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Sammenligning av nedbør ved ulike nedbørstasjoner

5   VURDERING AV HYDROLOGISKE DIMENSJONERINGSMETODER

5.3   Sammenligning av nedbør ved ulike nedbørstasjoner

[...] para compreender de que maneira o indivíduo moderno podia fazer a experiência dele mesmo enquanto sujeito de uma “ e a dade”, seria indispensável distinguir previamente a maneira pela qual, durante séculos, o homem ocidental fora levado a se reconhecer como sujeito de desejo.

(Michel Foucault, História da sexualidade: uso dos prazeres)

Figura 33 – Quem? Onde? Como?

Fonte: LAERTE. Muriel Total. 2012. Disponível em: < http://murieltotal.zip.net/arch2012-01-29_2012- 02-04.html >. Acesso em 28 jul. 2015.

Com essa tirinha, vemos aí ser levantada uma questão já apresentada por Foucault (2008) a respeito do conhecer a si mesmo. No primeiro quadro, o fato de Hugo apresentar problemas mnemônicos faz aparecer a memória do imperativo socrático do “conhece-te a ti mesmo” – como ética de um cultura de si – apresentado também, pelos gregos antigos54. Se, para Foucault (2008), a ética do cuidado de si está relacionada ao governo de si e dos outros, igualmente, ele nos diz que ela é referente a um governo dos outros sobre si mesmo.

Sobre essa questão do governo dos outros sobre si mesmo, observemos como a heteronormatividade e a transgeneridade agem politicamente sobre Hugo na tirinha: em primeiro, os enunciados Você é o Hugo!, ...Macho de raiz!, Homem com agá em negrito! remontam memórias discursivas ambientadas em formações culturais da heteronormatividade compulsória. As tentativas de afirmação da masculinidade por meio de expressões que fazem referências a si mesmas, como é o caso de Homem com agá em negrito!, nos dão provas de uma sociedade não somente heteronormativa, mas, exclusivamente, machista.

De contraparte, as materialidades verbais Mentira!, ...Você é Muriel!, Travesti e libertária! se enunciam não só como proposições antagônicas à formação discursiva e cultural heteronormativa, como ainda, essa formação cultural transgênera aparece, semelhantemente, como normatizadora da subjetividade de Hugo/Muriel.

Por último, observamos que a representação do embate de poder de ambas as formações discursivas e culturais apresentadas na tirinha é retratada, no último quadro, pela imagem de resíduos, partes, pedaços de objetos esvoaçando pelo ar, reforçados, ainda, pelo enunciado dito por uma transeunte Que quebra-pau é esse?, ao que Hugo lha responde ...Faço a menor ideia. Neste último enunciado dito por Hugo, interpretamos que ele, enquanto sujeito (de desejo), nega as considerações feitas sobre ele mesmo pelos outros. Isto é, o que ocorre é que, como efeito de

54 A esse respeito, Foucault (2008, p.41-42) diz que

“[…] se é verdade que é com Sócrates, e em particular, no texto de Alcibíades, que assistimos à emergência do cuidado de si na reflexão filosófica, não devemos contudo esquecer que o princípio “ocupar-se consigo” – como regra, como imperativo, imperativo positivo do qual muito se espera – não foi, desde a origem e a o longo de toda a cultura grega, uma recomendação para filosofos, uma interpelação que um filosofo dirigia aos jovens que passam pela rua. Não foi uma atitude de intelectual, nem um conselho dado por velhos sábios a alguns jovens demasiado apressados. Não, a afirmação, o princípio “ preciso ocupar-se consigo mesmo” era uma antiga sentença da cultura grega. […] “ocupar-se consigo mesmo” é um princípio sem dúvida bastante corriqueiro, de modo algum filosófico, ligado entretanto […] a um privilégio político, econômico e social.”

humor relacionado ao fato de que Hugo está sem memória, nota-se uma resistência de Hugo a ser nomeado ou definido pela alteridade.

