6 VIDERE ARBEID
A.5 Sammenligning av DoD Architecture Framework med M2EE/MACCIS
Embora a única coleção de estereoscopias que esta pesquisa teve acesso tenha sido a de d. Pedro II, a pesquisa no Almanak Laemmert evidenciou que havia no mercado demanda para o consumo desses aparelhos. Na aferição realizada encontramos cerca de treze estabelecimentos que anunciaram a venda de estereoscópios (exclusive os ateliês dos fotógrafos). Além do anúncio da Casa de óptica de J. M. Reis (1854), o anúncio mais antigo verificado foi o dos sócios Vannet & Silva, estabelecidos na Rua do Ouvidor, n. 99 (e depois no n. 105). Os sócios apresentavam ao público dois tipos de estabelecimento no mesmo endereço: uma Fabrica de Fundas86, anunciada na rubrica de ‘Instrumentos opticos’ etc., e uma Loja de Lampista, anunciada na seção ‘Lampistas’. Nesta loja, nos anos de 1856 a 1859, Vannet & Silva anunciavam uma série de artigos, bastante diversificados, onde figuravam também os estereoscópios. Nos anos anteriores, de 1854 e 1855, os sócios informaram que estavam “abrindo novas relações com a Europa” e que recebiam “agora tudo quanto pertence à Cirurgia, Engenharia, Marinha, Optica e Physica; a saber: oculos, lunetas e vidros para ditos, oculos de theatro, e de alcance, microscópios”. É possível que este ‘novo contato’ tenha proporcionado a venda dos aparelhos. (ALMANAK, 1854:478)
Ainda na década de 1850, outro estabelecimento apresentava o aparelho: o “Armazém de optica, e instrumentos mathematicos, Louça, Porcelana, Crystaes, etc.”, na Rua do Ouvidor, n. 59, de propriedade dos irmãos João José de Faria e José Antônio de Faria. O estabelecimento existia desde 1833, e estava sob a propriedade dos irmãos Faria desde 1846. A partir de 1856, foram oferecidos à venda durante alguns anos “Polyoramas panopticos e diagraphos, com as vistas dos principaes monumentos d’Europa, e as batalhas da Criméia”, dentre muitas outras mercadorias (ALMANAK, 1856:477). No ano de 1858, contudo, o anúncio do estabelecimento apresenta um texto mais detalhado, oferecendo, entre outros produtos, como microscópios, lunetas, óculos, etc.,
polyoramas panopticos, com as vistas dos principaes lugares e monumentos d’Europa, para se ver de dia e de noite ao mesmo tempo, e entre ellas as batalhas da Criméia, com as tropas em movimento, etc., Paris de noite illuminado, Kaleydoscopios, estereoscopios com figuras em alto relevo, lentes para cosmoramas (...) vistas avulsas para formar cosmoramas e outros objetos pertencentes à optica. [grifo nosso] (Revista das Notabilidades. In: ALMANAK, 1858:27)
No ano anterior, 1857, em anúncio no Jornal do Commercio, os irmãos Faria apresentavam uma listagem de vistas para polioramas mais detalhada ainda:
Paris de noite, polyoramas panopticos com vistas dos principaes lugares e monumentos da Europa, para se ver de dia e de noite ao mesmo tempo, como sejão as batalhas de Criméa e as tropas em movimento, tomada de Sebastopol, ponte das artes e o instituto em Paris, Campos Elysios, barreira da Estrella, rua Rivoli, São Estevão do Monte, Hypodrome e o circulo, galeria das Machinas, praça da Concórdia, S. Isaac, caminho de ferro de Lyão e a locomotiva em movimento, entrada da rainha Victoria em Paris, a Igreja em S. Petersburgo, bosque de Bolonha, igreja de S. Pedro em Roma, sala do Grande Conselho de Veneza e a Praça de S. Marcos, ponte do suspiro e interior da prisão dos condenados em Veneza, ponte sobre o Neiva e incêndio de Moscou, e muitas outras vistas. (Jornal do Commercio, 14 maio, 1857, p. 3).
