Na sequência do que atrás procurámos sistematizar, conclui-se que, do processo de subordinação nominal em geral, resulta um único tipo de frase complexa, em que, segundo a formulação proposta em Deschamps (1997), “[...] il y a une véritable imbrication de deux propositions (imbriquante / principale, et imbriquée / subordonnée) au sens où la complétive vient s‟intégrer dans la principale en position de sujet212 ou de complément du verbe recteur, d‟où l‟idée de
nominalisation” (idem, ibidem: 60)213.
211 Sem pôr em causa as dificuldades inerentes a uma classificação, qualquer que seja
ela, de predicados ou verbos (ver § 2.3), esta classificação, proposta em Deschamps (2001) e baseada num critério que se prende com as operações que as diferentes noções lexicais verbais marcam (operações definidas a um nível nocional, portanto), parece-nos constituir uma forma teoricamente fundada de designar a classe de verbos cujo funcionamento nos propomos estudar, assim como outras classes de verbos, distintos daqueles mas que não deixaremos de referir quando oportuno. De hora em diante, adoptamos, por comodidade de referência e pela coerência teórica, a designação de verbos de pensamento ou verbos conceptuais para designar os verbos pensar, julgar, crer, achar, supor e acreditar, assim como as designações de verbos de percepção (ver, sentir, ouvir...), de verbos declarativos (dizer, declarar...) e de verbos apreciativos (gostar, detestar, apreciar...).
212 A possibilidade aqui referida - de construção de frases complexas que comportam
uma subordinada nominal com a função de sujeito ao nível da proposição subordinante - corresponde a uma configuração em que a proposição subordinada instancia um lugar argumental (neste caso, de índice 0 (C0)) do esquema abstracto associado à relação
predicativa correspondente à proposição subordinante. Em Wyld (2001: 9), propõe-se um conjunto de exemplos do inglês que ilustram esta configuração, conforme passamos a transcrever (sublinhados do autor):
Propostos por Deschamps (ibidem), o termo “imbrication” (imbricação) e a decorrente designação – como “imbriquante” (imbricante) e “imbriquée” (imbricada) - dos dois termos (duas relações predicativas) da relação complexa que se estabelece afiguram-se-nos preferenciais a termos e designações a que tradicionalmente se recorre, como encaixe ou subordinação, proposição
subordinante ou incidente, estrutura matriz ou principal, e proposição subordinada
ou encaixada214. Os termos relação imbricante e relação imbricada - que, portanto,
“That they will win is unlikely (completive)
It‟s unlikely that they will win (completive extraposée)
It‟s amazing how much they made you pay (subordonnée exclamative) […]”
Como, aliás, em inglês ou em francês, também em português esta configuração só se verifica quando o predicado da proposição subordinante é de natureza adjectival. Torna-se, por isso, menos pertinente dedicar-lhe mais do que uma breve referência, quando, no âmbito deste trabalho, nos propomos estudar um número restrito de predicados verbais, susceptíveis de integrar uma proposição subordinante cuja subordinada nominal - comportando uma forma verbal finita e, portanto, introduzida por que ou introduzida por se, ou comportando uma forma verbal não finita - instanciam um lugar argumental de índice 1 (C1) do esquema abstracto associado à relação predicativa.
213 Embora formulada de diferentes maneiras (porque a partir de pressupostos teóricos
diferentes), esta concepção parece estar presente fora do quadro da TFE e mesmo da linguística da enunciação em geral. Refiram-se, nomeadamente, algumas das abordagens generativistas destas estruturas: R. B. Lees ([1960] 51968 The Grammar of English
Nominalizations, Mouton, The Hague), P. S. Rosenbaum (1967 The Grammar of English predicate Constructions, M.I.T. Press, Cambridge, Mass.), J. Bresnan (1970 “On Complementizers: Toward a Syntactic Theory of Complement Types” in Foundations of
Language 6; 1972 Theory of Complementation in English Syntax, Ph.D. Thesis, M.I.T.
Press, Cambridge, Mass.), E. Williams (1975 “Small Clauses in English” in J.P. Kimball (ed.)
Syntax and Semantics, vol. IV).
214 Mesmo entre os estudos da subordinação que se situam no quadro da TFE, apesar
de algum consenso quanto à descrição conceptual das operações em causa, não há unanimidade quanto à terminologia a adoptar. Em Wild (2001), por exemplo, opta-se pela manutenção do termo encaixe (“enchâssement”), que alterna com o termo subordinação (“subordination”), designando-se as duas relações predicativas como estrutura encaixante (“structure enchâssante”) e subordinada (“subordonnée”). Em Chuquet (2001), recupera-se a terminologia proposta em Deschamps (1997) – “relation imbriquée” e “relation imbriquante” – para se propor, respectivamente, “P1” e “P2”.
adoptaremos - expressam de forma mais fiel uma relação não fundada num princípio de subordinação, enquanto relação de dominância hierarquicamente definida. Além disso, uma vez que cada um dos termos da relação predicativa complexa constitui, em si mesmo, uma relação predicativa, parece-nos mais adequada a opção pela designação de relação em detrimento de proposição215,
embora não deixe de ser possível, a propósito da definição de relação predicativa, afirmar-se que esta corresponde a um conteúdo proposicional216.