Se tais formações discursivas e culturais mantêm, entre si, uma justa, do mesmo modo, assim, se pode dizer que há interrelações discursivas, uma vez que o devir travesti está imbuído de tecnologias específicas que tomam velhas tecnologias como princípio. Na verdade, o princípio são as substâncias discursivas de uma heterossexualidade compulsória. Se a travestilidade é a novidade, o que não é é justamente o padrão normativo já estabelecido. Uma tal normativa tem sua própria econômica de signos e de discursos dispostos em enunciados já dados. E é justamente essa economia evidente que permitiu às travestis apresentarem o não- evidente, o que significa que critérios discursivos de uma masculinidade e de uma feminilidade já sempre enunciadas (e cindidas, como regra), passam, agora, enquanto exterioridade, a assumir outras facetas discursivas, aparecendo sob a forma de interioridade no indivíduo, pelas práticas corporais, sexuais e de performances de gênero das travestis, a partir de seu desejo.

Nesse sentido, questionamos: um dos pontos centrais de nosso trabalho, o sujeito, trata-se, aí, de algo social, sendo um posicionamento coletivo, ou simplesmente de algo particular, dando-se em cada indivíduo, a partir de afeições, sensações e identificações individuais?

Podemos afirmar, de acordo com Guattari (2012, p. 19) que,

Assim, em certos contextos sociais e semiológicos, a subjetividade se individua: uma pessoa, tida como responsável por si mesma, se posiciona em meio a relações de alteridade regidas por usos familiares, costumes locais, leis jurídicas... Em outras condições, a subjetividade se faz coletiva, o que não significa que ela se torne por isso exclusivamente social. Com efeito, o termo "coletivo" deve ser entendido aqui no sentido de uma multiplicidade que se desenvolve para além do indivíduo, junto ao socius, assim como aquém da pessoa, junto a intensidades pré-verbais [isto é, práticas não-discursivas], derivando de uma lógica dos afetos mais do que de uma lógica de conjuntos bem circunscritos [a saber, práticas discursivas].

Nesses afetos, entra a questão do sentir, do sentido, por isso mesmo, do

desejo55. A partir de então, lidaremos com duas situações as quais só se podem ver

55 Aqui, melhor explicaremos o que, no primeiro capítulo foi comentado, brevemente sobre o desejo. De acordo que o que nos diz Guattari (2000, p. 232), “ concepção de desejo no campo social, que Gilles Deleuze e eu tentamos desenvolver, tende a questionar a idéia de que o desejo e a

cindidas a título de abordagem teórica. Trataremos, assim, de dois momentos sobre a questão do aparecimento da subjetividade, a fim de explicitarmos melhor a supracitação. Em uma abordagem ligada à estruturação linguístico-discursiva (observada pelo prisma simbólico), consideramos que há um momento, nessa questão do desejo, em que se passa de uma prática não-discursiva para o discurso – o que ainda não se caracteriza por um movimento unívoco de uma exclusividade linguístico-discursiva56.

Conforme esse primeiro momento – e só chamamos de primeiro por uma

escolha aleatória, já que é parte de uma estratégia teórico-metodológica desta

explanação –, a potência de desejo que brota no indivíduo, afetando e orientando

seu caráter subjetivo e sua própria subjetividade, é engolida, em seguida, por um discurso que toma esta potência mesma já envolvida em um tema sobre ela mesma, passando, então, a ser discursivizada, moldada, enformada pelo discurso e devolvida ao indivíduo sob uma nova manifestação de desejo, dessa vez tomado pelo discurso. Isso justifica, pois, a necessidade, a vontade de existência do

indivíduo enquanto sujeito que, agora, deseja ser A ou ser B, em que B ≠ A, mas que

também pode comportar A. Isso é o que ocorre com Muriel, enquanto sujeito de um desejo em devir transgênero: é porque ela se encontra no intermezzo entre masculinidades e feminilidades; è justamente porque ela é nômade, ela adentra os territórios do binarismo dado pela heteronormatividade e os faz estenderem-se um pelo outro, um no outro, segundo um desejo que se diz seu. Ou seja, o desejo da travesti movimenta, faz de um interioridade normativa, um lugar sem lugar, isto é, na medida em que a norma não reconhece nem as movências territoriais dos gêneros nem suas sobreposicões-expansões, ela passa a não reconhecermais a nova disposição desses territórios como sendo parte de sua interioridade. E assim, a própria heteronormatividade, na medida em que não consegue circunscrever a travesti, lhe possibilita ser constituída do lado de fora.

subjetividade estariam centrados nos indivíduos e resultariam, no plano coletivo, da interação de fatos individuais. Partimos mais da idéia de uma economia coletiva, de agenciamentos coletivos de desejo e de subjetividade que, em algumas circunstâncias, alguns contextos sociais, podem se individuali ar.”

