Um aspecto a ser enfatizado no estudo das redes de poder é aquele que se relaciona com os recursos de poder, uma vez que as ações coletivas e individuais são muito inclinadas à busca desses recursos, mais que aos ganhos exclusivos de mercado. Isto ocorre porque os recursos de poder permitem a dominação da cadeia, já que concedem a capacidade de coordenação de um ou mais agentes.
Na abordagem mais tradicional de cadeias, as decisões estratégicas são voltadas para a minimização dos custos de produção e transação. A atuação das empresas em torno de práticas como economias de escala e de escopo, diferenciação do produto, barreiras à entrada de novos produtores, integração vertical entre outras, explicam a preocupação e o modo de adaptação na concorrência. Contudo, deve-se considerar que não são apenas esses os fatores que determinam as ações dos agentes, ou seja, a preocupação dos atores não se resume à redução dos custos de produção e de transação; as relações entre os atores econômicos e políticos demonstram o interesse em aumentar os recursos de poder, pois assim estarão aumentando também seu peso na tomada de decisões.
Dessa forma, as empresas não apenas adotam as estratégias visando a conquista de mercados, mas também buscando alcançar formas de elevar seu poder dentro da cadeia. As empresas buscam a obtenção do status público3 para influenciar ou elaborar políticas, a modificação de regras e normas, o compartilhamento de informações etc. (PAULILLO, 2002).
O encadeamento analisado sob a perspectiva de uma rede de poder considera conexões complexas entre organizações que dependem de recursos de poder, os quais são buscados pelos atores, visando obter melhores resultados e evitar uma possível dependência em relação a outros atores. Os recursos de poder podem ser constitucionais, jurídicos, organizacionais, financeiros, políticos ou de informação.
Cada rede se distingue das demais pela diversidade na estrutura da dependência desses recursos. O poder dos membros dependerá do poder dos outros membros, dada a relação entre eles. Similarmente, o tipo de relação entre os membros dependerá de seus recursos (DOWDING, 1995).
Numa determinada rede política, os recursos de poder são distribuídos de forma desigual entre os membros e as etapas, assim como a representação de interesses, que também é desigual, principalmente em economias com estruturas heterogêneas. As características dos atores e das conexões da rede política vão determinar o grau de assimetria de poder. Os membros se diferenciam nos aspectos de: conhecimento ou informação; legitimidade; reputação, cooperação; e habilidade direta e indireta para mudanças e para a busca de incentivos estruturais.
As conexões podem ser caracterizadas segundo a centralidade das operações; densidade institucional (intensidade da interação); regras de interação; e grau de envolvimento e capacidade de inserção.
As conexões podem ser formais ou informais. As formais são exemplificadas por contratos ou integração vertical e segundo classificação feita por GRANDORI e SODA (1995), podem ser chamadas de redes burocráticas, que são aquelas em que há o contrato formal para regular as especificações de fornecimento, a organização em rede e as condições de relacionamento dos integrantes, como ocorre nas franquias, licenciamento, agenciamento etc. Quando há formalização de acordos
3 Offe (1989) utiliza este termo e atribui ao status público uma importância significativa na representação de interesses e determinação dos resultados.
relativos ao direito de propriedade dos acionistas entre empresas, como joint ventures,
capital ventures e outros, as redes são denominadas de redes proprietárias.
As conexões informais podem ser representadas por cooperações sociais ou acordos de serviços e caracterizam o tipo de redes denominadas de redes sociais, as quais não são regidas por nenhum tipo de contrato formal ou, quando a formalização ocorre, simplesmente faz referência a especificações de serviços negociados. Essas relações ocorrem em pólos ou distritos industriais, câmaras técnicas, comitês de bacias hidrográficas, gestões participativas etc. (PAULILLO, 2002).
Tanto as características dos membros quanto das conexões influenciam na distribuição dos recursos de poder e na forma de representação de interesses. O poder de um componente depende dos recursos de poder dos demais e do tipo de relação entre eles.
Quando os recursos não são bem empregados pelos atores, havendo pouca habilidade estratégica, há uma possibilidade maior da formação de redes pouco estruturadas ou hierarquizadas, que constituem as redes difusas. É o que ocorre mais freqüentemente quando a relação entre os integrantes não é formalizada, no caso das redes sociais, segundo a tipificação de GRANDORI E SODA (1995). Neste caso a coordenação das redes se baseia em mecanismos informais, caracterizados pela ausência de contratos ou por contratos formais que apenas especificam produtos e serviços, mas não se referem à organização do relacionamento entre empresas.
Independentemente de funcionarem sob estruturas formais ou informais de governança, as redes atuam buscando recursos de poder, que podem ser constitucionais, políticos, financeiros, organizacionais e jurídicos, pois são eles quem determinam o poder de negociação dos atores, sejam eles individuais ou coletivos. Reduzir custos de transação, custos de produção e aumentar a capacidade de representação dos atores coletivos exemplificam apenas alguns dos recursos que são procurados. Em muitas situações, o acesso a alguns recursos críticos e conhecimentos especializados tendem a ter um peso maior do que a redução nos custos de transação (PAULILLO, 2002).
Os recursos constitucionais são representados pelas regras e normas, sendo que estas, quando legitimadas, determinam formas de adaptação dos atores e mudança na própria estrutura de governança das redes.
Os recursos políticos podem aparecer sob a forma de status público atribuído pelo Estado, de poder de representação e de poder de aglutinação dos atores coletivos. O poder de representação relaciona-se com a reputação dos atores, pois quanto mais um ator dispõe de um conceito positivo perante os demais integrantes de uma rede, mais terá poderes para a representação. Dessa forma cria-se uma relação de dependência do poder de representação em relação à legitimidade obtida através da atribuição do status público concedido pelo Estado, assim como da reputação, dada pelo reconhecimento dos demais atores da rede. A partir do poder de representação atingido pelo ator, fica estabelecida sua participação nos arranjos formados na rede. Já o poder de aglutinação de um ator é determinado por sua capacidade de reunir os membros da cadeia. Haverá o reconhecimento desse poder quando o ator (coletivo ou individual) tiver êxito na aglutinação de todos ou de grande parte dos membros potenciais, levando- se em conta o volume de associados em relação ao total potencial, a dispersão dos interesses desses membros, a dispersão territorial, a freqüência dos atores nas reuniões e assembléias, assim como o apoio ou o reconhecimento dos elementos participantes diante da conduta e dos procedimentos tomados.
Os recursos financeiros consistem em financiamento adequado, incentivos fiscais, subsídios, comissões sobre escalas de produção, cotas promocionais etc.
Os recursos tecnológicos correspondem a conhecimentos adquiridos, tecnologias de gerenciamento, de informação, processos e matérias-primas específicas etc.
Os recursos organizacionais são referentes à infra-estrutura institucional (institutos de pesquisas, centros de treinamento, agências de marketing), informações compartilhadas e propagadas, parcerias, consórcios, informações ocultadas, proximidade de fornecedores, terceirização, subcontratação, utilização da marca etc.
Os recursos jurídicos podem ser representados por direito de propriedade intelectual, recursos anti-dumping, ajuizamento de ações etc. (PAULILLO, 2002).
Todos os recursos de poder serão buscados pelos atores participantes da cadeia produtiva, pois sua obtenção indicará melhores resultados e ainda evitará que haja uma dependência em relação a outros atores. Os recursos, as capacidades e os dotes são diferenciados entre uma e outra organização; cada firma possui recursos que se
distinguem daqueles possuídos por outras e o conjunto desses recursos vai determinar sua atuação e também sua posição dentro da cadeia.