Descobrimento
Abancado à escrivaninha em São Paulo na minha casa da rua Lopes Chaves de supetão senti um friúme por dentro. Fiquei trêmulo, muito comovido, com o livro palerma olhando pra mim. Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! muito longe de mim, na escuridão ativa da noite que caiu, um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos, depois de fazer uma pele com a borracha do dia, faz pouco se deitou, está dormindo. Esse homem é brasileiro que nem eu.
Mapa do século XVI ilus- tra o cotidiano indígena e a retirada da madeira. À direita, a rede e a cabana.
Índio tirando pau-brasil (detalhe de mapa)
Uma rede
Desenho de Hans Stader 1556
Albert Eckhout Índia Tupi 1641 Albert Eckhout Mulher africana 1641
Jean Baptiste Debret. O jantar no Brasil
Viagem pitoresca e histórica ao Brasil (1816 a 1831)
Jean Baptiste Debret. Vendedores de capim e de leite Viagem pitoresca e histórica ao Brasil (1816 a 1831)
José Ferraz de Almeida Júnior
Caipira picando fumo
1893
Jeca Tatu
Almanaque Biotônico Fontoura
José Ferraz de Almeida Júnior
O derrubador brasileiro
1879
Modesto Brocos
Redenção dos Filhos de Cã
Cândido Portinari
O lavrador de café
1939
Tarsila do Amaral
Antropofagia (ao lado) e Abaporu (abaixo)
Cícero Dias
Pierre Verger
Dormeur
Grande Otelo como Macunaíma Filme de Joaquim Pedro de Andrade, 1969.
Zé Carioca aparece ao lado de Jorge Amado e Dorival Caymmi, na histó- ria “Um carioca à baiana” (1997).
CarnÁfrica
Decoração do Carnaval de Salvador, 2002
Senhora da Irmandade da Boa Morte
Cachoeira-Ba
Ar
quivo NE
O
No quatro do santo, o caboclo lado a lado com as imagens católicas.
s três ensaios de malandragem e preguiça aqui apresentados, juntamente com as imagens brasileiras, trouxeram informa- ções e pretextos, muito mais para especular e formular questões que para respondê-las. Ao final deste percurso, em que persegui o tema e fui perse- guida por ele, então tentarei atar as pontas do texto. Para isso, destaco três pontos:
o
1) O Malandro, o Preguiçoso – e por extensão, o Besta – são tipos maleá- veis. Do mesmo modo, o discurso malandro é maleável e movente. Ma- landragem já é em si um sintoma de necessidade de mudanças e requer agilidade de pensamento para driblar as adversidades, o poder e a “injus- tiça”. Sem querer fazer apologia à malandragem, estou encarando-a como potência que poderia resultar em ações efetivas de transformação social. Isso nos levaria a abandonar a crença em soluções coletivas e, como nossos heróis tortos, empreender saídas individuais. Malandragem é trabalhar nas brechas, desorganizar para reorganizar diferentemente. Associada à ética, mesmo em se tratando de ações individuais (não individualistas), creio que poderá resultar em saídas coletivas.
2) Na condição de uma sociedade mestiça (cujos sujeitos possuem identi- dades flutuantes), para o aproveitamento dos discursos do poder a nosso favor, um primeiro passo é aceitar os estereótipos, aproveitando-os favo- ravelmente e transformando-os de algo desconfortável em vantajoso. Para tirar proveito da situação, é preciso assumir uma postura mais crítica em relação aos modelos: deixar de pensar a malandragem e a preguiça com mal-estar e encará-las como formas possíveis de (re)organização social – rebeldia. A aceitação dos estereótipos para passar além deles, adotando a maleabilidade e um ritmo próprio de trabalho (a “preguiça” nada mais é que respeitar o próprio ritmo de produção).
Ao invés de travar um embate com o discurso que propaga a nossa malandragem, malandramente miná-lo por dentro. Assumindo a maleabi-
lidade, a escritura perambulante da história, o contorno como estratégia de abordagem.
A grande malandragem de nossos heróis é não querer provar nada para ninguém, evitando polêmicas, fingir aceitar e até confirmar no dis- curso o poderio do outro, mas agir nas brechas, abrindo fendas. Na contra- mão da história, delineia-se um projeto político (e utópico) de baixo para cima.
3) Para operar as transformações, é preciso correr riscos. Trazer para o cen- tro os discursos marginais, os relegados. Encarar de frente os preconceitos e os movimentos opressores, desafiando a ordem preestabelecida, desie- rarquizando, denunciando o julgamento de valores. Isso pode ser uma opção acadêmica, mas também uma opção antropológica ou opção de vi- da.
