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Sammenligninger og sammenfatninger

2. Itral Imples livity

2.7. Sammenligninger og sammenfatninger

De acordo com Ellis Jr., na vila paulista, diferentemente de outras regiões brasileiras, a mestiçagem entre o europeu e o indígena formou uma sub-raça eugênica. Não estamos, entretanto, diante de perspectiva positiva sobre a miscigenação do europeu com o indígena. Por trás da “eugenia” do paulista defendida por Alfredo Ellis Jr., aparentemente provinda da

miscigenação ocorrida no planalto está, na visão desse autor, um suposto adiantado processo de branqueamento, ou europeização, da população paulista.

Alfredo Ellis Jr. explica o branqueamento da população de São Paulo pelo incremento contínuo de europeus no planalto, que desde o início da história paulista teriam chegado em levas contínuas e suplantado, ao longo dos anos, o número elevado de indígenas que contribuíram para a formação étnica do planalto. 238

Para esse autor, a bastardia desempenhou um papel fundamental nesse processo. Bastante recorrente no planalto, ela se encarregou de disseminar, entre os índios e mestiços, doses necessárias de sangue ibérico. Para explicar a poligamia praticada no planalto, Alfredo Ellis Jr. recordou, por exemplo, a influência mulçumana recebida pelo ibérico como elemento explicativo da facilidade com que o português praticava a poligamia.239Acerca desse ponto, o texto de Os Primeiros Troncos Paulistas apresenta, no entanto, contradições, já que Ellis Jr. assinala também a “moralidade” do paulista como importante refreador dos seus instintos. 240

É, sobretudo, na comparação feita por Ellis Jr., com a formação populacional norte-americana que reside a base de sua explicação acerca da intensa miscigenação ocorrida no planalto. Para Ellis Jr., a miscigenação apresenta-se como conseqüência natural da psicologia portuguesa. O português – diferente do anglo-saxão, imbuído de forte orgulho racial e fanatismo religioso – apresentava-se “modesto e liberal”.241 Por isso, enquanto nos Estados Unidos ocorria a segregação e o extermínio dos “exóticos” – o indígena e o negro –, no Brasil foi possível uma intensa mistura racial. Sendo assim, enquanto aqui eram desfeitos todos os nódulos raciais, nos Estados Unidos eles permaneciam intactos.

Em São Paulo, a progressiva europeização do paulista coincidiu com a formação da hierarquia social. O maior nível de europeização, na visão de Ellis Jr., era encontrado no topo das camadas sociais paulistas e foi favorecido pela

238ELLIS JÚNIOR, 1936, p. 24-25. 239Ibidem, 42-43.

240Ibidem, p. 157. 241Idem, 1934, p. 60-61.

“leve consangüinidade” e pela bastardia. Segundo Ellis Jr., ambas teriam atuado em favor da manutenção, na elite paulista, dos caracteres europeus herdados dos primeiros povoadores.

Por sua vez, o caboclo, na hierarquia social do planalto paulista, estava em um nível acima dos grupos “exóticos”, ainda não “trabalhados” pela miscigenação com o europeu. Segundo Ellis Jr., o caboclo paulista resultava de um longo processo de “apuração”, “no continuado cruzamento com o ibérico”242 e, apesar de “ainda bem tisnado de muito sangue americano”, mostrava já suas qualidades ao participar do desbravamento do sertão para a implantação da cafeicultura.243

Ellis Jr., embora tenha feito restrições às teorias de Lapouge, no que se refere à superioridade dos nórdicos, deixou-se influenciar pelas previsões negativas presentes nos textos daquele autor acerca de cruzamentos étnicos entre raças muito diversas. Eram esses os casos da mestiçagem entre o índio e o negro e entre o branco e o negro. Dessa forma, considerou que quanto maior a distância existente entre as raças paternas, mais o mestiço sofreria conseqüências como o heteroformismo e a desarmonia individual, tanto em suas características físicas e fisiológicas, como também como em um moral incongruente, incoerente, incompreensível, tortuoso”.244 Em sucessivas gerações, a conseqüência desses cruzamentos seria a progressiva esterilidade, levando à extinção dos seus descendentes.245

Por outro lado, esse autor recorreu à Broca para defender a existência de diferentes tipos de mestiçagem, nem todas prejudiciais. Tal pressuposto permitiu a ele ressaltar que, enquanto no restante do país predominavam os cruzamentos dos tipos homogenesico-paragenesico (no caso do Nordeste, com evidente volta ao índio e eliminação dos caracteres brancos e negros) e

homogenesico digenesico (nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais

e Rio de Janeiro, onde a população estaria em franco processo de esterilização), em São Paulo, segundo ele, era evidente a freqüência do tipo

242Ibidem, p. 65.

243Idem, 1936, p.183-184 244Ibidem, p.71.

homogenesico-eugenesico.246 Diferentes dos demais, esse último tipo de cruzamento tinha um resultado benéfico.

