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Não é de se espantar que isso tenha acontecido. A tendência intrínseca da civilização tecnológica, como discutido no primeiro capítulo, é ganhar crescente autonomia em relação à materialidade da existência. Assim tem sido também, e não por acaso, a trajetória do capital. O capital atado à produção, pré-cibercultural, ainda encontrava muitas restrições – as amarras do capitalismo industrial – para a sua reprodução. A condição glocal da civilização representa, portanto, uma nova fase para o capital, em que ele finalmente se libera desse fardo.

Como se sabe, a cibercultura é o auge do projeto tecnológico, quando o ultradesenvolvimento deste último finalmente arranjou toda a civilização à sua imagem. Esse foi o resultado imprevisto do projeto de domínio e controle humanos sobre as condições herdadas da existência, que se revelou como tentativa de banir as distâncias e, com elas, a dependência da materialidade. Com a comunicação em tempo real, a tecnociência, de fato, bane as distâncias do mundo contemporâneo, e o domínio sobre a natureza acaba se concretizando como desmaterialização da existência. A civilização tecnológica avançada é o ápice de uma tendência de autonomização do capital e da tecnociência em relação à materialidade da vida humana, que se realizou com o universo imaterial e virtual tecido pelas

tecnologias digitais. Não parece ser outra tendência a que governa a glocalização dos valores no capitalismo avançado.

De fato, se o valor encontra-se glocalizado, isso é justamente porque a materialidade da economia – assim como, de resto, de toda a existência – encontra-se em crise. O desaparecimento do dinheiro e a emergência do crédito são disso evidência cabal. Com a glocalização da vida humana – frise-se: a fusão do cotidiano com a cultura mediática (cf. TRIVINHO, 2007 e o item I do primeiro capítulo) –, o capital mobiliza o tempo livre e de lazer,

assim como o trabalho, para a sua reprodução; sob o signo do capital, quer-se que a existência, doravante, faça sentido somente se dialogada com o tempo real, isto é, se for permanentemente negociada com os fluxos sígnicos ultravelozes que permeiam a cultura vigente.

Como autonomização em relação à produção material e ao trabalho, a glocalização dos valores no capitalismo contemporâneo se insere na mesma tendência cibercultural que aponta para a superação da materialidade da existência. No caso, o abandono da produção e do trabalho por parte do valor, precipitando-se na cultura mediática como signo, é a confirmação da crise da materialidade da economia produtiva. Toda a transferência de importância no processo social-histórico de reprodução do capitalismo avançado do material para o imaterial não representa outra coisa senão tal crise. Se a materialidade persiste como realidade tangível e concreta do dia-a-dia, inclusive na economia, ela perde aquilo que lhe garantia uma certa aura: a ideia de que ela possui valor de uso, de que nela reside uma essência que supre uma necessidade objetiva.

Mas o valor de uso, como uma certa metafísica da produção material, certamente acabaria por se esgotar na proliferação de objetos do aparato tecnoindustrial. O próprio fato de a produção não poder ser interrompida, mas continuar funcionando para além e divorciada das necessidades sociais revela que não havia mesmo o valor de uso, justamente aquilo que sustentava a primazia da economia produtiva. A emergência do imaterial, como não lugar de atuação humana tecnologicamente criado, representa novo campo de colonização do capitalismo a partir do esgotamento do “pasto” anterior (BAUMAN, 2010a, p. 10), a saber, a

própria materialidade, relativizando assim o valor de uso intrínseco dos objetos.

A crise da materialidade da existência como campo privilegiado de exploração do capitalismo significa que, para a reprodução do capital, a materialidade é irrelevante. Nesse sentido, mantém-se o que Trivinho (2007, p. 349) defende: a comunicação mediática é máquina de guerra contra a materialidade, cuja importância social e histórica decresce a

passos largos em favor da realidade sígnica promovida nas redes. Esta, sim, é a que conta de fato no cotidiano das grandes metrópoles e dos centros avançados neste início de século XXI.19

