A viagem não com eça quando se percorrem dist âncias, m as quando se atr avessam as nossas fronteiras inter iores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podem os ter casa
( Mia Couto)
Viaj ar é descobrir o alheio. A viagem pode ser real ou m et afórica. Pode ser um deslocam ento físico ou um a viagem pelas linhas negras no papel branco.
Na literatura, a viagem parece ser a m etáfora m ais freqüente e diferenciada. Aí ela adquire m uitos significados e m uitas conotações. Talvez todas nasçam de um a viagem prim ordial e em blem ática, m as são m uitas as que se realizam e sonham ao longo das narrativas, das poéticas que constituem a literatura universal ( I ANNI , 2003, p. 28) .
Viaj ar para invest igar, no entanto, exige um olhar diferent e, m as, m uit as v ezes, cercado por sensações em ocionais obrigat oriam ent e deixadas de lado. Ex ige um olhar dist anciado, obj etivado; contudo, o corpo pulsa e, m uit as vezes, t rai a racionalidade e se deixa sentir. A pele, os olhos, o nariz, os ouvidos se m ovem com o radares para descobrir o que há e com o eles reagem diant e do novo.
Um estrangeiro é com o um a criança, declarou. Chegar a um sítio desconhecido é com eçar do início, aprender as palavras, ver com o os outros se m exem , tropeçar. Assim a cidade revela- se despida e im poluta, pronta para ser descoberta ( SUARÉZ, 2005, p. 135) .
Há, no entanto, que se fazer pesquisador, guardar as veias sensíveis e percorrer o t erritório alheio de m aneira atent a e apurada –
t udo e todos significam . Seria ingenuidade não ressaltar que sem pre será um olhar com lent es est rangeiras.
É cert o, ainda, que a viagem segue et apas. Talvez a prim eira sej a a preparação. Tant o o corpo com o, sobret udo, a cabeça buscam im aginar o que será esse lugar. Um guia, leituras, vídeos, histórias de outrem aj udam a com por um a im agem sobre o desconhecido.
O espaço a ser desvendado nest e caso, porém , não é tot alm ente desconhecido ou enigm ático. Difícil seria, nos t em pos globalizados, um a viagem com o foram out rora as “ descobertas do Novo Mundo”, descrit as com assom bram ento pelos viaj ant es do século XVI . Atualm ent e, as im agens que tom am as t elas de cinem a, as t elas m enores da t elevisão e as t elas ainda m enores dos com put adores, todas elas, sem exceção, veiculam as im agens do ext erior e neut ralizam a sensação de tot al desconhecim ento ou de êxt ase da investigação in loco.
Para além das redes globalizadas, o espaço que interessa é t am bém cont em plado nos livros escolares, pois a ligação ent re o próprio e o alheio é, prat icam ent e, genética. Fala-se, port ant o, de Port ugal e do Brasil – m et rópole e colônia em out ros tem pos. Sendo Brasil o que é próprio e Port ugal o que é “ quase” alheio. A m odalização com o “ quase” reflet e a Hist ória. Port ugal é, para o Brasil, um país dist ant e geograficam ent e, que exist e na m em ória, que pert ence à Hist ória.
O brasileiro t em pouca prox im idade com a im agem da t erra lusitana. Talvez, com o defesa ou negação do discurso do colonizador. A im agem , grosso m odo, que se t em de Port ugal é veiculada em rodinhas de piadas e anedot as cont adas em praças e bot equins. Assim , nem o am biente, nem , m uito m enos, o cont eúdo rev elam a im agem efet iva do Port ugal contem porâneo. Out ra font e de aproxim ação com a identidade port uguesa t alvez sej a a Literat ura/ História que se est uda nos bancos escolares. Ali, chega-se at é o início do século XX. Talvez pela pena de Eça de Queiroz e Cam ilo Cast elo Branco se desenhe um a idéia da t erra de Cam ões no século XI X. Out ro cam inho, sem dúvida, é a aproxim ação da im agem port uguesa à im agem da Europa. Em oposição às piadas e aos
cont radiscursos, a im agem que se form a da pátria colonizadora é j ust am ente a im agem da pot ência conquist adora, que pert ence a um continent e desenvolvido, protagonista dos principais acont ecim entos do m undo político e cultural.
