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Sammenhenger mellom skogeiers egenskaper og interesser

3. Resultater

3.2 Sammenhenger mellom skogeiers egenskaper og interesser

Assim, chegamos à relação periferias urbanas -metrópole fragmentada. Aqui o termo periferia vai no plural, o que, como nos diz Bonduki (2001), não se trata de uma novidade. Pelo contrário, indica questões que estão postas ao debate e aos estudos urbanos, ao menos desde a década de 70. É no âmbito desta última proposição que desenvolvemos nossa reflexão sobre as transformações recentes das periferias urbanas, seja na “periferia propriamente dita”, ou nas áreas desvalorizadas, empobrecidas, do “centro propriamente dito”.

Ademais, as transformações recentes no mundo do trabalho implicam em mudanças na relação centro-periferia. Assim, partimos da idéia de periferias urbanas (onde a noção de periferia se refere à condição socioespacial da

pobreza), idéia que vai além da compreensão da periferia como o outro da cidade. Desta forma, não se trata da noção de periferia que guarda apenas o atributo do fora, do distante.

As noções de hiper-periferia, peri-urbanização, poli-centralidades, entre outras, querem dar conta das mudanças recentes do processo de urbanização das metrópoles, posto que já não se trata mais do dentro e do fora, do perto e do longe. Tais noções fazem referência à diferenciação espacial com implicações para a redefinição das relações de oposição (sobretudo na relação concentração- dispersão) concernentes ao binômio centro-periferia.

De acordo com Seabra,

O movimento que fraciona e que aprofunda as separações na vida social em função da divisão manufatureira do trabalho e das necessidades incessantemente repostas para a reprodução capitalista da sociedade, agora sob os imperativos de um capital que circula livremente pelo mundo, é um processo que separa, mas que reúne e potencializa enormemente aquilo que reúne. Este é o traço mais fundamental do processo de modernização geral da sociedade. Ao fim e ao cabo, na metamorfose da forma urbana a metrópole contemporânea acabava por configurar-se como uma anticidade: uma superfície de urbanização contínua, de centralidade múltipla e móvel, hiperfuncional, por onde se desloca a multidão, domínio do quantitativo, com aparência de caos, porque movida por inúmeras estratégias. (Seabra,

2003:48)

Não obstante, a centralidade da reprodução do capital, ainda comanda a produção do espaço urbano, mantém e repõe os termos da relação centro- periferia, guardando claramente uma tendência à dispersão. A simultaneidade da expansão e acumulação do capital, conjugadas à escassez da riqueza socialmente produzida – com a manutenção dos territórios empobrecidos – está presente nas longínquas periferias tanto quanto nos centros históricos das cidades. Neste sentido, os fundamentos da desigualdade ao se reproduzirem levam ao aprofundamento das separações (segregação socioespacial), enfim, aos termos da barbárie. Segundo Seabra:

O urbano como modo de vida estaria destinado a superar as separações, reunindo os fragmentos dos conteúdos da vida social, e a propor uma síntese capaz de negar a negação, da qual a metrópole é expressão, possibilitando, num nível superior, a apropriação dos fragmentos dispersos. Mas o urbano, utopia real e modo de vida, âmbito da comunicação e da troca generalizada, da simultaneidade, onde se desfaz a ordem próxima e a ordem distante, (o imediato e o mediato), não vai bem. Há um déficit de negatividade, as desigualdades sociais se aprofundam, configura-se um estado crítico, com contingentes expressivos de população [des]assistida. Assim, a temática do

urbano inevitavelmente tratará da desigualdade na fragmentação do urbano. Nestes termos, proclamar o direito à diferença chega a ser uma ironia, porque em tudo subjazem os fundamentos da desigualdade. A atualidade da urbanização mostra profundas clivagens e separações. A miséria e a riqueza andando lado a lado. Não obstante generaliza-se o sistema de trocas e as comunicações redefinem as relações entre pessoas, instituições e Estados. Em suma, foi na metrópole que o movimento da forma afirmou a negatividade da cidade, com seus bairros, sem contudo franquear o urbano, sob dominação ampla, rígida, formal e quantitativa do valor de troca. Não obstante, o uso do espaço e do tempo não necessariamente coincidem com o valor de uso, antítese lógica do valor de troca. (Seabra, 2003:46)

De diferentes modos, esta pesquisa converge para a consolidação da idéia de que os territórios empobrecidos da metrópole, nos quais habitam, trabalham, enfim sobrevivem os trabalhadores pobres urbanos, são dramaticamente urbanos. Não são outra coisa senão demasiadamente urbanos: esta é a nossa urbanização, reproduzida como sua própria negação, mas sem meios de agravar as contradições, pois há um déficit de negatividade, o que parece configurar a própria barbárie.