A glocalização dos valores significa que a tecnociência conseguiu finalmente promover a desmaterialização da economia (e da existência), e isso para instalar no seio do social a reprodução do fenômeno glocal cibercultural e de todo o modus vivendi nele alicerçado. Portanto, da perspectiva adotada, as transformações do capitalismo em direção à acumulação flexível não podem ser explicadas somente por aspectos político-econômicos. Na realidade, está em jogo uma nova forma de valorização do capital que não tem que ver necessariamente com a materialidade do processo produtivo. Se um dia o foi, o capitalismo não está mais dependente da produção material. A cada dia decresce sua importância na reprodução do capitalismo contemporâneo. O enraizamento da condição glocal na cibercultura como matriz civilizatória – com a generalização da comunicação mediática – proporcionou ao capital novo âmbito de valorização, em que ele se torna mero signo desatrelado da materialidade da produção. O ápice da autonomização encontra-se quando o valor é digitalizado, na cibercultura, e passa a comparecer nas telas. Nesse sentido, as novas estratégias flexíveis são apenas testemunhas da crescente irrelevância da produção material para a geração de valor no capitalismo contemporâneo. Pode-se dizer, seguindo Baudrillard, que o contexto atual deixou claro o que o objeto concreto sempre foi: mero álibi para o que realmente importa, o valor arbitrário e sua reprodução incessante. As mudanças confirmam, portanto, a tese de que a produção material-industrial foi apenas um estágio do capitalismo, superado com o avanço da civilização tecnológica rumo à cibercultura e à plenificação da condição glocal da existência, as formas mais sofisticadas e abrangentes de dominação da forma social do capital. O âmbito privilegiado de reprodução do capitalismo deslocou-se da

economia material para o virtual tecnologicamente criado.

19 Isso não quer dizer, de maneira alguma, que a produção material no capitalismo contemporâneo deixou efetivamente de existir. Isso seria, antes de tudo, mais um argumento ideológico em prol da reprodução do capitalismo. O que se defende aqui, com base em todo o referencial teórico supracitado e adotando o procedimento metodológico de radicalização das hipóteses (BAUDRILLARD, 1993, p. 5; 2001, p. 89), é que tal

esfera do capitalismo não desempenha mais a mesma função estratégica, não é mais onde as coisas realmente acontecem, se assim se pode dizer, na civilização regida pelo capital em sua fase mais avançada. Essa realidade foi reescalonada, e a produção material ocupa importância decrescente comparada com a geração de valor na dimensão imaterial, isto é, a geração de valor que se faz por meio da glocalização da existência na civilização tecnológica avançada.

IV – CONCLUSÃO

Desde a década de 1970, o capitalismo experimenta mudanças qualitativas na sua organização político-econômica, tanto quanto ocorreu em relação à sua forma tecnocultural. Ele opera mais uma expansão estratégica, se faz presente em todo o globo e rearranja as formas de produção e consumo anteriormente estabelecidas, subordinando o formato fordista- keynesiano a um novo regime: a acumulação flexível. As infotecnologias e o fenômeno glocal estão imiscuídos nas principais transformações da transição do fordismo para a acumulação flexível, responsáveis, entre outras coisas, pela liberação de grande montante de capital para os mercados financeiros. Por sua vez, o capital fictício ganha importância crescente e, dessa forma, assiste-se a um agigantamento da esfera financeira em relação às demais instâncias político-econômicas do capitalismo avançado, com a financeirização convertendo-se em fonte de lucros permanente.

Embora o aparato tecnocientífico que culminou na civilização mediática esteja reconhecidamente presente nesse cenário, não se extraiu desse fato as devidas reflexões. Com o recurso a arcabouço teórico mais focado nas implicações do projeto tecnológico, pode-se trilhar tal percurso. Isso permite compreender que o cerne do capitalismo não é a economia produtiva, como tradicionalmente se acostumou a pensar, mas a produção de valor, onde quer que ocorra. Assim, a transição para a acumulação flexível ganha traços mais significativos. Na realidade, o que está em jogo é uma nova estratégia de valorização do capital, que se faz a partir da autonomização do valor em relação ao aparato produtivo. O valor assume como referência o próprio fluxo comunicacional que perpassa a rede mediática, constituindo-se a partir das relações em tempo real entre as realidades locais e a cultura mundial satelitizada. É, de fato, a condição glocal. Ao se tornar signo mediático, o valor finalmente consolida sua autonomização completa em relação ao referente material. Seu referencial passa a ser, em medida crescente, o próprio mundo mediático, de onde ele mesmo provém. O valor no capitalismo flexível, assim como qualquer signo mediático, torna-se autorreferencial. Isso corresponde a uma modalidade de capital liberto das amarras da materialidade produtiva, fenômeno que ecoa processo semelhante da trajetória do progresso tecnológico que culmina na glocalização da vida humana. A partir desse ângulo, a financeirização se insere no âmbito dos processos hipersaturados da civilização tecnológica vigente que culminaram no enraizamento da condição glocal da existência. Diante desse contexto, a significação social-

