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In document Organisasjonene i Hordaland 1999-2009 (sider 32-39)

O teólogo José Comblin (1974d), na revista dezembro de 1974, em seu artigo "A Missão Profética da Igreja nos Tempos Modernos", inicia, após a ruptura mencionada anteriormente, dentro da revista, de forma explícita, o que este grupo de intelectuais elaborou de forma teórica, tomou corpo e formou um conjunto de ideias culminando na solidez de um ideário. O autor traz à tona uma temática adormecida dentro da estrutura eclesial, que é deslumbrada no documento do Concílio Vaticano II: o profetismo. Com essa temática, o autor faz uma releitura dos acontecimentos ulteriores e atuais que despertam no seio do cristianismo duas novas perspectivas: a teologia da libertação e as CEBs.

Contudo, hoje em dia, o tema do profetismo recuperou vigor suficiente para que o Concílio Vaticano II o levasse em conta e o introduzisse na constituição Lumem Gentium. Diz a Lumem Gentium: "O Povo santo de Deus participa também do múnus profético de Cristo" (nº 12); Cristo, o grande Profeta que proclamou o Reino do Pai, quer pelo testemunho da vida, quer pela força da palavra, continuamente exercer seu múnus profético até a plena manifestação da glória. Ele o faz não só através da Hierarquia que ensina em seu nome e com Seu poder, mas também através dos leigos. "Por esta razão, constituiu-os testemunhas e ornou-os com o senso da fé e graça da palavra, para que brilhe a força do Evangelho na vida cotidiana, familiar e social" (nº 35) (COMBLIN, 1974d, p. 171-172).

Este tema do profetismo é desenvolvido por Comblin (1974d) como fundamentação para a ação, e desta surge uma elaboração teórica que justifica a ação libertadora. Comblin (1974d) vislumbra uma conjuntura que se forma no interior do cristianismo, que também é visualizada por teóricos como Michael Löwy e Leonardo Boff, porém a partir de outros conceitos. Na verdade existe uma série de acontecimentos que vão culminar no profetismo, tema antigo na história eclesiástica, porém que ressurge com vitalidade, e dela o teólogo belga faz uma associação com os

56 Provavelmente é uma referência ao slogan “Brasil, ame ou deixe-o”, muito utilizado na época do

acontecimentos que levam a elaborar e reelaborar o tema da libertação. O tratado sobre o profetismo vai desembocar necessariamente na questão da libertação. Esta vai ser tema chave para a nova teologia e para a vivência da comunidade cristã. O profetismo aparece como sendo missão do cristianismo, que se identifica com a libertação integral57 do ser humano. Porém, essa missão parece esquecida no seio do cristianismo. É verdade que de tempos em tempos surgem pessoas que chamam atenção aos problemas atuais. Comblin (1974d) observa que, na diversidade teológica contemporânea, há não só o velamento como também o desvelamento do profetismo.

Dado o lugar de destaque que ocupa o profetismo nos dois testamentos, provoca surpresa o pouco interesse da teologia contemporânea de modo geral. Existem exceções. Citamos algumas. Porém não deixam de ser exceções que de modo algum infirmam a regra. Significaria o silêncio da teologia que o assunto não traz muita luz sobre os acontecimentos contemporâneos e não seria útil à Igreja atual? Ou, pelo contrário, a ausência de interesse seria efeito de uma certa inércia intelectual e da tendência de repetir indefinidamente os mesmos temas eclesiológicos ainda que as situações tenham mudado? A teologia não está isenta desse defeito de toda a ciência que consiste em permanecer fiel ao seu aparelho conceptual ainda que não forneça mais ajuda para interpretar situações novas. Portanto, do silêncio bastante impressionante da teologia comum não podemos concluir que o tema do profetismo seja certamente inatual nos tempos de hoje (COMBLIN, 1974d, p. 171-172).

Comblin, na revista de dezembro de 1974d, verifica de forma precisa que a função profética dentro da Igreja tem sido deixada em segundo plano, pois a hierarquia tem desempenhando esse papel pelo "ensino" da doutrina. Repete-se de novo o antigo e busca amiúde uma simples transmissão de conteúdos doutrinários, às vezes, aplicada à vida pessoal, intimista. No entanto, essa função educativa não é a mesma profética. O que ocorre, de fato, é a acomodação e por vezes alianças da Igreja com governos e regimes em diversas situações. Nos momentos de crise ou de acomodação, sempre surgem pessoas que mostram um novo horizonte a ser vislumbrado e, no caso do cristianismo, trata-se do profeta, que recorda o princípio originante do ser humano, que é de liberdade e libertação.

O cristianismo, em suas origens, não nasce atrelado a nenhum poder constituído e nem menos é subserviente a nenhuma forma de regime e melhor, diferentemente disto, ele está ligado à liberdade. Em outra análise, que não cabe aqui explorar, a mensagem do Cristo não se encerra ou se atém a determinado sistema ou tradição religiosa. A mensagem evangélica originalmente não é institucionalizada, ela

57 A libertação não se restringe somente ao pecado em vista da salvação eterna, mas para ser integral

precisa estender-se a libertação da escravidão socioeconômica, política e cultural. Assim, libertação compreende as diversas dimensões da vida humana (ANTONCICH, 1989).

assim se torna quando é atrelada ao império, ao poder vigente (REGIDOR, 1996, p. 36- 37).

Na contemporaneidade, a função profética emerge de uma leitura da realidade, que os intelectuais da REB começam a elaborar a partir de um pressuposto anterior. Em um momento histórico, devido ao seu contexto, surgem as "minorias proféticas", conceito utilizado por Maritain (1998) para designar pessoas "que foram reconhecidas vozes proféticas e tiveram a descendência numerosa; foram destacadas por poucos primeiro, e depois, por grupos cada vez mais importantes" (COMBLIM, 1974d, p. 774).

