É uma das categorias primordiais na teoria freireana, pois o diálogo é um instrumento para a educação radical, para a libertação das mulheres e dos homens do efeito perverso da manipulação, da discriminação, da opressão, da alienação [...] Para Freire (1985, p. 69) “quem dialoga, dialoga com alguém sobre alguma coisa.”
É uma relação horizontal de A com B. “Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Nutre-se do amor, de humildade, de esperança, de fé, de confiança. Por isso, somente o diálogo comunica. [...] É uma relação de empatia na procura de algo.”(FREIRE, 1985, p. 68).
Apresenta Freire (1980, p. 107) o esquema para a Teoria Dialógica: O diálogo existe porque os dois pólos se fazem críticos na busca de algo.
A──B = Diálogo / Comunicação/ Intercomunicação
A↔B Relação de simpatia entre os polos em busca de algo.
A contradição da Teoria Dialógica é a Teoria Antidialógica, pois é no diálogo que nos opomos ao antidiálogo:
O antidiálogo que implica numa relação de A sobre B [...]. É desamoroso. Não é humilde. Não é esperançoso; arrogante; auto-suficiente. Quebra-se a relação de ‘empatia’ entre os polos, que caracteriza o diálogo. Por tudo isso o antidiálogo não comunica. Faz comunicados. (FREIRE, 1980, p.69).
E na sequência Freire (1980, p.108) apresenta o esquema para Teoria Antidialógica: A
A↑ │
B↓ B = Comunicado
A pedagogia antidialógica caracteriza-se por uma relação de verticalidade entre o educador e o educando, em que o educador é o sujeito e o educando o objeto. Na pedagogia dialógica a relação entre o educador e o educando se caracteriza por ser uma relação de respeito horizontal, visto que ambos são sujeitos do ato cognoscente. Requer um diálogo autêntico, uma interação entre educador e educando. Como define Freire: “Embora diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado.” (FREIRE, 2007, p. 23).
Para a teoria dialógica em Paulo Freire, a palavra verdadeira é práxis. Freire (2009, p. 89) apresenta o esquema da palavra verdadeira como:
(ação)
Palavra --- = Práxis
A manifestação da palavra é inautêntica ao sacrificar a ação, portanto a palavra se torna um blablabá, ou a palavra também é inautência ao sacrificar a reflexão, é uma manifestação que leva ao um ativismo. Ambas negam a práxis verdadeira logo, impossibilitam o diálogo. “É que o diálogo não pode travar-se numa relação antagônica.” (FREIRE, 1988, p. 43).
O esquema da palavra inautêntica, segundo Freire (2009, p. 89) é: (da ação) = palavreria, verbalismo, blablablá Sacrifício ---
(de reflexão) = ativismo
Acrescenta Freire (2009, p.90) que “a existência porque humana, não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco pode nutrir-se de falsas palavras, mas de verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. [...] Dizer a palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens.”
Então a palavra verdadeira é alimentadora do diálogo verdadeiro que corresponde a uma educação verdadeira, pois a educação é comunicação, é diálogo “na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados.” (FREIRE, 1988, p. 69).
O autor destaca: “A educação autêntica, repitamos, não se faz de ‘A’ para ‘B’ ou de ‘A’ sobre ‘B’, mas de ‘A’ com ‘B’, mediatizados pelo mundo.”(FREIRE, 2009, p. 97) . Este é um dos pré-requisitos da educação libertadora.
Por outro lado, Freire (2007, p. 81) reforça que é preciso estar ciente de que nessa prática radical,
a dialogicidade não nega a validade de momentos explicativos, narrativos em que o professor expõe ou fala do objeto. O fundamental é que professor e alunos saibam que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve. O que importa é que professor e alunos se assumam epistemologicamente
curiosos.
O diálogo verdadeiro é constitutivo para educação libertadora, pois o “diálogo é o encontro amoroso dos homens que mediatizados pelo mundo, o pronunciam, isto é, o
transformam, e, transformando-o, o humanizam para a humanização de todos.” (FREIRE, 1988, p. 43). O diálogo é o caminho pelo qual as mulheres e os homens pronunciam o mundo conforme a maneira de vê-lo, de pensar e, este deve estar em consonância com o modo de agir humanizador. O diálogo também é um caminho para pronunciar a sexualidade, exige um pensar verdadeiro direcionado à realidade sexual. Esta se constitui por meio de um processo dinâmico e histórico e, não como algo estático que não precisa ser pensado ou modificado para contemplar a liberdade, ou a busca de ser mais, ou a busca de um ser mais sexuado.
