Alguns pesquisadores1 têm se preocupado em contextualizar as atividades do IHGB, apontando as transformações na estrutura interna do IHGB e na produção científica. Com isso, buscam compreender as diferentes atuações na cultura brasileira conforme o momento histórico.
Lilia Moritz Schwarcz (SCHWARCZ, 1989:5) entende o IHGB como um espaço de saber característico do século XIX e alternativo perante outros estabelecimentos contemporâneos “como os museus de história natural, as academias de direito e de medicina, entre outros... ”
* Jessica Suzano Luzes, Pós-graduada em Arte e Cultura pela Universidade Cândido Mendes, UCAM.
1 GOMES, Ângela Maria de Castro (2009), GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado (1988), SCHWARCZ, Lilia K. Moritz
Com a concretização da Independência política, em 1822, desenvolvem-se instituições responsáveis por auxiliar a organização do Estado Nacional Brasileiro, como a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SIAN) e o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB).
De acordo com Schwarcz (SCHWARCZ,1989:07), a SIAN, criada em 28 de fevereiro de 1827, auxiliaria o Estado Nacional Brasileiro a realizar a “centralização do país e seu desenvolvimento enquanto Nação”. Ainda dessa fonte é a informação de que, a partir das reuniões dos membros do SIAN surgiu a idéia de uma “associação científica destinada a coligir, metodizar, publicar ou arquivar documentos necessários à história e geografia do Brasil”, o IHGB, cuja primeira sessão ordinária data em 1º de dezembro de 1838.
Manoel Salgado Guimarães (GUIMARÃES, 1988) afirmou que tanto o SAIN quanto o IHGB desenvolveram projetos de natureza global, procurando viabilizar a integração das diversas regiões do país.
Desta forma, ressaltou que o IHGB do Rio de Janeiro não se mantinha isolado, pois pretendia manter vínculo com as instituições congêneres, quer nacionais, quer internacionais; assim, construía um discurso não apenas de um estabelecimento carioca, mas principalmente como representante oficial diante de outros discursos tidos como parciais.
Schwarcz (SCHWARCZ, 1989:07) analisou a produção científica do IHGB, e destacou que de 1838 até a primeira década da República, o instituto tinha os textos de geografia como a sua segunda maior produção científica.
Estes documentos eram utilizados em conflitos diversos, litígios em andamento na época, que envolviam demarcação de territórios. Como por exemplo, a disputa pela região do Acre, que envolvia diversas nações estrangeiras, cuja contenda fora dada a favor do Brasil, integrando tal território à Nação brasileira, causa esta defendida pelo barão do Rio Branco, sócio efetivo do IHGB.
Desta maneira, constatamos que tal instituto, muita das vezes, produzia pesquisas a favor de questões imperiais, sendo utilizadas até em conflitos exteriores. Logo, este sempre fora financiado pelo Estado Imperial, conforme assinalou Guimarães:
Cinco anos após a sua fundação, as verbas do estado Imperial já representavam 75% do orçamento do IHGB, porcentagem que tendeu a se manter constante ao longo do século XIX. Tendo em vista, para a realização de seus projetos
especiais, tais como viagens exploratórias, pesquisas e coletas de material em arquivos estrangeiros, o IHGB se via obrigado a recorrer ao Estado com o pedido de verbas extras, pode-se avaliar como decisiva a ajuda do estado para sua existência material. (GUIMARÃES, 1988: 9)
Tal aproximação foi apontada por Ângela de Castro Gomes (GOMES, 2009) como causa de problemas organizacionais e políticos do IHGB, no início da República, haja vista o estreito vínculo com o regime monárquico e com o próprio Imperador Dom Pedro II.
É interessante destacar que o início da República2 é marcado pelo intenso debate entre intelectuais em torno da imagem do novo regime, havendo disputas para alcançar o imaginário popular, e recriá-lo dentro dos valores republicanos.