Assim, os preguiçosos e malandros seriam aceitos não como tipos carnavalizados, máscaras, válvulas de escape, mas assimilados e potencia- lizados como motor de transformação social. Novos tipos liminares certa- mente surgirão, enquanto a sociedade não acolher a todos de forma iguali- tária, pois eles são o fermento da sociedade. Oferecem perigo, mas perma- necem na memória porque têm uma função – o uso das máscaras sociais – e, através do risível, são aceitos.
Já que quem ri ocupa o lugar do poder, rir dos poderosos pode ser um primeiro passo para ocupar efetivamente o lugar deles. Os poderosos podem sempre usar a força para se manter no poder, mas não o riso. O riso da tirania é um riso falso, não regenerador. Para empreender as mu- danças necessárias, o riso, recuperando o que diz Bakhtin, deve ser o ante- rior à concepção moderna, como verdade que degrada o poder e que não pode nunca se tornar inteiramente oficial.
qui estão dezesseis textos que citei ou analisei ao longo deste trabalho. Os que vão marcados por um asterisco (*) estão i- néditos, todos os demais estão publicados nas coletânea Contos populares
brasileiros: Bahia, organizada pelas professoras Doralice F. Xavier Alcofo-
rado e Maria del Rosário Alban, com exceção da versão de “Maria Borra- lheira”, recolhido na cidade de Itapetinga, que está publicada em Cindere-
la nos entrelaces da tradição. A transcrição e adaptação dos textos seguem
as normas do PEPLP e do NEO.
A
1. A onça e o coelho*
Lá um dia, o Coelho disse assim para a Onça: − Você quer fazer um favor pra mim?
A Onça disse: − Pois não, o que é?
O Coelho:
− Amiga Onça, ouvi dizer que hoje vai ter uma ventania danada, dessas que a muito tempo não acontece. Eu estou com muito medo do vento me levar. Vamos no mato tirar muito cipó que depois eu vou me esticar em um pé de pau e você me amarra todinho.
Os dois foram pro mato. Começaram a cortar cipó. Cortou cipó, cortou, cortou, cortou... Quando tinha muito cipó, o coelho que era astucioso disse:
− Ô amigona, estou morrendo de medo dessa ventania, ô amiga onça es- tou com muito medo, me amarre logo!
Aí a Onça disse assim:
− Olhe, compadre coelho, é melhor você me amarrar primeiro, que eu sou maior.
− Não, comadre Onça, você me amarra primeiro...
− Ô compadre Coelho, me amarre primeiro, por favor. Por favor, compa- dre, eu sou mais velha, me amarre primeiro!
Ela tanto insistiu... E era isso mesmo que o coelho queria: − Tá certo, amiga onça, suba aí no pau e se estique toda.
Quando a Onça, subiu que se esticou toda, ele aí começou a amarrar a Onça pelo pescoço. Amarrou, amarrou, amarrou, amarrou...quando chegou bem nas duas patas de baixo, disse:
− Agora, comadre Onça, se mexa aí.
A Onça ainda conseguiu mexer um pouquinho. Aí a Onça disse: − Ah, compadre Coelho, está folgada ainda, aperte mais!
Aí, tome cipó, tome cipó, tome mais cipó... Quando ela tentou se mexer que não pode mexer mais, o Coelho disse assim:
− Agora sim, você vai me pagar por todo o mal que já me fez.
O Coelho pegou uma varinha, aí tome-lhe vara na Onça, bateu, bateu, bateu, bateu...E a Onça sem poder fazer nada, estava toda amarrada, né! Depois
que o Coelho deu uma surra bem boa nela, ele se mandou e deixou ela lá no mato amarrada.
Aí, a Onça desesperada, fez uma promessa a São Cupim. Se São Cupim ajudasse a ela se soltar, torando todo aquele cipó, que ela ia fazer um acompa- nhamento pra São Cupim e todos os bichos do mato iam participar, menos o a- migo Coelho. Aí o Cupim cuidou de estragar o cipó, foi desgastando, desgastan- do, até que a Onça se soltou. Livre do cipó, foi logo atrás do coelho. O Coelho já estava bem longe. Ela aí foi convidar todos os bichos pra fazer o acompanhamen- to em agradecimento a São Cupim – promessa é dívida! Marcou o dia, mandou fazer o andor. No dia marcado, fizeram o acompanhamento. Todos os bichos queriam carregar o andor de São Cupim, cada hora um pegava um pouquinho. Lá uma hora, chega o Coelho todo melado de mel e envolvido em folhas secas – um bicho esquisito: Amigo Folhagem. Aí o Amigo Folhagem apareceu na beira da estrada, ninguém conhecia aquele bicho diferente! Amigo Folhagem se apro- ximou e falou:
− Dá licença d´eu pegar nesse andor? A Onça prontamente disse:
− Pois não, Amigo Folhagem, só quem não pode pegar aqui é o amigo Coelho. Todos os bichos pegam, menos o amigo Coelho. Se ele chegar aqui, todo mundo vai fazer guerra contra ele.
