Segundo Kingdon (2006), a abertura da janela de oportunidades pode ser muito imprevisível, pois os governos nem sempre são capazes de vislumbrar as possibilidades de ações que esse tipo de processo proporciona. A janela uma vez aberta “constitui uma oportunidade para que os defensores de uma determinada causa ofereçam soluções [...] (entretanto) as janelas não ficam abertas por muito tempo. Se uma chance for perdida, é preciso esperar outra.” (2006, p. 236-237).
No geral, a pauta das manifestações de 2013 foi atendida e colocou em debate a prioridade do transporte coletivo na cidade. O sucesso do MPL foi de influenciar e colocar a discussão do transporte acima de outros temas já tão explorados, como saúde e educação, num cenário em que grande parte da população e da mídia rejeitam investimentos em ônibus e culpam o governo municipal pelos congestionamentos e tráfego gerados pelos carros, como consequência da falta de investimentos no sistema viário. Por outro lado, a prefeitura soube aproveitar a janela de oportunidades que se abriu, dando uma resposta imediata com a ampliação de ações voltadas para o setor. Com isso, ela amenizou e vem amenizando críticas à prioridade ao transporte coletivo, pois ela “apenas” está respondendo a uma reivindicação das ruas.
É possível afirmar que o grande mérito do MPL foi possibilitar a abertura da janela de oportunidades para que a prefeitura pudesse executar as políticas públicas que desejava; também é importante reconhecer que o movimento e todos os demais manifestantes engajados nas ruas ou nas redes sociais tiveram papel fundamental para pautar com prioridade a agenda de decisões do governo municipal. Entretanto, para o bem ou para o mal, as ações da grande mídia –- por mais que caminhassem, primeiramente, na direção de interesses exclusivamente privados — e as ações desastrosas da política militar, impulsionaram e deram força para que as manifestações de junho alcançassem objetivos além do esperado. Assim, “o MPL mostrou- se capaz de influenciar diretamente nas decisões de políticas públicas e serve como exemplo na luta por melhorias, pois foi feita de forma consciente, com participantes requisitando seus direitos por uma causa justa” (BIDERMAN, 2013, p. 57), tendo as redes sociais, conforme dito anteriormente, como principal instrumento de organização e empoderamento dos protestos.
A política de transportes entrou na pauta de discussões como um dos problemas a serem enfrentados pelo Poder Público. A sociedade terá de entender que os deslocamentos deverão ser realizados, prioritariamente, por meio de transportes coletivos e não-motorizado, e o transporte individual deverá a cada dia perder seu privilégio numa cidade onde “uma pessoa se deslocando de automóvel consome estaticamente quase oito vezes o espaço de uma pessoa se deslocando de ônibus (horário de pico)” (VASCONCELLOS, 2000, p. 42). Desta forma, pode-se alcançar a melhoria do sistema de transportes e estabelecer espaços públicos de uso
justo e com equidade, pois “se quisermos mudar o ambiente urbano, os pedestres, os ciclistas e o transporte público precisam ter maior participação nesse espaço” (BIDERMAN, 2013, p. 54).
Se o ano de 2013 foi marcado pela implementação das faixas exclusivas de ônibus, o ano de 2014 foi marcado pelo início da implementação de 500 quilômetros de ciclovias por toda a cidade, deixando disponíveis cerca de 200 quilômetros de vias exclusivas para os ciclistas, frente a poucas dezenas de quilômetros existentes na capital até então.
O governo municipal, claramente, ao contrário do governo estadual, aproveitou a abertura da janela de oportunidades, após as manifestações de junho de 2013, para executar ações com mudanças significativas na mobilidade urbana a fim de alterar o status quo do uso do transporte individual e rejeição pelo uso coletivo e plural do espaço público. É preciso compreender que a janela de oportunidade que se abriu no passado está sendo, mesmo que aos poucos, fechada.
O final de dezembro de 2014 foi marcado pelo anúncio do aumento das tarifas dos ônibus, metrô e trem, para o exercício seguinte. Novamente, o MPL iniciou os grandes atos contra o aumento da tarifa logo na primeira semana de 2015. Houve 7 grandes atos que ocorreram entre 9 de janeiro a 6 de fevereiro e registraram, em média, 5 mil pessoas por ato, sendo que o primeiro foi o maior deles com cerca de 20 mil pessoas. Ao contrário do que ocorreu em junho de 2013, as manifestações de janeiro não tiveram o mesmo sucesso e comoção da população. O cenário era muito diferente entre elas, acredita-se que o período pós eleitoral sem significativas mudanças nos governos, a falta de ações do governo estadual à política de mobilidade urbana, crises na gestão do saneamento básico e de energia elétrica, casos de corrupção, entre outros fatores, desfocaram ou reduziram a pauta da revogação do aumento pelo senso comum. O que é preocupante, pois se a luta contra o aumento de 20 centavos gerou tamanha repercussão, depois com aumento de 50 centavos os atos não surtiram tamanho efeito. Foram noticiados apenas quando houve dispersão dos manifestantes pela PMESP, que apenas no último ato não registrou qualquer conflito.
Outro fator importante que pode ser considerado na justificativa de redução do impacto das manifestações de janeiro, foi a adoção da gratuidade aos estudantes de escolas públicas,
bolsistas e de baixa renda, mesmo considerando que o maior impacto está nos trabalhadores informais que pagam passagem inteira. Há também um impacto indireto nessa decisão do governo de adotar a gratuidade, uma vez que há casos de trabalhadores que deixam de pagar a passagem dos seus filhos.
O esgotamento das manifestações de janeiro e a redução do apoio às ações voltadas à mobilidade urbana, como as crescentes críticas à implementação das ciclovias na cidade, evidenciam o fechamento da janela de oportunidades que a prefeitura usufruiu nos últimos 18 meses, o que é temeroso, tendo em vista que um novo edital de licitação para concessão do transporte por ônibus tem previsão para ser lançado no primeiro semestre de 2015. Em princípio, grandes mudanças deveriam ser inseridas nos contratos e, sobretudo, apoiadas pela população para vislumbrar definitivamente uma melhoria na qualidade do serviço de transporte. Sendo assim, é possível que não haja outra oportunidade, e o governo municipal e a população devem estar cientes da importância de um avanço considerável no modelo de concessão vigente. Assim, as propostas de possíveis mudanças são apresentadas a seguir.