José Murilo de Carvalho (CARVALHO, 1990) afirmou que intelectuais dotados de diferentes concepções de república buscavam expandir suas percepções para o mundo extraelite, enfocando um público de baixo nível de educação formal. Para alcançá-los, adotaram, ao invés de discursos requintados, sinais universais, de ‘leitura mais fácil, como as imagens, as alegorias, os símbolos, os mitos’.
Esse autor acrescenta que o imaginário social é um dos elementos relevantes para a legitimação de qualquer regime político, alcançando as ‘aspirações, medos e esperanças de um povo’. Sendo assim, a manipulação deste é fundamental em momentos de transformação política e social, nos quais se redefinem as identidades, objetivos, e se reorganizam o passado, presente e futuro.
Neste novo regime político, segundo Gomes (GOMES, 2009), os sócios do IHGB passaram a reformular a produção do conhecimento histórico. Ela revela ainda que, apesar das dificuldades vivenciadas pela instituição, o IHGB era um local relevante para a época, já que neste eram realizadas discussões sobre como deveria ser a história, e importantes reflexões sobre possíveis projetos de futuro que buscavam a modernização do país.
2 Havia no Brasil pelo menos três correntes que disputavam a definição da natureza do novo regime: o
liberalismo à americana, o jacobinismo à francesa, e o positivismo. As três correntes combateram-se intensamente nos anos iniciais da República, até a vitória da primeira delas, por volta da virada do século. (Carvalho, 1990:9)
Diferenciou a produção histórica construída na monarquia, cujas discussões eram direcionadas ao imperador, da República, na qual se assumiram outros compromissos, conforme se verifica no trecho:
Exatamente por isso, como ocorreu em inúmeros casos de formação de Estados nacionais ‘modernos’, o destinatário dos discursos científicos era outro, o que ganhava especial força no caso da história do Brasil, por seu sabido e acreditado valor pedagógico. Sem descurar da educação das elites governantes, que tinham muito o que aprender com os ‘heróis’ e os grandes eventos da história privada, o interlocutor privilegiado da narrativa era o próprio ‘povo brasileiro’, a ser criado em um movimento simultâneo ao da construção de uma história, em que ele era também um protagonista, além de destinatário.(GOMES, 1990: 13)
Neste segmento do texto, Gomes apresenta um aspecto inovador, o povo como interlocutor privilegiado, contudo salientou que não houve uma ruptura total, pois os sócios desejavam manter como característica central a relação entre o saber erudito dahistória e seu ‘valor pedagógico, ou pragmático’ nos anos iniciais da República.
Esta relação era considerada pelos sócios da instituição, como a principal distinção entre a história e as ciências sociais, já que aquela tinha como ‘missão’ fazer conhecer o ‘passado comum’ de uma nação e, desta forma, incentivar o amor à pátria de seus cidadãos.
Desta maneira, tais intelectuais3 são considerados ‘profissionais’ responsáveis pela produção de bens simbólicos, fundamentais à consolidação de regimes políticos modernos, que se estruturam cada vez menos no uso da força.
Sendo assim, uma das tarefas do historiador é a produção de um ‘passado comum’ a uma determinada sociedade, elaborando referenciais que garantam a ‘origem’, e ‘continuidade’ no tempo, muita das vezes à revelia das mudanças que possam ter efetivamente ocorrido.
3Gomes (2009- 26) mencionou que a noção de intelectual não definida, na época, não tem caráter negativo
para a sociedade brasileira e para seus intelectuais, já que “mesmo na Europa do século XIX, onde há muito existiam instituições como universidades, museus, arquivos, associações literárias e científicas, essa distinção em andamento.”
Gomes (GOMES, 2009) constatou que nas três primeiras décadas do século XX, o IHGB passou por um sistemático investimento político e intelectual que buscava reerguer a instituição e reconduzir as discussões sobre a ‘produção da história e das memórias nacionais’.