56 É fundamental que se esclareça que jamais haverá vitória de uma estruturação linguística, discursiva sobre o real. A linguagem, enquanto lalangue é, em sua própria constituição, rica de fissuras, brechas, falhas por onde se pode ver o próprio real em fuga (GADET; PÊCHEUX, 2004). Assim, não há, aí, um estágio de finalização em que as práticas não-discursivas sempre antecederiam práticas discursivas. No segundo momento, trataremos de um espelhamento inversor.

Essa questão do ser passa, então, a se orientar não mais completamente por uma força sentida, uma potência de desejo, aquilo de não-discursivo que topologicamente aparece no sujeito, pois a vontade de ser, por exemplo, travesti, está orientada e pautada por discursos que regulamentam e definem o que é a travesti, ao mesmo tempo em que definem o que não é, mas que, nem por isso essa alteridade não travestilizada não deixa de se apresentar estando um pouco nela. Dessa maneira, uma vez o desejo estando territorializado sob um novo plano, uma nova disposição, e possibilitando novos modos de existência, pode-se falar, a partir de então, de desejos que se encontram em diferentes territórios, aqui considerados, pois, formações discursivas.

E disso, podemos inferir que o desejo é, na medida em que está tomado pela

linguagem/discurso, uma produção cultural – justamente porque se trata de

agenciamentos, conformidades selecionadas pelos discurso e oferecidas a quem deseja. Outrossim, se estamos tratando o desejo como produção discursiva amparada em formações discursivas, devemos, com isso, definí-lo, também, como estando não só ambientado, mas criado em formações culturais, o que, assim, nos leva para a ideia de que o desejo, inicialmente enquanto real, que, ainda em seu apriori, apareça como uma potência de desejo, isto é, como uma prática não- discursiva, e ainda que passe a ser tomado, envolvido e re-produzido pelo discurso, já emerge, já se cria, todavia, como uma faceta57 do real da cultura. Portanto, o real

da cultura da travesti é uma porção desejo da travesti.

Com isso, queremos dizer que a maneira pela qual as travestis sentem o peso e força discursivos da norma binária, ou ainda, o que Foucault (2010a) considera como disciplinarização dos indivíduos e de seus corpos, é determinada e orientada

por processos de identificação com um dado conjunto58, agenciamentos de objetos

57 Com isso, concordamos com Butler (2013), quando a autora faz a sua crítica à ideia freudiana do recalcamento originário, de que há um momento anterior à cultura, em que todo indivíduo seria neutro e, cujo desejo aparece plenamente natural no indivíduo, desde seu nascimento. Assim, em certo momento, ocorreria o recalcamento de um desejo original, fazendo com que tal indivíduo se torne membro e parte das regras sociais, deixando para trás, o seu desejo, agora domado pela norma cultural. Em contrapartida, a autora defende que não há desejo anterior à cultura, visto que ele brota no indivíduo já nascido em um meio cultural dado. Do mesmo modo, não se pode falar sobre o nascimento enquanto origem da cultura, do discurso, e, igualmente, do gênero e do sexo, conforme estudaremos mais adiante.

58 Para Deleuze, o desejo não é a manifestação a partir de uma falta abstrata, mas sim, a partir de um conjunto de coisas concretas que, ao ser ofertado ao sujeito, o convence a fazer seleções de coisas- conjuntos-objetos aos quais foi levado a desejar. Nessa perspectiva, o desejo faz rizoma. Sobre isso, Larrauri e Max (2011, p. 80-81) dizem que, para o filósofo, “O desejo é um agenciamento, é o ato de

ofertados pelo discurso. Assim, no caso das travestis, tomamos os já-ditos do/pelo padrão dialético do gênero e do sexo para a construção de seu corpo. Ao mesmo tempo, há uma desobediência à disciplina exercida por essa normativa compulsória. E é nesse mesmo instante, que essa compulsão não funciona— ao menos, nesses indivíduos.

Por outro lado, não se pode dizer que não há, jamais, certa coerção disciplinar. Só que, agora, trata-se de um poder coercitivo que não mais está sendo exercido do lado da norma, mas sim, por uma nova economia simbólico-discursiva que dá, também, possibilidades de insurgência da travesti, enquanto sujeito entreterritórios. Mas não somente como sujeito; também, enquanto novos discursos, já que cada território é uma ou mais formações discursivas sobrepostas, atravssadas.

