A entrevista com Marcela foi quase uma surpresa. Não conseguindo por meio de contato com as participantes do Café com bolachas outra mulher com mais de 40 anos para realizar a última entrevista, retomei uma conversa que tive com um casal de amigas lésbicas quando iniciei meu mestrado, ou seja, final de 2006. Nessa conversa, ao comentar que iria realizar uma pesquisa a partir de entrevistas com mulheres lésbicas, ambas me pediram para serem participantes, mesmo sem saber exatamente a temática. Disse-lhes que não seria possível por serem amigas próximas e porque havia alguns métodos de pesquisa dos quais eu não poderia fugir, avisando, ainda, que eu faria entrevistas com mulheres com mais de 40 anos. Assim, elas indicaram-me duas pessoas, a Fá, que eu havia conhecido há alguns anos, mas não tinha contato, e a Marcela, que eu não conhecia.
Algumas semanas depois, em um espaço de lazer, encontrei esse casal de amigas junto com Fá e Marcela, a quem me apresentaram. Minhas amigas já haviam feito, elas próprias, o convite para ambas participarem das entrevistas. Conversei com elas sobre meu trabalho e disseram-me que se eu precisasse, elas dariam as entrevistas, sendo que Fá ficou um pouco
receosa com a temática que eu ainda estava por definir. Marcela, entretanto, disse que responderia a tudo o que eu perguntasse. Finalizei, assim, a conversa, dizendo que, caso fosse necessário, futuramente entraria em contato com elas, mas que ainda estava iniciando minha dissertação e tinha muitas coisas a definir.
Nos últimos meses de 2007, vendo a dificuldade de encontrar mulheres lésbicas com mais de 40 anos, lembrei-me do ocorrido e liguei para uma dessas minhas amigas, a Gisely, pedindo o contato de Fá ou Marcela. Ela me passou o telefone da primeira, e, ao ligar e perguntar sobre a possibilidade de entrevista, ela me disse que estava muito ocupada aquela semana, mas que entraria em contato. Duas semanas depois, quando eu já acreditava que não me concederia a entrevista, Gisely me ligou perguntando se eu poderia ir à casa de Fá à noite para fazer a entrevista. Concordei, ela me passou o endereço e eu fui. Ao chegar, Fá me recebeu e, entrando em sua casa, vi que lá estava Marcela, sentada no sofá. Perguntei: “Ué, quem vai dar a entrevista?”. Ela, então, me disse que se “salvou”, trazendo a Marcela para ser entrevistada em seu lugar. Assim, dirigimo-nos à cozinha, onde Fá me ofereceu algo para beber, o que recusei. Marcela sentou-se em minha frente e convidou Fá para ouvir. Esta, um pouco distante da mesa da cozinha na qual nos apoiávamos, sentou-se para ouvir a entrevista, mas nada falou. Começamos a entrevista.
Marcela tem 42 anos, me pareceu uma pessoa de estilo despojado, muito divertida e risonha, embora tivesse uma certa timidez. Respondia às questões como se quisesse ensinar, com tom de propriedade, apesar de a todo o momento dizer que era a forma como ela pensava, dando brecha para exceções.
Disse que ser criança é brincar e, diferentemente do que foi para ela, que é preciso sujar-se, andar descalça e ficar à vontade. Disse que crianças devem ser respeitadas e que, para falar sobre sexualidades, especialmente homossexualidade, é preciso ir “abrindo a mente deles” devagar. Falou que as crianças têm muita influência da mídia e acabam entrando em contato com temáticas como a homossexualidade por meio das novelas e notícias sobre as Paradas LGBTT. Disse que isso as deixa confusas, sendo a sociedade posta como heterossexual. Ela falou que têm dificuldades em lidar com os questionamentos das crianças sobre sua orientação sexual. Para Marcela, a infância acaba quando se passa a assumir responsabilidades, contudo, assim como outras entrevistadas disseram, acredita que há uma “criança eterna dentro”.
Marcela disse que desde a entrada na escola rejeitava roupas femininas e usava apenas as roupas usadas pelos meninos. Disse que já sentia atração por garotas e articulou o primeiro beijo em uma menina por meio da brincadeira “Beijo, abraço, aperto de mão”, na qual uma
pessoa tampa os olhos de outra com uma das mãos e as outras são apontadas para receber a ação (ser beijada, abraçada, ou ganhar um aperto de mão). A pessoa com os olhos tampados fala, sem saber, quem será a pessoa que receberá a ação. Contou que combinava previamente com quem tamparia seus olhos para avisá-la, apertando-os disfarçadamente, quem era a pessoa apontada que receberia a ação “beijo” e, assim, escolhia uma menina que ela gostava. Porém, por ver-se diferente dos(as) colegas, sentia-se sozinha e sofria:
[...] sofria muito porque eu não conhecia ninguém como eu. Eu sofri até os meus 15 anos de idade. Eu ficava pensando. Aquilo entrava na minha cabeça e eu ficava numa paranóia. No entanto, com meus 13 anos eu cheguei na minha família e chamei todo mundo e falei: ‘Olha, não sei o que acontece, mas eu sou assim, assim e assim. Os menino falam que gosta de mim eu quero bater neles. Eu sinto atração pelas menina’.
