Uma interpretação de “ajuda” foi relacionada com a falta de assistência do Estado e das políticas públicas − que, se fossem mais efetivas, evitariam esta prática − como podemos observar na entrevista com L.:
“Nós temos muito pessoa aqui no bairro, carente, viu? (...) Tem muita pessoa que necessita de ajuda do outro, viu? Muita. Que precisa de uma cesta básica, que nós não tem, viu, o posto de saúde ali atende bastante aqui nós (...) a gente tem esse privilégio muito bom, viu, sempre a Saúde tá aqui dentro cuidando, vendo como é que tá as fossa, como é que tá o bairro, neste ponto a Saúde tá bem junto da gente, sempre vem fazer visita, mas a parte de carência de pessoa que precisa de uma ajuda, não tá tendo, tem pessoa que precisa de muita ajuda aqui e não tá tendo. Tem pessoa que não tá podendo pagar a COHAB, tem pessoa neste ponto, que não tem um emprego, não tem um salário (... ) Ajuda financeira, ajuda do trabalho... Isso é o que eu falo aqui pro meu filho e pra minha esposa, se o governo trabalhasse certo, ninguém precisaria da ajuda de governo, porque tinha um salário digno, o direito do cidadão.”
Assim, a ajuda deveria vir do Estado. Entre vizinhos é complicada, porque
“(...) como se diz, o bairro é pobre, a pessoa ajuda hoje e amanhã não ajuda, porque não tem também como ajudar (...)”.
E portanto, na opinião de L., o Estado deveria garantir o mínimo:
“Só do camarada ter o direito de trabalhar pra manter a família, já é o primeiro passo. Ter a saúde dele para ir pro trabalho pra se manter, pra não precisar da ajuda do vizinho, nem do governo pra pedir cesta básica (...)”.
Desta forma, L. acha que o governo deveria resolver a questão da ajuda material proporcionando emprego para todos, e não distribuindo cestas básicas:
“Eu não concordo com isso aí, esse trabalho do governo de dar cesta básica, eu não concordo; é preciso? É preciso. Mas eu não concordo, eu como um pobre, eu sou pobre
mesmo, porque eu acho que o emprego pro cidadão é o essencial pra ele manter a família dele (...)”
Mas ainda assim, a proximidade e a amizade com os vizinhos é fundamental para L. Como veremos mais adiante, L. acredita que é necessário se aproximar do vizinho, se importar com a vida dele e com as dificuldades pelas quais ele está passando.
Na entrevista com F., a dimensão do desemprego também aparece. Enquanto fazíamos a entrevista, havia cerca de 6 ou 7 rapazes fazendo obras na casa dele; todos amigos, como ele comenta:
“Que nem hoje, vejamos aqui, hoje os menino tá aí, ó, porque a maioria dos colega meu tá desempregado. Mas como tem um biquinho aqui, um ajuda o outro, ‘ô, quer dar uma força ali, dou um tanto...’ ‘ô, preciso de tal coisa assim, você pode me ajudar...’ ‘não tem preguiça, hoje é a hora’. É unido. Temos um time de futebol aqui (no Josimo) que chama união. (...)”.
Quer dizer que neste contexto o trabalho aparece como uma forma de ajudar um amigo que está desempregado; em contrapartida, a resposta positiva do amigo é um sinal de união e amizade.
H. ficou muito mal na época em que estava desempregado. D., sua esposa, conta na entrevista que eles ganhavam muitas coisas; e, ao mesmo tempo em que se sentiam envergonhados com isso, também se emocionavam com a generosidade dos vizinhos:
“Ficou eu e o H. desempregado, a V. trazia comida pra gente, a S.M. que... ás vezes eu chorava, porque eu ficava com dó dela. Eu não tinha nada de comer, ela comprava 10 pão. São ela, e cinco crianças. Ela comprava 10 pão, ela ainda trazia um para mim, um para H. e um para I. (sua filha). Sabe, eu ficava chorando, como agora tá me dando vontade de chorar (...)”.
