O item 2, denominado Bairro Santa Tereza, se pretende como uma introdução ao bairro, sua história e particularidades. Nele, a história do Santa Tereza é colocada desde os primeiros tempos, quando era ainda uma Colônia Agrícola da região suburbana de Belo Horizonte, chegando ao ano de 1996, quando se torna uma Área de Diretrizes Especiais. Além da constante leitura de matérias jornalísticas e reportagens, recentes e antigas, e do levantamento de documentos e legislação relativos ao desenvolvimento do bairro, foram levantados autores que já tiveram o bairro como objeto de pesquisa e estudo. Luis Góes (2014), jornalista e antigo morador do bairro se propôs a escrever sua história e contar casos e curiosidades, assim como Libério Neves (2010). Luiz Henrique Assis Garcia (2006) escreveu sobre o Clube da Esquina em tese de Doutorado em História que versa sobre o tema do movimento musical como formação cultural. Vera Lígia Costa Westin (1998) também dissertou sobre o Santa Tereza, objeto de estudo de Ulysses da Cunha Baggio (2005) em sua tese de Geografia Humana e de Flávia Mosqueira Possato (2009) em seu trabalho de especialização em arquitetura. É trazido ainda o texto de Françoise
Jean de Oliveira Souza, Karime Gonçalves Cajazeiro e Carolina Pereira Soares (2012) enquanto técnicas da Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte (DIPC-FMC).
As principais chaves de interpretação do bairro se deram a partir de leituras teóricas de autores que discutem a cidade como algo complexo e composto por representações e imagens, seja de si mesma, seja dos habitantes que nela vivem. Sustentam a construção das ideias, Maria Stella Bresciani (1991) e José Tavares Correia de Lira (2014), trazido mais especificamente por sua ampla visão sobre a noção do que é um bairro.
A discussão historiográfica que traz os homens comuns, o sensível, o simbólico e a cultura construída no cotidiano para a tessitura da história coloca a dimensão do vivido como trama. Para além dos grandes nomes, monumentos, heróis e datas específicas, o comum é resgatado e debatido, não como menor, mas como aspecto indispensável para a percepção mais apurada e fundamentada das práticas sociais e culturais. A memória e a história é aspecto relevante a serem trabalhado a partir dessa perspectiva, na qual Eclea Bosi (1984) figura como teórica no contexto desta pesquisa e os interlocutores como sujeitos ativos da história do bairro.
À Boemia foi reservado o terceiro item no decorrer do desenvolvimento do trabalho, já que será tratada como uma das características atribuídas mais marcantes do bairro Santa Tereza. Estão presentes no texto aspectos teóricos de Jerrold Seigel (1992), contribuições de Molar e Saad (2012), principalmente no que diz respeito aos apontamentos de Mônica Pimenta Velloso (2000) e Maria Izilda Santos de Matos (1998), Eduardo Frieiro (1966), Anny Jackeline Torres Silveira (1996), Paulo Thiago Mello e, Zé Octávio Sebadelhe (2015). A discussão da noção de boemia por Walter Benjamin (1985) também está presente na pesquisa.
A tese de Daniele Costa da Silva (2012) foi de extrema importância para o desenvolvimento da questão da boemia, que parte de uma noção abstrata e bastante ligada a movimentos literários e vai até aquela colocada nesta pesquisa, uma prática social cotidiana urbana. A autora trata da cidade de Fortaleza e muitas de suas discussões estão incorporadas no presente texto,
devido a coincidência de referências. Os estudos de Rodrigo de Almeida Ferreira (2000)18 também foram essenciais para balizar a discussão sobre boemia nesta pesquisa.
No ponto em que o texto discute as particularidades de Santa Tereza, são trazidos três aspectos frequentemente observados na revisão bibliográfica e documental (matérias de jornais e revistas, dossiês e pareceres técnicos)19 sobre o bairro e ainda os autores que o estudaram, já mencionados. Tradicional, cultural e boêmio, são características atribuídas ao bairro que foram consideradas relevantes de serem detalhadas. Para amparar a discussão sobre tradição e do que é ser tradicional e de cultura, os autores remetidos são Georg Simmel (1973) Eric Hobsbawn (1984) e Leonardo Barci Castriota (2009).
Paisagem Boêmia é o item 4 e traz autores que amparam a terminologia da paisagem, também relacionada às discussões sobre lugar e patrimônio cultural, como Michel de Certeau (1994), Maria Stella Bresciani (1991, 2001), Alain Corbin (2001), Anne Cauquelin (2003, 2013), Lisa Diedrich (2013), Álvaro Domingues (2013), Jean Marc Besse (2013), Pierre Donadieu (2013), os últimos cinco com artigos reunidos na obra organizada por Isabel Lopes Cardoso (2013). São teóricos que pensam a cidade e a paisagem para além da materialidade, restituindo-a à vida urbana e incluindo em suas obras as dimensões afetivas e sensíveis.
Neste capítulo estão expostas, ainda, as políticas de planejamento e preservação às quais o bairro é submetido – Área de Diretrizes Especiais e Conjunto Urbano – e as justificativas apresentadas para tais. O trabalho busca tratar do patrimônio como algo que está para além da relevância arquitetônica e da cultura material. E, ainda, do patrimônio não como cerne do bairro, mas como consequência das perspectivas que se colocam a respeito dele. Assim,
18 FERREIRA, Rodrigo de Almeida; STEFANI, Eliana Fonseca. A história brinda: os bares do Edifício Archângelo
Maletta como espaço de discussão política e de sociabilidade na cidade de Belo Horizonte (1964-1998). 2000. 125f. Projeto de pesquisa (Iniciação Científica) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2000.
será abordada a forma como essas políticas podem afetar a vida boêmia do bairro.
O último item, intitulado Considerações Finais, leva este título por não ser exatamente uma conclusão sobre o tema tratado. Busca problematizar a patrimonialização do Santa Tereza e os riscos da gentrificação, propondo novos olhares para a boemia enquanto subjetividade a ser valorizada e salvaguardada. Catherine Bidou-Zachariasen, Helena Menna Barreto Silva e Jean-Yves Authier (2006) com suas discussões sobre gentrificação são colocados em diálogo com Paola Berenstein Jacques (2003) e Henri Léfèbvre (1969), além de outros autores citados ao longo desse extrato.
O presente item, o primeiro, denominado Introdução, apresenta o objeto de pesquisa, define os objetivos do trabalho, metodologia e breve descrição dos itens seguintes, que incluem o desenvolvimento do texto e as considerações finais, escritas à guisa de conclusão.
2 BAIRRO SANTA TEREZA
Santa Tereza é uma acolhedora ilha urbana cercada de cidade por todos os lados.
Libério Neves