histórica do fenômeno não poderia ser outra senão esta: desmaterialização da economia, bem como da existência como um todo, que é, de fato, o que se processa onde quer que a comunicação mediática penetre.

VELOCIDADE E SIMULAÇÃO NA HIPERVOLATILIZAÇÃO

FINANCEIRA GLOCALIZADA

As maiores crueldades de nosso século foram as crueldades impessoais decididas a distância, de sistema e rotina, sobretudo quando poderiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais. (HOBSBAWN, 1995, p. 57)

Extremidades territoriais e proximidade midiática formam uma mistura explosiva.

(VIRILIO, 1996, p. 54)

As teorias do pós-moderno e da cibercultura apontam para a consolidação, no último quartel do século XX, de uma civilização eminentemente tecnológica, que tem a velocidade mediática como lógica específica a partir da consolidação do fenômeno glocal como condição

sine qua non de reprodução no social-histórico. Além do cenário tecnocultural, há uma série de transformações político-econômicas a partir da década de 1970, das quais pode-se destacar o processo de financeirização – a formação de um mercado de crédito global, com proeminência inédita sobre a economia produtiva – como o marco de ineditismo da nova economia. A financeirização, ao que tudo indica, decorre da glocalização dos valores, inserindo-se, como tal, na esteira do desenvolvimento da civilização tecnológica avançada.

A partir desse ponto, este capítulo propõe que as bolhas financeiras sejam compreendidas como estágio de êxtase (liberação e autonomização) do valor (a partir do esgotamento do fordismo) pressuposto nas necessidades reprodutivas do capital e da tecnociência, que se radicaliza com a sua conversão em signo mediático circulante em tempo real. Autonomizado e livre das amarras do capitalismo industrial, o valor – a unidade básica de operação do capital – finalmente encontra o seu êxtase, condição pressuposta desde o início de sua trajetória. Ao que tudo indica, portanto, o êxtase do valor na civilização glocal responde pela especulação galopante e bolhas financeiras contemporâneas, na ausência de referentes claros. Nesse caso, já não é mais apropriado chamar o processo meramente de financeirização, mas de hipervolatilização financeira glocalizada, que ocorre quando,

autonomizado e convertido em signo mediático, o valor encontra seu êxtase. A hipervolatilização dos valores é a forma pela qual a velocidade mediática articula a economia material, em prol da reprodução da condição glocal cibercultural como único horizonte para a vida humana.

O capítulo busca ainda atrair a atenção para o fato de a hipervolatilização glocalizada dos valores se constitui em simulação da fase pregressa do capitalismo. Diante da saturação das finalidades do aparato tecnocientífico, que cumpriu estágio na economia produtiva, o capitalismo soergue a hipervolatilização glocalizada para sua autoreprodução, e esta simula a continuidade das finalidades originais, que alicerçavam a superprodução material. O valor encontra seu êxtase como signo mediático autonomizado, mas a economia produtiva continua se reproduzindo como se fosse o âmbito privilegiado do capital, sendo apontada inclusive como o referente do signo financeiro. Por isso, como simulação, a hipervolatilização dos valores cumpre também papel dissuasivo. A materialidade da economia é tão somente álibi referencial a fim de dissuadir as massas do fato de que a economia produtiva não é o cerne da reprodução do capitalismo avançado, que está na própria glocalização cibercultural.