A Casa foi anunciada no Almanak até o ano de 1869, mas o ano de 1858, contudo, foi o único em que foi citada explicitamente a presença de estereoscópios entre as mercadorias oferecidas. Em perspectiva diversa, dois importantes negociantes anunciaram por anos a fio os estereoscópios: os fotógrafos H. Domére87 e George Leuzinger88.
Domére anunciava seu estabelecimento (na Rua do Ouvidor, n. 102), desde 1854, na rubrica “Lojas de Papel, objectos de escritorio e phantasia”. A partir de 1863 passa a descrever os objetos a venda, dentre eles: “objetos de phantasia, photographias,
stereoscopos e vistas para os mesmos” [grifo nosso] (ALMANAK, 1863:589). A partir
de 1866, os anúncios de Domére aparecem também na rubrica ‘Casas que vendem objectos para photographos’. Além do espaço do Almanak, Domére utilizava também os jornais de grande circulação nacional para anunciar as mercadorias oferecidas à venda, inclusive os estereoscópios e suas respectivas ‘vistas’, como podemos constatar no anúncio do Jornal do Commercio:
87 Segundo Kossoy (2002:122), Henri Desirée Domére era seu nome.
88 Na pesquisa ao Almanak verificamos que o nome de George Leuzinger, fotógrafo e também proprietário da
Casa Leuzinger, aparecia em algumas rubricas como ‘Jorge’ Leuzinger. Turazzi (1995:149) esclarece, entretanto, que não se tratava da mesma pessoa: Jorge Henrique Leuzinger era filho do fotógrafo e também editor da Casa Leuzinger.
LIQUIDAÇÃO POR TODO PREÇO! (...) Álbuns para retratos para liquidar, vendem-se pelo custo. Cannetas todas de prata, com lapiseira e penna de ouro com bico de diamante, que são de duração infinita, pelo inacreditável preço de 6$; ditas todas de ouro, 15$000. Grande variedade de cannetas todas de ouro, riquíssimas, próprias para presente.
STEREOSCÓPIOS com vidros de crystal. Vistas de vidro, modernas, para STEREOSCÓPIOS. Ditas transparentes, representando scenas familiares, bailes, combates, etc. Grande variedade de vistas de Pariz.
[Grifos nossos] (Jornal do Commercio, 09 jun., 1872, p. 6).
Ressalta-se que, assim como no caso das vistas para polioramas divulgadas pelos irmãos Faria, o anúncio de Domére no Jornal do Commercio exibia um maior detalhamento dos artigos à venda. O Almanak era publicado uma vez por ano e seus anúncios divulgavam o que era oferecido ‘em geral’ nos estabelecimentos. Já o Jornal do Commercio se prestava mais a apresentar os artigos ‘de ocasião’, chegados porventura no último ‘paquete’ ou ‘vapor’, por exemplo, ou mesmo a anunciar as eventuais liquidações, como no exemplo apresentado.
Os estereoscópios figuraram nos anúncios de Domére no Almanak por 18 anos seguidos, até o ano de 1880. A partir daí, Domére passa a apresentar apenas o endereço do estabelecimento, sem especificar as mercadorias.
George Leuzinger, estabelecido inicialmente à Rua do Ouvidor n. 36, se anunciava no Almanak desde o ano de 1845 na rubrica “Lojas de papel, ...”. A partir de 1854 passa a anunciar-se também na rubrica “Lojas de gravuras e estampas”. Em 1866, ano em que começa a figurar no Almanak a rubrica “Casas que vendem objetos para photographos”, Leuzinger passa a anunciar, nesta rubrica, a venda de estereoscópios. Na rubrica de ‘loja de gravuras e estampas’, o anúncio se repetia para o mesmo endereço, mas em um estabelecimento sob a direção de seu filho Jorge Leuzinger. O texto do anúncio variava ligeiramente de uma rubrica para outra, mas as mercadorias oferecidas eram as mesmas. Na rubrica relacionada à photographia, George Leuzinger anunciava-se “Com officina especial e os melhores instrumentos inglezes para paisagens, panoramas, vistas diversas,
stereoscopios e costumes” [grifo nosso] (ALMANAK, 1866:644); na rubrica relativa às
lojas de gravura e estampas e de papel e objetos de fantasia, seu filho Jorge Leuzinger anunciava-se “Com grande sortimento de photographias, panoramas de vistas da cidade e arredores, stereoscopios, costumes, etc.” [grifo nosso] (ALMANAK, 1866:566). Os anúncios foram veiculados desta forma por 19 anos ininterruptos, até 1884.
