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In document Ingen jøder i den korporative stat? (sider 137-153)

Um outro incidente que colocou em causa um dos pilares em que assentava a política externa portuguesa ocorreu entre 21 e 22 de janeiro de 1961 e ficou conhecido por operação Dulcineia. A operação teve início na madrugada de 22 de janeiro, com a captura do navio de luxo português, Santa Maria, por um grupo de portugueses e espanhóis opositores ao regime liderados por Henrique Galvão. É de notar que Henrique Galvão outrora fora um convicto apoiante da Ditadura Militar e da manutenção das colónias e inclusive, chegou a ser um dos homens de maior confiança de Salazar e a ocupar cargos políticos importantes na década de 1940 (Antão & Tavares, 2008, p. 85).

A intenção dos assaltantes, que tiveram o apoio do também opositor ao regime, Humberto Delgado, era a de conduzir o navio para a costa ocidental africana para, posteriormente, realizar um ataque surpresa de apoio às forças rebeldes em Luanda e, deste modo, constituir um novo governo que fosse contra o regime salazarista.

Assim que as notícias da captura chegaram a Portugal, o governo português solicitou, de imediato, o auxílio dos governos americano e inglês para que pudessem ajudar as autoridades a recuperar o navio. O primeiro pedido de auxílio foi feito logo

no dia 23 de janeiro, por Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros, à embaixada norte-americana (Rodrigues, 2002 a, p. 37). Prontamente os Estados Unidos concordaram em auxiliar Portugal na captura do paquete e, assim, foram enviadas ordens para os comandos navais norte-americanos no sentido de intercetar o Santa Maria. O navio foi igualmente perseguido pela fragata britânica Rothesay, por dois contratorpedeiros norte-americanos e por dois aviões de reconhecimento, também estes norte-americanos.

No entanto, quando a Administração de Kennedy tomou conhecimento de que não se tratava de um caso de pirataria mas sim de revoltosos que se declaravam opositores à ditadura de Salazar, a atitude americana alterou-se significativamente. Por saber não se tratar de um caso de pirataria, a Administração Kennedy tinha receio de ser acusada, por parte dos grupos liberais, de pactuar com a ditadura de Salazar. Por isso, as ordens dadas inicialmente foram rapidamente corrigidas e em vez de se tratar de uma intercepção ao Santa Maria passou a ser apenas uma perseguição e comunicação de todos os movimentos do paquete. Simultaneamente, o governo britânico decidiu alterar a sua atitude e o Rothesay regressou prontamente, não tendo participado mais nas buscas (Rodrigues, 2002 a, p. 40).

Anexo E (excerto do relatório que comprova a alteração das ordens da

Administração Kennedy aquando da informação sobre não se tratar de um ato de pirataria)

Todavia, o governo americano foi considerado o principal responsável pelo desenlace final do episódio por apenas ter tentado convencer Galvão a libertar os passageiros antes de seguir para Angola, o seu destino, com base na garantia de que não iriam interferir mais com a operação e deixariam o Santa Maria prosseguir viagem, a partir do momento em que os passageiros tivessem desembarcado no porto de Recife (Rodrigues, 2002 a, p. 42).

Porém, neste ponto da situação, surgiram algumas dificuldades devido ao governo brasileiro se recusar a receber no seu porto o navio, por força de um tratado existente entre o país e Portugal. Mas, como o governo de Kubitshchek de Oliveira estava prestes a cessar as suas funções, Kennedy entrou em contato com o recente eleito presidente, Jânio Quadros, que alterou a decisão aplicada anteriormente por Oliveira. A posição defendida pelo novo presidente brasileiro devia-se à identificação do anticolonialismo como o processo político e sociológico que levou à independência brasileira, pelo que constituía traição prestar qualquer tipo de apoio internacional à política portuguesa. Deste modo, o novo quadro das relações luso- brasileiras passou a ser claramente menos favorável ao governo de Lisboa.

Este acontecimento terminou com o desembarque da tripulação em segurança no porto de Recife e com o abandono de Galvão do paquete, solicitando de imediato asilo político no Brasil. Como sustenta Fernando Rosas, este episódio foi um marco na “internacionalização do impacto da luta política contra o regime” (Rosas, 1994, p. 532). Contudo, não foram as consequências internas do assalto que interessaram mas antes as repercussões que teve a nível das relações luso-americanas.

Se, por um lado, a Administração Kennedy tinha achado que agira de modo a não afetar as suas relações com Portugal, para o governo português a percepção foi outra. Em Portugal a reação inicial das autoridades portuguesas ao papel norte-americano foi extremamente negativa e com grande indignação por estes terem alterado a sua posição assim que perceberam que não se tratava de um caso de pirataria, mas sim de um caso de luta entre o regime e a oposição democrática.

Posteriormente, como Luís Rodrigues desenvolve, criou-se uma campanha junto da opinião pública sobre o comportamento norte-americano e começaram a chover notícias de mensagens e telegramas de protesto enviadas ao governo norte-americano, a propósito do episódio do Santa Maria. O autor afirma ainda que “os norte- americanos tinham uma estratégia bem delineada para pôr fim à aventura de Henrique

Galvão e acabaram por ser os principais responsáveis pelo resultado do evento” (Rodrigues, 2002 a, p. 53).

Após o incidente, foi bastante notório que a estratégia discursiva utilizada pelo Estado Novo passou a ter um caráter antiamericanismo ainda mais acentuado, deixando implícito que Portugal tinha sido vítima de uma colossal conspiração encabeçada pelos Estados Unidos, cujo objetivo era o de por um ponto final ao regime autoritário e, assim, promover a destruição multissecular do império colonial português.

As repercussões que o caso do Santa Maria alcançou foram muito além das fronteiras portuguesas, tendo-se tornado tema de debate nos governos dos outros países. Tanto a nível interno como externo representou um golpe no prestígio do Estado Novo por causa do seu ineditismo e audácia. Devido a isso, foi conferido ao golpe uma grande cobertura mediática que contribuiu para chamar à atenção do mundo relativamente à situação política em Portugal. Um exemplo disso foi a notícia divulgada pelo jornal New York Times onde se alertou para a compreensão para com Lisboa “ou veremos Portugal abandonar a NATO, levando consigo os Açores” (Nogueira, 2000 a, p. 203).

Este episódio demonstrou o espírito de hostilidade existente na aliança luso- americana e do isolamento internacional em que Portugal de facto se encontrava. O assalto ao navio Santa Maria foi uma profunda humilhação para o regime português. E, perante a falta de apoio do seu aliado norte-americano, o governo português fez chegar a Washington uma ameaça subentendida de retaliação, usando o trunfo diplomático das Lajes, relembrando o embaixador americano em Lisboa, Charles Burke Elbrick, que o acordo dos Açores poderia vir a ser renegociado em 1962 ou não (Antão & Tavares, 2008, p. 102).

Como Ana Fonseca analisa, este acontecimento foi o primeiro choque entre os sistemas políticos e a primeira chamada de atenção para os problemas em Angola que se refletiu nos comentários que os outros países faziam na imprensa (Fonseca, 2007, p.90). Como resposta, a ditadura militar, em vez de se adaptar ao processo de descolonização como a Bélgica, França e Grã-Bretanha tinham feito, reforçou o seu aparelho ideológico e radicalizou a política imperial (Cabreira, 2017, p. 32).

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