Um a possibilidade real é o brasileiro cam inhar pelas ruas lusitanas pergunt ando-se onde est ão as riquezas t razidas das colônias, não só do Brasil, m as das conquist adas pela dom inação das terras africanas, asiát icas e indianas. Poder-se-ia im aginar um país replet o de riquezas e t rocas étnicas. Apesar do cosm opolit ism o de Lisboa, os int ercâm bios cult urais est ão rest ritos à capital; nos dem ais sít ios, verifica-se um a cult ura volt ada para sua própria origem , at é m esm o a cult uada m escla racial, t eorizada por Gilbert o Frey re20, só se faz present e no territ ório alheio, no território dom inado, sej a no Brasil com o post ulado, sej a em Cabo Verde ou out ro recanto colonizado.
A realidade portuguesa dest oa, hoj e, do m ito de potência colonizadora cant ado nos versos e nas prosas dos hom ens das let ras. Vagar pelas m argens do Tej o, do Douro, do Corgo revela um m isto de am bientes, e, por vezes, vislum bram -se im agens paradoxalm ent e oníricas. A Hist ória est á present e na arquit etura. Há t raços de tradição na culinária e nos hábitos. Presencia-se cert o déj à-vu nas senhoras com saias, m eias grossas, chinelo, lenço na cabeça e conversas ent re vizinhas na janela. Est abelece-se, cont udo, a cont radição entre acesso sem fio à int ernet em qualquer sít io (shoppings, cafés, rodoviárias et c.) e casas com cat a-vento e hort a, em clara produção para a subsist ência, edifícios colossais e feiras de t rocas que rem et em ao cenário latino-am ericano.
Este ret rat o de cont radição é definido por Boavent ura Souza Sant os com o um a posição interm ediária ocupada por Portugal:
[ ...] Portugal é um a sociedade de desenvolvim ento interm ediário, um a sociedade que, não pertencendo nem ao Prim eiro Mundo nem ao Terceiro, tem características de
20 FREYRE, G. ( 1980). Casa- gr ande e sen zala. Rio de Janeiro e Brasília: Livraria José Olym pio. A prim eira edição da obra é de 1933.
am bos. Esta posição interm ediária ou sem iperiférica é, por assim dizer, estrutural, isto é, dura há m uito tem po [ ...] Ao contrário do que pode parecer à prim eira vista esta duplicidade não ocorre apenas na econom ia; ocorre em todos os dom ínios da vida social, política e cultural ( SANTOS, 2001, p. 83).
Talvez essa posição se j ust ifique por estar e não est ar em território próprio. Durant e m uito tem po, Portugal investiu em sua expansão t errit orial e se esqueceu de seu próprio t erritório. Não raro, ainda hoj e, escut a-se do port uguês que seu país é pequeno e essa seria a causa de sua pouca proj eção no cenário político, econôm ico e cultural. Ora, adm inist rar um pequeno t erritório, de cert a m aneira, pode ser m ais sim ples, pois se t em tudo à m ão e as dem andas são reduzidas. Habit a, contudo, o sent im ento português um desej o de expansão e é perceptível o pesar da pequenez:
[ ...] a de esconder de nós m esm os a nossa autêntica situação de ser histórico em estado de intrínseca fragilidade. Não fom os, nós som os um a pequena nação que desde a hora do nascim ento se recusou a sê-lo sem j am ais se poder convencer que transform ara em grande nação ( LOURENÇO, 2005, p. 25) .
Dom inar t erritório alheio não assegura, é sabido, a propriedade. É nat ural a todos os povos o sentim ento de pert ença. Com m ovim entos m ais im ediat os ou m ais caut elosos, os nat urais da região vão sem pre reclam ar a sua condição de donos da t erra. Os dom inadores, cedo ou t arde, serão “convidados” a deixar a t erra alheia e a recusa ao “ convit e” gera guerras de independência.