Das casas especializadas em artigos para fotografia, as de Domére e de Leuzinger foram as únicas a anunciarem explicitamente a comercialização do aparelho nas páginas do Almanak. Todavia, é certo que o aparelho figurava também em outras casas do tipo e, ainda, nas oficinas dos daguerreotipistas e fotógrafos da época. Em 1855, por exemplo, estereoscópios e daguerreótipos eram anunciados em estabelecimento na Rua S. Pedro, 43 e outro na Rua dos Latoeiros, 59, que depois passou para a Rua do Ouvidor, 101 (Jornal do Commercio, 10, 13 e 17 jun., 1855).
Da mesma forma, Klumb, que dirigia com Paulo Robin a oficina Photographia Brazileira (na Rua de S. José 94 e 96), em anúncio no Jornal do Commercio, oferecia “grande sortimento de vistas para álbum estereoscopos” (Jornal do Commercio, 9 de out. 1864, p. 4). No ano seguinte, João Youds também oferecia em sua oficina de fotografia o aparelho acompanhado de vistas:
J. Youds, rua dos Latoeiros no. 51, acaba de receber um grande sortimento de objectos próprios para photographia, os quaes são vendidos por menor preço do que em qualquer outra parte. (...) Na mesma casa acaba de se receber o maior sortimento de VISTAS PARA STEREOSCOPIOS que tem vindo a esta corte, pois que há um escolho de mais de 500 duzias, representando vistas transparentes das mais bellas cidades da Europa e de muitas outras qualidades, de 4$ a 8$ a dúzia. Vendem-se os stereoscopios de 4$ a 7$ cada um. (Jornal do Commercio, 14 jun., 1865, p.4).
Ressalta-se a quantidade de vistas oferecidas e os preços cobrados na época pelas mercadorias (vistas e aparelho). A título de comparação, segundo Kossoy (2002:31), um retrato carte de visite, no mesmo ano, era vendido a 10$ a dúzia e um ambrótipo de 3$ a 30$. Quatro anos depois, J. Youds anunciava uma liquidação em sua oficina, oferecendo, dentre outros itens, “Stereoscopos, 2$500 cada um, e bonitas vistas para ditos, 3$ a dúzia” (Jornal do Commercio, 15 de out. 1868, p.3).
Outro estabelecimento que anunciou a venda de estereoscópios por bastante tempo foi o denominado “A Minerva”, situado na Rua da Quitanda (nos ns. 113, 99 e 83 a depender do ano). Sob a propriedade dos sócios Raimundo Nunes & Azurar, a partir de 1874 o estabelecimento era anunciado da seguinte forma:
O mais antigo e importante estabelecimento de: Instrumentos de Musica (...); Oculos, lunetas e pince-nez; Binoculos e oculos de alcance; Microscopios, Stereoscopios; e todo e qualquer instrumento de optica; Fundas , mamadeiras, seringas, etc., etc.; Variedade de instrumentos para cirurgias (...) e em geral todos os instrumentos para o estudo e a prática das sciencias physicas. (...) Officina para todos os concertos. Preços razoáveis. [grifo nosso] (Revista das Notabilidades. In: ALMANAK, 1874:53).
A Casa, ao longo do tempo, mudou de endereço e de proprietários, mas o anúncio permaneceu o mesmo por 14 anos, de 1874 a 1887. A partir daí, passou a anunciar de forma mais genérica as mercadorias.
