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Passo então a ouvir João, porém sempre o interrompo quando inicia um assunto e, antes de concluir, introduz outro que não tem conexão direta com o

primeiro. Isso é muito evidente em sua fala. Muitas vezes se desorganiza na ordem dos fatos, como por exemplo:

-... Ontem eu fui na 25 de março, encontrei a Joana mas não peguei ela, ela era muito infantil, pegava muito no meu pé, ela participava do grupo, eu não gostava desse grupo, eu queria participar de outro grupo que tinha uma banda, eu tocava teclado, o Carlos era meu amigo, ela era muito engraçado queria ficar com todas, participei desse grupo em 98, não em 99 é 97, então em 99 eu conheci a Paula lá no Parque Santos Dumont não na Univap, lá eu estudei com a Rafaela mas ela não me dava bola, nessa época dei aula de informática....

Essa era a forma com que João se expressava, principalmente nos dias em que estava mais eufórico e ansioso. Por um período, deixei essa fala correr pela sessão, porém fui percebendo que não chegava em um final relacionado com o início da sessão, não chegávamos a lugar algum. Era uma associação livre sem conexão. Porém, diferente de um delírio, pois eram dados de realidade, concretos, mas que se embaralhavam no turbilhão emocional do paciente.

Conclui que era necessária uma intervenção, disse que eu não conseguia compreender o que ele tentava comunicar por ele transitar em vários assuntos diferentes, sem concluir o primeiro. Então passei a perguntar o que ficava omitido em sua fala, como por exemplo: O que é 25 de março, quem é Joana, qual sua relação com ela, que grupo é esse, isso ocorreu em 97, 98 ou 99. Aos poucos João foi adquirindo uma fala mais organizada.

Neste momento eu tinha um papel organizador dos pensamentos de João.

O paciente chegava para a sessão dando a impressão de que faltavam cinco minutos para terminar, queria contar tudo. Quando trazia alguma briga com os pais, João demonstrava maior confusão em sua fala, reclamava das atitudes e incompreensão dos pais.

Fica inconformado com a proteção dos pais, repete muitas vezes:

- Meu pai e minha não deixam eu viver minha vida, eles querem que eu viva a vida deles, eu não aguento mais.

Digo para João que seus pais o tratam assim por ele ter sido uma criança agitada desde bebê, como ele mesmo já havia me dito. Procurei mostrar para o paciente o que levou os pais a essa atitude de proteção, e que muitas de suas atitudes levam os pais a se preocuparem em deixá-lo viver independente. Continuei dizendo que seus pais, por ele ser adotivo se preocupam em dobro com ele, por se sentirem responsáveis por tudo que acontece na vida dele. Apesar disso, compreendo que ele se sente sufocado com a forma com que seus pais o tratam, mas esta situação só poderá mudar quando ele puder mostrar para os pais mais confiança.

Com o passar do tempo João começa a ficar mais calmo para falar, ele percebe que sua ansiedade diminui. Começa a perceber sua dificuldade em amar as pessoas e se sente triste por isso dizendo:

- Não consigo amar ninguém, não sei se amo meus pais e nem se

amo alguma mulher, só sei que sou louco pela minha filha. -Não aguento quando as pessoas grudam em mim, pegam no meu pé, isso me irrita.

Digo que uma coisa é o sentimento de amor, outra é a irritação por se sentir invadido pelo cuidado do outro, e que ele pode ficar irritado com os pais, porém isso não quer dizer que não os ama. Quanto às namoradas ele realmente parece não suportar algumas condições que um relacionamento impõe, como dar satisfação, não sair com outras mulheres, entre outras coisas. Além de criar uma expectativa de que as mulheres têm que aceitá-lo do jeito que ele é e ponto final. Explico que nos relacionamentos geralmente há diferenças entre as duas pessoas, porém ambos têm que ceder, e que ele não quer ceder em nada. Finalizo afirmando que ele se comporta assim em todos os seus relacionamentos, não só amorosos, como com os pais, os amigos e na SORRI.

João ouvi calado e diz:

4.1 Algumas reflexões

Percebi que algo deveria ser feito em relação à fala desgovernada de João, por isso passei a interrompê-lo. Esses cortes parecem ter produzido no paciente uma fala um pouco mais organizada. Ele passou a conseguir conversar sobre um assunto durante a sessão, e não mais a engatar um assunto no outro sem conseguir comunicar o que queria.

Outra percepção foi a de que João passou a receber como negativa qualquer forma de cuidado ou de carinho expressado por outra pessoa, como quando os pais recomendam algum cuidado, ou quando vão conversar com o filho. Em ralação às namoradas, quando estas demonstram ciúme ou preocupação João fica muito irritado finalizando a relação.

Imagino que a forma com que João se apresentou quando bebê e os fatos ocorridos nesse período, fizeram com que a preocupação de seus pais se elevasse, podendo assim ter ocorrido uma falha na comunicação entre ele e a mãe. Assim o paciente passou a sentir os cuidados maternos como invasão.

Hoje ele vive com seus pais uma relação difícil. Por um lado, os pais percebem que o filho é impulsivo e age sem pensar nas conseqüências, se vendo obrigados a não descuidar do filho. Por outro lado, João quer liberdade e se sente invadido pelos pais, não conseguindo compreender que o que ele chama de invasão é cuidado.

Considero que ficou uma marca em João e que hoje é muito difícil para ele diferenciar o que é cuidado do que é invasão, por isso quando um namoro começa a ficar sério ele cai fora, no momento em que os relacionamentos, envolvem cuidados, ciúmes e algumas prestações de conta.

Para João, um relacionamento de amor é sentido como se a pessoa que o ama rompesse os limites de sua individualidade, por isso qualquer demonstração de amor é intensamente vivida como invasão.

Percebi que eu deveria ter muito cuidado na condução da análise para não invadi-lo, seria essencial eu oferecer uma relação de confiança, onde estar ao lado não significasse romper os limites de sua individualidade.