− Está certo!
Aí o Amigo Folhagem pegou e levou o andor até longe. Quando satisfez sua vontade, soltou o andor, alguém pegou e ele saiu correndo e gritando:
− Está vendo aí, amiga Onça, você não disse que eu não pegava nesse an- dor?
A Onça furiosa, grita:
− Pega amigo Coelho, minha gente! Pega esse coelho safado!
Largaram o andor e todo mundo saiu correndo atrás do coelho. O Coelho, brucutu! entrou no buraco. Aí amiga Onça falou pra o amigo Sapo:
− Amigo Sapo, você fica aqui nesse buraco olhando pro meu amigo Coe- lho. Não deixe ele sair de jeito nenhum, viu?
O Sapo disse:
− Está certo, amiga Onça, pode ficar tranqüila.
− Eu vou em casa buscar um cavador pra gente cavar esse buraco e tirar ele.
− Pode deixar.
A onça saiu e deixou o sapo lá tomando conta do buraco... Enquanto a onça foi lá, o coelho apanhou um bocado de areia, chamou o sapo e disse assim:
− Amigo Sapo, deixa eu passar aí, é rapidinho, vá...! O Sapo aí disse:
− Aqui tu não passa.
− Amigo Sapo, deixa eu passar aí, vá... deixa...por favor...vá aí...! − Aqui tu não passa.
O Coelho teve uma idéia:
− Amigo Sapo, tem uma coisa estranha aqui nesse buraco, tá muito escuro e eu não estou vendo direito! espie aqui...
O Sapo se abaixou pra ver. O Coelho, puf! jogou um punhado de areia nos olhos do sapo. O Sapo pulou e gritou:
− Ai, ai, ai, ui, ui, ui, meu olho, está ardendo, não estou vendo nada! Amigo Coelho deu no pé, virou mundo. Quando amiga Onça chegou:
− Amigo Sapo, cadê amigo Coelho? Eu estou vendo uns rastros... Amigo Coelho passou aqui?
O Sapo baratinado:
− Não, aqui não saiu não. Está aí, pode cavar que ele está aí. Com certeza, ele está aí, eu não tirei o olho desse buraco!
Aí a Onça cavou, cavou, cavou, quando chegou no final do buraco, cadê Coelho??
A Onça furiosa, disse:
− Agora amigo Sapo, você vai se ver comigo, vou lhe jogar na água! − Não amiga Onça, tenha piedade, me jogue no fogo!
− Nada disso, vou lhe jogar é na água, seu abestalhado! − Me jogue no fogo, por favor...por favor...
“Me jogue no fogo”, “me jogue na água”, acabou a Onça jogando o Sapo na água mesmo. O amigo Sapo caiu na água todo satisfeito. Rindo da cara da onça, gritou:
− Quá, quá, quá, quá, amiga Onça! Água ao sapo nunca fez mal! Quá, quá, quá, quá, água ao sapo nunca fez mal!
__________________________________________________ Narrado por Sônia N. Pinto. Alagoinhas, 25.10.98. Recolhido por Edil Silva Costa
2. João Preguiçoso*
Um menino muito pobrezinho. Não tinha pai, não tinha mãe, foi criado com a avó. Todo pobrezinho, naquela casinha pequenininha, no seu [...]. Bom. E ele era afilhado de Nossa Senhora. Quando foi um dia, ele já estava grandinho, ele foi tirar lenha. Quando chegou lá, ele viu... quando ele tá quebrando lenha, debaixo dos pé de árvore, viu aquela moça. Bonita! De junto dele, toda vestidinha de [...]. Ai ele ficou paradinho, ficou olhando assim, aí ela ficou... viu que ele fi- cou um pouquinho [supiado], chamou:
− João!
Aí ele ficou ali. E ela tornou chamar: − João!
Aí respondeu: − Senhora?
− Que é que vocês está fazendo aqui, meu filho? Ele disse:
− Estou quebrando uns pauzinhos de lenha pra levar pra minha vozinha fazer comida pra a gente que não tem.