Na mesma época, um estabelecimento similar, situado na mesma Rua da Quitanda (n. 85 e 98 A, na época), denominado ‘Ao Guarany’, também oferecia os estereoscópios à venda. Por quatro anos seguidos, de 1875 a 1879, os sócios Dias da Fonseca & C., anunciaram o estabelecimento com o seguinte texto:
Com dous bem montados estabelecimentos de instrumentos de musica, optica, cirurgia, mathematica e agrimensura, assim como instrumentos de metal e de madeira para bandas e orchestra, (...) pince-nez, lunetas, oculos com vidros para todas as vistas, oculos de alcance, binoculos para theatro, marinha e campo, stereoscopios, microscopios, bussolas, pantometros, e tudo o que pertence à optica; estojos para cirugia, dentista, (...). Assim como tem uma bem montada officina para fabricação de oculos, lunetas e pince- nez, e fazem com brevidade qualquer concerto de instrumentos de musica e optica, tudo por preços razoaveis.” [grifo nosso] (Revista das Notabilidades. In: ALMANAK, 1875:78).
Em 1878 e 1879, o estabelecimento figurava nos anúncios sob a direção dos sócios Francisco Dias da Fonseca e Carlos Tavares de Mattos (que durante 13 anos havia sido caixeiro de José Maria dos Reis), e em 1881 passava para a direção de Domingos dos Reis Caldeira. Neste ano, C. T. de Mattos abriria seu próprio negócio no ramo, um ‘Armazem e officinas de optica e instrumentos scientificos”, situado na Rua do Ourives, n. 50, no qual também verificamos a presença dos estereoscópios nos anúncios. De 1881 a 1884, C. T. de Mattos oferece à venda “o mais completo e variado sortimento de optica, como sejão: pincenez, lunetas, oculos, binoculos de theatro, de mar e campo, oculos de alcance,
stereoscopios, thermometros, (...)” (ALMANAK, 1881:903). A partir de 1884, até o ano
de 1899, C. T. de Mattos passa anunciar de forma genérica as mercadorias.
Além dos anúncios verificados no Almanak das casas especializadas em instrumentos científicos e em material fotográfico que ofereciam o estereoscópio (e suas vistas), encontramos no Jornal do Commercio outros estabelecimentos oferecendo o aparelho, como por exemplo a ‘Casa Abranches’ (situada na Rua da alfândega, 10) que anunciava uma liquidação a dois dias de fechar suas portas:
Para as festas por todo o preço. Restão ainda alguns objectos, como: Caixinhas de costura; Ditas para jóias, etc; Ditas de xarão para chá; Estojos de barba e escripta para viaje, Estojo de barba; STEREOSCÓPIO de 12
interessantes vistas; Merina para crianças; Sofás ou chaise-longe de fechar,
para criança; Estagete japonês para costura; Corbelha indiana para costura; Lindos grupos de biscuit para ornamentos de mesa; Lindos castiçaes de figuras; Copiador portátil; (...); Não se mencionão preços, visto restarem só dous dias de venda a este estabelecimento, e por isso vende-se pelo que der. [grifo nosso] (Jornal do Commercio, 24 dez., 1870, p.3).
Vale ressaltar que, distintamente dos estabelecimentos que vinculavam o aparelho à ciência, a Casa anunciava os estereoscópios dentro de um conjunto de itens ‘utilitários’ e ‘decorativos’ para o espaço doméstico. O mesmo acontecia nas livrarias e lojas de gravuras. Os próprios editores do Almanak, Eduardo & Henrique Laemmert, por exemplo, anunciaram em 1871, no Jornal do Commercio, estereoscópios, dentre outras inúmeras mercadorias, chegados “no último vapor”:
É convidado o respeitável público a visitar a exposição de E. & H. Laemmert - Rua do ouvidor 68 - De BELLÍSSIMOS LIVROS. A maior parte illustrados com magníficas gravuras, (...) com riquíssimas encadernações, próprios para presentes de valor intrínseco; assim como
riquíssimos objectos de fantasia de marfim, madrepérola e madeira, e de escriptório, a saber: álbuns para retratos de todas as qualidades,
capellinhas com rias imagens sobre porcellana, quadro com e sem gravura, guarnições para retratos, marmotas stereoscópicas89 com 50 lindas vistas,
caixinhas para sellos, port- monnaies, guarda-relógio, tinteiros de diversos feitios, estantes para livros, (...) estojo para fumantes, caixinhas de papeteria com todos os acessórios para escripta, pastas de diversas qualidades, charuteiras, caixinhas para phósphoros, carteiras, ditas para cartões de visita, álbuns para desenho, balançar para cartas, stereoscópios, (...) riquíssimos binóculos para theatro, óculos de alcance necessários para homens e senhoras, estojos para viagem, caixinhas de tintas, e uma imensidade de outros artigos lindos, mimosos e chegados pelos últimos vapores. PREÇOS MODERADOS [grifo nosso] (Jornal do Commercio, 22 dez., 1871, p. 7).