Hoje, que os dois estão empregados, H. pede para D. encher a despensa de comida e quer convidar todo mundo para comer. Percebemos que, em diversas circunstâncias, a comida é importante para aproximar as pessoas, sendo com freqüência considerada um gesto de gentileza e generosidade.
L. montou com a esposa uma barraca na Festa Nordestina, com a intenção de arrecadar dinheiro para investir no campinho. Lembrando-se de sua vizinha, que estava desempregada, ele lhe ofereceu trabalho:
“(...) então ela tem duas criança, não tem como trabalhar, então eu disse assim: se quer ganhar um pouquinho, se um pouquinho te serve, não posso te oferecer muito, mas
conforme meu lucro da noite, eu divido contigo o pão. Tu quer ir me ajudar lá na barraca, ganhar o pão pro teus filho, bora, o lucro que der lá nós divide.”
Casos de extrema pobreza que ocorrem em algumas famílias chegam a impressionar os demais moradores. Como relata V. em entrevista,
“Não sei a cara da fome. Não sei a dor que é sentir fome. Não sei o que é isso, e aqui você vê muita gente passar por isso. Muita gente, muita, muita, tem gente que passa ainda. Tem casa que você entra aqui fica horrorizado”.
Estas situações tendem a gerar algum tipo de mobilização da parte dos moradores. V. oferece o que tem em casa:
“(...) tem pessoas aqui que você (...) sente na pele o que a pessoa passa. Aí eu chamo pra casa, falo: vamo pegar umas coisinha lá em casa, dou carne, o quê que tá faltando na sua casa? (...) Graças a Deus, Deus sempre me deu, pra poder ter pra servir essas pessoas, e sempre tem, graças a Deus sempre tem. Então, mas é... tem gente aqui que passa uma vidinha feia, viu?”
O tipo de mobilização varia tanto de pessoa para pessoa, como de gênero para gênero. Ao se deparar com uma família em extrema necessidade, D. percorre o bairro mobilizando a todos, tentando juntar o maior número possível de doações ali dentro:
“Então assim, eu chego numa casa, aí eu vejo as crianças tá tudo descalça, sabe, neste frio tá de camisetinha. Falo, ‘nossa, não tem blusa de frio?’ ‘ah, não tenho...’ ‘não tem um tênis?’ ‘não tenho.’ Então eu, (...), outras mulheres, ‘ah, então tá.’ Aí vai para casa, aí fala pra vizinha assim: ‘ nossa, eu fui ali, o menino não tem um tênis, não tem uma blusa de frio.’(...) ‘ah, então vamo ajudar’. Aí outra já fala para outra: ‘você não tem uns casaquinhos?’, ‘você não tem um tenizinho do seu menino para dar pro fulano?’ ‘Tenho’. Aí nisso, sai juntando aquela sacola de cobertor, roupa de frio, sapatinho, tênis, tal. Aí vai lá e leva para aquela pessoa que não tem.”
D. ressalta que isso se dá entre as mulheres. Os homens se mobilizam mais para socorrer construções e obras no bairro (encanamento, energia elétrica, etc.). Por exemplo: um caso de extrema necessidade, citado por diversas pessoas, foi o de um senhor aleijado das duas pernas que se mudou para lá. Segundo relatam as pessoas, ele e sua esposa são de idade e têm dormido dentro do carro, um Corcel velho. Como nos conta M.G.,
“os homens do bairro se juntam para erguer a casa dele aos finais de semana. Ele compra o material, mas a mão-de-obra é de graça, é voluntária”.
Mas um problema é que, embora as pessoas do bairro ajudem, a maioria só tem disponibilidade nos finais de semana. Com isso, a casa dele nunca termina. L. pensa em fazer o seguinte:
“(...) eu quero ver se faço uma reunião aí com o povo pra gente arrecadar um dinheiro ou então um pedreiro pra construir a casa da mulher, porque é uma família que não tem perna (...). Ele não tem as duas perna. É uma pessoa muito que precisa de ajuda, ele é de idade e não tem as duas perna, esse tá precisando de nossa ajuda. Entendeu? E não tem um canto pra morar, inclusive, ele dorme dentro do carro.”