Ela respondeu pra ele:
− É, eu sei que você tem... passa muitas falta, muita fome que vocês pas- sam, né, sua vozinha é pobre que não tem jeito!
Aí ele disse:
− É isto mesmo, sinhá moça! Que nós passamos.
Aí Nossa Senhora disse que chegou, tirou assim, ói, do bolso (Ele não sa- bia que era Nossa Senhora! Sabia que era uma moça) tirou assim do bolsinho uma varinha des’tamainho! Aí ele... chegou, disse:
− Olhe, você tome esta varinha e guarde. Não perca essa vara! Qualquer coisa que você queira, você pede esta varinha. Destá que esta varinha lhe dá.
Aí ele disse que ficou com aquele... ficou desanimado! Já tinha feito o fei- xinho de lenha dele, ficou desaminado, mas ficou com aquela... eu não sei se foi medo ou se foi preguiça que causou nele. Ele aqui, quando Nossa Senhora, a mo- ça desapareceu, ele ficou com a varinha assim. Quando acabou, disse assim... Nossa Senhora ensinou a ele, disse: “Olhe, quando você quiser qualquer coisa, você diz assim: ‘Minha varinha de condão, pelo condão que Deus me deu, me ajudai-me eu alcançar isto ou me levar em qualquer lugar! E dextá que ela faz.’” Bom. E o reis, era o reinado, tinha um reinado de frente, só chamavam ele João Preguiçoso que ele não queria saber de trabalho nenhum. Aí ele chegou com a varinha, disse... a moça desapareceu, ele disse: “Eu vou ver se essa moça tá cer- ta!” O feixinho de lenha já tava amarrado de cipó, ele subiu, botou os pé em cima do feixinho de lenha e pegou na varinha, disse:
− Minha varinha de condão, pelo condão que Deus me deu, me [...] nesse feixe de lenha e me botar em casa!
Aí subiu. E lá vai o feixinho de lenha! E com ele em cima. O feixe de le- nha. E quando ele está em cima do feixe de lenha, passou pela frente do reinado; a filha do reis, a prencesa saiu na janela, disse:
− Meu pai, venha ver uma coisa! Como vai João Preguiçoso! (Que chama- vam ele João Preguiçoso) Como vai João Preguiçoso ali em cima de um feixe de lenha, correndo!
Aí, quando chegou em frente do palácio, parou. Aí as moça ficaram dan- do risada! Ficaram dando risada, ele aqui tirou a varinha, disse:
− Minha varinha de condão, pelo condão que Deus me deu, me ajude que a filha do reis meu senhor tenha um filho!
Apareceu com um filho. Fez o feixinho, carregou ele, foi levar na casa da avó. Ele chegou todo [largadinho] [...]. Se ele já era preguiçoso, ainda mais pre- guiçoso ficou. Qualquer coisa que ele queria, ele... Mas esqueceu desse pedido que ele fez. Bom. A moça, a filha do reis apareceu grávida. Êta que a filha do rei tá grávida! A prencesa tá grávida! Tá daqui, tá dali, de quem é, de quem não é, bota em confissão e leva pro médico, o médico atestou que ela estava com gravi- dez, mas ela dizia que ela nunca tinha tido contático com homem nenhum, como era que ela podia estar grávida?! Podia ser uma doença. Aí fizeram a junta médi- ca, os médicos... que os médico naquele tempo não era como os de hoje, era mais pouco, mas fizeram. Que quem tinha dinheiro naquele tempo é que procurava muitos médico. Então fizeram a junta médica, o médico disse:
− Ela está com gravidez, já está com três meses.
Ave Maria! Que o reis ficou, foi o maior... foi o maior arrependimento que o reis ficou. Não sabia. Botou debaixo de confissão e ela nunca confessou. Que ela nunca tinha tido contato com nenhum! Bom, aí ficou. Nos nove meses, a rainha disse, a mãe da menina disse:
− Olhe, minha filha vai ficar aqui, não vai sair pra lugar nenhum, ela vai ganhar o neném dela aqui.
