A partir da década de 1990, com a mudança no regime industrial, a política comercial e governamental tem se orientado à abertura e liberalização do mercado nacional brasileiro. O novo modelo de desenvolvimento voltado à abertura ao exterior e desregulamentação industrial, objetivava fomentar uma mudança estrutural na economia, intentando desenvolver os diferentes setores industriais acelerando o crescimento econômico nacional.
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Dentro da perspectiva evolucionária, que analisa a mudança como um fator endógeno ao próprio mercado e que contraria a visão estática onde o comportamento do setor baseia-se nas noções de equilíbrio, o exame da dinâmica setorial é um fator chave para o entendimento do desenvolvimento industrial e competitividade internacional, cujo fator determinante é a inovação baseada no progresso técnico (DOSI, 1988). A tecnologia dentro desta abordagem é vista como um componente o qual não pode ser totalmente codificado, apresentando numerosos elementos de caráter tácito. A tecnologia é desenvolvida através de processos de aprendizado, o que contraria a visão neoclássica onde não existem processos acumulativos de aquisição e desenvolvimento de tecnologia. Desta forma se distingue uma marcada diferença entre as teorias de acumulação e teorias de assimilação. As primeiras cuja ênfase é o crescimento como conseqüência dos investimentos em capital físico e humano. Em quanto a teoria de assimilação enfatiza a importância dos processos de aprendizado, adaptando e operando a tecnologia importada, de forma a gerar mudança tecnológica dentro da empresa (Lall e Teubal, 1998). Desta forma, o sucesso ou fracasso do desenvolvimento setorial vai depender em grande parte da capacidade de coordenar e gerir capacidades internas e externas, que junto com processos inovativos permanentes vão gerar um diferencial que garante o crescimento (TEECE et al., 1996).
Examinar o sistema setorial dentro deste contexto outorga uma ampla visão das atividades inovativas acontecidas no setor e as tendências seguidas para se adaptar ao ambiente competitivo internacional, onde as mudanças não são só explicadas por variações em preços, taxas e salários (FREEMAN, 2004). A abordagem do setor celulose e papel desde a perspectiva evolucionária vai permitir criar uma base de entendimento, onde as variações no desenvolvimento industrial são explicadas pelas diferenças existentes quanto ao conhecimento tecnológico que não é igualmente compartilhado entre firmas (Lall, 1992). Concordando com esta afirmação, Malerba (2002) afirma que o sistema setorial, cria uma matriz tecnologia-produto que junta o produto ao sistema de tecnologias do setor, sendo está matriz diferenciada de um setor a outro. Desta maneira, cada setor industrial apresenta bases de conhecimento e tecnologia próprias que diferenciam a evolução de cada um dos setores independentemente, o que vai determinar o comportamento individual de um setor
especifico, sendo o direcionamento das políticas e/ou mercados um diferencial no desenvolvimento tecnológico (LALL e TEUBAL, 1998).
O sistema setorial pode-ser entendido em termos de produto, agentes, conhecimento e tecnologia dentro de um ambiente dinâmico e de transformação (MALERBA, 2002). A construção do sistema setorial identifica vários aspectos intrinsecamente relacionados entre os quais temos: base de conhecimento, base tecnológica, tipo e estrutura de interação entre firmas e organizações. A interligação destes elementos vai determinar o grau de desenvolvimento da tecnologia local, que inserida dentro do contexto de liberalização econômica, trasforma a competitividade em incentivo, fator chave para o desenvolvimento de capacidades tecnológicas indispensáveis para que países emergentes não sejam simplesmente imitadores de tecnologia. (LALL 1992, BELL e PAVITT, 1993).