Diante da relação dialógica é que mulheres e homens se educam no mundo e com o mundo, pois “ninguém educa ninguém, como também ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo.” (FREIRE, 2009, p. 79). E é através do diálogo horizontal, ou seja, da relação de respeito e de intercomunicação que surge a interação entre os sujeitos, entre os seus saberes e suas experiências. É na relação dialógica que o movimento da “práxis” é potencializado, e que a visão de mundo, a percepção de mundo de cada ser humano pode ser ampliada e mudada, além ter uma ação transformadora sobre mundo. Mundo este sempre parte e fruto das relações sociais sempre sexuais.
E é através da relação dialógica que se processa a conscientização. Segundo Freire (2007, p. 54) “a conscientização não é uma panacéia, mas como um esforço de conhecimento crítico dos obstáculos, vale, dizer de suas razões de ser.” A conscientização não é somente repetir de maneira mecânica o que está dado referente a moral sexual vigente em nossa sociedade, mas necessário se faz pensá-la, recriá-la, isto é, ir em busca de uma nova moral sexual, ou seja, criar uma existência sexual mais humana com o material relativo às questões sexuais que a vida lhe oferece. É necessário que mulheres e homens se percebam como seres sexuados no mundo e com o mundo.
Freire (1980, p. 59) propõe uma educação reflexiva: “Uma educação que lhe propiciasse a reflexão sobre seu poder de refletir e que tivesse sua instrumentalidade, por isso mesmo, no desenvolvimento desse poder, na explicação de suas potencialidade, de que decorreria sua capacidade de opção.”
Penso que a educação sexual intencional que busco construir está embasada nos preceitos freireanos. Um dos princípios que destaco no sentido da emancipação do ser
humano é quando o ser humano, ao se reconhecer inacabado historicamente, investe numa busca constante, portanto o inacabamento gera a curiosidade e, esta promove a educação.
A Educação radical é comunicação, é diálogo. É possibilidade de emancipação das mulheres e dos homens através da conscientização do mundo e da “consciência de si como ser inacabado” (FREIRE, 2007, 57). Mas para completude da conscientização tem que haver ação para transformar, para lutar.
(Cont. da página 94 )
Normalmente eu levaria quinze minutos para chegar à igreja. Mas passava uma hora rodando para cá, para lá. Quando ia chegando
minha vez na fila do confessionário, eu cedia lugar a uma senhora e ela me dizia: que criança
educada!"Nada disso. Eu tinha era medo de confessar. Finalmente, chegava minha vez, não sabia para onde ir. Eu me ajoelhava e contava de
novo a história. O padre, que era um grande maestro, um grande músico, entendia bem a situação. Me dava penitências pequenas; rezar uns três padre-nossos, três ave-marias. A volta para casa era uma maravilha. Eu saía pulando, correndo, cantando, assobiando, cheio de alegria;
a esperança renascia, a certeza de que eu prestava voltava. No domingo eu jogava um futebol excelente; na segunda bem firme; na terça não muito, na quarta eu estava de novo na
touceira à beira do rio. E como isso refletiu no educador? Essa pergunta coloca a questão do desejo. O educador não pode passar por cima dos desejos,
não pode escondê-los, não pode traí-los, não pode punir o desejos, nem punir os que desejam. O que a pedagogia tem que fazer é compreendê-
los, tentar ver os caminhos de solução legítima para eles. Ao abafá-los, negá-los ou discriminá- los estamos interditando o corpo. Eu continuo sendo um homem para quem a sexualidade não apenas existe mas é importante, fundamental. A
minha sexualidade tem a ver com os livros que eu escrevo, com o amor que eu tenho à vida. Se,
de repente, me sentir faltoso da sexualidade, o que vai acontecer um dia, espero já estar
absolutamente preparado.
Não foi por acaso que, quando secretário, [...]. Cerca de 5 mil adolescentes transaram a compreensão crítico-amorosa de seus corpos e,
com isso, melhoraram seu desempenho com relação à História, à Geografia, à Matemática etc. É que no fundo a sexualidade, sem querer chegar a nenhum reducionismo, tem muito de centro de
nós mesmos. Uma coisa é a sexualidade do fenômeno vital, do animal. A outra é a sexualidade que se inventa, que vira jogo, que
vira brinquedo. O estudo da sexualidade não pode ser reduzido à pura descrição fisiológica do corpo. É, sobretudo, um grito em torno do direito
de gozar. Eu nunca tinha dito isso. Foi bom
dizer. (FREIRE,1992a ). 28