Dentro desse quadro, a reprodução das crises financeiras e econômicas que culminaram na crise global de 2008, que perdura até o presente, pode ser lida de maneira alternativa. O capitalismo opera constantemente estratégias de desvalorização, como parte do seu modus operandi. Como o mercado passa a ser regido pela lógica da velocidade mediática, a desvalorização típica da época ganha contornos de deflação acentuada dos valores, em que o valor glocalizado rapidamente se reduz, retraindo o crédito e repercutindo dramaticamente na economia produtiva, como se viu na crise de 2008. Com a alternância entre êxtase e deflação, a hipervolatilização financeira não se encontra propriamente em crise com eventos como o de 2008. Antes de ser crise propriamente dita, a deflação dos valores coloca-se como pólo alternativo – cujo reverso é a “economia pujante” – da encenação ritualística da hipervolatilização glocalizada, operando a reprodução do capital, ao mesmo tempo em que dissuade do reconhecimento de que a economia pós-1970 é um simulacro para reproduzir o

modus vivendi da civilização tecnológica avançada, talhado pelo fenômeno glocal cibercultural. A falta de controle sobre a hipervolatilização revela a transpolitização da economia, isto é, a incapacidade de o Estado constituído na modernidade e demais instâncias políticas gerirem os rumos do capital, o que somente adiciona gravidade à situação social- histórica.

I – ÊXTASE DO VALOR

Com a compreensão de que a reprodução do capitalismo se faz por meio da criação de valor – e esta, atualmente, através da glocalização da vida humana –, a financeirização contemporânea ganha novas perspectivas. O valor, convertido em signo e desatrelado da produção material, torna-se autorreferencial e, assim, libera-se do que o impedia de replicar- se ad infinitum, a saber, a sua própria referência à economia produtiva. A ausência de referencial no contexto concreto-material o torna veloz, irrefreável, presa fácil para a lógica do excesso, que também passa a comandá-lo. O caminho está livre, portanto, para o crescimento indefinido. Autorreferencial, ele pode girar em torno de si mesmo em ritmo cada vez mais alucinatório em direção ao êxtase (BAUDRILLARD, 2003), denunciando que a lógica

que o sustenta é a da velocidade mediática. Não é de admirar que, nessas condições, a especulação financeira tenha ultrapassado todos os limites imagináveis.

Quando o valor experimentava sua fase de signo referencial, a economia produtiva servia de juiz para avaliar eventuais distorções. No entanto, essa função há muito desapareceu. O valor, na medida em que atinge a fase do êxtase, se põe acima de qualquer critério de avaliação. Quando o valor está caro demais? Quando está barato demais? O intangível é impossível de ser mensurado (GORZ, 2005, p. 42).

Assim o valor pode se expandir indefinidamente. Dessa forma, transita em direção à flutuação absoluta. Basta ver que peças de roupas produzidas em condições muito semelhantes, mas que portam marcas diferentes, podem sofrer investimento publicitário tão sofisticado a ponto de inflacionar seu valor a patamares inimagináveis anteriormente. Isso se dá porque, como já foi visto, a comunicação transforma a peça em coisa significante, variável da cultura – e do código capitalista, consequentemente. Ela não pode valer pelo que custou a seu produtor, nem pelo benefício que trará ao consumidor pelo valor de uso em si, mas seu valor deve estar relacionado ao papel que desempenha como variável da cultura vigente. Como Baudrillard (2003, p. 25-26) alerta, “quando se perde toda a referência à lei da troca, o mercado resvala para a especulação desenfreada”.

Sem referente e projetando-se em direção à especulação, o valor atinge o estágio de

êxtase. “O valor explode na ausência de julgamento de valor. É o êxtase do valor.” (BAUDRILLARD, 2003, p. 26). A inscrição da financeirização contemporânea no âmbito dos

concepção de que foram as mudanças político-econômicas que determinaram tal fenômeno. O êxtase está sempre ligado às coisas que perdem o peso relativo do lastro referencial. “O êxtase é essa qualidade própria a todos os corpos que giram sobre si mesmos até a perda de consciência e que resplandecem então em suas formas puras e vazias.” (BAUDRILLARD, 1996,

p. 9). A era mediática é precisamente a que, na conversão de todo o real em signos, permite tal perda de referência. Por isso, o êxtase é fenômeno tipicamente mediático. O êxtase é o que se tem com a multiplicação infinita das e nas redes, com a ligação ininterrupta de todos os corpos através da tela, como protuberância do fluxo comunicacional satelitizado que funciona em tempo real.