O desenvolvimento e apropriação de tecnologia, dentro da teoria de assimilação, envolve uma crescente conexão com os processos de aprendizado administrativo e organizacional, assim como de mercado, o que vai gerar fortes diferenças de capacidade tecnológica, estrutura institucional e efetividade da absorção dos processos de aprendizado ao nível de país (LALL e TEUBAL, 1998). Desta forma, examinando o nível micro Malerba (2002) afirma que altos níveis de acumulação tecnológica no nível empresa estão associados a esforços constantes em atividades inovadoras, quanto no nível setorial estão associados ao alto grau de estabilidade das empresas que compõe o setor que se traduzem na criação de fortes barreiras de entrada para novos concorrentes.
Levando em conta a anterior premissa, o presente trabalho apresenta duas perspectivas diferentes. Em primeiro lugar, sob o nível setorial pretende-se modelar a relação entre a tendência apresentada pelo setor e a evolução das variáveis associadas com a composição e concentração setorial de forma que seja possível identificar as implicações da mudança do regime industrial - substituição de importações à liberalização econômica - no setor celulose e papel. A segunda perspectiva refere-se ao exame da trajetória de acumulação de capacidade tecnológica das empresas Aracruz,
Votorantim Celulose e Papel (VCP) e Klabin dentro do contexto da mudança do regime industrial e suas implicações à performance técnico econômico-financeira.
No nível setorial, será examinado o comportamento seguido pela indústria durante o período de substituição de importações e posteriormente de liberalização econômica, nos anos 1990, associados com a abertura de mercado à competição internacional. O modelo aplicado para capturar a influência do contexto econômico sob o setor de celulose e papel foi definir um grupo de variáveis setoriais2 para identificar as taxas médias de crescimento anual do setor. Seguindo a tendência destas variáveis, no período 1970-2004, consegue-se relacionar o impacto das mudanças do contexto político- econômico no desenvolvimento do setor celulose e papel.
O segundo aspecto a ser examinado refere-se à influência dos regimes industriais no desenvolvimento da indústria de celulose e papel, no nível empresa. Segundo a evidência empírica obtida da Aracruz, Votorantim Celulose e Papel (VCP) e Klabin será feita a mensuração do nível de capacidade tecnológica alcançada à luz do modelo analítico apresentado na Seção 3.2. Durante a aplicação do modelo pretende-se manter como linha de referência o contexto dos regimes industriais, intentando capturar a informação considerada relevante ao comportamento inovador da indústria.
3.2 ACUMULAÇÃO DE CAPACIDADE TECNOLÓGICA NO NÍVEL
EMPRESA
Esta seção revisa alguns dos conceitos referentes à acumulação de capacidade tecnológica, assim como, a abordagem para descrever a trajetória das mesmas. Seguidamente é apresentado o modelo da análise para mensuração da acumulação de capacidade tecnológica no segmento de celulose e seguidamente na indústria de papel.
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3.2.1 Acumulação de capacidades tecnológicas no setor celulose e papel no nível empresa.
Conforme apresentado no Capitulo 2, Bell e Pavitt (1993) apresentam uma ampla definição sob a acumulação de capacidades tecnológicas, no qual é definido como os recursos incorporados em indivíduos e sistemas organizacionais necessários para gerar e gerir mudanças tecnológicas, fazendo distinção entre capacidades de rotina e inovadoras. As capacidades de rotina relacionam-se aos recursos necessários para operar, ou seja, para produzir bens e serviços quanto às capacidades inovadoras permitem gerar e gerir a mudança tecnológica.. Segundo Lall (1992) e Figueiredo (2001) a capacidade tecnológica de uma empresa ou setor industrial está presente e acumulada em quatro elementos como ilustra a Figura 3.1.
Figura 3.1 – Componentes a onde se armazena a capacidade tecnológica
Fonte: Adaptado de Figueiredo, 2005
O sistema físico está profundamente relacionado com o desenvolvimento da atividade industrial e comercial da empresa ou setor, sendo conformado pelos equipamentos, maquinarias e softwares em geral. De outro lado, os indivíduos representam o conhecimento tácito, de difícil codificação, adquirido pela experiência e domínio das
Sistemas organizacionais e estratégias
Sistema técnico-físico
Produtos e serviço
CAPACIDADE