O estabelecimento dos editores Laemmert figurava nos exemplares do Almanak, entretanto, de forma genérica. O mesmo caso, pode ser exemplificado pelo anúncio de Bertrand Doux (Rua S. José no. 28) que a despeito do detalhamento verificado a seguir, no Almanak anunciava-se apenas como “As vistas de Paris”:
89 Segundo o dicionário HOUAISS, podemos definir “marmota” como “aparição de coisa esquisita ou
inexplicável; assombração, fantasma; visagem”. Além disso, pela etimologia da palavra, no século XIX poderia significar “cofre; caixa de carteiro feita de pele de marmota; caixa de amostra de caixeiro-viajante”.
AS VISTAS DE PARIZ. (...) 1.000.000 de gravuras. (...) Tem a honra de participar ao respeitável público e a seus numerosos freguezes e amigos, que acaba de receber um grande e variado sortimento de tudo que pertence a este ramo de negócio, como gravuras e estampas diversas, desenhos diversos, artigos de arte e mecânicas differentes, anatomias differentes para médicos, desenho linear, vignole, etc; mappas geographicos e Atlas, histórias diversas, vistas diversas, santos diversos; também hum variado sortimento de pequenos santinhos do melhor gosto que se há visto, quadros pintados a óleo; também stereoscopo e vistas para ditos dos palácios mais
afamados da França, illuminados e transparentes; ditos de fantasia;
espelhos de 2, 7 e 9 figuras; artigos de arame em differentes obras, a outros artigos modernos, estampas muito em conta para mascates e para marmotas: (...) N.B. Não é possível enumerar todos os artigos existentes nesta loja,
para isso seria preciso occupar todo o espaço deste jornal. [grifos
nossos] (Jornal do Commercio, 03 jun., 1860, p. 4).
Ainda, por períodos curto de tempo, anunciaram os estereoscópios no Almanak os seguintes negociantes: J. Vieitas & C. (estabelecido na Rua da Quitanda, 85) nos anos de 1882 e 1883; a viúva Le Bourgeois (estabelecida na Rua do Ouvidor, 55) nos anos de 1883 e 1884 e, ainda, os sócios J. M. Barbosa & C., proprietários do estabelecimento ‘À Africana’ (na Rua da Quitanda 98 A), este último apenas no ano de 1884. Da mesma forma que se deu nos anúncios dos outros estabelecimentos, os negociantes anunciavam suas mercadorias nos anos anteriores e seguintes sem citar explicitamente os produtos à venda.
A falta de espaço físico nas folhas dos almanaques e jornais da época que obrigava os anunciantes a veicular propagandas de cunho genérico levou os comerciantes do setor a adotar outros suportes para divulgar as suas mercadorias, como a distribuição de catálogos das mercadorias à venda, iniciativa que se mostrou crescente entre os estabelecimentos maiores90. José Maria dos Reis, em 1855, informava: “Acha-se às ordens de seus freguezes e correspondentes um catalogo regular e systematico dos objectos que recebe directamente dos mais afamados fabricantes europêos”. Além de divulgar de forma minuciosa suas mercadorias para o publico consumidor da Côrte, a produção dos catálogos ajudava a expandir o mercado para as províncias: “Achão-se em quasi todas as províncias catalogos (...) para com maior facilidade se poderem dirigir ao annunciante, na certeza de serem servidos como se pessoalmente viessem” (ALMANAK, 1853:530).
90 Pretendemos, futuramente, investigar a possibilidade de existência de alguns destes catálogos nos acervos
De fato, os consumidores nem mesmo precisavam ir até o estabelecimento para adquirir as mercadorias. O já citado José Antonio de Faria, também antigo comerciante do ramo (Armazem de Optica..., r. do Ouvidor, n. 79), informava em um dos anúncios: “encaixota-se e remmete-se ao seu destino” (ALMANAK, 1862:54).