Assim, a vontade de ser não é algo que brota, exclusivamente como vontade, embora isso faça parte do processo. Mas, é necessariamente por fazer parte do processo da subjetivação, que essa vontade justificada no desejo deve ser tomada em sua verdadeira importância. Ocorre que o desejo, mesmo quando domado pelo discurso, ainda assim não se deixa completamente ser domado. O desejo, nesse caso da travesti não somente não se recalca, mas, e especialmente, a cada vez que é discursivizado, simbolizado, ele se esquiva, se desterritorializa, se multiplica

enquanto real, produz mais desejo – disso, falaremos no segundo momento.

Ainda sobre a subjetividade, trata-se de um processo simultaneamente singular, e ao mesmo tempo, coletivo — porque social. Não se pode ignorar a emergência de uma (sub)cultura transgênera. Todas as práticas exercidas discursivamente pelas travestis, quando da elaboração de si, permitem a invenção de técnicas que constituirão desde os seus corpos, como a si mesmas – isso implica que a construção de si acaba por desenvolver um cultivo de si. Uma tal economia de signos e discursos já-ditos aparecem, nos enunciados aqui analisados, sob novas disposições e acoplagens, isto é, novas formações discursivas explodem no ser travesti, fazendo-o aparecer, existir. Da repetição de certas práticas discursivas, criam-se regularidades específicas para uma existência peculiar, nunca legitimada

arranjar, de compor e de construir uma disposição concatenada de elementos que formam um conjunto. [...] Se alguém deseja comprar um carro, não é só o carro que deseja, mas também os lugares para onde irá com ele, as pessoas com quem viajará e a música ou as conversas que o acompanharão: o carro está associado a um mundo, e é esse mundo o que se deseja, esse mundo agenciado em seus elementos pelo sujeito do desejo, que os conecta “ri omaticamente”, porque justamente esse é o seu delírio.”

por uma semiologia heteronormativa do sexo e do gênero. Porém, se da repetição, surge a reguralidade, juntamente com esta, surge um novo avatar cultural. Ou seja, podemos ver aí aparecer uma formação cultural nova, ainda que não estando consoante à heteronormatividade compulsória.

Figura 34 - Brincos

Fonte: LAERTE. Muriel Total. 2010a. Disponível em: < http://murieltotal.zip.net/arch2010-04- 25_2010-05-01.html >. Acesso em 5 fev. 2014.

É interessante como Hugo, enquanto uma (contra)parte do sujeito Muriel, não consegue domar o impulso que emana em seu ser: ao se deparar com a vitrine de uma loja de artigos femininos, ele questiona a si mesmo Acho que um parzinho de brincos não vai estourar o meu cheque especial... Em seguida, entra na loja, mas quando sai, aparece-nos a faceta Muriel, toda montada, isto é, sai o sujeito Muriel produzindo seu devir, ainda que arrependida por não ter conseguido controlar a si

mesma – imagem corroborada pela presença da mão sobre os olhos, como

expressão de vergonha.

Ao mesmo tempo, essa vergonha que sente Muriel, essa falta de controle

sobre si pode ser lida de acordo com as observações sobre o cuidado de si – nesse

caso, da falta dele –, conforme descritas em Foucault (2006; 2007b; 2007c), o que

nos permite interpretar o efeito de sentido de humor como produto de uma falta de temperança expressa pela incapacidade de Hugo/Muriel de controlar o seu desejo, isto é, de governar os seus afetos impulsivos, governando a si mesmo.

A subjetividade, conforme o que vimos em Guattari (2012), se a mesma se faz coletiva59, mas não inteiramente social, é porque há algo, nesse processo, que, não

somente foge às normatizações, (re)organizações, discursivizações, como ainda produz mais de si mesmo, enquanto real: o desejo. Ou seja, e nesse caso, o desejo da travesti não só é investido de discurso, produzindo outras formas de ser, outros dizeres, mas ainda assim, é impulsionado para não se deixar prender nessa discursivização. E aqui, observamos o caráter individual do desejo no processo de subjetivação: ele foge, ele se esgueira, até que brota novamente para além da discursivização.

