do século XIX, num dos períodos cruciais da história da Itália”. (CUNHA, 2000, p.49) com o surgimento de constantes ameaças à ordem política e social, advindas da revolução daquela época, as quais induziam comportamentos subversivos.

No intuito de controlar esses comportamentos indesejáveis, Bosco, então, promoveu o ensino do catecismo junto a jogos e brincadeiras “Oratório Festivo”, atraindo, assim, menores pobres e tornando-os aprendizes de ofícios. Bosco acreditava que o trabalho moldaria o caráter desses menores.

[...] A formação do caráter pelo trabalho tinha uma dupla vantagem. Por um lado, propiciava a aprendizagem de ofícios a um número adicional de jovens operários, atividade essencial para o andamento do processo de acumulação de capital. De outro lado, completamente, plasmava as atitudes, os valores e as motivações dos futuros operários, de modo a evitar que desenvolvessem lutas contrárias à ordem estabelecida. [...] (CUNHA, 2000, p.51).

Nesse intuíto, Bosco baseava-se em um método de ensino preventivo, controlando o ambiente de tal maneira a ponto de diminuir comportamentos desviados.

O trabalho realizado propunha atividades que levavam ao consumo de energia física e mental, para que não sobrassem forças e nem tempo para ações subversivas.

No final do século XIX e início do XX, estando ainda no auge, a pedagogia salesiana chegou ao Brasil por meio de um pedido do bispo Pedro Maia de Lacerda feito a João Bosco, para que enviasse padres para sua diocese. Em 1883:

[...] chegaram ao Brasil os primeiros salesianos, vindos do Uruguai, com passagem paga pelo governo brasileiro. Foram para Niterói, na Província do Rio de Janeiro, onde o bispo Lacerda tinha comprado uma chácara para eles.

12 João Melchior Bosco ou Giovanni Melchior Bosco, conhecido como Dom Bosco, nasceu em 1815, em

Murialdo, distrito de Castelnuovo D’Asti, a 28 km de Turim, no Piemonte (parte do Reino da “Sardenha”). Dedicou sua vida na criação de obras educativas para a juventude abandonada, na defesa da fé ameaçada das classes populares, e na atividade missionária de evangelização de terras longínquas (TEODORO, 2008, p.27).

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Fundaram aí o Liceu de Artes e Ofícios Santa Rosa, com subsídios da diocese e de bem feitores pertencentes à nobreza, ao comércio e à alta burocracia do Império. Foram logo instaladas oficinas para aprendizagens de mecânica, de marcenaria, de alfaiataria, de sapataria e de tipografia (CUNHA, 2000, p.53).

Fundaram, também, em São Paulo, o Liceu Coração de Jesus no ano de 1886, que tinha como suporte financeiro e patrimonial o governo, o qual sofreu fortes críticas pelo apoio prestado.

[...] Ao fim do século, os salesianos já tinham inaugurado escolas em São Paulo, Lorena, Campinas, Cuiabá, Recife, Salvador e Rio Grande (RS). Em 1904, já dispunham de dezesseis estabelecimentos de ensino no Brasil, do quais catorze tinham escolas profissionais (CUNHA, 2000, p.54).

Os liceus salesianos apresentaram um desempenho muito acima daqueles que sobreviveram ao império, tanto pela sistematização e intensidade da aprendizagem como pela forma eficiente de capitação e aplicação dos recursos.

Bem diferente da Europa, o ensino nas escolas salesianas aqui no Brasil, não possuía somente caráter profissionalizante, pois tanto no Liceu de São Paulo como do Rio de Janeiro, a pedagogia utilizada não era igual à dos internatos da Itália.

[...] Os aprendizes podiam ser internos ou externos, e eram admitidos com rudimentos de leitura e do cálculo. A aprendizagem deveria durar de cinco a seis anos, em dez graus seqüenciados, os quais poderiam ser abreviados para três anos. Um ano de recapitulação geral podia ser acrescentado, de modo que, ingressando no estabelecimento aos 12 anos de idade, um aprendiz concluía os estudos aos 18 anos (CUNHA, 2000, p.55).

De todas as escolas salesianas fundadas no Brasil a mais importante foi o Liceu de Artes e Ofícios Coração de Jesus, em São Paulo, em que se obtinha um vasto ensino de ofícios como, por exemplo: tipografia, encadernação marcenaria e outros.

No entanto, “mesmo alcançando todo este êxito, a burguesia nacional já tinha claramente se colocado ao lado do ensino secundário, elegendo-o como favorito para a educação de seus filhos”. (NASCIMENTO, 2007, p.91). Assim, as fortes pressões das famílias abastadas, exigindo um ensino de qualidade e exclusivo, desencadeou o enfraquecimento desse ensino.

Cunha (2000) relata que,

[...] Enquanto, até 1910, as escolas profissionais salesianas formavam um quase-sistema de ensino profissional, a partir dessa data elas entraram num período de decadência, quando passaram a ser mero “anexo” dos Liceus que nada mais tinham de artes nem de ofícios [...] (CUNHA, 2000, p.55).

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A grande atenção dos padres dada ao ensino secundário e ao comercial, a evasão nos cursos de aprendizagem e as facilidades de ingresso dos alunos dos liceus ao ensino superior contribuíram com o fim do ensino profissional nas escolas centrais, que foi transferido para um bairro operário, passando a receber, na década de 40, menores enviados pelo Serviço de Assistência ao Menor. Estes eram distribuídos nas oficinas mediante as vagas oferecidas, sem, no mínimo, observar sua vocação.

Em relação, ao ensino salesiano, percebe-se:

[...] Um fator importante da decadência das escolas salesianas foi sua reduzida, senão inexistente, articulação com o mercado de trabalho. Embora algumas escolas do Senai tivessem funcionado provisoriamente em estabelecimentos salesianos, no inicio da atuação dessa instituição, os padres faziam questão de manter todo o controle da aprendizagem no âmbito da escola, de modo a evitar a influencia socializadora da fabrica, coisa que o Senai mais valorizava e que foi responsável pelo seu sucesso[...] (CUNHA.2000, p.59).

Mapa 2 - Mapa de Uberlândia na década de 40.