Resultado de um processo de “urbanização avassaladora”, tão bem apresentado por Seabra (2003; 2004) em seu estudo que desvenda a metamorfose da cidade de bairros nesta metrópole fragmentada. “Periferização da população trabalhadora” (Seabra, 2004), por sua vez, traduzida de modo tão cabal na compreensão de Damiani sobre esta urbanização que se realiza de forma crítica, num urbano que não é para todos.

A negatividade exacerbada que pesa sobre o cotidiano vivido pelos pobres sem trabalho na metrópole do trabalho, não chega ao ponto de superar as contradições, no sentido de um outro devir. Se por um lado, a negatividade do urbano pode ser mais profunda na periferia urbana propriamente dita, por outro, o

déficit de negatividade sendo maior no centro, faz com que os territórios

empobrecidos estejam sempre na iminência de serem suprimidos (a exemplo da Operação Urbana). Ou seja, se por um lado, o urbano enquanto negatividade é mais completo na periferia (o que é a própria periferia), por outro, o déficit de negatividade maior no centro, não chega ao ponto de permitir a positividade plena do urbano; positivo-negativo ficam em conflito. Estas reflexões conduzem à noção de urbano periférico.

No urbano periférico estão presentes as contingências desta cidade

ilegal que definem os termos de uma urbanização por demais restritiva entre nós, mas que continua progredindo. (Seabra, 2004:300) Assim, o urbano periférico

ganha concretude no esfacelamento e ausência de uma outra cidade, naquilo que

correspondia ao ideário das elites como obra e promessa da modernidade capitalista no Brasil, com cidadania plena, direitos civis, direitos políticos e o trabalho com dignidade. Esta urbanização nos afasta daquilo que fora preconizado como um direito à cidade porque as exclusões, as separações e a violência definem um quadro de vida problemático. (Seabra, 2004:300) (...) O quadro de carências acumuladas (Seabra, 2004:303), concluímos, está sob

domínio do urbano periférico.

Neste sentido, compreende-se que o urbano periférico é próprio da metrópole fragmentada, contém e revela sua totalidade. Porque cada fragmento, qualquer que seja, contém o todo. Esta noção não nega o estatuto teórico da relação centro-periferia, mas busca explicar o que há em comum nos conteúdos da urbanização, entendida como crítica, tanto no centro quanto na periferia propriamente ditos. Assim, o urbano periférico, entendido como presente no centro e na periferia, é próprio do Nível Misto, especificamente urbano (Lefebvre, 1999). Por sua vez, não corresponde à posição geográfica periférica existente na relação centro-periferia, mas à condição constrangida de apropriação do urbano pelos pobres. O que não significa prescindir da diferenciação espacial e da situação geográfica que determinam as condições de formação dos territórios de

uso (Seabra, 2003). Estes sim qualitativamente diferentes em função de estarem na periferia distante ou no centro. Exatamente porque estes territórios são

instaurados na articulação dos três níveis do urbano, resultando em diferentes combinações.

A noção de urbano periférico apresenta uma inversão intencional dos termos (de periferia urbana para urbano periférico), pois a idéia de periferia, como fenômeno relacionado a um centro, domina a expressão “periferia urbana”, que remete à estruturação espacial, geometricamente orbital, em torno do centro urbano. Ou ainda, o urbano só está presente na periferia naquilo que revela sua ausência nas formas determinadas da pobreza, da segregação e da exclusão, fortemente vinculado ao contexto do “padrão periférico de crescimento”. Porém, o que propomos é destacar, pôr ênfase no urbano que é periférico: o urbano presente e possível, ainda que pleno de constrangimentos, nas atuais bases da

produção e reprodução sociais (Damiani, 2004:30). Nele, uma população que

encontra habitação e/ou trabalho (sobre)vivem a negatividade de uma socialização completa, monetarizada, mas na condição de trabalho que sobra.

Os resíduos do consumo – ou simplesmente lixo (matéria sobre a qual o catador se debruça, para dele retirar os materiais a serem reciclados) são gerados em toda a extensão do espaço urbano, de forma concentrada no centro e de forma estendida na periferia. Porém, tão logo os resíduos sejam descartados, devem ser encaminhados, o mais rápido possível, para seu destino final. No caso da reciclagem, antes de chegar à empresa recicladora (como matéria-prima para os processos produtivos) os resíduos devem ser “desviados” para locais que antecedem seu envio à indústria, tais como baixos de viadutos, cooperativas, depósitos, ferros-velhos, entre outras modalidades, que geralmente se localizam em territórios empobrecidos.