Quando o valor é digitalizado e se torna signo mediático autorreferencial – o caso do capital financeiro –, a especulação ganha contornos dramáticos, no sentido literal da palavra. Porque o valor convertido em signo mediático se torna mensurável e perceptível em cada contexto glocal, a especulação passa a ser encenada nas telas. A grande rede conectada em que se constituiu o mercado financeiro articula em tempo real os diversos indivíduos, grupos, empresas, países e organismos supranacionais, que encontram seu juízo a respeito do valor sintetizado no signo mediático. Agora que pode ser mensurado e suas flutuações ficam evidentes, o valor se põe num espetáculo dramático, em que a financeirização ganha todos os requintes de performance mediática, a ocupar tanto as telas dos home brokers e das mesas de operações quanto dos telejornais, não raro sendo uma das principais fontes de notícias de grande parte da cadeia de veículos da visibilidade mediática (cf. TRIVINHO, 2007b). Enquanto

a financeirização baila nas telas, simula-se a conexão perpétua entre os seres, ininterrupta. Na impossibilidade real de tal conexão, ela se hiper-realiza e consuma-se nas telas. As telas das bolsas de valores, dos notebooks, dos tablets, dos phone mobiles são tão-somente terminais do jogo da circulação incessante que a tudo e todos anima. “Na interface, os interlocutores estão ligados entre si como o plugue na tomada elétrica.” (BAUDRILLARD, 2003, p. 18).

Como performance mediática, a troca permanente de valores, com as sucessivas rodadas de valorização e desvalorização, se situa integralmente no âmbito da comunicação. Na realidade, ela passa a ser presidida pelas lógicas do excesso e da velocidade mediática típicas da era da cibercultura. O êxtase é precisamente a qualidade de tudo aquilo que se encontra articulado pela lógica dromocrática difundida pela glocalização da existência, proliferando-se de forma excessiva mediante o tempo real. A aceleração das trocas financeiras na era da digitalização dos volumes somente atesta a favor da tese segundo a qual “o mundo é que segue, a reboque, a velocidade” (TRIVINHO, 2007a, p. 96).

É por isso que, pela noção de que o valor se produz a partir da glocalização da existência, a financeirização não pode ser vista apenas como uma questão econômica. Ela é também (e talvez mais) questão comunicacional, de progressiva articulação de todas as práticas humanas pelo modus vivendi da condição glocal da existência. Não há qualquer razão para acreditar que isso signifique a diminuição de importância da financeirização para a economia produtiva. O capital valoriza a circulação ininterrupta dos fluxos e, contanto que esta esteja funcionando bem, a economia produtiva, a ela sujeita, continuará bem. Entretanto, basta que os humores se afetem, ao menor sinal de interrupção no fluxo sígnico dos valores que perpassa as redes mediáticas, para que os valores se deflacionem e provoquem graves danos à economia. A questão, portanto, não é que a financeirização não tem nada que ver com a economia produtiva, mas que a sua existência na contemporaneidade é, antes, fenômeno mediático típico do capitalismo na era da cibercultura.

Dessa forma, é mais do que justificável operar a reescritura epistemológica mobilizada para a apreensão do fenômeno. O processo de financeirização deve ser entendido como hipervolatilização mediática dos valores ou, alternativamente, hipervolatilização

financeira glocalizada. A mudança epistêmica permite uma série de reescalonamentos na compreensão do fenômeno, alinhados com a proposta deste trabalho: [1] a volatilização qualifica o movimento de valorização e desvalorização como um continuum do capitalismo avançado, em detrimento do funcionalismo corrente que vê a bolha e a crise como disfunções pontuais do sistema1; [2] a adição do prefixo hiper remete a financeirização ao rol dos fenômenos excessivos abordados por Baudrillard (1991, 2003), condição atingida com o êxtase comunicacional; e [3] a mudança insere no cerne da questão a fonte irradiadora da velocidade que articula as finanças, qualificando a hipervolatilização como mediática ou

glocalizada, isto é, articulada pelo tempo real tecnologicamente produzido.

A velocidade mediática alcança, dessa forma, grau portentoso de articulação das economias capitalistas avançadas. Dependente da expansão do crédito, a economia mundial