Disse que nunca ouviu qualquer tipo de comentário ou informação sobre a homossexualidade durante sua infância, tendo passado a ouvir discursos sobre isso apenas quando se assumiu para sua família; quando teve um primeiro relacionamento. Ela explica que “era assim” desde pequena, além de sentir “atração pelas menina”, também pelo fato de empinar pipa, andar de carrinho de rolimã, jogar futebol, ou seja, assumir comportamentos masculinos e rejeitar comportamentos femininos.
Ela relatou que sua adolescência foi curta e que só passou a sair de casa aos 18 anos. Antes disso, mesmo tendo tido um relacionamento que durou dois anos, o espaço social que ela freqüentava eram “bailinhos” na garagem da casa dela e dos colegas.
Em seu coming out diante da família, passou inicialmente por rejeição por parte desta, sendo levada a um médico, o qual lhe receitou hormônios femininos. Sua mãe chorou, um dos irmãos quis bater nela e expulsá-la de casa e os outros irmãos nada disseram. O pai também não falou nada e, pelo relato de Marcela, já sabia e, de certa forma, a apoiava. A família de sua namorada mandou a filha para outra cidade, como forma de boicotar o relacionamento. A mãe da garota tentou denunciar Marcela no fórum da cidade, o que não teve implicações, pois ambas eram menores de idade. Foi nessa experiência que Marcela descobriu, na fala do juiz: “‘Preconceito não pode’. Desde aquela época não pode ter preconceito”.
Marcela disse que a adolescência termina quando não existe mais dependência financeira da família e se começa a planejar a própria vida. Ela contou que desde os 13 anos já tinha emprego fixo e usava o dinheiro para contribuir com os gastos da família – por isso, considera que sua adolescência foi muito curta. Ela nunca ouvia informações sobre a relação
entre mulheres. A única pessoa que dizia alguma coisa era a sua mãe: “a minha mãe falava que isso não era futuro pra ninguém, que isso não dá família pra ninguém”.
Marcela se pauta na transcendência para explicar a atração por pessoas do mesmo sexo:
[...] porque isso é uma lei da natureza, porque Deus quando fez a gente ele não deu o sexo. Você sabe que nós não temos sexo perante Deus. Na Bíblia não tá escrito lá. Tá escrito: a mulher, o homem e tal, só que o sexo dela lá, a vagina, o pênis não tá escrito na Bíblia. O sexo que eu quero dizer pra você não é a nossa matéria, é o nosso espírito. Você não sabe se seu espírito é homem, se é mulher, se o meu é, se o dela é. Então é isso. Pra Deus nós não temos sexo. No entanto, tem uma parte lá que ele fala: ‘Vinde a mim como tu és’.
Marcela disse que nunca teve dificuldades com amigos ou colegas por se relacionar com mulheres, que é uma pessoa muito fácil de relacionar e que privilegia mais os amigos que um relacionamento. Aos 18 anos, passou a freqüentar bares de lésbicas e conhecer e fazer amizade com outras mulheres de mesma orientação sexual. A partir desses encontros, Marcela passou a sentir-se pertencente a um coletivo do qual ela não sabia da existência. Disse que nunca se viu ficando, namorando ou casando com um homem. Ao contrário, reagia com violência às investidas dos rapazes. Relatou nunca ter tido qualquer tipo de experiência erótica ou sexual com o sexo oposto.
Atualmente, no que diz respeito à sua família, Marcela tem uma boa relação com os irmãos; seu pai é falecido e a única dificuldade que tem é em relação à mãe. Esta reifica a relação entre homem e mulher da sociedade viriarcal nas relações da filha:
Minha mãe, toda vida até hoje, ela fala na minha cabeça. Se eu arrumo uma, ela mete o pau; se eu arrumo outra, ela mete o pau. [...] Ela acha assim, eu trabalho, tenho meu dinheiro e conheci uma pessoa. Aí ela começa: ‘Mora sozinha?’. ‘Mora’. ‘Tem filho?’. ‘Tem’. Aí ela começa a achar que eu que tou bancando a pessoa, que eu tou dando isso, dando aquilo e aquilo outro. E aquilo não tem nada, é aquilo, aquela coisinha na mente dela que não tem nada a ver. O fato de você se relacionar com uma mulher não é o fato que você vai bancar uma mulher. Tudo bem que se você for morar junto e a pessoa não tiver trabalhando, só você, eu acho mais é certo isso: uma pessoa ajudar a outra. Agora, ela não pensa assim. [É como se as mulheres se relacionassem com você para se aproveitar?] Isso, como se eu fosse um homem, tivesse uma mulher em casa e uma amante na rua. Eu taria dando tudo pra amante, entendeu? E nada em casa. Então ela faz isso. Ela é a mulher de dentro de casa então ela quer que eu dê tudo dentro da minha casa. Mas na rua eu não posso ter nada nem ninguém porque ela acha que eu vou gastar meu dinheiro.
