Concluindo esta abordagem, é possível afirmar que O Escravo não é, apenas, um romance elaborado nos cânones românticos, mas retrata, tam- bém, um momento histórico de transição, fundamental para as transforma- ções que vão se desencadear nos séculos seguintes, a partir das relações de trabalho. A saber, a abolição da escravatura e a revisão das idéias.
Inserido, com tranqüilidade, no contexto histórico-literário do século XIX, o texto apresenta elementos característicos do Romantismo. O amor frustrado, platônico, o desnível social entre os amantes, renúncia através da morte, ao mesmo tempo em que se mescla, em seu conteúdo, uma gama considerável de elementos realistas. Um tanto híbrida no sentido de desen- volver a ficção dentro de uma ambiência histórica e política real, palpável até, quase uma reprodução fotográfica dos fatos, calcados em pano de fun- do fiel à época em que o romance foi escrito.
A questão social e moral, na obra, é discutida de modo consistente, como retrato crítico da realidade social, com fins didáticos para as mazelas do cotidiano.
Apesar de O escravo ter surgido em ambiente europeu, reforça as marcas de um discurso africano, centrado na vivência caboverdiana, onde o europeu colonizador é visto como elemento negativo, desagregador da or- dem das colônias.
O tempo do romance é delimitado com clareza cronológica através de datas, embora o autor utilize, às vezes, digressões e interrupções da tem- poralidade, para expor fatos de importância vital, ocorridos anteriormente à ação do romance.
No tempo deste, que é considerado o primeiro de expressão portu- guesa nas colônias africanas, há clara intenção, embora um tanto manique- ísta, de proteger a cultura caboverdiana. Para tanto, apresenta como bons, quase sempre vitimizados, negros e mestiços; como maus, os portugueses colonialistas.
O tempo histórico é o que se segue a 1820, quando a metrópole, ar- rasada pelos percalços do Bloqueio Continental, fica nas mãos dos ingleses, oportunistas, que ali se instalam em virtude da vacância do trono portu- guês, decorrente da fuga da Família Real para o Brasil.
O conflito entre liberais e absolutistas vai desviar, mais adiante, a a- tenção da Metrópole em relação às colônias africanas, de forma que Cabo Verde, já marcada pelas dificuldades de costume, climáticas e geográficas, tem sua economia depauperada também pela ação dos ingleses contra o tráfico negreiro, principal atividade do arquipélago.
A seca, a fome, a pobreza, o abandono, vão desencadear as rebeliões descritas no romance. A narrativa ficcional, no contexto da realidade, vai conferir, ao leitor, uma atração especial. É o reinventar da história de uma colônia, onde o negro e o mulato têm sua imagem resgatada, sob ótica po- sitiva, ainda que desprovida de imparcialidade.
O espaço do romance é Cabo Verde, África ocidental. Mais precisa- mente, o sítio onde Maria mora com sua família, a pouco mais de meia lé- gua da Vila da Praia. Na descrição deste espaço, o autor trabalha, com ma- estria, ora a idealização típica do romantismo, ora as asperezas realistas do clima. Ao mesmo tempo, declina as dificuldades e perigos decorrentes da atmosfera insalubre que permeia as ilhas, tais como doenças e febres fa- tais, potencializadas pela aridez do clima, que provoca secas intermináveis, destruidoras da agricultura, geradoras da fome e da pobreza crônicas.
Entretanto, o jardim de Maria, ainda que no mesmo ambiente insular, é uma nesga de paraíso. É semelhante a uma quinta européia, no dizer do autor, reforçando a idéia de exceção (idealizada) em relação às dificuldades climáticas na Ilha de Santiago.
Mas, ao descrever a morada de Júlia no Monte Vermelho, certamente o autor o faz de maneira bem próxima à realidade inóspita da ilha. É neste espaço que o autor mostra as mazelas da sociedade, diferenças e desigual- dades, ao mesmo tempo em que reconstrói a narrativa, abordando elemen- tos da história e da cultura locais. Para tanto mescla, com certa facilidade, o idealismo e o realismo que marcam o primeiro romance da literatura cabo- verdiana.
O narrador é onisciente, traçando com precisão o perfil e a índole de cada personagem. Assim a nobreza de João, a bondade de Maria, ambos mestiços que valorizam a população caboverdiana. A tudo isto se contrapõe as figuras negativas e malévolas dos brancos Lopes e Pimentel.
Ao contrário do ambiente da Metrópole, onde a figura do negro é dis- criminada e depreciada como elemento maléfico por índole, desprovido de atributos morais, negros e mestiços são mostrados, em Cabo Verde e pelo autor, como bondosos e incapazes de nutrir, por muito tempo, sentimentos cruéis ou de vingança, dissipados que são na dança do batuque.
Recorde-se que o autor radicou-se em Cabo Verde e, embora deten- tor de formação metropolitana, observou e reproduziu esta nova realidade. Com seu olhar crítico e ousado, antagonizando abertamente com os valores transplantados da metrópole para o mundo colonial, pode, assim, denunciar os males da colonização portuguesa sobre a população insular, desprovida de recursos e de investimentos por parte da metrópole, falida pela opressão britânica e pela independência do Brasil.
Valorizando os mestiços, autóctones do arquipélago, e os negros para ali transladados, esquece a imparcialidade, à medida que toma partido des- ta população insular carente de tudo, explorada e imersa em pobreza pro- funda, lutando com a fome, as doenças, o clima áspero e o desinteresse da Metrópole. Aqui, ele expõe claramente seu olhar implacável sobre o coloni- zador português, oportunista que em nada contribui a favor dos caboverdi- anos.
O autor insere-se no tempo e no espaço do romance, como observa- dor perspicaz. Penetra no espírito do narrador e dos personagens, fundindo- se a eles, experimentando suas emoções, participando de sua história de vida, de suas manifestações culturais, vivenciando-lhes as mazelas da raça, oprimida pelo branco, que chega de além mar com o fito de espoliar a terra e acumular riquezas. É sempre o mesmo espírito que move a colonização: exploração, rapina e opressão.
Denunciando e discutindo criticamente esta postura de rapinagem e extrema ganância, inerente à colonização, José Evaristo, mergulhado nas
preocupações com a realidade caboverdiana, confirma, além de qualquer dúvida, sua postura abolicionista.