Diversa é a estratégia de Vera Duarte, que por meio de monólogos interiores, utiliza-se das ações das personagens para entrever o espaço caboverdiano. A obra apresenta raríssimas descrições e não há focalização no cenário. A predominância das ações narrativas constrói a apresentação do arquipélago a partir dos questionamentos de Marina, e o foco narrativo ora nos permite analisar personagem e espaço à distância para melhor compreendê- los, ora acompanhar “com” a visão da personagem a avaliação de si e do mundo:
Marina passeia pela marginal. Saboreia lentamente, já com um sabor de despedida no ar, esse pedaço de paraíso nocturno que liga o cais acostável ao cais da alfândega. A noite está clara e uma lua magnífica ilumina as águas mansas da incomparável baía do Mindelo (AC, p. 27).
A descrição do porto caboverdiano e as impressões do narrador sobre esse espaço de trânsito entre Cabo Verde e o mundo conferem à obra a possibilidade de melhorias para o povo desse arquipélago, uma vez que, pelo porto/cais, esse homem se vê na diáspora; pois por esse espaço se chega ao mar, visto pela autora como:
a única paisagem que não frustra Cabo Verde, porque, infelizmente, Cabo Verde tem muitos problemas com a seca e está sempre a espera da chuva que não vem [...] O mar é sempre aquela paisagem bonita (cf. entrevista, anexo).
Vale lembrar que, como em A árvore das palavras, a imagem do porto e das embarcações são frequentes para Marina, pois nas duas obras, a imagem desse espaço metaforiza o trânsito/diálogo das culturas caboverdianas e moçambicanas com o mundo, além de, especificamente, Cabo Verde encontrar na diáspora meios do sustento da nação.
É claro que a cada insistência dos colegas para que tomasse parte nos jogos e nas brincadeiras tão animadas que iam acontecendo, ela dava sempre uma desculpa esfarrapada, que estava indisposta, que mais logo sim e afastava-se para a proa do navio, deixar-se entorpecer ainda mais pelo fascinante azul do mar-e-céu (AC,p.23, grifos nossos).
Dessa forma, a autora concebe a paisagem caboverdiana também como personagem central da obra, sobretudo os portos do arquipélago, que personificam muitas histórias de seu povo acumuladas durante todo processo de formação, uma vez que paisagem “é, pois, um sistema material e, nessa condição, relativamente imutável: o espaço é um sistema de valores, que se transforma permanentemente” (SANTOS, 2008, p. 104).
Diante dos espaços de reflexão no romance A candidata, “a proa”, junto ao mar, configura o discurso (muitas vezes) ensaístico do narrador e o monólogo interior da protagonista, que é sempre tomada por um “torpor” nesse seu tempo de lembrar, ou melhor dizendo, neste tempo sempre de “larvar” (AC, p.50), de conscientizar sobre a identidade feminina que sofre drásticas mudanças em meio aos tumultuados anos sessenta do século XX.
A geração de Marina já não queria a salvação individual. Penduradas por aí, uns quantos nomes ao longo da história davam-lhe a confortável certeza que afinal as mulheres sempre existiram. Dos confins da história, em ondas e odes de beleza, eternizou-se o nome de Safo pelo dom da poesia. A rainha Ginga ficou gravada pela arte de governar num continente onde os nomes se perderam. E pioneira, Eva Curie simbolizava que a ciência antes não se escrevera só no masculino (AC, p. 50).
Marina, por sua vez, em busca da formação de sua identidade e da identidade da nação caboverdiana, percorre vários espaços. Nessa trajetória engravida de seu amigo e companheiro angolano Dauto, o que pode metaforizar a projeção diaspórica da nação caboverdiana, pois Djamilia, assim chamada, é filha de angolano, concebida em Portugal, nascida em Estocolmo, vive em Conacry, parte para Holanda, onde é assumida pelo caboverdiano (Pedro) e chega a Cabo Verde. Já adulta, casa-se com um angolano, tem dois filhos e vai morar em Angola, onde reencontra o pai (Dauto).
Tais situações tornam ainda mais significativo o fato de a obra iniciar-se com a protagonista em meio ao Atlântico – em trânsito – entre Cabo Verde e Portugal.