Listadas as mercadorias num catálogo que parecia amplamente distribuído (na Corte e nas províncias) os espaços dos anúncios (que, em regra, não ocupavam mais do que uma página cada um, havendo entretanto alguns de duas páginas) podiam ser aproveitados com outras informações relevantes que conferiam confiabilidade e distinção aos estabelecimentos.
Grande parte dos anunciantes deste tipo de comércio, por exemplo, ressaltava sua ‘relação direta’ com fabricantes e fornecedores de outros países, sobretudo os da Europa. Muitas vezes, o próprio negociante, dirigente do estabelecimento, se dizia ‘recém chegado’ da Europa com muitas novidades a apresentar. Novamente, o texto de um dos anúncios de J.M. dos Reis pode ser considerado como exemplo emblemático:
É sem contestação o mais perfeito e completo de todos os estabelecimentos deste genero existentes na America, não só pelo grande e variado sortimento que nele sempre se encontra, (...) mas também pela promptidão com que directamente recebe das mais acreditadas e afamadas fabricas da Europa aquelles instrumentos que alli se vão descobrindo ou aperfeiçoando neste ramo de comércio. (Revista das Notabilidades. In: ALMANAK, 1861:22).
Os comerciantes estavam sempre atentos às novidades ‘científicas’ e certamente em suas viagens tomavam contato com os aparelhos e dispositivos que se constituíam numa grande moda na Europa e nos EUA. Um outro negociante do ramo, Domingos dos Reis Caldeira, estabelecido na Rua da Quitanda desde 1857, sempre oferecendo em seus anúncios “grande sortimento de musica, optica, physica”, etc., no ano de 1862 informa aos leitores do Almanak que “tendo ido a Europa abrir relações directas com os diversos fabricantes, pode servir bem os seus freguezes e por preços razoáveis” (Revista das Notabilidades In: ALMANAK, 1862:23). Caldeira anunciou seu estabelecimento até 1880 citando as mercadorias de forma genérica. Entretanto, o fato de manter relação com fabricantes estrangeiros, inclusive viajando pessoalmente à Europa, assim como a concorrência das outras casas do ramo, aponta para a possibilidade dos dispositivos terem sido vendidos neste estabelecimento também, embora não tenham sido listados de forma direta.
Outra forma de conferir distinção aos estabelecimentos, era a vinculação dos mesmos aos atos do governo imperial. Ainda nos valendo do exemplo de J. M. dos Reis, ressaltamos que o negociante afirmava, com o devido destaque (com letras maiores, no início do texto), seu estabelecimento como “O primeiro estabelecimento de optica no Império”. Para dar maior credibilidade ao publico consumidor em geral e notabilidade à Casa, J. M. dos Reis divulgava também nos anúncios a sua clientela mais ‘honrosa’:
a casa imperial, arsenaes de marinha e guerra, archivo militar, commissão de limites, escolas militar e de marinha, de applicação e de medicina, obras publicas da côrte e província, estrada de ferro de D. Pedro II, academia das bellas artes, collegio de Pedro II, companhias União e Indústria, Mucury, Gaz, Observatório Astronomico, e Telegrapho (Revista das Notabilidades. In: ALMANAK, 1861:22).
Os estabelecimentos citados seriam também loci da fruição e divulgação dos dispositivos. No mesmo sentido, o negociante destacou em 1863 que “mereceu a subida honra de receber a augusta visita de Sua Majestade Imperial” (ALMANAK, 1863:585), repetindo a informação nos anúncios dos anos seguintes. Em 1867, acrescentou ao texto do anúncio a visita recebida de “SS AA II. Os Srs. Conde D’Eu e Duque de Saxe” (ALMANAK, 1867:564). Além disso, listava-se, a cada ano, os títulos, medalhas, prêmios e menções obtidas nas diferentes exposições nacionais e universais91. Estas estratégias para conferir respeitabilidade e distinção ao estabelecimento foram utilizadas por vários negociantes na época.
A listagem da clientela do estabelecimento e dos prêmios obtidos em exposições nacionais e universais ultrapassava, em sua lógica, a mera estratégia de publicidade. As