Dialogando com Lapouge e Broca, Alfredo Ellis Jr. tratou a miscigenação com dois pesos diferentes, um para o indígena e outro para o negro, procurando excluir esse último da história paulista nos seus primeiros séculos. Os primeiros paulistas, segundo Ellis Jr., em razão da situação de pobreza em que viviam, não tiveram como adquirir escravos negros. Desse modo, a presença do negro, em São Paulo, só teria sido significativa a partir do século XIX. Mesmo assim, depois do fim da escravidão, o negro havia entrado em acelerado processo de desaparecimento do planalto em função da mestiçagem, mas, sobretudo, em decorrência da sua inferioridade sociológica, fisiológica e psicológica.247

Para Ellis Jr., a mestiçagem não era a principal causa do desaparecimento dos negros – como era com relação aos indígenas – pois o paulista, “apesar de liberal e plástico,” nutria “um velho espírito de afastamento contra o negro”.248 O mesmo ocorria com o caboclo com relação ao negro, segundo o autor, “porque suas mentalidades eram muito heterogêneas, para se confundirem em mescla completa”. Enquanto “o negro era servil, resignado e humilde”, o caboclo era “como seu antepassado ameríndio, indômito, intratável, sobranceiro, insubordinável”.249

Descartado o papel relevante da miscigenação, a principal explicação de Alfredo Ellis Jr. para o desaparecimento do negro em São Paulo baseava-se no pressuposto da sua própria inferioridade. Para Ellis Jr., o negro mostrava-se incapaz de resistir “ao alcoolismo e outros vícios e hábitos ruinosos” e, principalmente, era impossível a ele ser bem sucedido na sociedade capitalista. Recorrendo assim, ao argumento darwinista social, Ellis Jr. assinalou que os negros seriam inevitavelmente “esmagados pelo branco na concorrência social”250:

246Ibidem, p. 73-74. 247Idem, 1934, p.107-108.

248 Alfredo Ellis Jr. nota que esse afastamento do paulista com relação ao negro não se

aproximava, no entanto, da aversão ao negro do norte-americano. Ibidem, p. 97.

249Ibidem, p. 96-97. 250Ibidem.

É a inferioridade sociológica que reduz o negro a miséria, acarretando-lhes a falta de higiene, a deficiência alimentar do que advém a pobreza orgânica e daí a grande mortalidade. É de fato raríssimo ver um negro ou um mulato em profissões liberais, em altas camadas sociais. Preferem as sinecuras dos empregos públicos, ou as remunerações mais magras, porém, mais seguras e garantidas. Nas indústrias, no comércio, ou na agricultura, só penetram pelos canais subalternos, exercendo sempre posições inferiores. Nunca lutam com o ânimo próprio dos que tudo arriscam no labutar aventuroso da concorrência da vida. Preferem ser soldados mercenários, carteiros, condutores de ou motorneiros de veiculos, carroceiros, cocheiros, chauffeurs, apegados a ordenados fixos e certos, sem as perspectivas da independência que a fortuna lhes poderia dar se se fizessem alfaiates, sapateiros, marceneiros, pequenos proprietários agrícolas, sitiantes, chacareiros etc. Isso se não só vê nas cidades como no meio rural. Ai não se encontra o negro como colono. Ele é volante, carroceiro, carreiro, etc. Não se aventuram fora do estreitissimo âmbito de subalternos e de empregados cumpridores de ordens. Modestos, e principalmente conformados, estão convencidos da própria inferioridade. Não chegam, mesmo a lutar, como seus congêneres norte-americanos. Perecem corroídos pelo alcóol e pelos vícios, que se sucederam a uma libertação repentina, sem o prévio preparo de uma condição intermediária [sic].251

O trecho é longo e cheio de elementos para análise. Dele é importante destacar um resumo de idéias bastante repisadas entre fins do século XIX e início do XX, onde a imagem central é a do negro como inadaptável ao modelo liberal, idéia muito presente no texto de Ellis Jr. A justificativa final do autor, reportando-se a ausência de “prévio preparo” que amenizasse os impactos da Abolição repentina, aparece deslocada com relação à discussão anterior. Fica claro que Ellis Jr. está convencido que a miséria do negro é causada por sua inferioridade comparado ao branco. O autor chega a extremar-se, colocando o negro brasileiro em posição inferior ao negro norte-americano. Fica evidente que, para Ellis Jr., a questão do negro não se tratava apenas de uma questão social e que apesar da virada na discussão racial, ocorrida a partir da década de 1920, esse discurso ainda tinha poucos reflexos em seu pensamento. Para o autor, era certo o futuro do negro em São Paulo, diferentemente de outras regiões brasileiras:

Com o correr dos tempos e sem novas perturbações de imigrações exóticas, os tipos vão diminuindo em numero. Só os mais aptos ficarão. Assim, o negro e o mulato vão desaparecendo do planalto paulista. Mais 50 anos e não os teremos, como não temos já o índio. Outras regiões, dotadas de outros ambientes físicos e de outro meio social, poderão poupa-los como o Nordeste poupou o índio, que é indissimulavelmente o tipo dominante dessa região, sem embargo de ele ali aparecer civilizado e falando o português.252

Para Alfredo Ellis Jr., ao restante do Brasil seria impossível escapar das previsões negativas dos modelos deterministas. É justamente nessa diferenciação, bastante marcada nos seus textos, entre as “gentes paulistas” e os “brasileiros” que podemos identificar a sua adesão aos determinismos raciais do século XIX. Embora estranha à primeira vista, a diferenciação entre paulistas e brasileiros é recorrente no texto de Ellis Jr., caracterizando a profunda distinção que esse autor faz entre São Paulo e o restante do país. Para o restante do país, Ellis Jr. reproduziu as mesmas previsões funestas acerca da mestiçagem no Brasil, que foram difundidas pelos autores estrangeiros a partir do século XIX. Desse modo, incorreu no mesmo erro tantas vezes denunciado pelos intelectuais brasileiros, e por ele mesmo, de que aqueles estudiosos baseavam suas assertivas mais em princípios ideológicos do que em dados empíricos.

3.5 CASSIANO RICARDO: A MESTIÇAGEM E A FORMAÇÃO DA