Assim, o profetismo emerge novamente, em uma roupagem contemporânea. Ele sai do gueto, segundo Gutiérrez (1975),e abre-se para o mundo em uma forma dialogal e contestadora e, consequentemente conflitiva. Por isso usa de elementos das ciências para tomar consciência dos meandros perversos dos sistemas de dominação. Particularmente, a figura do profeta pode ser traduzida por teólogo ou, de forma similar, por um intelectual orgânico, uma vez que a palavra profeta tem grande conotação política, com denúncias e exigências às mudanças sociais. Podemos afirmar que o profeta atua conectado à realidade presente, vinculado aos problemas políticos e sociais, e não simplesmente como especialista, mas, de fato, inserido na vida prática (GRAMSCI, 2011b)

Certas ordens religiosas, tais como os Jesuítas e Dominicanos, são verdadeiras redes de intelectuais "orgânicos" na Igreja, envolvidos em um intercâmbio e em diálogos constantes com o mundo intelectual acadêmico e "profano" - um mundo que, na América Latina, é substancialmente influenciada pelo marxismo (LÖWY, 2000, p.74).

Neste mesmo sentido, Gutiérrez (1975) compartilha com Löwy (2000) a aproximação do teólogo da libertação com o intelectual orgânico.

Se, porém, parte a teologia dessa leitura e contribui para descobrir a significação dos acontecimentos históricos, é para fazer que seja mais radical e lúcido o compromisso libertador dos cristãos. Só o exercício da função profética, assim entendida, fará do teólogo o que, usando expressão de A. Gramsci, pode chamar-se um novo tipo de "intelectual orgânico", alguém desta feita comprometido pessoal e vitalmente com fatos históricos, datados e situados, através dos quais países, classes sociais, homens pugnam por libertar-se da dominação e opressão a que os submetem outros países, classes e homens (GUTIÉRREZ, 1975, p. 25).

Portanto, Gutiérrez (1975) identifica o teólogo libertador como profeta, isto é, intelectual orgânico. O sentido de profeta distancia-se daquele místico e

assemelha-se ao intelectual identificado e pretendido por Gramsci (1968), que se reconhece no seu grupo social.

O profeta não prevê futuro, com previsões catastróficas, como normalmente é concebido na mentalidade do senso comum. Diferentemente disto, o profeta é o homem que está "além" de seu tempo. Ele possui a "sensibilidade de seu tempo e de seu povo" (COMBLIN, 1974d, p. 776) e é capaz de visualizar sofrimentos que afetam a maioria, que nem sempre é consciente de seus males. O profeta tem a percepção da injustiça cometida e que arruína a vida humana. Ele não se cala diante dos malefícios, por isso desempenha um papel na sociedade que o torna comprometido com a causa do povo.

Os fatos lembrados até aqui mostram que os novos conceitos de profetismo surgiram na Igreja como respostas a situações novas e reflexões sobre as novas forças que atuam dentro da Igreja e da sociedade como fatores de transformação. Ninguém teria pensado em dar a essas novas formas de atuação o nome de profetismo se não pudéssemos constatar na Igreja uma nova leitura dos profetas da Bíblia e uma nova compreensão do seu papel no seu tempo. A teologia cresce a partir dos novos conceitos surgidos dos novos desafios históricos e também a partir de uma nova leitura dos livros sagrados. Ambos os fatores interferem constantemente no decorrer do processo. A leitura renovada da Bíblia orienta e ilumina os acontecimentos e estes obrigam a uma mudança no modo de ler a Bíblia, tirando dela aspectos esquecidos ou nunca explicitados (COMBLIN, 1974d, p. 783).

De fato, na Igreja surge uma nova forma de profetismo. Este profetismo acontece de forma singular e inédita, por assimilar conteúdos do pensamento moderno e contemporâneo. Por se tratar de um período contemporâneo, haverá uma diversidade de fatores congruentes que fará surgir um movimento, um partido ou um grupo de intelectuais que fornecerá uma nova configuração. Existe a evidência de "continuidade profética nos movimentos contemporâneos contra o racismo, a marginalização das nações pobres, a dominação, a guerra, a miséria" (COMBLIN, 1974d, p. 783). Vale ressaltar que a utilização de termos profetismo e profeta se faz necessária pela semelhança com o político, ainda que de forma precária. Por outro lado, aqueles que denunciam e orientam a história como "bons" políticos têm sempre algo de profético. Por profetas, entendemos pessoas que viram uma realidade composta de miséria e injustiça e que a denunciaram elaborando propostas e alternativas à sociedade.

Como foi dito anteriormente, o profetismo foi desenvolvido de forma diferente, como fizeram, por exemplo, Michael Löwy e Leonardo Boff. A proposta agora é demonstrar como os diversos caminhos proféticos, confluentes, dão sustentação e origem à Teologia da Libertação e as CEBs. Existe uma série de fatores que foram

percorridos dentro da sociedade e da Igreja e que contribuíram para tal nascimento. Estas vias não são contraditórias entre si; são complementares e demonstram a missão do cristianismo baseado no profetismo, que caminha necessariamente rumo à libertação.

Interessante observar que esses teólogos começaram a tomar consciência da missão profética, o que na própria revista pode ser visualizado quando perguntam "será que entendemos nossa missão como a de um grupo (...) de testemunhas de uma interpelação radical a todo homem que vem a este mundo, o que nos projetaria bem para além do nosso particular sistema religioso?" (SOARES; BOFF, L. 1976a, p. 263).

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