Sobre este ponto ainda, podemos também conceber o porto, o cais, como espaço em que a protagonista amadurece internamente, nos âmbitos pessoal e social; a primeira relação sexual de Marina, ocorrida com Pedro no cais da alfândega, ilustra a importância deste espaço para a sua trajetória; lembremos que também neste local Pedro em breve será preso pela PIDE, ao tentar sair de Cabo Verde como clandestino em um barco rumo a Dakar, onde se aliará ao PAIGC e depois rumará a Guiné.
Detrás do velho guindaste ferrugento do cais da alfândega, testemunha muda dos encontros amorosos e parceiro atento dos jogos infantis, Marina entregou-se a Pedro, na cúmplice escuridão de uma noite acabada de cair, que o céu estrelado e o barulho das ondas transformara em encantatória noite nupcial (AC, p.29-30).
O porto e o cais representam sempre (confira-se o nome da protagonista _ Marina) um espaço-borda, em que são gestados relativos à vida da nação que se refletem na vida pessoal da protagonista: por exemplo, a noite nupcial
com o homem amado também representa a noite do pacto social, aquele que contribuiu para decidir inúmeros destinos, como o de Marina, o de Pedro, o do país em luta pela libertação. O eterno que Marina acredita ser Pedro também pode significar o sempre desejado retorno dos caboverdianos que vivem na diáspora ao arquipélago originário.
Com o intuito de apresentar o porquê do trânsito de Marina para outros espaços, motivos sempre relacionados à melhoria da situação nas ilhas, narrador a situa, por exemplo, em Lisboa espaço do colonizador:
Havia um mês que Marina chegara a Lisboa e o seu pensamento não conseguira ainda afastar-se um pouco que fosse da incrível tragédia que precipitara a sua vinda para Portugal a fim de fazer o curso de assistente social ‘para poder ajudar a resolver os problemas das gentes de São Vicente’ como ela sempre pensara (AC, p. 31, grifo nosso).
A marcação dos distanciamentos espaciotemporais permite-nos acompanhar o percurso da protagonista, sobretudo por meio de suas lembranças. As ilhas caboverdianas são (re)visitadas pela memória, com o objetivo de recompor as histórias acumuladas sobre o espaço da crioulidade. E a distância permite compreender as verdadeiras intenções do tio Joãozinho, já que:
[Em Lisboa], agora uma distância considerável e com um maior conhecimento das coisas e dos sentimentos ela via mais claramente quem fora o tio. Inconformado com o estado das coisas reinantes nas ilhas, com o abandono a que as mesmas se encontravam votadas pela administração colonial que não via nelas qualquer riqueza para explorar, não descobrira os caminhos coerentes de saída, as saídas possíveis não o aliciaram o suficiente ou então não tinham sido possíveis para ele (AC, p. 43).
Em A candidata, embora sejam raros os espaços internos descritos75, o quarto de Marina em Cabo Verde aparece também como um microespaço de reflexão, pois é ali que compreende o fim de seu casamento com Pedro:
Naquela noite de sábado quando o marido lhe disse de uma forma desabrida que ela não tinha nada que perguntar-lhe para onde é que ele ia, sozinha na sua cama de casal, às quatro
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horas da madrugada sem conseguir dormir e com os olhos inchados de uma longa noite de choro, de raiva, de impotência e mágoa, Marina começou a tomar consciência de três coisas: que aquele casamento afinal e como tantos outros também podia acabar, que era capaz de dormir sem a presença do marido e que ao ter querido sair naquela noite não era a companhia do marido que procurara mas uma hipótese de ver o Vasco, ainda que de longe (AC, p. 87).
Quando Marina retorna, casada com Pedro, a Cabo Verde e não aceita a direção tomada pelos dirigentes do PAIGC, a protagonista decide distanciar- se da política por um tempo, o que ocasiona profundas reflexões existenciais, além de culminar com a traição por parte do marido, o que pode ser lido, como já mencionado no capítulo de análise de A candidata, como metáfora de sua desilusão no âmbito individual e coletivo.
4.3. Convergências e dissonâncias em A árvore das palavras e A