Marcela disse que seu círculo de amizades é bastante variado, “Eu ando tanto com mulheres que não são lésbicas nem entendidas, ando com povo gay, ando com as pessoas que não são, os meninos meus sobrinhos, todo tipo de gente, com os gays, com tudo! Com meu patrão, vou pra festa com ele, não tem esse negócio”. Contudo, parece que uma repressão se exerce em sua vivência da lesbianidade. Apesar de saber que há pessoas que lutam pela igualdade de direitos entre heterossexuais e homossexuais, em relação à liberdade de expressão dos afetos pelas parceiras, disse preferir não se expor socialmente. O motivador principal pareceu ser o olhar de famílias e de crianças, vistos socialmente como sagrados e puros.
[...] eu sou uma pessoa meia reservada. Na rua dificilmente, até hoje, dificilmente você vai me ver de mão dada com alguém, com alguma menina, com alguma mulher, que seja. Barzinho dando beijo só se for bar gls. Em bares assim público que vai todo tipo de pessoa, jamais. (E por quê não?) Não sei, acho que isso é de mim isso. Lógico que já aconteceu de eu dar um beijo numa menina assim, num bar, mas porque aconteceu lá no momento, mas eu mesmo, em mim, eu não... (Mas você não saberia dizer um motivo?) Eu penso assim: não é porque eu sou assim que eu tenho que ficar mostrando na rua. É a minha cabeça. [É que, por exemplo, casais hetero pegam na mão e se beijam quando dá vontade.] Com certeza. [E por que não um casal de mulheres?] Então, eu não sei. Eu não consigo. [Você acha que você pode ter vergonha?] Não, vergonha eu não tenho, porque se eu tivesse vergonha eu não andaria assim, calça jeans, camiseta, tênis, não é questão de vergonha não. Mas eu não sei o que é, eu não sei se... é muita família... eu tenho medo assim, medo não, receio de algum sobrinho meu pequeno ver alguma cena e ficar encanado com aquilo.
Quando perguntei se isso ocorria pelo fato de temer sofrer algum tipo de discriminação ou violência, Marcela disse que também pode ser que ela não se exponha para se proteger de alguma forma. Apesar disso, é assumida para qualquer pessoa, mesmo desconhecidos, inclusive me permitiu publicar seus verdadeiros dados pessoais neste trabalho, caso eu desejasse, o que preferi não fazer, mantendo sigilo sobre todas as participantes.
Marcela ainda pretende morar com uma parceira e adotar uma criança, mas acredita que isso ocorrerá apenas depois do falecimento de sua mãe, que já está bastante idosa. Disse que quer um relacionamento “saudável, que eu quero dizer pra você, é que tem muitos relacionamentos que é muito bruto. Eu não gosto disso. Agressão. Se começa com muito ciúmes aí a pessoa te agride. Eu já passei por todo esse tipo de relacionamento”.
Disse que uma parceira poderia gerar uma criança e que a consideraria como sua, desde que por inseminação artificial. Não tem desejo de gerar uma criança e ressalta: “Acho
que eu não me vejo mulher, ver a barriga crescer, esse papo aí” – o que mostra que Marcela, apesar de se dizer mulher, não se sente a mulher “procriativa” do sistema heterossexual.
Os próximos capítulos abordarão, especificamente (ilustrados pelas histórias de vida das participantes), cada um dos estigmas e estereótipos sobre as lesbianidades elencados para este estudo. Isso será feito tendo em vista suas construções históricas, o contorno social em que estão inseridos e apresentando como estes se atualizam no discurso das entrevistadas. É importante lembrar, ainda, como a visão social sobre a imagem das mulheres em geral, e das lésbicas ou mulheres com relações/práticas homoeróticas em específico, são sustentadas e sustentam a manutenção dos processos de estigmatização, regulando a construção de suas subjetivações. Portanto, inicia-se uma breve apreciação sobre três poderosas imagens da mulher. Imagens estas, influentes nas sociedades ocidentais, perpetradas pelo biopoder. Mais adiante, nos capítulos seguintes, esses aspectos serão abordados sobre as lesbianidades.