O fato destes territórios estarem presentes tanto nos espaços centrais quanto nos espaços periféricos da metrópole, trouxe para nós um problema conceitual em torno da relação “centro-periferia”, como já apontado. Por isso, a necessidade de um raciocínio que não se limite, nem tão pouco negue, a relação centro-periferia, mas que permita desvelar conteúdos socioespaciais comuns a ambos espaços qualitativamente distintos. Disto decorre a noção de urbano

periférico.

Neste sentido, o urbano periférico é uma noção formulada tanto sob uma perspectiva sociológica quanto numa perspectiva geográfica. Com a primeira, pode-se compreender as periferias urbanas enquanto condição social da pobreza. O que, por sua vez, permite admitir sua presença tanto na periferia quanto no centro propriamente ditos. Na segunda perspectiva, a noção ilumina42 o espaço da (re)inserção produtiva do trabalhador pobre urbano. Mais propriamente, dos territórios de (re)inserção produtiva do trabalhador pobre no

urbano – no urbano periférico – o qual no processo de modernização social

sobrevive na condição de trabalhador sobrante. Segundo Seabra (2003:3), as

estruturas técnicas e de inovações que a modernização pela industrialização desencadeou, atingiram a sociedade inteira e novas e sucessivas formas de emprego do tempo iriam acontecendo até alcançar a casa, a família, a criança, a mulher e os idosos. A reprodução da sociedade envolveu o tempo e o lugar da reprodução da vida, e seguiria produzindo o cotidiano como uma seqüência lógica e necessária desse mesmo processo. (Seabra, 2003:3) Por isso, o urbano

periférico é próprio do processo de transformação recente da periferia urbana,

42 Referência aos espaços opacos onde vivem os homens lentos definidos por Milton Santos, em A natureza do espaço, de 2002.

locus histórico de reprodução da classe trabalhadora, que vive sob as contingências do próprio processo de modernização. No referido processo, contingentes cada vez maiores de trabalhadores pobres urbanos sobrevivem na condição de trabalhadores sobrantes, buscando lugar nos interstícios do urbano com suas estratégias de sobrevivência. Estas que, pelos mais curiosos e dissimulados nexos, ligam-se abstratamente às estruturas industriais, situadas concretamente no alhures, mas também no cotidiano destes trabalhadores.

O urbano periférico se refere à centralidade do urbano, a qual, por definição (ao menos segundo as contribuições de Lefebvre), é encontro, reunião, concentração, simultaneidade, inclusive das diferenças, das separações e dos conflitos. As periferias são urbanas, mas nelas o urbano é periférico, traduzindo- se como possibilidade constrangida do urbano. É o urbano negado aos pobres, os quais sobrevivem sob o peso de sua negatividade, no decurso mesmo da reprodução capitalista. No urbano periférico, restitui-se a relação capital (produtivo) – trabalho (sobrante), desvelado na pesquisa pela relação entre catador e indústria da reciclagem. Esta que arregimenta o trabalho sobrante indiferenciado (oriundo dos mais diversos setores) na atividade do catador que se debruça sobre o lixo, seja no centro ou na periferia.

A noção de urbano periférico não nega a relação centro-periferia, pois a diferenciação espacial se impõe de diversas formas: na qualidade e densidade dos resíduos gerados; no processo de trabalho realizado pelos catadores; nas modalidades de locais com atividades da reciclagem, entre outros fatores. Assim, sem contradizer a relação centro-periferia, a noção de urbano periférico busca contribuir para a compreensão sobre as formas de (re)inserção produtiva dos trabalhadores sobrantes. Parece ser este o lugar reservado aos pobres na urbanização crítica, onde o urbano não é para todos (Damiani). Mas que ainda assim segue abrigando os contingentes de trabalhadores sobrantes que procuram sobreviver nos interstícios do urbano. Urbano que historicamente ocupa os contingentes de trabalhadores pobres não absorvidos pelo emprego formal. Proletarizados, sem emprego e sem salário, ingressam nas mais diversas atividades engendradas no processo de industrialização-urbanização, no denominado setor informal da economia urbana.

Frente ao exposto, devemos ressaltar que o urbano periférico está relacionado com a pobreza urbana generalizada, seja nas periferias distantes, consolidadas ou em formação, seja nas áreas centrais empobrecidas, nos centros

comerciais ou de negócios. Nele se concentram aqueles para os quais o lixo – ou melhor qualificando, os materiais recicláveis, são a única senão última possibilidade de inserção num processo de trabalho que o ocupem em troca de algum dinheiro que lhe permita uma sobrevivência ordinária (em seu duplo sentido) 43.