Daí, podermos pensar não somente em uma travestilidade, nem em uma forma de ser travesti, mas sim, em intensidades de ser travesti, isto é, podermos falar em outras travestilidades (em uma ótica do não-discursivizado para o discursivizado) e podermos pensar em devir travesti (na ótica do discursivizado para o não- discursivizado). Disso, concluímos que não há, para o desejo, no indivíduo, um

momento anterior à cultura – conforme proposto por Freud (2011), ao mesmo tempo

em que consideramos que o desejo é individual, não exclusivamente social.

Mas, diante disso, agora devemos trazer para o processo de criação da subjetividade, o segundo momento de que tratamos superficialmente, no início deste texto. Este segundo momento não se trata de um processo final; ao contrário não há final quando tratamos de criação de subjetividade a partir do devir. Assim, podemos dizer que o desejo brota no indivíduo, seja por ele mesmo, seja por intermédio de um desejo domesticado pelo discurso, mesmo assim, é um desejo que brota no indivíduo e que o impulsiona na sua subjetivação, que, de um e de outro modo, o coloca em uma relação consigo.

Conforme podemos ver em Guattari (2012), afirmamos que o que chamamos de primeiro e segundo momento são, na verdade, batimentos que se dão ad infinitum, isto é, não há processo inicial nem final, bem como não se pode apontar que o desejo seja domesticado por completo. As multiplicidades do desejo dão provas de que o discurso não é fim, mas sim, meio: o desejo, o desejo-real, é uma

59 Entendendo-se, ainda, que esse caráter coletivo também se refere ao fato de que em um mesmo indivíduo pode haver mais de um modo de ser, isto é, as multiplicidades pululam no corpo do indivíduo, fazendo-o oscilar entre ceder a pressões externas e/ou internas, pois o desejo é escorregadio. Para o constatarmos, basta observarmos esse percurso de leitura que acabamos de realizar sobre a falta de controle como falta de cuidado consigo de Hugo/Muriel.

liberdade que se exerce sobre as discursivizações, levando o desejo a se pulverizar, a ser nômade por toda parte, multiplicado, mas sempre perseguido pelo/no discurso.

Figura 35 - Varinha

Fonte: LAERTE. Muriel Total. 2009. Disponível em: < http://murieltotal.zip.net/arch2009-03-08_2009- 03-14.html >. Acesso em 8 jun. 2014.

Muriel, ao dizer Não me chame de Hugo, tá?, deixa para trás um território que, neste momento não mais lhe convém. Ela migra, se põe em travessia pelo seu desejo em travestilizar-se, pelo seu devir travesti, para, assim, (a)firmar-se na exploração e expansão de um outro território sexual e de gênero, que é, conforme a materialidade verbal Sou Muriel!, o território travestilidade, em se tratando de uma transgeneridade possível. Ao desterritorializar-se, Hugo passa a mexer com a potência de desejo que são os afetos sentidos pelos outros indivíduos, criando, para eles, a possibilidade de desejar movimentar seus territórios, explorando o seu corpo, recriando-o e recriando a si pela transgeneridade. Pois conforme observamos no primeiro capítulo, a cultura da travesti implementa signos de feminilidade, oferta modelos de ser, discursiviza a pontência de desejo do outro, transforma-a em desejo e lha oferece como possibilidade de ser pelo desejo em travestilizar-se.

Observando-se o que acontece nos próximos quadrinhos, vemos que Muriel foi questionada sobre seu ser por uma personagem que expressa desagrado em seu olhar franzido ao proferir Desde quando?. O efeito de desagrado é o incômodo sentido pela personagem, e que tem seu fundamento no fato de que, no arranjo heteronormativo do sexo e do gênero, Muriel é o que destoa, é o que provoca o desconforto. Entretanto, Muriel, ao valer-se da memória das narrativas fantásticas, usa a imagem da fada e de sua vara de condão para, agora, assumindo para si, uma

travestilidade, performatizar o feminino da travesti por meio da recuperação, no seu enunciado verbal, não só da fada, mas da figura da madrinha na cultura travesti.

No quadrinho seguinte, Muriel, segurando uma rosa, e explicando como se tornou Muriel, olha para a personagem e diz ...Agora, o seu nome é..., e ao fazer isso, faz ecoar a memória discursiva do batismo como ritual de iniciação para se referir à transformação pela qual passou. Nesse momento, ela repousa a rosa sobre a cabeça da personagem, evocando a imagem da fada-madrinha segurando sua