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OVERSIKT OVER FIGURER

6. DATAANALYSE OG HYPOTESETESTING

6.4. Sammendrag og diskusjon

O escritor italiano Italo Calvino, em seu livro Seis propostas para o novo

milênio, apresenta no primeiro capítulo algumas ideias sobre o conceito leveza.

Entende que as virtudes da leveza deveriam ser levadas para esse milênio e situa a busca da leveza como “reação ao peso do viver”42. Ao final do texto, Calvino oferece exemplos presentes na literatura mundial de como o ato de voar nas escrituras relaciona-se a alguma precariedade, doença ou privação e

42 CALVINO, Italo. Seis propostas para o novo milênio: lições americanas. São Paulo: Cia

50 permite que notemos o nexo existente entre a levitação desejada e a privação sofrida (CALVINO, 1990, p. 40).

Arrisco-me aqui a apontar esse mesmo nexo na escolha da imagem de um pássaro voando para ser o símbolo de um atelier infantil fundado na década de 1970, dado que, nesse momento, todo país vivia a consolidação de um regime autoritário militar, quando os mecanismos de repressão e censura continuavam em plena atividade.

De acordo com as ideias do pedagogo Daniel Revah, em seu ensaio A

educação Alternativa43, nessa mesma década, quando se sentiu nos setores de

esquerda as trágicas consequências do endurecimento do regime, a ideia de revolução que pautava aqueles discursos começou a perder força (REVAH, 2005, p. 164). Assim, o campo da cultura e da educação anunciavam-se então como terrenos possíveis para se experimentar mudanças de comportamentos, de modos de ser e agir e de questionar o sistema predominante. Dessa forma, de acordo com este autor, o modo de fazer política verificou-se também em um plano mais localizado, circunscrito às possibilidades de transformações do dia a dia, do cotidiano.

Nesse meio, e por iniciativa de jovens críticos ao regime e sensíveis aos valores da esquerda e da contracultura44, surgiram as chamadas escolas alternativas. Alternativas, segundo Revah, “porque apresentavam um caráter não oficial ou paralelo, em relação ao Estado, ou ao mercado adquirindo também o sentido de algo marginal (...)” (REVAH, 2005, p. 159). O autor destaca que a utilização do qualificativo alternativo aparentemente ficou limitada a discussões realizadas por intelectuais e jovens de esquerda pertencentes às camadas médias, que não estavam necessariamente

43 REVAH, Daniel. A Educação Alternativa. In Anos 70: Trajetórias. São Paulo: Iluminuras /

Itaú Cultural, 2005. O texto é fruto do ciclo de discussões e palestras que integrou o evento multidisciplinar ”Anos 70: Trajetórias”, produzido e apresentado no Instituto Itaú Cultural em 2001.

44 Segundo Claudio Novaes Pinto Coelho, podemos definir a contracultura no Brasil como “um

movimento social que buscou romper com a modernização da sociedade brasileira posta em prática de forma autoritária pela ditadura militar”. O movimento, de caráter pluridimensional, questionava a racionalização da sociedade e dava ênfase a temas como a subjetividade, loucura e construção de comunidades alternativas (COELHO, Claudio Novaes Pinto. A Contracultura: o outro lado da modernização autoritária. In Anos 70: Trajetórias. São Paulo:

51 envolvidos com as iniciativas do campo popular (REVAH, 2005, p. 160). Conforme explica Revah ao discorrer acerca da educação popular, das escolas comunitárias e das escolas alternativas em São Paulo nessa década: “tratava- se de avançar e produzir mudanças, por menores que fossem, no âmbito em que isso era possível” (REVAH, 2005, p. 164).

Em sua pesquisa, Revah também comenta que boa parte dessas pré- escolas de São Paulo surgiram em meados dos anos 1970 e início dos anos 1980. Dentre elas, para citar alguns nomes havia o Criarte, de 1972; Fralda Molhada, Poço do Visconde e Pirâmide, essas últimas de 1975. Mais tarde essas escolas passaram por reconfigurações e mudaram de nome, como explica detalhadamente o autor em seu ensaio denominado A Educação

Alternativa.

De modo geral, Revah pontua que o que definia o perfil dessas escolas em seus primeiros anos era uma oposição ao ensino tradicional; a articulação entre as dimensões da política e da cultura; a valorização das experiências cotidianas; a liberdade para experimentar; e a valorização do que era marginal. Essas cinco características descritas por Revah também definiam o perfil da Escola Viva em seus primeiros anos. Como contraponto ao ensino tradicional, as idealizadoras da Viva pretendiam criar uma escola cuja linguagem oral e escrita não fossem o foco principal. Segundo Pavan, o ponto de vista das fundadoras era o de que “o brincar, a expressão corporal, e todas as formas de expressão tinham o mesmo valor”45. A articulação entre o campo da política e da cultura verificava-se então na valorização da expressividade durante a rotina das crianças, na relação de horizontalidade entre educadores e crianças, na organização de exposições abertas para a comunidade em geral.

Outro aspecto levantado por Revah em relação às “escolas alternativas” (e que também foi visto na Escola Viva) foi a valorização das experiências cotidianas. Nessa escola, convencionou-se definir a mesma rotina para todos os grupos (de diferentes faixas etárias), com momentos de “Trabalho Pessoal”,

52 “roda”, “lanche”, “quintal” e “atelier”. Durante esses momentos eram, e pela minha observação posso dizer que ainda são, valorizadas as descobertas feitas por crianças e pelos grupos relacionadas aos acontecimentos do dia a dia como: mudanças percebidas no quintal, comentários feitos nos ateliers, objetos ou informações trazidas de casa e compartilhadas na “roda”. É a partir da escuta dos interesses das crianças, conectados às descobertas cotidianas, que os educadores definem os temas que serão trabalhados pelos grupos ao logo do semestre ou do ano.

