Este estudo empírico abrange professores que estão associados ao Programa Novas Oportunidades, a exercer em agrupamentos de escolas, um da zona leste e outro da zona sul do Distrito de Bragança, num total de 30 professores.
O Distrito de Bragança, identificado como nordeste transmontano, é uma região com fronteira a Norte a e a Este com Espanha, a Sul com o Distrito da Guarda e a Oeste com o Distrito de Vila Real. Possui a área de 6.608 Km² e população de 139.344 habitantes. Os dois concelhos em cujo agrupamento decorreu o estudo fazem parte, um da denominada «Terra Quente Transmontana» e outro da denominada «Terra Fria Transmontana», pertencendo um à NUT III Alto Trás os Montes e outro na NUT III Douro.
52 De acordo com os dados do Censo de 2011 35, a população residente segundo o nível de escolaridade atingido, sexo e taxa de analfabetismo no Nordeste Transmontano, regista os valores mencionados na tabela 10.
Tabela 10 – Nível de escolaridade atingido na zona de estudo
Observa-se portanto uma taxa de analfabetismo bastante elevada tendo em conta a população residente. O menor número regista-se em Bragança quase 8% comparativamente aos 14,64% e 16% de Vinhais e de Vimioso, respetivamente.
A economia da região assenta na agro-pecuária, silvicultura, indústria alimentar e no turismo (restauração e hotelaria). Destacando-se, ainda, o papel dos serviços do Estado e da administração local.
A tabela 11 dá uma noção do contexto socioeconómico da região, que apresenta as seguintes caraterísticas:
DESCRIÇÃO DO CONTEXTO SÓCIO ECONÓMICO DA AMOSTRA Isolamento do interior / Meio rural
Nível cultural e sócio económico baixo
Área de grande (e)migração / Mobilidade dos quadros de profissões Rede viária em razoáveis condições / Escassez de oferta de emprego
Nível de escolaridade da população em geral reduzido Elevado número de famílias desestruturadas
Tabela 11 – Características do meio escolar, familiar e sócio-cultural
Trata-se de uma região tradicionalmente caraterizada por uma “cultura de trabalho”: as práticas sociais prevalecentes, nesta região, incentivam nos jovens hábitos de trabalho precoce; e a dinâmica empresarial estimula o espírito empreendedor.
35 Censos - Resultados definitivos: Região Norte – 2011 (Recenseamentos Gerais da População e da Habitação Q1. 03)
53 Contudo, se, no passado, tais hábitos tiveram efeitos positivos (muita da população conseguiu emprego, numa idade jovem), no presente, não permitem a obtenção de emprego por conta de outrem: as exigências atuais de cultura letrada e de capacidades tecnológicas impõem-se, brutal e inequivocamente, limitando ou impedindo mesmo a consecução de tal desiderato àqueles que delas não disponham.
Ora, as atividades predominantes, nos dois concelhos em estudo, distribuem-se respetivamente pelo setor primário, com 24%, cerca de 16% da população exerce uma atividade no setor secundário, contrastando com os 60% de emprego no setor de serviços, principalmente no seu sub-setor de serviços de natureza social.
Depois, o abandono escolar prematuro, em troca de uma atividade remunerada, está na origem de uma força de trabalho subqualificada, com uma acentuada debilidade estrutural de empregabilidade, consequência dos seus baixos níveis de formação, dificilmente adaptável aos desafios de modernização tecnológica e organizacional do tecido económico; estas realidades fazem-se sentir, atualmente e cada vez mais, nos diversos setores das atividades económicas.
Daí que a oferta de um programa de formação com caraterísticas profissionalizantes, devidamente enraizada no meio empresarial, seja um instrumento que propicia a estes jovens, opções de vida de que até aqui não usufruíam, através da possibilidade de um ingresso mais facilitado, no mundo do trabalho desde que devidamente munidos com as adequadas destrezas técnicas e uma cultura de base.
Relativamente aos meios de transporte utilizados pelos habitantes, destes concelhos, podemos concluir que os transportes públicos são praticamente inexistentes, apesar de existir uma empresa que faz este serviço, de modo pouco regular e pouco frequente.