Pois nem o colonialista nem o colonizado se com port am com o se o suj eito e o obj ecto pudessem vir a ser conciliados. O prim eiro saqueia e pilha; o últim o sonha com a vingança. Quando os nativos se revoltam num a insurreição violenta, não se trata de “um a confrontação racional de pontos de vista. Não se trata de um discurso sobre o universal, m as da
afirm ação im petuosa de um a originalidade colocada com o absoluto (SAI D apud SANCHES, 2005, p. 41) .
A História apresent a sem pre com o vitoriosos os nat ivos do t errit ório; com isso, o m ovim ento de abandono da t erra conquist ada requer gastos e desgastes econôm icos, sociais e espirit uais, considerando- se a est im a. I sso pode explicar a at ual condição port uguesa no cenário m undial e seu percept ível at raso em relação aos países da União Européia. O 25 de abril de 1974 rom pe a ligação de Portugal com os t errit órios invadidos. Por pressões ext ernas, é dada a Port ugal a t arefa de volt ar-se a si.
Chegou a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarm os dentro dela, de const ruir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá- fora ou lá- longe a solução que, com o no apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal. Não estam os sós no m undo, nunca o estivem os. As nossas possibilidades econôm icas são m odestas, com o m odesto é o nosso lugar no concerto dos povos. Mas ninguém pode viver por nós a dificuldade e o esforço de um a prom oção colectiva do m áxim o daquilo que adentro dessa m odéstia som os capazes [ ...] (LOURENÇO, 2005, p. 52) .
Destituído de colônias, o país t eve de fazer um percurso solo, teve de retornar a casa. De um Estado autoritário e ditatorial, passou-se à dem ocracia. Transform ações radicais em rest rito t em po histórico. Agrega- se a essa situação a nov a ordem m undial. A queda de m uros e de regim es im plicou a form ação do bloco da União Européia, e isso im pôs aos lusitanos m ais um a cont radição. Enquanto, de um lado, destaca-se do português a qualidade de europeu, do out ro, escancara-se a ferida da inferioridade. Se o parâm et ro é o m undo, Portugal é Europa. Se o padrão é europeu, a realidade lusa est á aquém das exigências, e há que se correr at rás.
Recorrendo a um a expressão brasileira, podem os dizer que a sociedade portuguesa está a cair no real. Em ergindo dolorosam ente de um a prom essa fraudulenta de sucesso
fácil que nos prom eteu um desenvolvim ento igual ao dos países desenvolvidos da Europa e nos deixou vertiginosam ente perto donde estávam os, a sociedade portuguesa vai aprendendo a conviver com a situação de estar m uito m ais integrada nos problem as da Europa do que nas soluções da Europa. O desem prego, a exclusão social, o racism o, a corrupção política, a insegurança batem - nos à porta – um a porta, afinal, escancarada, e sentam - se à m esa das nossas preocupações sem qualquer cerim ônia ( SANTOS, 2001, p. 167).
Os índices serão generosos se forem t om ados os invest im ent os da com unidade européia para elevar o país às exigências do bloco21; os índices serão cruéis se a estim a do port uguês for considerada. Assim , pequeno e contraditório, o país se apresent a.
É com visada a este cont exto sociopolít ico, brevem ente esboçado, que a pesquisa sobre a lit erat ura infantil se const rói. Nesse panoram a, há produção lit erária para crianças, rest a voltar os olhos para o am bient e que se proj eta.
Ent re um período aut orit ário e a cham ada crise da leit ura22, delineiam -se o cenário da lit erat ura infant il portuguesa e a t ent ativa de inserção do sist em a visual nessa com plexa expressão ofert ada à criança. Os livros infantis com o discurso refletem essa sit uação.
2 .1 OS LI VRO- ÁLBUNS PARA CRI ANÇAS EM PORTUGAL: DESTRAVAND O