Mandou chamar o médico, [quando o neném] nasceu, nasceu com o livro na mão, o livro aberto. A criancinha com o livro aberto. Escrito: “Entregarei esse livro quem sereis o pai.” Eita, que confusão triste! Quando nasceu esse menino. E ele lá, coitado. E aí ele já tava bem refeito, mas não queria, se era pra tomar um banho era o maior sacrifício, ele não queria nada o João Preguiçoso. Não queria nada! Aí botaram a fama no mundo que a filha do reis tinha ganhado neném; que o menino estava com o livro na mão. O livro aberto, dizendo que sereis o pai quem o menino entregar o livro. Ah, minha senhora! Naquele mundo não ficou
nho no seu bercinho de ouro com seu livrinho na mão, bem do dele! Quietinho. Chegava um, chegava outro, aqueles príncipe, tudo, ia pedir esse livro, nada! Não entregava. Que quando é um dia, um dos escravo do reis disse:
− Meu senhor, reis meu senhor, inda falta um home aqui da região! − Quem é?
− João Preguiçoso.
Ah, que o rei se apavorou!
− Você logo não tá vendo que João Preguiçoso não vai ser o pai de meu neto! Cê é doido?!
Aí ficou, [...], não tinha jeito. O menino já está ficando com três mês, com dois mês, com três meses. Aí, quando foi um dia, a rainha estava deitada, so- nhou: que mandasse buscar João Preguiçoso que ele é quem ia tomar o livro da mão do menino. Ave Maria! Isso [voltou] o maior sacrifício [nas rua]. Nossa Se- nhora desceu, disse a ele no sonho, disse:
− Olhe, João, você... vão mandar lhe buscar aqui, o reis vai mandar lhe buscar aqui! Mas você bota todo sacrifício. Você vai, mas bote todo sacrifício por- que já defamaram muito de você... todo mundo fazia pouco de você... tinha você como um bicho. Você bota um pouquinho de sacrifício.
Ensinou tudo a ele. Que quando foi um dia, chegou a carruage, na porta. Os escravo com a carruage, com roupa, com tudo, pra ele tomar banho que era pra ele entrar naquela carruage pra ir pra o palácio.
− Não vou não! Não já disse que não vou? Eu tou com minha preguiça, não vou.
Esses escravo, esses home pelejaram e nada dele ir! Aí ele se lembrou, disse:
− Olhe, você diga a reis meu senhor que eu só vou assim: que ele me mande uma carruagem, um saco de farin-... [RISOS] com um saco de farinha, um fardo de carne de sertão que é pra eu ir comendo [RISO].
Pra poder desfazer no reis. Porque ele já tava avisado de tudo. Aí chega- ram... quando... a carreta voltou:
− João não veio não?!
− Não veio não, reis meu senhor. Mandou dizer que só vem aqui se o se- nhor mandar uma carruagem com um saco de farinha e um fardo de carne de sertão, pra ele vim comendo; tirar uma faca pra ele vim comendo a carne crua.
−Tá é doido! Eu não tá vendo eu dizer que [eu deixar] aquele doido entrar em meu reinado! Aquilo tá é doido!
Que nada, mas a rainha diz: − Não, vamos fazer isso.
Bom, que quando a carruagem chegou na porta com esse saco, ele pegou a roupinha mais velha que tinha, vestiu; subiu na carruagem; pegou um prati- nho, botou um pratinho de queijo, botou a farinha, cortou seu pedaço de carne, evai ele comendo, os pedacinho. E lá os reis... os escravo com a ... Quando chegou lá, as outra filha disse:
− Pàra lá! Pàra lá!
Pra não envergonhar. Aí pararam, ele ficou. Depois veio um [...], um grande, disse:
− Como é, João, vai saltar?
− Ele não! Ele não vai saltar daqui que ele tá com a preguiça dele! − Salta, João! Salta João!
O reis mandou dizer que por pena de morte você tem que saltar. Ele sol- tou.
− Agora vamo pro banheiro, tomar banho. Levaram pro banho.
− Vai tomar banho, João!
− Não, que ele tá com a preguiça dele! Eu tou com minha preguiça!
Depois de muito enreda, ele tomou banho, aí pra levar lá pra cima. Que quando chegou lá o reinado, disse:
− Ah, o reis tá é doido! Cê logo não tá vendo que esse não é... esse daqui é o pai?!
Que quando o reis, ele subiu as derradeira escada pra chegar no salão on- de o menino estava, o menino com o livrinho na mão, abriu. Deu aquela risada! Aí o reis disse:
− João, agora por pena de morte, você pede esse livro a essa criança. − Quem é, reis meu senhor? Então não sou eu que vou pedir livro a meni- no!
Aí que ele lembrou do que ele fez: − Peça, João!
− Não já disse que não peço!
E o menino só olhando pra ele e dando risada! Só olhando pra ele e dando risada. Pede, João, um arrodeia, outro arrodeia, outro tá daqui... que quando ele