A liberdade para experimentar, de que também falou Revah, estava e continua presente na rotina da Escola Viva e do Atelier: Arte Expressão. O chão de terra do quintal do Ensino Infantil é, até hoje, comumente explorado pelas crianças de diferentes idades nos dias de chuva ou de sol. Sujar os uniformes de terra, tinta, cola ou areia também é algo autorizado e legitimado desde os anos 1970 por parte da equipe pedagógica que compõe a instituição. Um exemplo da valorização desta liberdade para experimentar pode ser verificado na imagem seguinte, que segundo Maria Ignez Americano, foi amplamente divulgada na escola no início de suas atividades46.

46

Entrevista concedida à Flora Figueiredo em março de 2014

Figura 6. Imagem de um cartão de final de ano distribuído na Escola Viva ao final da década de 1970. Foto de Flora Figueiredo. Cartão (em formato de pôster) disponível no arquivo pessoal de Marta Campos, 2015.

53 Sobre a imagem disse Maria Ignez Americano: “lembro-me de um folheto, que é a imagem da Marianna Dixo sentada, brincando na areia com os cachinhos todos. Essa imagem é forte. Eu me lembro de quando a gente escolheu. Ficamos até de madrugada escolhendo...” 47. Segundo Maria Ignez,

esta imagem foi usada como cartão de natal, como cartaz e teve grande circulação na escola48. De acordo com ela, esta imagem foi escolhida pelas fundadoras para ser divulgada, pois elas pensavam que esta “dizia muito sobre a escola”, por apresentar uma criança brincando e experimentando com água e areia.

Quem me concedeu imagem foi Marta Campos, uma das primeiras educadoras da instituição que, até o presente momento (2015), atua como coordenadora dos Núcleos Relacionamento com Famílias e Estética e Espaço

Físico na escola. Marta afirmou em entrevista que este cartão circulou na

instituição ao final dos anos 1970 e foi divulgado para todo o público da escola (pais, mães e funcionários)49. Segundo Marta:

Eu me lembro desta foto. Lembro que nessa época, tiramos uma série de fotos em preto e branco. Tá vendo que ela está de calcinha? A gente uma tinha banheira no pátio e as crianças viviam quase todo dia no verão, tomando banho de esguicho de calcinha e cueca. A gente punha o esguicho dentro da banheira e brincava com água. Daí eles faziam as lamas...50

E mais adiante, em entrevista, acrescentou:

E o mais legal era que o tanque de areia era um nada... E não precisa de muita coisa mesmo. Tá na experiência, não precisa de grandes estruturas, grandes... é dar espaço, dar valor para essa possibilidade... E era assim... Vamos brincar com água? Vamos! E todas as crianças tiravam a roupa, era parte do dia a dia... Mas hoje, você vê, se a gente tira foto disso, a gente já se preocupa com a imagem da escola nesse sentido. Mas naquela época era o contrário. Era a contracultura e pensávamos que era assim que precisava ser. 51

Entendo, portanto, que na imagem resgatada foi anunciado o sentido da liberdade em experimentar, que como apontou Revah, também se fez presente como valor nas escolas alternativas das décadas de 1970 e 1980.

47

Entrevista concedida à Flora Figueiredo em março de 2014.

48 Idem. 49

Entrevista concedida à Flora Figueiredo em março de 2015.

50

Entrevista concedida à Flora Figueiredo em março de 2015.

51

54 Sobre o contexto ditatorial, dos primeiros anos do Atelier: Arte Expressão e da Escola Viva , nos disse Heloisa Pavan:

E foi muito dolorosa essa vivência, foram épocas muito difíceis. Porque depois vieram todos os planos, e até acabar a ditadura e as coisas se estabilizarem, demorou. Foi um processo bem complicado de manutenção do nosso projeto. Durante esse período todo, muitas coisas aconteceram principalmente ligadas à cultura. E em relação às nossas atividades, resolvemos trazer isso para o trabalho do dia a dia, para uma escola regular52.

A partir dessa fala de Heloisa Pavan identifico que também para as educadoras dessa escola, a possibilidade de produzir mudanças estava localizada em um plano mais específico, mais precisamente na educação regular infantil e na possibilidade de trabalhar com a expressividade “que na época estava sendo tolhida”53.

Sobre o mesmo contexto, em entrevista nos disse Maria Ignez Americano: “nós vivíamos no auge da ditadura, onde você não tinha liberdade para nada, e a gente pregava a liberdade de escolha”54.

Então, até aqui, de acordo com as imagens apresentadas (Figuras 2, 3, 4, 5 e 6), documentos selecionados, memórias narradas e textos lidos posso destacar: a relevância das obras de Célestin e Elise Freinet como aporte teórico e prático para as ações desenvolvidas na mesma instituição; a importância dada à área de artes e à valorização das práticas de ateliers na instituição; a importância dada à livre expressão da criança; a valorização e o cuidado com os procedimentos artísticos implicados na criação da identidade visual da instituição; o constante diálogo com profissionais das áreas de arquitetura, artes e arte/educação durante os anos de criação do Atelier: Arte Expressão e da Escola Viva; a decisão de utilizar como o logotipo da escola uma imagem que se vincula à ideia de natureza; e a decisão de utilizar como logotipo da escola uma imagem que corresponde ao conceito de liberdade e leveza, em meio a um contexto de truculência e de regime ditatorial.

52 Entrevista concedida à Flora Figueiredo em julho de 2012. 53 Idem.

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