Parte das caraterísticas mencionadas, neste trabalho, resultam da experiência vivida, nesta zona de Portugal, das opiniões recolhidas, aquando da distribuição dos questionários, e da realização dos encontros explicativos dos intuitos implícitos nas diversas questões presentes, no inquérito.
Realça-se o facto de a taxa de intercâmbio com outras populações e países, devido à emigração (e respetivo contributo seu, para a melhoria das condições de vida) ter contribuindo para o alargamento das expetativas de mobilidade e emprego imediato ou futuro, mesmo a nível interno e regional: situam-se, neste âmbito, o Parque Natural de Montezinho, o Parque Natural do Douro e o rio Douro - os três constituindo significativos elementos do património natural do nordeste transmontano, potenciais criadores de emprego.
No âmago de tudo isto, situam-se as escolas onde lecionam os professores alvo deste estudo, com um número considerável de “professores volantes” que passam, amiudadas vezes, à margem dos reais problemas da comunidade escolar, embora exista
54 um número considerável de professores que integram os quadros definitivos das escolas/agrupamentos.
As condições socioeconómicas desta população são muito variadas. Os seus habitantes são funcionários públicos, pequenos comerciantes, empregados por conta de outrem, trabalhadores da construção civil, desempregados e outros.
Estas comunidades – escolas servem uma população que se distingue pela variedade de estatutos sociais e económicos e, também, em particular nos últimos anos, por uma multiplicidade de etnias e culturas, como consequência do aumento da imigração. Esta heterogeneidade populacional contribui para a manifestação de várias carências económicas sociais e culturais.
Não raro constata-se que a emigração sazonal e temporária, originada pela crise económica, sobretudo na agricultura, tem reflexos negativos na frequência das aulas e consequente aproveitamento escolar, levando ao abandono precoce de muitos dos jovens da região que, mais tarde, ingressaram no Programa NO, para tentarem obter níveis de escolaridade mais elevada.
Conseguimos apurar da opinião de alguns professores, que a escola está longe de satisfazer os interesses dos alunos desta região.
Ainda em relação aos alunos envolvidos, pela ação dos professores deste estudo poderão ser divididos em três níveis, quanto aos estratos socioeconómicos:
existem alunos oriundos de famílias mais abastadas, com agregados familiares reduzidos, que demonstram serem demasiado mimados e, por desinteresse, abandonaram a escola de forma precoce;
por outro lado, existe um outro grupo de alunos retidos face a alguns problemas manifestados, que provêm de um meio onde se observa um grau elevado de alcoolismo, por parte dos pais. A estes alunos estão associadas extremas condições de pobreza e um numeroso agregado familiar. Este grupo é constituído por alunos que necessitam de apoio acrescido, em todas as sessões realizadas, no programa das novas oportunidades, exigem aplicação de métodos de ensino mais individualizados e os resultados obtidos são, regra geral, bastante fracos e dilatados no tempo;
um terceiro grupo de alunos, é constituído por crianças filhos de famílias destruturadas. Neste grupo, há a salientar os comportamentos apresentados por alguns alunos que prejudicam o funcionamento normal das aulas e com consequências negativas no desenvolvimento de cada um.Nesta sucinta descrição do âmbito social e físico (e concomitantes frágeis condições humanas) que este trabalho contempla, a que se acrescenta a emigração que neste meio local se faz notar, a existência do Novas Oportunidades, respetiva aprendizagem cooperativa e individualizada, torna-se ainda mais importante, pois facilita
55 a comunicação entre os grupos de pares e amigos que vão relembrando o quanto na vida já foram fazendo e aprendendo.
As escolas têm autonomia de gestão e os órgãos de gestão e administração tentaram criar um ambiente salutar para o público-alvo do programa Novas Oportunidades. O grupo de professores, que dinamiza o processo de ensino e aprendizagem, integra várias faixas etárias, tem origens geográficas diversas, formações académicas muito similares, gostam de trabalhar no NO e sentem que muito ainda têm a aprender e a ensinar sobre a integração dos alunos, nas escolas.