Esta dissertação procurou, por meio da análise de depoimentos de alunos que apresentavam trajetórias irregulares no Ensino Médio, analisar a relação entre suas condições familiares, escolares, sociais e profissionais pregressas e as reiteradas evasões e retornos ao Ensino Médio, bem como com as suas expectativas e destinos sociais.
Para tanto, a investigação foi realizada numa escola de nível médio da rede estadual de ensino de São Paulo, situada no município de Osasco e que, pela própria localização geográfica (região central do município) e pelo reconhecimento público de sua qualidade de ensino, se caracterizasse como uma unidade escolar que se configurasse como pólo de atração para alunos que buscavam no Ensino Médio algo mais que a simples certificação e, decorrente deste primeiro aspecto, contasse com alunado de origem social bastante diversa.
Assim, a pesquisa foi efetuada com alunos, professoras e coordenadora pedagógica do curso médio noturno da E. E. Professor Vicente Peixoto, localizada na região central do município de Osasco e que pode ser caracterizada como um misto entre “escola de passagem” (de alunos de bairros periféricos que, ao mesmo tempo, procuram escolas de melhor qualidade e que se situem próximas do local de emprego) e “escola de comunidade” (por atender alunos que residem nas suas proximidades).
Num primeiro momento, foram levantadas e analisadas, com base em dados quantitativos, as situações escolares de todos os alunos do Ensino Médio noturno da escola que apresentavam trajetórias irregulares, expressas por reiterados abandonos e retornos à escola, o que permitiu que fossem selecionados os quatro alunos que se prontificaram a oferecer seus depoimentos.
Além dessas entrevistas, como a coleta de dados complementares, foram realizadas entrevistas com duas professoras e a coordenadora pedagógica responsável pelo ensino noturno, com duplo objetivo: de
cotejamento de suas visões acerca das dificuldades desses alunos com os depoimentos desses últimos e as possíveis medidas tomadas pela escola na busca de soluções para esse problema.
O que se pôde constatar de todas as entrevistas com os alunos foi a extrema diversidade tanto de fatores intervenientes nessas trajetórias (familiares, escolares, sociais e profissionais), quanto de suas conseqüências nas expectativas e destinos sociais desses jovens.
Isto é, sob uma aparência de homogeneidade (caracterizada pelos abandonos e retornos reiterativos), o que se verificou foi uma grande diversidade de causas (problemas familiares complexos, condições de vida e capitais culturais de origem diferentes, etc.).
Podemos considerar, sem medo de erro, que o achado mais significativo reside exatamente na constatação de que, apesar do fracasso escolar expresso pelos abandonos e retornos reiterativos ao Ensino Médio exercer influência nas expectativas e destinos sociais dos jovens entrevistados, o que parece jogar papel decisivo é a origem social de cada um.
Nesse sentido, os dois rapazes, oriundos da classe média local, mesmo enfrentando graves problemas familiares, exatamente por serem originários dessa camada social, apresentam tanto situação social já alcançada quanto expectativas que não estão estritamente relacionadas à sua escolarização, pois que, mesmo possuindo somente o ensino obrigatório e apresentando situação de fracasso no Ensino Médio, estão alcançando posições sociais que impedem a sua desclassificação social.
Contrariamente, as duas moças apresentam tanto destinos quanto expectativas sociais muito mais rebaixadas. Enquanto que uma delas, apesar de ter apresentado o melhor desempenho de todos no ensino elementar, conseguiu se inserir como operária qualificada (costureira) e não possuir qualquer expectativa maior do que essa, a segunda tem como expectativa algum tipo de trabalho que evite o mesmo destino da mãe, a de ser faxineira.
Assim, os dados coletados nos mostraram que não só os fatores intervenientes nessas trajetórias irregulares foram muito distintos entre si como,
especialmente, expressaram o valor relativo que o fracasso escolar assim expresso teve em relação à construção de um destino social e das expectativas desses jovens sobre perspectivas futuras de vida.
Por outro lado, a escola, aqui representada pelas duas professoras e pela coordenadora pedagógica, ao tratar todos esses alunos como iguais, não reconhecendo as especificidades dos problemas de cada um e operando uma seleção que sanciona e consagra as desigualdades reais, a escola contribui para perpetuar as desigualdades, ao mesmo tempo em que as legitima.
E, ao transformar as desigualdades de fato em desigualdades de direito, as diferenças econômicas e sociais em “distinção de qualidade”, leva os alunos a incorporarem como inaptidões naturais o que não é senão efeito de uma condição inferior, persuadindo-os de que eles devem o seu destino social à sua natureza individual e à sua falta de dons (BOURDIEU, 1998).
Toda essa situação faz com que o curso médio noturno se caracterize por um ensino de pouca exigência, com rebaixamento do conteúdo a ser desenvolvido, com grande número de ausências dos alunos e que redunda, exatamente, na reiteração da “incapacidade de aprendizagem” e que reforça a manutenção de um destino social muito próximo de suas origens sociais.
Para finalizar, vale a pena reiterar que o objetivo deste trabalho não foi o de meramente denunciar uma situação que já é bastante conhecida pelo campo (o da fragilidade do ensino noturno e da produção do fracasso pela escola), mas o de se incorporar a outros trabalhos que, com base nas teorias sociológicas críticas (aqui representada pelo pensamento de Pierre Bourdieu), possa oferecer alguma contribuição (com plena consciência de que ela deve ser muito pequena, fruto de uma pesquisadora iniciante) para o desvelamento de mecanismos inconscientes e sub-reptícios que a escola põe em ação e que redundam, exatamente, na tendência de reiteração de destinos sociais muito próximos das origens sociais do alunado, ou seja, de favorecimento da reprodução social.