Ao nível da predicação - isto é, ao nível da construção da relação predicativa -, coloca-se a questão da natureza das relações que estão em causa na imbricação das duas relações predicativas, imbricante e imbricada. A série de relações possíveis (cuja formalização é proposta em Deschamps (ibidem))217, depende do
tipo de relações primitivas definidas pelo verbo introdutor - identificação / diferenciação, localização e teleonomia (ou intencionalidade). Por conseguinte, os vários tipos de estrutura resultante divergem entre si quanto aos fenómenos de localização dos diferentes lugares argumentais de cada uma das duas relações predicativas. De forma mais particular, é a instanciação ou a não-instanciação dos
215 O termo relação predicativa explicita a forma preferencial de se encarar cada um
dos termos que compõem uma relação de imbricação: imbricante e imbricada correspondem a relações predicativas, isto é, a objectos metalinguísticos, conceito teoricamente distinto daquele que, no domínio da lógica, se designa com recurso ao termo já sobrecarregado de proposição e, por isso, quantas vezes, designando um objecto outro que não metalinguístico (por exemplo, na lógica clássica, articulação de um sujeito com um predicado; em Kant, correspondente a um juízo; em Wittgenstein, expressão de um estado de coisas).
216 Embora designe o produto das relações entre a r, r b e a b (a que corresponde,
portanto, um conteúdo proposicional), a expressão “relação predicativa” designa também o estabelecimento da relação em si mesma. Conforme se observa em Culioli (1982 (também
in 1999a: 98)): “[...] quand nous parlons de repérage, nous renvoyons à la fois à la constitution d‟une relation et à la relation constituée. Il n‟y a pas danger à cette confusion courante [...], à condition que l‟on soit conscient, et que l‟on sache distinguer, chaque fois que ce sera nécessaire, la relation de l‟opération qui la construit”.
217 Referindo-se apenas às diferentes classes de predicados verbais, Deschamps não
faz qualquer referência aos predicados adjectivais (com valor modal epistémico ou apreciativo), que, naturalmente, se enquadram nesta descrição da subordinação como relação de imbricação.
diferentes lugares argumentais da relação predicativa imbricada o critério que preside à distinção de cada uma das estruturas complexas resultantes dos diferentes tipos de relação de imbricação (ver Deschamps, ibidem: 65ss).
Genericamente definida enquanto relação de imbricação mediante a qual se dá a instanciação de um lugar ao nível predicativo, a subordinação deve perspectivar-se como um processo em que está em causa a construção da relação predicativa associada à relação imbricante.
No caso dos enunciados em que ocorrem as tradicionalmente designadas subordinadas de natureza nominal – que, no contexto deste trabalho, mais nos interessam – estamos perante uma imbricação de duas relações predicativas, mediante a qual a relação imbricada instancia, de forma particular, o lugar argumental de complemento objecto (C1) no esquema abstracto associado à
relação imbricante. É esta a estrutura predicativa que está na base, por exemplo, dos enunciados 4.1 a 4.4 (retomamos os enunciados 4.1 e 4.2, já anteriormente introduzidos)218:
4.1 A Ana acha que o Luís perdeu o combóio 4.2 Não sei se ele perdeu o combóio
4.3 Penso acabar o relatório amanhã
4.4 Os professores acreditam terem os Centros recebido verba (exemplo de Mateus et alii, 1989: 272)
Ao nível predicativo, enunciados que apresentam uma imbricação cuja relação predicativa imbricada corresponde a uma completiva com complementador
218 Com os enunciados aqui propostos, pretende-se ilustrar, de forma geral, a relação
de imbricação que, a um nível predicativo, está em causa, em comum, quando à relação imbricada correspondem os quatro diferentes tipos de completiva exemplificados. A este nível pré-enunciativo, são irrelevantes as diferentes possibilidades de coocorrência dos diferentes verbos introdutores com os diferentes tipos de completiva assim como a possibilidade ou impossibilidade de contraste dos modos indicativo e conjuntivo ao nível da relação imbricada quando o seu verbo se apresente na forma finita.
que (4.1) (ver § 6.1) ou com complementador se (4.2) (ver § 11.2) (ambas com a
forma finita do verbo da relação imbricada) ou a uma completiva com infinitivo impessoal (4.3) ou pessoal (4.4) (ver § 10) são metalinguisticamente representáveis pela seguinte formalização:
<1 A R <0 a r b 0> 1>219
Embora se opte, na exemplificação acima proposta, pelo recurso, por enquanto aleatório, a quatro dos verbos conceptuais cujo estudo pretendemos aprofundar (que, nocionalmente, definem uma relação de localização conforme se descreveu no sub-capítulo anterior), a mesma estrutura predicativa (e, portanto, a mesma representação metalinguística) é extensiva a enunciados cujos verbos da imbricante definem nocionalmente uma relação de localização de outros tipos (ver § 4.1). É o caso de verbos perceptivos, como ver, de verbos declarativos como dizer, ou apreciativos como gostar, cujos enunciados também têm na base - ou seja, a um nível predicativo - uma imbricação de duas relações predicativas, em que a relação imbricada instancia o lugar argumental de complemento objecto (C1) no seio do
esquema abstracto associado à relação imbricante.
Correspondendo a um processo que se dá ao nível da construção da relação predicativa associada à relação imbricante, a subordinação é, por outro lado, perspectivável como um dispositivo de marcação de operações ao nível da determinação enunciativa da relação predicativa complexa, marcando a determinação de valores temporais, aspectuais e modais do enunciado.
219 Conforme se propõe em Deschamps (1997: 66), representa-se
metalinguisticamente a relação predicativa imbricante (de índice 1) com maiúsculas e a relação predicativa imbricada (de índice 0) com minúsculas. Como se propõe em Culioli, cada relação predicativa (necessariamente orientada) é representada entre parênteses em ângulo (< >).